24 de fev de 2014

Os desafios da esquerda na Copa da Corrupção

Blog de Rafael Ayan - [Rafael Ayan Ferreira] O que acho mais curioso são os capitalistas que sempre reclamaram das greves dos professores, argumentando que atrapalha a aprendizagem dos alunos. Pois bem: temos um mês de calendário escolar interrompido por um saque aos cofres públicos travestido de Copa do Mundo e não estou vendo ninguém reclamar disso!


Em junho haverá paralisação institucional de vários setores, inclusive da educação, por conta da Copa do Mundo. Até mesmo em cidades que não serão sede de jogos as escolas vão parar por semanas e não somente nos dias das partidas. Das 27 unidades da federação, somente 12 terão jogos, nas capitais. Ainda, é no mínimo curioso que nessas cidades sede se proíba a circulação de ambulantes, algo saudável e que enriquece o ambiente dos jogos de futebol, fazendo parte da cultura do povo brasileiro e movimentando a economia informal. Ao invés disso, a afronta as leis do país, com áreas delimitadas pela FIFA em que só se pode comercializar os produtos superfaturados e sem graça de seus patrocinadores, uma verdadeira zona de exclusão criada pelo capitalismo e que elitiza a nossa paixão pelo futebol, fazendo do consumismo um esporte.

A Copa no Brasil só não é mais longe do que as que ocorrem em outros países porque sentimos o gás lacrimogêneo da polícia dentro de nossas casas, reprimindo quem protesta – pacificamente ou não – contra a corrupção e por uma gestão mais eficientes de nossos recursos. Qual a diferença entre o Brasil jogar no Maracanã ou em Tóquio, se os valores cobrados pelos ingressos são abusivos? O jogo continuará sendo assistido pela televisão. O quê muda na vida das 15 unidades federativas que não terão jogos, ou mesmo nas cidades sedes, se a população mais pobre não terá dinheiro para ir ao estádio? Parte disso já começou a ocorrer em jogos do Campeonato Brasileiro 2013 e nos campeonatos estaduais de 2014, com baixíssima média de público nos estádios.

A FIFA, juntamente com o governo brasileiro e a mídia (sobretudo a Globo) querem enganar que haverá um espírito de Copa no Brasil, pois ganharão muito dinheiro com direitos de imagem ou capital político com a exposição de políticos "amigos da seleção". Porém, o espírito que de fato tomou conta de nosso povo foi o de indignação contra a transformação do dinheiro público em um circo eleitoreiro e a maior oportunidade que a FIFA já teve de lucrar em um mundial.

O que acho mais curioso são os capitalistas que sempre reclamaram das greves dos professores, argumentando que atrapalha a aprendizagem dos alunos. Pois bem: temos um mês de calendário escolar interrompido por um saque aos cofres públicos travestido de Copa do Mundo e não estou vendo ninguém reclamar disso! Parar aula para melhoria salarial dos professores não pode, mas para bater palma para a corrupção, aí tá permitido? Parar uma escola por motivo de obras que comprometem a segurança dos alunos não é permitido porque isso significa criança em casa e menos votos, mas parar o país porque duas seleções estrangeiras vão jogar a mais de 1.000 quilômetros de sua casa, sendo que você não tem dinheiro sequer para assistir aos jogos na sua cidade, é encarado como algo positivo. Parar o trânsito por algumas horas para fazer um protesto exigindo concurso para profissionais da saúde não pode, mas causar engarrafamentos a perder de vista para fazer transportes futuristas que ligam aeroportos a hotéis, como se essa fosse a demanda de fluxo dos trabalhadores brasileiros, aí tudo bem.

No DF, por exemplo, temos o estádio mais caro do mundo na mesma região de escolas com falta de livro didático, sem contar o calote que o próprio governador deu em verba específica (PDAF) para direções de escolas pagarem pequenas reformas e comprarem material de ensino. Por parte do Governo do Distrito Federal, do partido da Presidenta da República, não há nenhum plano de enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes, concentrada na Rodoviária do Plano Piloto e Setor Comercial Sul. Essa exploração ocorre ao lado dos setores hoteleiros sul e norte, onde se concentrarão a maior parte dos turistas que virão aos jogos, dentre eles os pedófilos e traficantes internacionais de pessoas e órgãos. Outro dado importante: a exploração ocorre a 2 km de distância do Congresso Nacional e outros 2 km do Estádio Mané Garrincha, um fator que potencializa a atuação de criminosos com a ausência de políticas sociais. Talvez seja o DF a maior representação de que espírito da Copa não passa de um eufemismo para camuflar o jogo de poder entre empreiteiras, patrocinadores, governo e FIFA.

Entretanto, a Copa do Mundo mais cara já realizada também deixou algo bom, por mais que tenha cobrado o preço injusto do superfaturamento: a indignação do povo brasileiro manifestada não somente nas redes sociais, mas tomando o espaço público das ruas em todo país! O que era para ser uma vitrine para os investidores internacionais, afirmando que os trabalhadores brasileiros são dóceis e aceitam a flexibilização de direitos trabalhistas, transformou-se na dor de cabeça dos governistas e da oposição de direita. Compactuo com a avaliação do camarada Renato Roseno, do PSOL, que disse que nos cenários de revolta popular todo mundo apanha mas no final a direita cresce, com pautas como a redução da maioridade penal, e a esquerda cresce mais ainda, com a cobrança por direitos fundamentais.

Diante disso, a Frente de Esquerda (PCB, PSOL e PSTU) deve ser a alternativa não apenas nas urnas mas principalmente nas lutas, nas ruas, que é o espaço democrático de transformação da sociedade. Nosso programa político deve ser o programa de junho de 2013, ressalvadas as reivindicações da burguesia infiltrada que nunca saiu de casa e aproveitou da reivindicação dos trabalhadores para dar visibilidade ao seu egoísmo de sempre. Que a esquerda não jogue fora essa chance, sejam os inconsequentes que querem fazer chapa pura para rachar partidos e se projetar em seus domínios eleitorais, sejam os próprios militantes que devem se preparar para uma estrutura de guerra armada pelo PT para frear as lutas populares, como o empenho para a aprovação da lei contra o terrorismo que tem como pano de fundo o cerceamento a liberdade de expressão. A Frente de Esquerda juntamente com movimentos sociais como o MST, MTST, autonomistas e outros coletivos devem se unir taticamente para causar derrotas ainda maiores no flanco aberto pelos abusos da Copa da Corrupção e não deixar que esse evento se transforme no pão e circo que o PT quer.

Pelo nosso amor ao futebol, mas sobretudo por nosso amor ao povo brasileiro, das crianças que não tem o que comer aos idosos que morrem por falta de medicamentos na fila do SUS, que nos preparemos para a guerra de junho que se aproxima.

Rafael Ayan Ferreira é Pedagogo, Mestre em Educação pela Universidade de Brasília e graduando em Serviço Social pela mesma universidade. Professor da SEDF (Secretaria de Educação do Distrito Federal) e do IESB (Instituto de Educação Superior de Brasília).


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7 de jan de 2014

István Mészáros: "O capitalismo hoje promove uma produção destrutiva"

Resistir - [Eleonora de Lucena] A atual crise do capitalismo, que faz eclodir protestos por toda a parte, é estrutural e exige uma mudança radical. Essa é a visão do filósofo István Mészáros, 82. Professor emérito da Universidade de Sussex (Reino Unido), o marxista Mészáros defende que as ideias socialistas são hoje mais relevantes do que jamais foram.


Nesta entrevista, feita por e-mail, ele afirma que o avanço da pobreza em países ricos demonstra que "há algo de profundamente errado no capitalismo", que hoje promove uma "produção destrutiva".

