30 de abr de 2010

O papel do integralismo no Brasil do pós-guerra


 O movimento integralista desempenhou um papel importante para a manutenção da dominação burguesa entre 1945 e 1964. Esta hipótese geral orientou nossa pesquisa, e sua confirmação evidencia-se nas diversas tarefas desempenhadas pelo integralismo no enfrentamento, contenção e denúncia dos "comunistas"; na afirmação de uma concepção excludente de "democracia"; na defesa incondicional da propriedade privada; e em sua presença cotidiana nos mais diversos espaços institucionais buscando afirmar seu projeto por meio de graduais reformas regressivas, em consonância com a ordem dominante em suas características fundamentais. 

A avaliação da relevância da intervenção do integralismo deve necessariamente levar em conta a especificidade do papel desempenhado pelo partido por ele constituído, tendo em vista que sua organização era bastante peculiar, diferenciando-se claramente dos principais partidos burgueses – como PSD e UDN. Enquanto estes tinham como função o gerenciamento dos interesses imediatos do capital, representando suas diferentes frações no controle do aparelho estatal (executivo e legislativo) e, portanto, contando com uma estrutura interna flexível e essencialmente voltada à ocupação de posições de poder no interior do aparelho de Estado, o PRP desempenhava um papel mediato, assumindo tarefas de médio e longo prazo, como a sistemática propagação do anticomunismo e a permanente afirmação de uma concepção excludente de democracia. Desta observação decorre nossa percepção de que se torna insuficiente e até equivocado dimensionar a importância da intervenção integralista exclusivamente a partir da observação dos resultados eleitorais obtidos pelo PRP. De fato, as tarefas assumidas pelos integralistas transcendem as funções tradicionalmente desempenhadas pelos partidos burgueses, envolvendo uma mobilização ativa de um determinado setor social, com a criação de diversas organizações extrapartidárias; a disseminação permanente de uma ideologia legitimadora da ordem burguesa, a manutenção de uma rede de jornais, revistas e de uma editora, voltados não apenas à obtenção de resultados eleitorais, mas fundamentalmente à propagação de sua ideologia. 

A primeira de nossas hipóteses subsidiárias propõe que para cumprir um papel de reforço à dominação burguesa entre 1945 e 1964, o integralismo reformulou sua estratégia, abandonando a perspectiva de assalto ao poder a curto prazo e optando pelo enquadramento na ordem institucional vigente. De fato, o integralismo passou por um processo de reformulação significativa, modificando sua estratégia, na medida em que, constrangido pelos condicionantes externos – internacionais e nacionais –, deixou de se organizar voltado para a tomada imediata do poder e reformulação radical dos mecanismos de imposição da ordem burguesa, segundo uma perspectiva fascista. Esta modificação, no entanto, não implicou em abandono dos elementos centrais da ideologia integralista, mas apenas na opção por uma estratégia de afirmação progressiva deste projeto, sem descartar o retorno à estratégia anterior, quando a conjuntura política o permitisse. De fato, parece evidente que mais do que uma opção, esta reformulação apresentava-se como única possibilidade para a reestruturação do movimento integralista no contexto de completo descrédito das ideologias e movimentos explicitamente fascistas, no imediato pós-guerra. O fato de que em meados dos anos 50 alguns elementos da tradição integralista dos anos 30 foram retomados - voltando o movimento a adotar o Sigma como seu símbolo e chegando a promover desfiles públicos – reforça este argumento, já que tal recuperação só ocorreu quando o registro partidário estava garantido e as relações estabelecidas com os diversos dirigentes s políticos garantiam que ele não seria ameaçado. É importante também considerar que elementos importantes do projeto integralista foram colocados em prática pelo Estado Novo e consolidados pela Constituição de 1946, com grande destaque para o controle estatal sobre a organização dos trabalhadores. Se isto parecia retirar dos integralistas algumas de suas bandeiras fundamentais, e evidenciava sua proximidade com os setores dominantes, por outro lado, facilitava-lhe a defesa da ordem vigente tal como estava constituída, restringindo suas propostas à permanente demanda do acirramento da repressão contra os comunistas e do controle sobre os trabalhadores em geral. A ênfase "espiritualista" e o desenvolvimento do "conceito cristão de democracia" foram, ao mesmo tempo, uma necessidade para a justificação do alegado "caráter democrático do integralismo" e elementos utilizados para justificar a proposição de uma "democracia" abertamente elistista e excludente. A estratégia de "guerra de posição", ocupando posições no parlamento e no executivo, além de facilitar a sobrevivência material do integralismo, permitiu-lhe colocar em prática alguns elementos de sua ideologia, ainda que em um ritmo e intensidade que muitas vezes decepcionava e desanimava seus adeptos, o que se deve não apenas à nova estratégia assumida pelo movimento, mas também pela própria inviabilidade de concretização coerente do projeto integralista, claramente contraditório e irracionalista, como qualquer projeto fascista. Em termos gerais, a reformulação estratégica foi uma resposta aos desafios da nova conjuntura político-social, tendo obtido um relativo êxito, na medida em que tornou possível a intervenção do integralismo nas duas décadas seguintes e permitiu que os integralistas se apresentassem como "antifascistas", o que, a despeito de todas as evidências em contrário, era reiteradamente admitido por grupos políticos e sociais vinculados às classes dominantes. 

