22 de mai de 2010

Grécia: um presságio de grandes catástrofes

Com o bom senso de que disponho, não consigo explicar e menos ainda justificar a rapidez com que o nosso país, a Grécia, caiu em relação ao nível de 2009, ao ponto de perdermos uma parte da nossa soberania nacional para o FMI e nos encontrarmos sob sua tutela.

É pelo menos estranho que ninguém, até agora, se tenha dado o trabalho tão simples que consiste em analisar o curso da nossa economia até hoje, com fatos e números, para que nós, os não-iniciados, possamos compreender as verdadeiras razões desta queda vertiginosa e sem precedentes e dos acontecimentos que ocasionaram a perda da nossa independência nacional acompanhada de uma humilhação internacional.


Ouvi falar de uma dívida de 360 bilhões, mas constato ao mesmo tempo que muitos outros países têm a mesma ou até maiores. Não poderá ser então esta a principal razão da nossa desgraça. O que me desagrada também é a dimensão do exagero nos golpes desferidos ao nosso país em nível internacional: uma ação manifestamente altamente concertada contra um país financeiramente insignificante torna-se suspeita. Cheguei então à conclusão de que algumas pessoas nos querem encher de vergonha e medo para nos submeter ao FMI, que é um fator fundamental da política expansionista dos EUA.


Todo esse discurso sobre a solidariedade europeia não passa de poeira nos olhos para nos esconder o fato de se tratar claramente de uma iniciativa norte-americana que tem por objetivo nos mergulhar numa crise financeira largamente artificial, para que o nosso povo viva no medo, se torne ainda mais pobre, perca realizações e conquistas preciosas acabando finalmente de joelhos e aceite ser dominado por estrangeiros.


Mas para que serve isto tudo? Quais serão os projetos ainda a realizar, quais podem ser os objetivos a alcançar?


Embora eu sempre tenha sido (e ainda sou) um fervoroso adepto da amizade greco-turca, devo confessar que fico assustado com o súbito estreitamento das relações entre os nosso dois governos, as reuniões dos ministros e outros funcionários, os deslocamentos ao Chipre e a visita do Recep Tayyip Erdoğan. Suspeito que a política norte-americana esteja por trás disso tudo, com os seus planos encobertos relativos à nossa posição geográfica, à existência de jazidas submarinas, ao regime do Chipre e ao mar Egeu, aos nossos vizinhos do norte e à atitude arrogante da Turquia. Tais planos até agora só foram postos em xeque unicamente pela desconfiança e oposição do povo grego.


Conspiração


Todos à nossa volta acabaram mais ou menos por tomar lugar no trem dos EUA. Nós que continuamos a ser a única nota dissonante, apesar da instauração da junta militar e da perda de 40% do Chipre, os nossos abraços com Skoplje (capital da república ex-iugoslava da Macedônia) e os ultranacionalistas albaneses, nós que, apesar de todos esses golpes sucessivos, ainda não nos tornamos suficientemente "ajuizados".


Consequentemente, somos um povo que deve ser suprimido e é justamente isso que está acontecendo hoje. Convido os economistas, os políticos e os analistas a provar-me o contrário. Não vislumbro outra explicação plausível que não a de uma conspiração internacional de bastidores, contando com a participação de Europeus pró-americanos, como Merkel, com o Banco Central Europeu e a midia reacionária internacional que urdiram esta "armadilha", para fazer de uma nação livre um povo reduzido à escravidão. Pessoalmente, não consigo encontrar outra explicação. Reconheço, no entanto, não dispor de conhecimentos específicos e que o meu raciocínio só se assenta no bom senso. Mas talvez existam muitas outras pessoas a chegarem à mesma conclusão – assim veremos nos próximos dias.


De qualquer maneira, quero preparar a opinião pública e ressaltar que, se a minha análise está certa, então esta crise financeira (a qual, repito, nos foi imposta) não é mais que a primeira bebida amarga a tragar na deslumbrante festa que se vai seguir e que levará desta vez a pôr em causa questões nacionais tão vitais que nem quero imaginar aonde isto nos pode levar.


Só espero estar enganado.



*Mikis Theodorakis é músico e compositor, reconhecido por seu trabalho com a trilha sonora do filme Zorba, o Grego. Artigo originalmente publicado em Tlaxcala. Tradução: Pedro da Nóbrega. 


FONTE  AQUI 


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