Maior discípulo e conhecedor da obra do também filósofo húngaro marxista György Lukács (1885-1971), Mészáros lançará aqui o seu livro O Conceito de Dialética em Lukács [trad. Rogério Bettoni, Boitempo, R$ 39, 176 págs.], dos anos 60.

A mesma editora lança, de Lukács, Para uma Ontologia do Ser Social 2 [trad. Ivo Tonet, Nélio Schneider e Ronaldo Vielmi Fortes, R$ 98, 856 págs.] e o volume György Lukács e a Emancipação Humana [org. Marcos Del Roio, R$ 39, 272 págs.].

Folha - O sr. vem ao Brasil para falar sobre György Lukács. Como profundo conhecedor do legado do filósofo, como avalia a importância das suas ideias hoje?

István Mészáros - Lukács foi meu grande professor e amigo por 22 anos, até sua morte, em 1971. Ele começou como crítico literário politicamente consciente quase 70 anos antes. Com o passar do tempo, foi se movendo na direção dos temas filosóficos fundamentais. Seus três trabalhos principais nesse campo – "História e Consciência de Classe (1923), "O Jovem Hegel" (1948) e "A Destruição da Razão (1954) – sempre resistirão ao teste do tempo.

Seus estudos históricos e estéticos sobre granes figuras da literatura alemã, russa e húngara seguem sendo as mais influentes em muitas universidades. Além disso, ele é autor de uma monumental síntese estética, que, tenho certeza, virá à luz um dia também no Brasil. Felizmente, seus também monumentais volumes sobre problemas da ontologia do ser social estão sendo publicados agora no Brasil pela Boitempo. Eles tratam de algumas questões vitais da filosofia, que têm implicações de longo alcance também para a nossa vida cotidiana e para as lutas em curso.

O que é menos conhecido sobre a vida de Lukács é que ele esteve diretamente envolvido em altos níveis de organização política entre 1919 e 1929. Ele foi ministro de Educação e Cultura no breve governo revolucionário da Hungria em 1919, que surgiu a partir da grande crise da Primeira Guerra Mundial. No Partido ele pertencia ao "grupo Landler"; era o segundo no comando. Esse grupo recebeu o nome em homenagem a Jenö Landler (1875-1928), que foi um líder sindical antes de se tornar uma figura do alto escalão partidário. Ela buscava seguir uma linha estratégica mais ampla, com maior envolvimento das massas populares.

Lukács foi derrotado politicamente em 1929. No entanto, voltando a 1919, em um dos seus artigos (está no meu livro editado agora pela Boitempo), ele alertava que o movimento comunista poderia enfrentar um grande perigo quando "o proletariado transforma sua ditadura contra ele mesmo". Ele provou ser tragicamente profético nesse alerta.

De qualquer forma, em todos os seus desempenhos públicos, políticos e teóricos, se pode encontrar sempre evidências de sua grande estatura moral. Hoje em dia lemos muito sobre corrupção em política. Podemos ver a importância de Lukács também como um exemplo positivo, mostrando que moralidade e política não só devem (como advogava Kant) como podem andar juntas.

O sr. e Lukács têm vidas que unem teoria e prática. Qual é a diferença entre ser um militante marxista no século 20 e hoje?

A dolorosa e óbvia grande diferença é que os principais partidos da Terceira Internacional, que tiveram uma força organizacional significativa e até influência eleitoral durante algum tempo (como no caso dos partidos comunistas da França e da Itália), implodiu não só no Leste, mas também no Ocidente. Apenas alguns partidos comunistas bem pequenos permanecem fiéis aos princípios de outrora. Essa implosão ocorreu muito tempo após a morte de Lukács.

Naturalmente, como um militante intelectual por mais de 50 anos ele estaria hoje desolado com esses desdobramentos. Mas partidos são criações históricas que respondem, de maneira boa ou ruim, a necessidades de mudança. Marx foi bem ativo antes da constituição de um partido importante que pudesse, depois, se juntar à Terceira Internacional. Quanto ao futuro, alguns partidos radicalmente eficazes podem ser reconstituídos se as condições mudarem significativamente.

Mas o tema em si é muito mais amplo. A necessidade de combinar teoria e prática não está ligada a uma forma específica de organização. De fato, uma das tarefas mais cruciais para a combinação de teoria e prática é o exame da difícil questão sobre porque houve a implosão desses partidos, tanto no Ocidente quanto no Leste, e como seria possível remediar esse fracasso histórico no atual desenvolvimento da história.

O que significa ser um marxista hoje?

Praticamente o mesmo que Marx enxergou nos seus dias. Mas, é claro, é preciso ter em mente as mudanças históricas e as novas circunstâncias. Marx enfatizou corretamente desde o princípio que, ao contrário do passado, uma característica crucial da análise socialista dos problemas é a confrontação com a autocrítica. Ser crítico ao que nos opomos é relativamente fácil. Isso porque é sempre mais fácil dizer "não" do que encontrar uma forma positiva que possa ser utilizada para que as mudanças necessárias possam ser realizadas.

É preciso um verdadeiro senso de proporção: compreender tanto fatores negativos – incluindo a sua parte mais difícil da autocrítica –, como as potencialidades positivas sobre as quais o progresso pode ser feito. Ambos aspectos são relevantes. É essencial reexaminar com uma intransigente autocrítica até os acontecimentos históricos mais problemáticos do século passado, em conjunto com suas então expectativas. Isso se quisermos superar as contradições do nosso lado no futuro.

A pressão do tempo e os atuais conflitos das situações históricas de hoje tendem a nos desviar desse caminho de ação. Mas o princípio orientador de combinar crítica com genuína autocrítica será sempre um requisito essencial.

Quando a União Soviética acabou, muitos previram o fracasso do marxismo. Depois, com a crise de 2008, muitos previram o fim do neoliberalismo e a volta das ideias de Marx. Do seu ponto de vista, o marxismo está em expansão ou não?

Você está certa. É preciso ser cuidadoso sobre conclusões apressadas e definitivas em qualquer direção. Geralmente elas são geradas mais por desejos do que por evidências históricas. O colapso do governo Gorbachev não resolveu nenhum dos problemas em questão na URSS. A fantasiosa tese sem sentido do "fim da história" de Fukuyama não faz a menor diferença.

Também não é possível descartar o neoliberalismo simplesmente pelo fato de que suas ideias e políticas, promovidas com agressivo triunfalismo, não são apenas perigosamente irracionais (haja visto sua atitude sobre a guerra), mas são absurdas as suas defesas do devaneio do imperialismo liberal. Sob certas condições, mesmo absurdos perigosos podem obter apoio massivo, como sabemos pela história.

A verdadeira questão principal é quais são as forças subjacentes e determinações que conduzem o povo a becos sem saída em diferentes direções. A mudança de humor que colocou "O Capital", de Marx, nas mesas de café da moda (não para estudo, mas para mostrar tema de conversa) não significa que as ideias marxistas estão agora avançando por todo o mundo. É inegável que o aprofundamento da crise que vivenciamos hoje está gerando protestos por todo o mundo.

Mas encontrar soluções sustentáveis para as causas que tendem a surgir em todos os lugares requer a elaboração de estratégias apropriadas e também correspondentes formas de organização que possam coincidir com a magnitude dos problemas em jogo.

E o que dizer sobre as ideias conservadoras? Elas estão ganhando mais adeptos?

Em certo sentido, elas estão inegavelmente ganhando mais adeptos, mesmo que não seja no terreno das ideias conservadoras sustentáveis. "Não mudar" é quase sempre muito mais fácil do que "mudar" uma forma estabelecida de comportamento. É a situação histórica real que induz as pessoas a irem numa direção em vez de outra. Mas a questão permanece: o curso adotado é sustentável? Há uma conhecida lei da física, no terreno da eletricidade, que diz que a corrente elétrica segue a linha da menor resistência.