As diferentes fases da trajetória do PRP não se explicam exclusivamente por fatores internos a sua organização, mas vinculam-se claramente às distintas conjunturas da luta de classes. Assim, seu apoio ao governo Dutra, além de facilitar a obtenção do registro partidário, correspondeu à única opção que restava ao integralismo em um contexto de unificação dos grupos dominantes: seu alinhamento à coalizão conservadora. A fase seguinte – iniciada em 1952, com o movimento de "Independência Partidária", a formação dos centros culturais, a oposição a Vargas e a reestruturação dos serviços de espionagem -, não apenas atendeu aos anseios da militância integralista, mas também implicou em adaptação a um contexto de intenso conflito social, frente ao qual os novos instrumentos criados (como centros culturais de juventude, editora e imprensa integralista) foram eficazes, permitindo que o integralismo cumprisse com maior desenvoltura o papel a que se propunha. Igualmente a retomada do legado integralista correspondia a uma progressiva recuperação de formas organizativas mais abertamente fascistas, de grande utilidade em um contexto de agudo enfrentamento social. O restabelecimento da plena hegemonia burguesa, sob formas renovadas, no governo Kubitschek, no entanto, torna compreensível o recuo da retomada do legado integralista e a incorporação do PRP na coalizão dominante, efetivada através de seu ingresso no governo federal e em governos estaduais, como o de Leonel Brizola (PTB) no Rio Grande do Sul. Enquanto esta coalizão se manteve e atendeu aos interesses da grande burguesia brasileira – até o primeiro ano do governo Goulart -, o PRP manteve-se vinculado a ela. Com seu rompimento, os integralistas se incorporaram ao bloco golpista, desde meados de 1962, participando ativamente da articulação e mobilização que desencadearia a deposição de Goulart. Em todas estas "fases", a despeito da diversidade das alianças estabelecidas pelo PRP e dos diferentes instrumentos de que lançou mão, a posição integralista manteve-se coerente com o papel desempenhado pelo movimento, adaptando-se continuamente às diferentes conjunturas político-sociais. 

