28 de mai de 2010

Da bancocracia na Europa

Já ninguém duvida a partir de agora: são os pobres que vão pagar a conta vertiginosa da crise financeira. Conta tanto mais salgada pelo facto de a dita crise estar longe de terminada. Os ricos, os verdadeiros, estão desde já abrigados graças ao oportuno salvamento dos bancos que gerem os seus haveres sumarentos. O teatro europeu da crise é particularmente edificante sob todos os aspectos. Se bem que a crise do euro não seja senão o prolongamento da crise mais ampla das finanças mundializadas, ela revela-nos que a solidariedade das nações e dos povos europeus com que nos enchem as orelhas há cinquenta anos não era desde há muito senão uma palavra. Não é a Grécia que ameaça o euro para o euro fez a Grécia cair tão baixo que talvez não se recupere. Já é tempo de declarar algumas verdades, de convencermo-nos definitivamente que os economistas de conivência e os dirigentes políticos optaram piedosamente pelo campo dos bem-nascidos e dos bandidos.

Dos bem-nascidos? Diz-se que possivelmente os 850 maiores miliardários do mundo são mais ricos que a África com os seus 850 milhões de habitantes. Dos bandidos? Maurice Allais, Prémio Nobel de Ciências Económicas 1988, escreveu um dia que "na sua essência, a criação monetária ex nihilo que os bancos praticam é semelhante, não hesito em dizê-lo, para que as pessoas compreendam bem o que está em jogo aqui, à fabricação de moeda por falsários, tão justamente reprimida pela lei". Números vertiginosos? Enquanto o New Deal de Roosevelt em 1933 representava hoje 50 mil milhões de dólares, e o Plano Marshall 100 mil milhões de dólares, o plano europeu adoptado a 10 de Maio último atinge por si 750 mil milhões de euros e contudo não representa senão pouco mais de 10% da dívida bruto da zona euro, de 7000 mil milhões de euros.

E a vertigem acentua-se quando ao alçar voo dos números acrescenta-se a soberba incerteza do devir da economia europeia. Sobre a soma de 750 mil milhões de euros, em que a intervenção do FMI é considerada como complementar à intervenção europeia, mais da metade, ou seja, 440 mil milhões, são considerados como "mobilizáveis", isto é, eles pura e simplesmente não existem hoje. O plano de salvamento da Espanha, o único que foi estimado pelo Natixis [NT] , exigiria entre 400 e 500 mil milhões de euros. Assim, se se acrescentar a Itália e a Irlanda... O medo ainda aumenta quando se sabe que não são mais os produtores de riquezas materiais, capazes de alimentar, alojar, melhorar a existência das populações, mas sim os especuladores, através dos bancos e dos seus produtos financeiros cada vez mais arriscados, que dirigem a economia. Eles vampirizam a economia real no seu tudo – e doravante também os recursos públicos dos Estados. Esta reversão delirante dos papeis conduz forçosamente à espoliação dos povos, pelo desemprego, pela miséria, pelos recuos civilizacionais...

A crise não é tão pouco uma crise do défice orçamental da Grécia, mas exactamente uma crise dos bancos europeus. Assim, a operação de salvamento da Grécia não lhe é destinada, mas aproveita aos bancos europeus. Trata-se de um verdadeiro assalto, ao crédito da especulação e ao débito da dívida pública, que foi perpetrado. Assiste-se estupefacto a uma permutação de credor; os contribuintes europeus substituem-se aos banqueiros e recuperam assim a sua posição. O resto da Europa para emprestar para "salvar" os bancos que emprestaram à Grécia que não pode reembolsar! O economista irlandês David McWilliams nota até que ponto passámos da democracia à "bancocracia". Por intermédio do Estado, com efeito, as riquezas são transferidas dos "não-iniciados", o povo, para os "iniciados" do sistema bancário. Ele acrescenta que não nos devemos enganar: isto que foi apresentado como o salvamento de um Estado fazendo apelo ao suposto sentimento de solidariedade europeia, não nada menos que uma transferência directa de dinheiro do bolso dos cidadãos para o dos credores estrangeiros de bancos franceses e alemães. Aqui está a receita da divisão e da instabilidade.

O Prémio Nobel Joseph Stiglitz diz a propósito da crise financeira de 2008-2009 nos Estados Unidos que os bancos conseguiram mutualizar as suas perdas com os contribuintes mas que privatizam os seus benefícios em proveito único dos seus accionistas. A Europa ajuda hoje a fazer o mesmo. O Estado pura e simplesmente não está mais no seu papel de defensor do bem comum pertencente a todos os cidadãos. Ao voar (!) em socorro dos rufiões e dos ricaços, o Estado tornou-se privado. Chegou o reino tirânico das novas feudalidades.

[NT] Natixis: banco francês constituído em 2006 pela fusão dos grupos bancários cooperativos Groupe Banque Populaire e Groupe Caisse d'Epargne. Ver
Banco privado publica "Uma leitura marxista da crise"(sic).


O original encontra-se em http://www.legrandsoir.info/De-la-bancocratie-en-Europe.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/



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