Isso é verdadeiro também sobre a situação de muitos conflitos sociais que decidem, mesmo que temporariamente, em que direção um problema deve ser equacionado naquele momento dependendo da relação de forças (ou seja: a força de resistência à situação atual) e da capacidade de realização de alternativas adequadas. A viabilidade de longo prazo de um curso adotado em relação a outro não é de forma alguma garantia de melhor sucesso. Muitas vezes o oposto é o caso.

Na nossa situação histórica, as respostas viáveis de longo prazo podem requerer incomparáveis maiores esforços do que tentar seguir o "curso que deu certo no passado", em vez de encarar o desafio e o fardo de uma mudança estrutural radical. Mas os problemas são enormes, e a interação de forças na sociedade é sempre incomparavelmente mais complexa do que a direção da corrente elétrica. Por isso, é muito duvidoso que o que "deu certo" na linha conservadora da menor resistência possa funcionar no médio prazo, muito menos no longo prazo.

Qual seria uma boa definição para o período histórico atual?


Essa é a questão mais importante em nosso período histórico em que crises se manifestam em diferentes planos da nossa vida social. Se estamos preocupados em enfrentar uma solução historicamente sustentável para nossos graves problemas, entender a verdadeira natureza do debate das contradições é essencial. Conflitos e antagonismos históricos são passíveis somente a soluções do tempo histórico. É muito confuso falar de capitalismo como um sistema mundial.

O capitalismo abarca apenas um período do sistema do capital. Só ultimamente é que constitui um sistema mundial de fato, para além da sustentabilidade do próprio capitalismo. O capitalismo como um modo social de reprodução é caracterizado pela extração predominantemente econômica da mais valia do trabalho. Entretanto, há também outras formas de obter a acumulação do capital, como a já conhecida extração política do trabalho excedente, como foi feito na URSS e em outros lugares no passado.

Nesse sentido, é importante notar que a diferença fundamental entre as tradicionais crises cíclicas/conjunturais do passado, pertencendo à normalidade do capitalismo, e a crise estrutural do sistema do capital como um todo - que é o que define o atual período histórico. Por isso tento sempre enfatizar que nossa crise estrutural (que pode ser datada do final dos anos 1960 e se aprofundando desde então) necessita de mudanças estruturais para uma solução duradoura possível. E isso certamente não pode ser atingido com uma "linha de menor resistência".

Quais são as figuras mais importantes deste século 21 até agora?


Como sabemos, o século 21 é ainda muito jovem e muitas surpresas ainda estão por vir. Mas a figura política que teve o maior impacto na evolução histórica do século 21 – um impacto que deve perdurar e ser estendido – foi o presidente da Venezuela Hugo Chávez Frias, que morreu em março deste ano.

Claro, Fidel Castro também está muito ativo na primeira metade desta década, mas as raízes de seu grande impacto histórico estão nos anos 1950. Do lado conservador, se ainda estivesse vivo, eu não hesitaria em nomear o general De Gaulle. Ninguém se alinha à sua estatura histórica no lado conservador até agora neste século.

E qual o evento mais surpreendente do século 21?


É provavelmente a velocidade com que a China conseguiu se aproximar da economia norte-americana, alcançando agora o ponto em que ultrapassar os EUA como "motor do mundo" (como definem de forma complacente) é considerado factível em apenas alguns anos. Era previsível há muito tempo que isso iria acontecer tendo em vista o tamanho da população chinesa e a taxa de crescimento anual de sua economia. Mas muitos especialistas diziam que isso iria ocorrer daqui a muitas décadas no futuro.

No entanto, seria muito ingênuo imaginar que a China pode permanecer imune à crise estrutural do sistema do capital, simplesmente porque seu balanço financeiro é incomparavelmente mais saudável do que o norte-americano. Mesmo o superávit de milhões de milhões de dólares dos chineses pode evaporar-se de um dia para outro no meio de uma turbulência não muito distante no futuro. A crise estrutural, por sua própria natureza, obrigatoriamente afeta a humanidade como um todo. Nenhum país pode invocar imunidade a isso, nem mesmo a China.

As crises fazem parte do capitalismo. Qual sua avaliação sobre a que eclodiu há cinco anos. Quem ganhou e quem perdeu?

Parte do capitalismo? Sim e não! Sim, no sentido limitado de que a crise eclodiu com intensidade dramática nos países capitalistas mais poderosos do mundo, que se autodenominam "capitalistas avançados". Mas muito do seu "avanço" é construído não apenas sobre privilégios de exploração (no passado e no presente) das suas relações de poder (políticas e econômicas) em relação ao chamado "Terceiro Mundo", mas também sobre o catastrófico endividamento de sua realidade econômica.

Escrevi em 1987, num artigo publicado no Brasil em 1987, que o "verdadeiro problema da dívida" não era – como foi apontado na época – a dívida da América Latina, mas a dívida insolúvel dos EUA, que está fadada a acabar com uma colossal quebra, equivalente à magnitude de um terremoto econômico para o mundo todo. Há dois anos, quando dei minha última palestra no Brasil, apontei que a dívida dos EUA somava astronômicos 14,5 milhões de milhões de dólares, antecipando seu inexorável aumento. Hoje nos movemos para os 17 milhões de milhões de dólares, e mais e mais.

Qualquer um que imagine que isso é sustentável no futuro, ou que isso não vai afetar todo o mundo na Terra, quando o processo de crescimento inexorável do endividamento está fadado a levar a uma situação paralisante, deve viver num planeta diferente.

O capitalismo se fortaleceu ou se enfraqueceu com a crise?

As tradicionais crises cíclicas/conjunturais costumavam fortalecer o capitalismo no passado, já que eram eliminadas empresas capitalistas inviáveis. Assim, ocorria o que Schumpeter idealmente chamou de "destruição criativa". Os problemas são muito mais sérios hoje, porque a crise estrutural afeta até dimensão mais fundamental do controle social metabólico da humanidade, incluindo a natureza de forma perigosa. Assim, falar de "destruição criativa" nas condições atuais é totalmente autocomplacente. É muito mais apropriado descrever o que está acontecendo como uma "produção destrutiva".

A crise provocou mudanças políticas em muitos países. É possível discernir um movimento geral, mais para a esquerda, ou mais para a direita?

Até agora, mais para a direita do que para a esquerda. Todos os governos dos países capitalisticamente avançados – e não apenas eles – adotaram políticas que tentam resolver os problemas através da "austeridade", com cortes reais em salários, assim como nos padrões de vida já precários daqueles que são geralmente descritos como os "menos privilegiados".

E a linha de "menor resistência" ajuda na extensão, ou, ao menos, na tolerância das respostas institucionais conservadoras dominantes para a crise. Mas é muito duvidoso que essas políticas, que agora tendem a favorecer a direita, possam produzir soluções duradouras.

Como o sr. previu, a pobreza aumentou nos últimos anos, mesmo em países do coração do capitalismo. Nos EUA, a desigualdade aumentou. No Reino Unido, há um movimento para dar comida aos pobres, coisa que não ocorria desde a Segunda Guerra. O que está errado no capitalismo? É possível que o sistema não possa mais gerar crescimento suficiente para a humanidade?

Dar cesta básica para os muito pobres não é o único sinal visível desse aspecto da crise, nem essa situação está confinada os países capitalisticamente avançados, como o Reino Unido. Escrevi em "Para Além do Capital" (publicado em inglês em 1995) sobre a volta dos sopões. Nos últimos dois ou três anos podemos vê-los nas telas das TVs em escala maior no mais "avançado" (e privilegiado) país: os EUA. Certamente há algo de profundamente errado – e totalmente insustentável – na maneira pela qual o crescimento é perseguido sob o capitalismo.