O estudo da trajetória integralista fornece diversos elementos para a reflexão em torno das características limitadas e restritas do processo democrático brasileiro. Destaca-se de maneira evidente o reconhecimento do pretenso "caráter democrático" do integralismo pelos principais agentes políticos – "liberais", "autoritários" e "trabalhistas", nacionalistas, desenvolvimentistas ou "entreguistas" – consubstanciado nas centenas de alianças, nas declarações formais acerca do programa do PRP e da doutrina integralista e na participação de integralistas em governos municipais, estaduais e no próprio governo federal. Todos os partidos legalmente registrados – com exceção apenas o Partido Socialista Brasileiro – legitimavam a pretensão do integralismo em apresentar-se como "democrático", o que evidencia claramente o sentido conservador de suas concepções de democracia, tendo em vista que todos estes agentes conheciam o passado fascista do integralismo e, a despeito de sua "reorientação doutrinária", poderiam facilmente identificar no programa e na práxis do PRP as marcas de um projeto fascistizante. Isto fica ainda mais evidente com a decisão do Tribunal Superior Eleitoral confirmando o "caráter democrático" do PRP, poucos meses depois de cancelar o registro do Partido Comunista do Brasil (PCB). Tal questão transcende os objetivos deste trabalho, uma vez que implica na necessidade de uma reavaliação global do "período democrático". Ainda assim, no que se refere mais especificamente à inserção do integralismo neste processo, cabe destacar que a aceitação de sua proposta fascistizante "renovada" deve levar-nos, no mínimo, a reconhecer que o integralismo não era um elemento estranho na política brasileiro, nem tampouco um grupo marginalizado e irrelevante.

Um aspecto particularmente relevante, ainda que cuidadosamente obscurecido pelo discurso integralista, é o estabelecimento de vínculos com a grande burguesia brasileira, em suas diferentes frações. Não resta dúvidas que jamais o integralismo chegou a ser a opção preferencial da burguesia brasileira – o que se explica pelo fato de que esta conseguiu manter a organização operária sob certos limites utilizando-se dele e de outros instrumentos, e também pelo estágio de desenvolvimento do capitalismo brasileiro. Isto não significa, no entanto, que o integralismo fosse por ela descartado como instrumento acessório da imposição e manutenção de sua dominação. Explica-se, assim, que o integralismo tenha recebido recursos de grandes industriais, banqueiros e comerciantes, ainda que não os recebesse com a regularidade e no volume desejados. Explica-se também a aparentemente paradoxal indignação de Salgado, que mesmo sustentando uma crítica superficial à "burguesia gozadora" e a seu comportamento "anti-cristão", tinha clareza do papel desempenhado pelo integralismo na sustentação da dominação burguesa e, portanto, irritava-se continuamente com o que considerava como um financiamento abaixo do necessário. Para a burguesia, tal situação era extremamente favorável: mantinha o integralismo sob controle, beneficiando-se de sua pregação e sua práxis anticomunista permanentes e podendo utilizar-se de seus serviços, em outro patamar, no caso de um acirramento da luta de classes e da necessidade de contar com uma tropa de choque anticomunista disciplinada. Ainda que tal situação não tenha se efetivado, a manutenção dos vínculos entre o integralismo e a grande burguesia evidencia que esta era uma possibilidade concreta. 

