4 de mai de 2010

Sociedade rachada nos EUA

Protestos contra lei do Arizona revelam sociedade rachada nos EUA

A ideia era fazer uma nova "Marcha sobre Washington", protesto que marcou a luta pelos direito dos negros nos Estados Unidos dos anos 1960. A recente lei de imigração do Arizona, que incita o racismo, e a apatia do governo Barack Obama em relação à reforma das leis de imigração mobilizaram dezenas de milhares de imigrantes hispânicos em diversas cidades norte-americanas no último sábado. Mas os protestos estão longe de fazer História. Em ano de eleições de deputados e senadores, parece que só mesmo um novo Martin Luther King poderia mudar a sorte dos imigrantes nos EUA.

"Será que é preciso lembrar aos republicanos e democratas mais uma vez que os hispânicos são a maior minoria nos EUA? Nem todos somos ilegais. Nós temos poder de voto", alerta o ativista Juan Ruiz, da Federação Latina da Grande Washington. 
 
Manifestantes contra a nova lei de imigração do Arizona em protesto no último sábado, em Phoenix

Durante os protestos, os imigrantes compararam a perseguição que vêm sofrendo com o nazismo alemão. Em Dallas, onde cerca de 10 mil pessoas participaram de uma passeata, as câmeras de TV flagraram cartazes em que a governadora do Arizona, Jan Brewer, era mostrada vestindo uniforme nazista e o Z do nome do estado aparecia em forma de suástica.

"Nós, latinos, somos os judeus do século XXI", comparou um imigrante.


De acordo com a lei SB-1070, qualquer pessoa suspeita de ser ilegal pode ser parada pela polícia do Arizona com uma pergunta que lembra a perseguição aos judeus na Alemanha dos anos 1930: "Cadê seus papéis?". Sancionada por Brewer no dia 23 do mês passado, a lei considera um crime estar ilegal dentro do estado do Arizona e promete punição também para quem der trabalho ou transporte para ilegais. Se nada for feito, a lei entrará em vigor no fim de julho.


No domingo, um dia depois dos protestos, peças-chave do governo Obama se manifestaram contra a lei, mas apenas quando provocadas pela imprensa. A Secretária de Estado, Hillary Clinton, comentou num programa de TV que a SB-1070 pode incitar o racismo e que o Arizona não tem o direito de passar por cima da legislação federal. Já a ex-governadora do Arizona e atual secretária de Segurança Nacional, Janet Napolitano, disse que já vetou esse tipo de lei e que a considera desnecessária, "porque a imigração ilegal está diminuindo no estado".


Obama, que criticou a lei no fim do mês passado, recebeu hoje uma carta do Senado Mexicano pedindo ação. "Esta lei vai contra os Direitos Humanos", escreveram os senadores mexicanos. Segundo o procurador-geral, Eric Holder, o Departamento de Justiça dos EUA pode recorrer à Justiça para impugná-la. Mas faltou dizer quando. Os imigrantes têm a esperança de que a visita do presidente mexicano, Felipe Calderon, a Washington nos dias 18 e 19 deste mês, traga resultados mais efetivos.


Enquanto isso, grupos ativistas tentam provocar uma onda de boicotes ao Arizona. Eles conseguiram que a companhia aérea Aeroméxico suspendesse seus voos para as cidades de Tucson e Phoenix. Agora aguardam uma resposta positiva para o pedido de suspensão no Arizona de jogos da Major League Baseball, cujos melhores jogadores são latinos.


Outros pedidos de boicotes estão sendo avaliados em inúmeras cidades norte-americanas. E, claro, mexicanas também. No site Facebook, uma comunidade chamada "Boicote comercial de sonorenses contra o Arizona por causa da SB-1070" reúne mais de 10 mil membros, a maioria formada por moradores do estado mexicano de Sonora que costumam fazer turismo e compras no Arizona.


Conservadores

No Partido Republicano, há defensores e críticos da nova lei do Arizona. O ex-candidato a presidente John McCain é um dos defensores. Já o ex-governador da Flórida Jeb Bush, irmão de George W. Bush, é do time do contra. Com uma eleição em jogo, em novembro, muita gente evita se posicionar. A pressão dos imigrantes para colocar as leis de imigração em evidência nas eleições ainda não teve o efeito esperado. "Hoje nós protestamos, amanhã votamos", lembrava em vão um cartaz em frente à Casa Branca, sábado à tarde em Washington.

No movimento Tea Party, a posição é mais clara. Uma pesquisa mostrou que apenas 41% dos membros do movimento acreditam que Obama tenha nascido nos Estados Unidos. Ou seja, eles acham que o próprio presidente americano é um imigrante, o "Alien Number 1", e que por isso mesmo não defende a lei do Arizona.


"Eu fico aliviada de morar em Washington e não no Arizona. Mas isso não significa que não sinta medo. Até mesmo dentro do Banco Mundial já fizeram pixações contra imigrantes", conta a babá boliviana Jovita Díaz, que tem visto de trabalho e mora com a família de um diretor latino do Banco Mundial.


Justiça

A embaixada do México é a mais ativa nos protestos. Além de apoiar as ações judiciais contra a nova lei que organizações dos direitos dos imigrantes decidirem abrir, ela alertou a população mexicana que este não é um bom momento para visitar aquele estado: “Todo cidadão mexicano pode ser intimidado e questinado sem qualquer motivo a qualquer hora". Ontem, em visita à Alemanha, foi a vez de Calderón chamar a nova lei de racista e de "uma ameaça aos imigrantes e a toda comunidade hispânica".

Os protestos e vigílias que, segundo os organizadores, se repetiram em 70 cidades norte-americanas surpreenderam em alguns lugares - como em Los Angeles, onde 50 mil pessoas compareceram sob a liderança de autoridades religiosas. Do outro lado da briga, o presidente da organização United For Sovereign America, que fica no Arizona, Rusty Childress, acredita que quem não apoia a nova lei é ignorante - ou imigrante ilegal: "Os cidadãos do Arizona precisam do apoio de outros norte-americanos nesta batalha. Ilegais são foras-da-lei e devem ser tratados como tal"
 

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