Algumas formas, pela sua natureza cancerosa de crescimento, são proibitivas mesmo em termos de condições elementares de ecologia sustentável. Porque elas são manifestações flagrantes de "produção destrutiva". Ao mesmo tempo, tanta coisa é desperdiçada como "lixo rentável", enquanto incontáveis milhões, agora mesmo nos mais avançados países capitalisticamente, precisam suportar dificuldades extremas. Há alguns dias o ex-primeiro-ministro britânico John Major estava reclamando que neste Inverno muitas pessoas no Reino Unido terão que escolher entre comer e se aquecer. Em 1992, quando ainda era primeiro-ministro, ele disse com máxima autocomplacência: "O socialismo está morto; o capitalismo funciona". Eu disse, então: "Precisamos perguntar: o capitalismo funciona para quem e por quanto tempo?".

A escolha entre comer e se aquecer, que ele é agora forçado a reconhecer, não é exatamente a prova de quão bem o "capitalismo funciona". Na realidade, o único crescimento com significado é o que responde à necessidade humana. Crescimento destrutivo, incluindo o vasto complexo industrial militar – chame-o de "destruição criativa" – pode demonstrar apenas fracasso. O único crescimento historicamente sustentável para o futuro é aquele que fornece as mercadorias em resposta à necessidade humana e os recursos para aqueles que delas necessitam.

A crise ampliou o desemprego em muitas regiões e abalou o Estado de bem-estar social na Europa. Multidões foram às ruas protestar na Espanha, em Portugal, na França, na Inglaterra, na Grécia. Nos EUA, o Occupy Wall Street desapareceu. Qual deve ser o resultado desses movimentos? Há conexão entre eles? Os partidos de esquerda estão se beneficiando dessas ações ou não?

Em contraste com a idealização propagandística, o Estado do bem-estar social, na realidade, foi muito limitado a um punhado de países capitalistas. Mesmo lá foi construído sobre fundações frágeis. Não poderia ser nunca expandido ao restante do mundo, apesar da promoção acrítica das teorias do desenvolvimento da modernização, quase sempre estruturadas no quadro contraditório do sistema do capital. A verdadeira tendência de longo prazo apontava no sentido oposto ao do idealizado Estado do bem-estar.

A tendência objetivamente identificável foi caracterizada por mim já nos anos 1970 como a "equalização descendente da taxa de exploração diferencial". Isso inclui as diferenças marcantes nos níveis de ganhos por hora de trabalhadores para exatamente o mesmo trabalho na mesma corporação transnacional (por exemplo, nas linhas de montagem da Ford) na "metrópole" em relação aos países "periféricos".

Essa tendência continua a se aprofundar e ainda está longe da sua necessária amplitude. Os protestos em muitos países capitalistas são compreensíveis e devem se aprofundar no futuro. Eles surgem nesse arcabouço dessa tendência perversa de equalização de longo prazo. Compreensivelmente, os partidos que operam no enquadramento da política parlamentar não podem se beneficiar dos protestos. Isso porque eles tendem a acomodar seus objetivos a limites restritos das consequências negativas decorrentes do Estado do bem-estar.

Lukács dizia que os sindicatos eram a organização social civil mais importante. Isso continua valendo?

A visão de Lukács sobre esse ponto era muito influenciada pelo seu camarada e amigo Jenö Lander, que foi um líder sindical antes de se tornar liderança do mesmo grupo partidário no qual Lukács também desempenhou um papel de liderança.

Lukács está certo sobre a contínua importância dos sindicatos, com um acréscimo importante. Não foi ressaltado suficientemente que a potencialidade dos sindicatos foi – e continua sendo – afetada de forma muito ruim pela divisão do movimento da classe trabalhadora organizada entre o chamado "braço industrial" (sindicatos) e o "braço político" (partidos) do trabalho.

A potencialidade positiva dos sindicatos não acontecerá até que essa divisão prejudicial, que produz danos para ambos, seja corrigida significativamente.

Qual sua avaliação sobre a chamada Primavera Árabe? Ela acabou? Há ligação entre os movimentos no mundo árabe e os da Europa? Alguns enxergam uma nova disputa na região. Isso faz sentido?

O impacto da Primavera Árabe tendeu a ser muito exagerado na época em que testemunhamos os primeiros dramáticos acontecimentos. E, depois, sem razão, foram minimizados quando as manifestações de massa no Norte da África arrefeceram.

Até agora, nenhum dos problemas fundamentais foi resolvido em nenhum país em questão. Assim, os protestos vão continuar no futuro, focando também em algumas das graves contradições econômicas (que resultaram em protestos por comida no passado, relutantemente reconhecidos até por proeminentes publicações do "establishment," como a Economist, de Londres), e não apenas na sua dimensão militar e política.

Os levantes vão continuar, ganhando na mídia o nome da estação ligado a eles. Também não pode ser esquecido que alguns países europeus tiveram importantes interesses coloniais no Norte da África e no Oriente Médio. E há tentativas de reavivá-los, o que é bem visível hoje. Ninguém deve imaginar que o imperialismo está confinado no passado.

O Brasil também está passando por uma fase de muitos protestos. Como o sr. avalia esse processo? Há conexão com o que ocorre no mundo?

É impossível encontrar hoje um lugar no mundo onde não estejam ocorrendo sérios protestos sociais. Eles parecem estar focados em diferentes temas, criando a impressão superficial de não existe correlação entre eles. Mas isso é também um auto-engano. Muitas vezes, no passado, muitos desses protestos costumavam ser desconsiderados, tidos como movimentos de um tema específico, sem implicações na estabilidade geral da ordem social estabelecida. Nada pode ser mais distante da verdade.

É verdade que a grande variedade de protestos que testemunhamos hoje em diferentes partes do mundo não se enquadra nos canais e nos modos de ação da política tradicional. Mas seria tolice ter isso como prova de sua irrelevância. Ao contrário, eles apontam para razões muito mais profundas para os problemas e as contradições que se acumularam.

No momento, não é visível nenhuma estratégia de coalescência. Sua característica geral parece ser a de que estão testando os limites e procurando maneiras mais efetivas de articulação de suas preocupações. Estamos testemunhando um processo que ainda está em desdobramento e cujo significado deve ter grandes consequências no futuro.

Há quem enxergue a ação dos EUA nas manifestações pelo mundo, com o objetivo de desestabilizar governos. Isso faz algum sentido?

Isso é uma enorme e excessiva simplificação. Os EUA indubitavelmente estão na linha de frente de conflitos e conflagrações internacionais, por conta do seu impressionante poder dominante no hegemônico imperialismo global. Mas as causas são muito mais profundas do que o que possa ser resolvido por "desestabilização de governos".

Em alguns casos limitados isso pode acontecer, e, de fato, pode ser buscado com êxito pelas forças mais extremistas de organismos da administração norte-americana. Mas, há limite para tudo, até para o neoliberal mais radical e para o aventureirismo neoconservador.

Como a internet muda a luta política hoje?


Certamente a internet ajuda na comunicação e na coesão dos movimentos de protesto, como ficou evidenciado recentemente. Mas não deve ser esquecido que ela também dá os recursos para as forças do outro lado do confronto – dando assistência direta a vários Estados capitalistas.

De qualquer forma, para os dois lados a internet pode apenas fornecer ajuda subsidiária, não importando quão forte ela seja. Os problemas só podem ser resolvidos no próprio terreno em que surgiram. E isso diz respeito às determinações estruturais fundamentais de nossa ordem social.

Como o sr. analisa a relação entre capitalismo e democracia? São compatíveis?

Capitalismo e democracia não são incompatíveis, salvo em situações de crises extremas que trazem à tona os Hitlers e os Pinochets onde quer que tais crises eclodam – mesmo no Brasil no passado recente. A normalidade da produção capitalista é sustentada de forma melhor na ordem das regras formais democráticas de controle e regulação.

É por isso que regimes ditatoriais são insustentáveis no longo prazo e tendem a ser revertidos (mesmo a "miltonfreedmenização" do Chile de Pinochet) para modos políticos mais maleáveis de regulação formal democrática, dentro da moldura geral das trocas capitalistas.