Em vista destas considerações, nossa hipótese geral parece plenamente confirmada, podendo-se afirmar que a intervenção política do integralismo entre 1945 e 1965 cumpriu um papel relevante para a dominação burguesa. Em sua relação com os diversos partidos políticos, os integralistas sempre se orientaram pela defesa da manutenção da ordem política vigente, da estabilização institucional, da preservação do status quo, com especial destaque para a defesa da propriedade privada e da manutenção do controle sobre os trabalhadores. Sua intervenção nas crises políticas é reveladora: os integralistas somaram-se à oposição a Vargas às vésperas de sua deposição e suicídio; contrapuseram-se à tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek, assim como boa parte da burguesia brasileira; atuaram na defesa do golpe parlamentarista em 1961, retirando os poderes presidenciais de Goulart sem provocar uma ruptura institucional aberta; e somaram-se à mobilização e articulação golpista entre 1963 e 1964, quando o conjunto da burguesia brasileira optou pela deposição de Goulart e imposição de uma ditadura civil-empresarial-militar. Nos momentos de relativa estabilidade institucional, os integralistas destacaram-se pela permanente defesa de um modelo de "democracia defensiva", justificada pela sua leitura do cristianismo, caracterizada por rigoroso controle social e desqualificação das massas populares; e também pela sistemática campanha anticomunista, que se desdobrava em diversas ações: conflitos de rua; pregação pública através de livros, folhetos, panfletos e jornais; campanhas desenvolvidas em comícios públicos e programas radiofônicos; cursos de "formação anticomunista"; defesa de uma política externa anticomunista; espionagem das atividades dos comunistas e seus aliados; e denúncia pública de atividades promovidas pelos comunistas e de candidaturas supostamente comunistas. Tanto a campanha anticomunista como a defesa da imposição de limites à prática democrática e fortalecimento dos mecanismos de repressão eram desenvolvidas continuamente, não se restringindo aos períodos de maior acirramento da luta de classes. Este caráter permanente do anticomunismo e da defesa de uma democracia restrita diferencia o papel desempenhado pelo integralismo dos demais partidos burgueses, os quais, embora em grande parte compartilhassem com tais posições, não as colocavam como preocupação central e permanente, a não ser em contextos políticos de radicalização dos setores subalternos, como as conjunturas de 1953-54 e 1963-64. Ainda que nestes momentos de mobilização anticomunista do conjunto dos grupos dominantes os integralistas deixassem de aparecer como os principais protagonistas das campanhas anticomunistas, sua ação sistemática e permanente durante os períodos de menor confrontação social que precedem as conjunturas de crise hegemônica devem ser levados em consideração para a compreensão do posicionamento anticomunista e antidemocrático assumido pela maior parte da pequena burguesia, e, conseqüentemente, de seu alinhamento com os grupos dominantes, em oposição aos setores populares.

Este texto  encontra-se em http://resistir.info/

.

Vietnã celebra 35 anos da vitória contra os EUA

Ainda amanhecia quando milhares de vietnamitas, organizados em colunas, começaram a se aproximar do Parque 30 de Abril, diante do antigo palácio presidencial, na cidade de Ho Chi Minh. Sindicatos, universidades, fábricas e organizações camponesas enviaram suas delegações, além das forças armadas. Respondiam à convocação para a manifestação que celebraria o triunfo do Vietnã socialista contra o governo de Saigon (velho nome da cidade) e seus aliados norte-americanos.
Vietnamitas festejam os 35 anos do fim da guerra durante manifestação em Ho Chi Minh

Não foi um comício de tipo ocidental. O horário já era extravagante. Todos estavam avisados que as atividades começariam pontualmente às 6h30 e estariam encerradas três horas depois, antes que o calor alucinante de Ho Chi Minh vencesse o dia. Quem ocupava as arquibancadas armadas no caminho central do parque eram as autoridades e os convidados. Os cidadãos, com seus agrupamentos, foram os responsáveis pelo espetáculo.

Poucos discursos, apenas quatro – e religiosamente cronometrados. O primeiro secretário do Partido Comunista do município falou por 20 minutos. Depois vieram o presidente da Associação dos Veteranos de Guerra, o secretário-geral da federação sindical local e o presidente da Juventude Comunista de Ho Chi Minh – cada qual com direito a 10 minutos de discurso. O presidente da República, Nguyễn Minh Triết, 68, um sulista que teve participação discreta na guerra e está no cargo desde 2006, apenas assistiu, junto com outros dirigentes. 

Aproximadamente 50 mil pessoas desfilaram diante das tribunas. Grupos teatrais representaram momentos da guerra de 21 anos contra os norte-americanos e o então Vietnã do Sul. Muita música, até com um pouco de ritmo pop, além dos acordes previsíveis da Internacional (o histórico hino socialista) e de canções revolucionárias. Depois, uma longa marcha, com militares, trabalhadores, mulheres, intelectuais, estudantes, camponesesm com suas faixas e bandeiras, além de modestas coreografias.