Nos EUA, a direita radical colocou o país à beira do abismo por conta de uma tímida reforma no sistema de saúde. Isso trouxe riscos para os grandes negócios e as finanças. Como o sr. explica isso?

O sistema de saúde nos EUA é apenas uma parte da crise que testemunhamos. Fundamentalmente é inseparável da dívida astronômica de 17 milhões de milhões de dólares que já mencionei. Por enquanto, foi feita uma acomodação parcial entre democratas e republicanos, de forma que a nova data para o problema trilionário irresolvido ficou para o final de 2013, mas não deve trazer novamente um suspense internacional.

Mas podemos estar certos de que essa questão voltará com crescente severidade. 17 milhões de milhões de dólares significa tanto que não é possível encontrar um tapete de tamanho suficiente sob o qual se possa varrer e esconder essa quantia. Como costumeiramente é feito como forma de adiar a solução de problemas.

É possível dizer que o partido democrata foi mais para a direita e falhou em isolar a direita radical do partido republicano?

É difícil dizer qual dos dois partidos é mais à direita do que o outro. Mas ambos estão igualmente errados ao estarem tão à direita para serem capazes de enfrentar os graves problemas da sociedade norte-americana.

Como o sr. analisa a administração Obama e o estado da democracia nos EUA?


Obama prometeu muita coisa que nunca se materializou sob sua Presidência. Basta pensar em Guantánamo. Mas isso não é questão de um presidente em particular. Estruturas de poder não podem ser entendidas em termos personalizados.

Devemos lembrar a entrevista à televisão que o presidente democrata Jimmy Carter deu. Ele chorou, com lágrimas nos olhos, ao dizer que "o presidente não tem poder". De fato, ele conseguiu fazer mais desde que deixou a Presidência do que pode quando estava no comando. Até agora não vimos o presidente Obama chorar na televisão. Mas "há uma primeira vez para tudo", diz o ditado.

Os EUA espionam o mundo inteiro. Recentemente foi revelado um esquema de espionagem norte-americana no Brasil envolvendo interesses em petróleo e mineração. O que o Brasil deveria fazer para defender sua soberania?


Esse tema beira a insanidade. Espionam todos como potenciais inimigos, mesmo chefes de Estado de governos amigos. Há quem possa rir e achar que o problema não é tão sério. Mas precisamos lembrar que a defesa da soberania não pode estar confinada no domínio das leis e da política internacionais.

A legislação internacional é pateticamente fraca a esse respeito, sem mencionar as instituições que tratam globalmente disso. Vale lembrar o título de um livro de um proeminente advogado liberal, Philippe Sands. É "Lawless World: America and the Making and Breaking of Global Rules".

Essas questões são decididas pelas relações reais de poder. E, é claro, as forças preponderantes do capital global ficam com a parte do leão nesse processo de tomada de decisão. A soberania não pode ser protegida sem se atentar para esse lado crítico do problema, inseparável do poder preponderante das corporações gigantes do capital transnacional.

O poder dos EUA está em ascensão ou em queda?

Seria mais apropriado dizer que ele está estacionado, mas ainda é o mais dominante. As condições que explicam essa dominância estão presentes e são bem visíveis: vão do complexo industrial-militar, ao Banco Mundial, ao fato de o dólar ser a moeda de troca mundial. Nenhum outro país poderia sonhar em impor ao mundo uma dívida de 17 milhões de milhões de dólares. Mas uma dominância que repousa sobre esse tipo de fundações só pode ser instável.

Qual é a sua visão da China? Lá a pobreza diminuiu. Há socialismo?

As realizações da China no campo da produção incluindo o declínio da pobreza que você menciona têm sido monumentais. Mas há várias grandes perguntas para o futuro. Acima de tudo: por quanto tempo poderão ser mantidas as realizações na área produtiva sem que elas causem danos irreparáveis nos recursos gigantescos no domínio da ecologia?

Mais ainda: por quanto tempo poderão ser aceitas as impressionantes desigualdades entre os níveis mínimos de ganhos da população trabalhadora e a riqueza dos altamente privilegiados? O socialismo é inconcebível sem uma substantiva igualdade – também na China.

No passado, as disputas no interior do capitalismo provocaram guerras mundiais. Essa hipótese está no horizonte?

A opção pela Guerra foi usada no passado como parte da tentativa de resolver problemas entre partes em conflito sob as regras do capital. Foram duas guerras mundiais no século 20. Com as armas de destruição em massa, ficou impossível prever a compatibilidade dessa solução com as condições elementares da racionalidade. Mas há representantes da direita radical que não hesitariam em jogar com fogo e até abertamente advogam a plena legitimidade de jogar com fogo.

Muitos deles estão presentes em elevados postos da hierarquia política. Assim, o presidente [Bill] Clinton, por exemplo, declarou que "há apenas uma nação necessária, os EUA". Na mesma época, Robert Cooper (guru do primeiro-ministro britânico Tony Blair e conselheiro internacional de Xavier Solana) cantava louvores para o agressivo imperialismo liberal em seus escritos.

Da mesma forma, Richard Haass, diretor de planejamento político no departamento de Estado na gestão George W.Bush, insiste na necessidade de uma estratégia imperialista mais agressiva, escrevendo que a defensiva, não o imperialismo agressivo, é o maior perigo do interesse em reafirmar a hegemonia global dos EUA. Esta precisa ser defendida por quaisquer meios, mesmo com a guerra explícita.

A racionalidade é, obviamente, a grande dificuldade para implantar essas estratégias. Mas ninguém pode dizer que a possibilidade de até mesmo uma conflagração mundial possa agora ser excluída do horizonte histórico.

É possível dizer que a influência dos EUA na América Latina declinou na última década?

Sim. Falarei dos países relevantes nesse aspecto em seguida. E outros poderão se agregar a eles no futuro.

Como o sr. analisa as experiências de países como Venezuela (que fala em socialismo do século 21), Bolívia, Equador, Uruguai, Argentina?


Eles trilham por uma estrada muito difícil, na qual, indubitavelmente, muitos obstáculos serão erguidos no futuro pelo poder imperial dominante. Os EUA declararam abertamente que a América Latina era o seu quintal, reivindicando legitimidade para a sua dominação na região.

Como o sr. avalia os dez anos de PT no governo do Brasil?


Visitei o escritório do futuro presidente Lula em 1983. Tirei então uma foto do escritório onde se podia ler uma palavra iluminada: "Tiradentes". Eu fiquei pensando e continuo pensando hoje quanto tempo mais levará para que seja possível dizer que o escritório nacional de "Tiradentes" teve êxito em extrair os dentes infeccionados que causam tanta dor, mesmo num país com tantos recursos, em todos os sentidos, como o Brasil.

Qual é a sua visão sobre a relevância das ideias socialistas hoje?


Mencionei anteriormente que nossos problemas só podem encontrar soluções sustentáveis na sua época. Outras formas de enfrentá-los podem ser revertidas, como ocorreu no passado.

As ideias socialistas têm sido definidas desde o início como as que requerem uma época histórica para a sua concretização, embora os problemas imediatos de onde elas devem partir sejam muito dolorosos.

Em outras palavras, elas requerem não apenas os serviços urgentes de "Tiradentes", mas também prevenção para as doloridas infecções no longo prazo. As ideias socialistas são, portanto, mais relevantes hoje do que jamais foram.

Que países ou partidos representam o socialismo hoje?


Apenas alguns partidos muito pequenos proclamam sua fidelidade às ideias socialistas. E não há país que possa chamar a si mesmo como socialista.

No passado o sr. usou a expressão socialismo Mickey mouse para tratar de partidos que apenas brincavam com as ideias socialistas. Isso continua a ocorrer?

Não exatamente. O socialismo Mickey Mouse ficou mais fraco. O Partido Comunista Italiano que foi o partido de [Antonio] Gramsci e da Terceira Internacional primeiro se autoconverteu no que se chamam de democratas da esquerda.

Depois achou até a palavra esquerda muito comprometedora. Então se rebatizaram de partido dos democratas. Não há mais Mickey Mouse. É mais como um Popeye que perdeu o seu espinafre.

Quais são suas expectativas sobre o socialismo ou o comunismo no futuro? É um objetivo inatingível? E sobre o risco de barbárie? Existe?

Escrevi num livro também publicado no Brasil [ O século XXI: Socialismo ou barbárie ] que se tivesse que modificar as famosas palavras de Rosa Luxemburgo – "socialismo ou barbárie" – acrescentaria: "Barbárie se tivermos sorte". Porque a exterminação da humanidade é a ameaça que se desenrola. Enquanto falharmos em resolver nossos grandes problemas que se espalham por todas as dimensões da nossa existência e nas relações com a natureza, o perigo vai permanecer no nosso horizonte.

Onde deve estar um militante marxista hoje?

Contribuindo em tudo que ele ou ela possam fazer para buscar solução duradoura para esses grandes problemas.

Continuar trabalhando em projetos de longo prazo que dizem respeito a todos nós.

9 de nov de 2013

O Velho - A História de Luiz Carlos Prestes

O "Velho", documentário de 1997, dirigido por Toni Venturi, é a história de um mito, de um homem que encarnou uma causa, um comunista convicto que carregou ideais. São setenta anos de história brasileira, de Luiz Carlos Prestes, comandante de uma extraordinária e revolucionária marcha, que entregou a vida a uma causa social, e foi uma das figuras principais da América Latina, e uma das mais perseguidas do século XX. Uma história da esquerda brasileira. Um filme que resgata utopias e ideologias que em tempos atuais, com a humanidade mais preocupada com o próprio umbigo, transformaram-se em pó.

Tamára Baranov




 

Desde cedo Prestes forjou um grande caráter. Com a morte prematura do pai, Dona Leocádia e uma das irmãs trabalhavam fora, a outra fazia os trabalhos domésticos. Só Prestes teve o privilégio de estudar e queria corresponder aos esforços que faziam por ele. Já oficial Prestes ia todas as noites esperar a mãe, na volta do trabalho, no jardim do Meier, para acompanhá-la até em casa. Durante toda a sua vida Prestes manteve esse senso do dever.


Não era um homem expansivo, mas enquanto tenente e capitão do Exército tratou seus comandados quase com carinho. Por onde serviu criou escolas, desde alfabetização até a preparação para o concurso a sargento, escolas em que lecionava sozinho e preparando “professores” para alfabetização; cuidou da educação física, da instrução militar e da alimentação, que compartilhava com os soldados.


Quando a Coluna esteve na Bolívia, Prestes ficou por lá até que o último soldado tivesse ou voltado ao Brasil com segurança e algum dinheiro ou ficado na Bolívia trabalhando. Prestes foi um homem adorado por seus soldados justamente pelo calor, pela proximidade que fazia com que conhecesse o nome de cada soldado da Coluna, seu apelido e seus problemas. Que tinha uma preocupação real, não demagógica, com cada um deles.


Independentemente das transformações políticas porque Prestes passou, foi o período da Coluna e sua ação militar que o transformaram em herói nacional. O lendário Cavaleiro da Esperança é o tenente revolucionário, o comandante da Coluna, não o dirigente da insurreição de 1935, nem o senador da República e muito menos o secretário-geral do PCB.



O fracasso da insurreição de 35 foi, por muitos motivos, extremamente doloroso para Prestes. Além da derrota política, perdeu sua mulher, viveu a incerteza sobre o destino de sua filha, viu seu amigo Berger enlouquecido pelas torturas. Foi preciso muita força de caráter para superar essa etapa de sua vida. Num ambiente em que a coerência moral e política eram limitadas, Luís Carlos Prestes ocupou um espaço excepcional, encarnando a dignidade ausente. O que tornou Prestes a figura notável que foi deve-se a ele ter escolhido o caminho da realização plena de sua humanidade, de sua liberdade, caminho que ele escolheu desde sempre.



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27 de jul de 2013

A oposição entre esquerda e direita no Brasil após junho de 2013

Por João Andrade


Os recentes acontecimentos no Brasil trazem de volta para a cena de uma forma requalificada oposições que nunca desapareceram da sociedade e que para muitos aparecem ainda travestidas em expressões políticas falsas, reduzidas ao jogo eleitoral de uma maneira mentirosa e distorcida. Mais de dez anos de governo de um partido oriundo da esquerda política e social, o Partido dos Trabalhadores, representado pelos governos Lula e Dilma, criaram um perverso quadro em que no senso comum esquerda passou a representar o mesmo que direita. O raciocínio é simples e as massas não estão de todo equivocadas, ao menos num nível superficial. Para chegar ao poder, os partidos de esquerda tiveram que se aliar às classes dominantes, se corrompendo e reproduzindo as mesmas práticas que sempre condenaram. Uma vez gerindo o Estado, o projeto político do PT impôs uma radicalização no desenvolvimento capitalista, sob a chave do desenvolvimentismo associado às políticas de ajuste macroeconômico neoliberais. Se a esquerda ao assumir o Estado mostra que governa e age de forma muito semelhante à direita, quando não idêntica, sendo quase que completamente subserviente aos interesses da burguesia nacional e internacional, como esperar que outra fosse a opinião da maioria das pessoas?

As manifestações nas ruas vêm abalando fortemente os equilíbrios no quadro da luta de classes na sociedade brasileira, o reconfigurando. Cada vez mais se tende a um acirramento das posições políticas e à polarização da sociedade, opondo as visões de esquerda às de direita: respectivamente, a defesa da igualdade, da justiça e do respeito à diferença, contra a defesa da propriedade privada, da reprodução das desigualdades sociais e até, numa leitura mais conservadora e menos liberal, do preconceito e da discriminação contra “minorias”. Ganha espaço e visibilidade neste contexto a oposição entre a lógica do público e da defesa do social em confronto com a lógica do privado e da defesa dos interesses econômicos particularistas.

Remoções, grandes eventos desportivos, visita do Papa, máfia dos transportes, caráter militar e truculento da polícia, corrupção, ausência de um sistema de saúde e de educação públicos e de qualidade, dentre outros temas que emergiram no debate de forma mais intensa nos últimos dois meses, apontam para muito mais do que uma crise moral na política: indicam a falência do atual modo de organização da sociedade. Em tempos de pujança econômica no Brasil e de prevalecência de um modelo de desenvolvimento violador dos direitos humanos e concentrador da riqueza, as ruas se encontram cheias de pessoas questionando a forma como a sociedade se organiza politicamente e o fato de que esta organização via de regra favorece aos interesses de uma minoria e desfavorece a imensa maioria da população. Atônitos, muitos se perguntam como pôde acontecer a atual explosão de manifestações. Ninguém entende bem o porquê das sucessivas mobilizações multitudinárias e os fatores que foram determinantes para que ocorressem. No entanto, é consenso que sobram motivos para se protestar por um país mais justo e socialmente desenvolvido.

A oposição entre esquerda e direita, que para alguns soa erroneamente como um maniqueísmo ou simplificação da realidade, representa de fato uma dicotomia existente na sociedade e na política. No campo da esquerda estão aqueles que creem na igualdade social como um valor fundamental para a humanidade, um objetivo superior a ser perseguido. No campo da direita está quem defende que a desigualdade social é natural ao ser humano, o que serve como uma forma para justificar o assombroso fato de que poucas pessoas detêm tanta riqueza enquanto tantos têm tão pouco.