Mas a maior emoção estava no rosto dos veteranos de guerra. Um deles era o coronel Nguyễn Van Bach, de 74 anos, cabelos inteiramente brancos. Nascido na província de Bình Dương, no sul do país, integrou-se à luta armada em 1947, aos 11 anos. Ainda era a época da guerra contra os franceses, que não aceitavam a independência conquistada em 1945, sob a liderança do líder comunista Ho Chi Minh
Van Bach ainda combatia no final de abril de 1975. Fazia parte das tropas guerrilheiras. Estava em um destacamento que já controlava a cidade de Tan An, na província de Long An, localizada no delta do rio Mekong. Foi lá que soube da queda de Saigon nas mãos de seus camaradas. “Tive uma alegria tão grande que provocava lágrimas”, lembra-se. Ainda se emociona, como vários de seus amigos, quando se recorda dessa data.

Afinal, no dia 30 de abril de 1975, encerravam-se mais de 30 anos de guerra regular ininterrupta. Desde que fora formado o primeiro pelotão da guerrilha comunista, em dezembro de 1944, sob o comando de Võ Nguyên Giáp, braço direito de Ho Chi Minh, os vietnamitas enfrentaram sucessivamente invasores japoneses, franceses e norte-americanos.


Colonia francesa desde 1856, o Vietnã foi ocupado pelas tropas nipônicas durante a Segunda Guerra Mundial. Os comunistas assumiram a linha de frente na luta contra os soldados de Hiroito, aproveitando o colapso de Paris às voltas com a ocupação nazista. Lideraram uma frente de várias correntes políticas, denominada Vietminh, e declararam a independência do país depois da capitulação japonesa, em agosto de 1945. No dia 2 de setembro do mesmo ano nascia a República Democrática do Vietnã.

Guerra da Indochina


O general De Gaulle, presidente da França, assim que viu derrotado o nazismo, ordenou que suas tropas sufocassem os rebeldes vietnamitas. Foram oito anos de sangrentos combates. Os homens de Ho Chi Minh e Giáp organizaram uma poderosa resistência guerrilheira, que progressivamente aterrorizou e desgastou os franceses. Mais de 90 mil gauleses perderam a vida nos campos de batalha.

A estocada final contra os colonizadores foi em 1954. Ficou conhecida como a batalha de Điện Biên Phủ, uma região no noroeste do Vietnã, perto da fronteira com o Laos. Os franceses imaginavam-se invulneráveis nessa posição estratégica, da qual planejavam sua contra-ofensiva a partir de uma grande concentração de recursos humanos e materiais. Mas o Vietminh, através de trilhas na selva e túneis, foi cercando o local sem ser percebido.
Carro alegórico homenageia o ex-presidente Ho Chi Minh (1890-1969), líder histórico do país.

Depois de oito semanas, entre 13 de março e 7 de maio, as tropas do general Christian De Castries estavam destruídas e desmoralizadas. Foi o derradeiro capítulo da chamada Guerra da Indochina. Os franceses, derrotados, aceitaram as negociações que levariam aos acordos de Genebra, em 1954. Pelos termos desse tratado, o Vietnã ficaria provisoriamente dividido em dois, ao norte e ao sul  do paralelo 17. Mas eleições gerais teriam lugar em 1956 para reunificar o país.

Quando se consolidaram as perspectivas de vitória eleitoral comunista, os grupos conservadores chefiados pelo católico Ngô Đình Diệm deram um golpe de Estado no sul e cancelaram as eleições. Os Estados Unidos, que já tinham sido os principais financiadores das operações francesas, assumiram a defesa do regime de Saigon. Forneceram, a princípio, recursos, armas e assessores militares.

Guerra do Vietnã

Os comunistas reagiram e lideraram, a partir de 1960, um levante popular e guerrilheiro contra Diem, articulado pela Frente de Libertação Nacional com o apoio do norte. Os norte-americanos, diante da fragilidade de seus aliados, enviaram tropas para defendê-los. Era o início da Guerra do Vietnã.