A visão limitada da política presente no senso comum que tende a igualar esquerda e direita em termos meramente partidários e eleitorais pode no atual momento histórico ser posta em cheque, na medida em que se redescubra que tal oposição transborda para além da esfera da política representativa: está na sociedade e figura em cada ato, cada opinião, cada expressão. Não se trata apenas de uma questão de partidos eleitorais desfigurados pelo modo torpe de funcionamento da estrutura política, mas sim de visões de mundo e do modo como se age em sociedade e de quais interesses se defende. Do ponto de vista subjetivo, trata-se de reconhecer de qual lado se está nas lutas que estão sendo travadas e de cerrar fileiras junto a quem assume semelhantes posições – fenômeno este que pode ser chamado de politização da sociedade.

Recuperando os eventos recentes no Brasil, podemos pensar em como a oposição entre esquerda e direita emerge na sociedade, fornecendo matrizes de discurso e de ação para os indivíduos e grupos. Entre os principais eventos recentes, chama a atenção o fato de que as mesmas pessoas que se compadecem e se indignam por causa de algumas vidraças quebradas no Leblon por razão dos excessos das massas revoltosas são incapazes de se solidarizar com os mortos pela ação genocida da Polícia Militar na Favela da Maré, em que aproximadamente uma dezena de pessoas foi chacinada, e com o desaparecimento de Amarildo, que foi sequestrado pelos policiais da Unidade de Polícia Pacificadora na Rocinha, onde vivia e foi confundido pela polícia com um “bandido”.

Como pode a violência contra as classes populares ser aceita com tanta naturalidade, enquanto o protesto contra o governo e o Estado que a praticam é tratado como um grave problema social a ser combatido de forma truculenta? A cada vez em que se consente de maneira explícita ou tácita com o assassinato de gente do povo e a cada vez em que se faz coro junto com a grande mídia golpista e as forças da repressão contra quem está nas ruas se manifestando, se perde um pouco mais em termos de humanidade: a cada vitrine defendida e a cada trabalhador morto ignorado as pessoas se tornam menos humanas. Cada declaração de apoio à defesa intransigente da propriedade privada e dos privilégios de classe representa ao mesmo tempo um golpe na tão frágil condição humana.

Entretanto, esse processo de perda da humanidade é consequência e não causa. Em cada ação de apoio às vitrines do Leblon e em cada silenciamento sobre a morte de quem mora em favelas está embutido um juízo de valor referido a um ponto de vista de classe social: se reforça a adesão à visão de mundo e aos interesses da burguesia, isto é, dos grandes empresários, banqueiros, industriais, financistas e latifundiários, que são beneficiados pela manutenção da ordem social desigual. Por meio do poderoso instrumento forjador de opiniões que é a mídia, pelo controle das leis e da educação formal, esses interesses são impostos como se fossem universais, como se representassem a toda a sociedade. Em realidade, trata-se dos interesses de um limitadíssima parte da sociedade, os quais acabam sendo defendidos de forma quase irracional pela classe média e inclusive por segmentos das próprias classes populares, atentando contra os seus próprios interesses.

A visão de mundo dominante, construída historicamente pela burguesia e seus aparelhos ideológicos, representa o fruto de processos anteriores de dominação no campo das ideias políticas e visões de mundo. Essa dominação se reatualiza, por exemplo, quando se acredita e se reproduz as informações divulgadas por meio da cobertura que a Rede Globo faz sobre os protestos populares. Raramente são questionados pelo cidadão comum os processos pelo qual são moldadas as opiniões que ele próprio emite. A Globo, com seu enorme poder de alcance e com livre acesso às residências e mentes da maioria da população, forja mentiras e mostra aspectos da realidade de maneira tendenciosa, de modo a tentar preservar a ordem desigual que beneficia aos segmentos da classe burguesa, aos quais representa. Cada manifestação nas ruas oferece uma ameaça à ordem social injusta na qual vivemos e quem dela se beneficia não deve facilmente aceitar mudanças que impliquem na perda de poder. Neste sentido, o uso da violência através da coerção física e o uso da dominação ideológica por meio da tentativa de produção de consensos são e deverão ser cada vez mais utilizados de maneira ostensiva.

As pessoas em geral não têm o costume de parar para pensar criticamente no que realmente está acontecendo na sociedade e na política e habitualmente não refletem sobre suas próprias posições políticas de forma objetiva. Em muitos casos, sequer têm elementos para fazê-lo, pois as informações a que têm acesso estão impregnadas pelo viés ideológico e manipulador da grande mídia, que representa a principal fonte de informações e formadora de opiniões para a imensa maioria da população. Por isso, no atual momento histórico todos têm a oportunidade e o dever de colocar em questão as formas de dominação ideológica, fazendo a batalha não apenas nas ruas, mas também no campo das ideias, discutindo, divulgando informações e propagando opiniões divergentes em relação àquelas presentes no senso comum.

As diferentes formas de violência contra as classes populares estão sendo alvo de protestos como não se via há muito tempo. Quem assiste ou participa das manifestações das massas está sendo tocado e mexido de tal forma pela experiência que é forçado a se posicionar: De que lado ficar? É legítimo protestar? Por que o povo tem ido tanto às ruas? Em quê desembocará todas essas manifestações e até quando conseguirão as pessoas se manter nas ruas em protesto? Estas são algumas das questões que não saem das bocas e mentes das pessoas comuns.

Quando imaginaríamos que toda a sociedade brasileira seria chamada a discutir os problemas sociais de forma tão viva e contundente, vivendo e pensando a política nas ruas e no cotidiano e buscando romper com o sequestro da política imposto pelo corruptos mecanismos de representação eleitoral instituídos? Até dois meses atrás quem poderia dizer que a juventude e os trabalhadores se uniriam aos moradores da Rocinha para fazer um protesto no Leblon, um dos bairros mais caros para se viver do mundo, questionando não apenas o Governo de Sérgio Cabral no Rio de Janeiro, mas a própria estrutura do Estado capitalista e seu viés violento, assassino e corrupto?

Cada item da pauta de lutas presente nas ruas representa o desferimento de um golpe na lógica de funcionamento do capitalismo: ser contra a corrupção significa, de fato, questionar a promíscua relação entre o poder econômico e o poder político, existente no capitalismo desde seus primórdios. Gritar contra a colossal injeção de recursos em eventos como as copas, as olimpíadas e a vinda do Papa não significa senão a rejeição de um modelo de cidade excludente, voltado aos ricos, que remove pobres de suas moradias e das ruas e faz com que os bairros das zonas centrais e altamente valorizadas da cidade cada vez mais pertençam apenas àqueles que têm alto poder aquisitivo, incluindo neste processo as favelas “pacificadas”. Gritar contra um governante tem o papel de apontar não apenas os defeitos morais do mesmo, mas fundamentalmente de negar o modelo de políticas públicas e a forma de gerir a máquina estatal, que privilegia uma minoria e deixa a maior parte da população num estado miserável. Mas a corrupção dos governantes e servidores públicos só existe porque o poder econômico atua ativamente os subornando e produzindo uma lógica de trocas clientelistas que representam o avesso do que deveria ser a democracia e, neste sentido, a crítica se volta também à própria estrutura política estabelecida.

Ecoam na esfera pública de forma pungente as disparidades gritantes de um sistema que não encontra outra solução senão sua destruição e a reconstrução da forma de organização da sociedade. Este é o significado fundamental para o qual devem ser direcionados os gritos “por um Brasil melhor”. A destruição do velho é conclamada como forma de abrir caminho para um novo país: é uma destruição criadora. Na contramão deste sentido revolucionário, as pessoas que manifestam posições políticas de direita reagem violentamente e a cada dia mostram mais que estão a serviço de uma campanha truculenta em defesa da propriedade privada, da manutenção das desigualdades sociais e da falta de respeito para com as diferenças socioculturais. Quando segmentos da sociedade a impelem a mudanças num sentido progressista e democratizante, quem se posiciona politicamente de forma conservadora costuma ser taxado como reacionário justamente por isto: pelo fato de reagirem contra o avanço de possíveis processos de transformação social.