A participação direta dos Estados Unidos durou até 1973. Acabaram asfixiados e quebrados como os franceses. “A supremacia deles era tecnológica”, recorda outro veterano, o general Đỗ Xuân Công, 72. “Mas o armamento deles era para guerra à distância, com aviões, foguetes e bombas. Nós reduzimos o espaço, forçamos o combate no quintal de suas tropas. As armas modernas não tiveram serventia nem substituíram sua falta de moral para a luta”.


A casa começou a cair depois da chamada Ofensiva do Tet (o ano novo vietnamita), em 1968, quando as forças guerrilheiras atacaram dezenas de objetivos ao mesmo tempo, incluindo a própria embaixada norte-americana em Saigon. A Casa Branca já tinha mais de 500 mil homens em combate. A sociedade estrilava com as mortes, derrotas e mentiras.
Militares apresentam armas diante da tribuna da manifestação, em Ho Chi Minh. 

Os EUA, durante os quatro anos seguintes, despejaram uma quantidade de bombas superior a que foi empregada em todas as batalhas da Segunda Guerra Mundial. No final de 1972 submeteram Hanói a 12 dias e noites de terror. Utilizaram armas químicas para destruir a capacidade alimentar dos vietnamitas e anular as forças guerrilheiras. Mas suas tropas estavam cada vez mais tomadas pelo medo e incapazes de defender suas posições territoriais.

Derrota norte-americana

Washington se viu forçado às negociações de Paris, que levariam à retirada de seus soldados em 1973. O regime de Saigon ficou por sua própria conta. Não permaneceu de pé por muito tempo. Em 1975, o Vietnã reconquistava sua unidade nacional e os comunistas venciam a mais duradoura guerra do século 20.

Os mortos vietnamitas, civis e militares, chegaram a três milhões, contra apenas 50 mil “sobrinhos” do tio Sam. Dois milhões de cidadãos, incluindo filhos e netos da geração do conflito, padecem de alguma deformação genética provocada pela dioxina, subproduto cancerígeno presente no agente laranja, fartamente empregado pelos norte-americanos. Além das perdas humanas, a economia do país foi quase levada à idade de pedra, como preconizava o general norte-americano Curtis LeMay.

General Do Xuan Cong (esquerda) e coronel Nguyen Van Bach (direita), líderes dos veteranos de guerra

Mas quem desfila a vitória, ainda assim, é o Vietnã. Os norte-americanos foram ocupar o mesmo lugar na galeria de fotos que japoneses e franceses, para não falar dos chineses: o de agressores colocados para correr. “Nossa estratégia se baseou em uma ideia simples: a da guerra de todo o povo”, enfatiza o general Công. “Não havia um centímetro de nosso território no qual os norte-americanos podiam ficar tranquilos. Eles perderam para o medo.”

Essas são águas passadas, porém. Das quais ficam lições, estímulos e valores, é certo, além de grandes livros, fotos e filmes. Mas não resolvem os desafios da paz. Os vietnamitas, nesses 35 anos, tiveram que cuidar de outro problema, para o qual a guerrilha e seus inventos não eram solução. Como alimentar e desenvolver uma nação tão pobre e destruída? Essa é a outra história do Vietnã indomável. 


.

120 anos - 1º Maio pelos direitos dos trabalhadores

 
Há 120 anos com a jornada do 1º de Maio pela consagração das 8 horas como horário de trabalho diário, tinha lugar a primeira grande acção internacional da classe operária. A primeira grande acção internacionalista dos operários contra a opressão e a exploração.

Pela primeira vez se contrapunha, à escala mundial, a unidade na acção da classe operária e do movimento dos trabalhadores contra a unidade da burguesia como classe. A classe operária tinha então percorrido um longo e doloroso caminho no seu processo de organização e auto-consciencialização política como força social autónoma. A palavra de ordem do Manifesto Comunista – «Proletários de todos os países, uni-vos» –, passava do campo dos apelos, ao campo das acções práticas.