Os defensores de posições do campo político da extrema-direita costumam ser chamados vulgarmente de fascistas, não porque de fato assumam essa ideologia de maneira consistente, em sua imensa maioria, mas porque seu conservadorismo e reacionarismo evocam elementos das ideologias fascistas. O projeto político fascista propõe a supressão da diversidade, o extermínio de quem é, vive, pensa e age diferente, e busca, acima de tudo, assegurar a ordem capitalista de forma autoritária. Por ora, sabemos que os defensores conscientes dessa ideologia no Brasil são uma ínfima minoria de pequenos grupos de neonazistas e integralistas. Mas existe sempre o risco de que cresçam, ameaçando as conquistas sociais e o ainda incipiente processo de democratização da sociedade. Por isto, todo cuidado é pouco.

Enquanto o ponto de vista da esquerda afirma a luta pela garantia de fato de direitos a todos os cidadãos, para além da “letra morta” da formalidade legal, quem defende os posicionamentos de direita costuma instrumentalizar a lei para garantir privilégios pessoais, negando direitos às classes populares e desrespeitando a diversidade social e cultural. As pessoas que assumem práticas de direita tendem, de forma consciente ou inconsciente, a atuar a serviço da negação do acesso a direitos humanos para o outro, o que produz ao mesmo tempo a desumanização de si próprios. Mesmo aqueles que se situam no campo da direita liberal e mantêm uma retórica de defesa dos direitos, aparentemente menos conservadora e mais progressista, encontram como limite efetivo para a democratização da sociedade a contradição que opõe aqueles que são proprietários dos meios de produção e das riquezas em geral à imensa massa de trabalhadores que destes bens são desprovidos. Enquanto houver relação de exploração do homem pelo homem e o trabalhador for forçado a vender sua força de trabalho para um patrão para fins de sobrevivência, sempre existirá a desigualdade no acesso a direitos. Como consequência, sempre haverá classes minoritárias numericamente que serão “mais livres” do que as classes majoritárias, comandando o Estado e os rumos da sociedade de modo a garantir o injusto status quo.



Para aqueles que assumidamente são de esquerda e que representam as forças progressistas da sociedade, defendendo os interesses das classes populares, vive-se um prolongamento da mobilização de quem nunca adormeceu. Por outro lado, quem “desperta” para a política agora traz consigo todo um enorme acúmulo de indignação, que começa a ser canalizado para ações coletivas. Estamos assistindo a um crescente reconhecimento de que o poder da sociedade consubstanciado em movimentos coletivos tem capacidade transformadora. Esse reconhecimento vem acompanhado da adoção de formas de ação e discursos que trazem o novo para os cidadãos. Um novo que é fruto da experiência vivida e ainda embrionariamente alvo de reflexão. Trata-se de um novo ainda pouco compreendido, promissor no potencial de mudança de consciências e de politização. Um novo que por enquanto é muito mais vivido e sentido do que consubstanciado em consciência política e na adesão a um projeto alternativo de sociedade. O recuo em vinte centavos no aumento da tarifa do transporte rodoviário é apenas um dos inúmeros exemplos de que somente a luta coletiva muda a vida em sociedade. Para quem está aberto a conhecê-la e a vivenciá-la, essa descoberta imprime marcas indeléveis nas consciências e corações.

Neste momento, uma difícil e complexa tarefa está colocada: a conquista das massas para um projeto político radical de transformação da sociedade, para uma guinada à esquerda, no sentido da generalização da efetivação de direitos e da redistribuição da riqueza de modo mais igualitário. Ser de esquerda significa assumir tais princípios como o eixo central de reivindicações no sentido da construção de um mundo novo. O fim da corrupção do poder público, bandeira tão mencionada nas recentes manifestações, e a mudança deste modo desigual e violento de organização da sociedade só poderão ser alcançados com a instituição de uma nova sociedade fundada sobre outras bases econômicas, culturais e políticas. Está em jogo a luta por uma sociedade na qual o ser seja mais valorizado do que o ter, em que os interesses da maioria prevaleçam sobre os privilégios de uma minoria, em que a democracia direta e participativa efetivamente descentralize o poder e o distribua de forma mais igualitária entre os cidadãos.

Os princípios que orientam esse projeto político vêm de uma longa tradição política dos trabalhadores organizados em luta contra o capital, que remonta ao século XIX. A arena em que se desenrolam os embates entre o povo e a burguesia é chamada de luta de classes: uma luta que opõem aqueles que detêm os poderes econômico e político aos trabalhadores, estudantes, camponeses, indígenas, negros, aposentados e tantos outros sujeitos das classes populares. A esquerda propõe como alternativa democrática ao capitalismo a construção de uma sociedade socialista. Socialismo é o nome do projeto político que há muito as forças sociais capitalistas vêm tentando apagar da história, especialmente nos últimos 40 anos com o desenvolvimento do chamado neoliberalismo em todo o mundo. Mas as lutas sociais e políticas pressionam para que o projeto de uma sociedade autogerida pelos trabalhadores seja recolocado em cena, suprimindo a existência da divisão entre classes dominantes e classes dominadas na sociedade.

Não se trata de apresentar um modelo pronto e acabado de organização da sociedade. Neste sentido, a luta pelo projeto do socialismo não se confunde com os resultados das experiências históricas que já existiram em alguns países, as quais tenderam para o desvirtuamento do caráter democrático inerente à proposta. O socialismo é um processo de construção coletiva em aberto, cujos rumos dependem da atuação de quem nele participa. Liberdade e democracia direta são valores centrais para a construção do socialismo e ao mesmo tempo representam a garantia contra formas autoritárias e burocratizadas de organização política, assegurando a horizontalidade nas relações.

Vivemos um momento ímpar que pode proporcionar que outro projeto político de sociedade ganhe força na disputa com o atual modelo capitalista. A responsabilidade histórica está nas mãos de todos que estão nas ruas, novos e velhos manifestantes, debatendo e se organizando para reivindicar direitos. Para quem coloca seu corpo e sua mente à serviço da mudança social no sentido da democratização plena da sociedade não há tempo a perder ou para sentir medo. Conquistar corações e consciências para a causa da transformação social é uma das principais tarefas colocadas para se atingir o horizonte da mudança. Organização, mobilização e trabalho de base são os meios que estão sendo recuperados na prática social e política para se tentar alcançar esse objetivo.

Decerto, o Brasil não voltará a ser o mesmo que era antes de junho de 2013. O futuro do país está, mais do que nunca, nas mãos do seu povo, que tem o dever de se organizar e lutar em prol dos interesses coletivos, dos bens comuns do meio ambiente, da defesa do que é público, contra a privatização da vida, contra a injustiça social e a falta de respeito à diversidade. Quem compartilha desses ideais e busca formas para exercê-los na prática está próximo a uma visão de mundo da esquerda, quer saiba, quer não. Semelhante argumento vale para o caso daqueles que reproduzem ideias e práticas de direita, que podem estar se posicionando no campo político liberal e/ou conservador, mesmo sem ter plena consciência disto e do quê isto significa de fato. Saber se definir politicamente é fundamental para ter clareza sobre com quem se compartilha semelhantes ideias e opiniões, sobre junto a quem se pretende estabelecer alianças e para saber como formar sua própria opinião de um ponto de vista reflexivo. Num contexto em que todos são conclamados a se posicionar perante os fatos políticos que representam as manifestações populares nas ruas, uma velha e inquietante pergunta emerge novamente com força, incitando o debate e a autorreflexão: De que lado você está?

João Andrade colabora eventualmente com o Opinião Divergente e é Doutorando do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA/UFRRJ)