Cabe a Marx a explicação da importância da redução do horário de trabalho na luta contra a exploração capitalista, cabe igualmente a Marx o mérito de ter defendido, em 1866, na I Internacional, conhecida como a Associação Internacional dos Trabalhadores, a limitação do horário de trabalho a 8 horas como condição prévia indispensável para a melhoria social em geral, e que era chegada a hora de se travar uma luta intensa por este objectivo. Desde então, a luta pela redução do horário de trabalho tornou-se na plataforma do movimento operário e sindical à escala internacional contra a exploração.


Mas o 1.º de Maio, embora ligado como símbolo à luta pela redução do horário de trabalho, tornou-se, com o desenvolvimento do movimento operário e sindical e da influência do marxismo à escala internacional, numa plataforma da unidade da luta económica e política.


Decorreu pouco mais de um século. A classe operária transformou-se num gigantesco exército, disputando o seu lugar na história através duma luta heróica que, com avanços e recuos, vitórias e derrotas, marca decisivamente o sentido e o conteúdo da evolução social.


Reflectindo a diversidade de situações, de estádios de desenvolvimento e de organização dos trabalhadores e das tarefas que se colocam em cada país, as jornadas do 1º de Maio tornaram-se num momento de luta à escala mundial pela melhoria das condições de vida, pela liberdade, pela paz e pelo socialismo. Uma jornada de luta emancipadora, contra todas as formas de opressão.


Foi através da luta intensa e de muitos sacrifícios que os trabalhadores conquistaram a redução do horário de trabalho e o direito a comemorar o 1º de Maio como o dia do Trabalhador. Uma luta que teve que enfrentar a acção unida das classes dominantes e dos seus aparelhos de dominação e repressivos. A reivindicação da redução do horário de trabalho haveria de traduzir-se numa forte oposição do patronato e dos seus representantes políticos, os quais não hesitaram recorrer à violência mais extrema com prisões, assassinatos, condenação e criminalização da luta reivindicativa e da organização de associações de classe, para conter a luta dos trabalhadores e manter os níveis de exploração do trabalho assalariado. Condenação e criminalização da luta que, passadas tantas décadas, ressurge de novo no sempre actual confronto de classes!


Mas, os que julgavam conseguir afogar em sangue a aspiração dos trabalhadores a uma vida digna e poderem construir uma vida livre de exploração, enganaram-se e enganam-se redondamente. Quando a 11 de Setembro de 1887, a burguesia americana cometeu o crime monstruoso condenando à morte 8 trabalhadores, que passaram à história como os «mártires de Chicago», as últimas palavras de Spie, um dos trabalhadores enforcados foi de que chegaria o tempo em que o silêncio deles seria mais eloquente do que os seus discursos.


Passado mais de um século, desde que foram proferidas estas palavras, o 1º de Maio, tornou-se uma luta universal, profundamente enraizada na consciência dos trabalhadores e de muitos milhões de pessoas, uma data símbolo da luta internacional contra todas as formas de exploração.


Nesse longo caminho, por vezes sinuoso, de sofrimento e de luta, mas também de conquista, a Revolução de Outubro e a construção do socialismo na Rússia foi, não só um acontecimento inspirador dos trabalhadores dos países capitalistas no seu combate contra a exploração, mas um elemento propulsor para a afirmação e conquista de direitos do mundo do trabalho e dos povos.


As transformações e realizações revolucionárias, a força do seu exemplo permitiram que noutros países, pela luta dos trabalhadores e das massas, se alcançassem importantes conquistas sociais, a construção do denominado Estado Social nos países capitalistas desenvolvidos, onde as classes dominantes receavam novas revoluções sociais.


Um processo que o século XX conhece e que se desenvolve e amplia com a derrota do nazi-fascismo e com a alteração da correlação de forças, resultante do alargamento e consolidação do campo socialista e da tomada de conhecimento e consciência de largas massas da existência dos caminhos da emancipação.


Foi perante a perspectiva da real possibilidade de concretização do socialismo, a luta e os processos de conquista social encetados pelo movimento operário político e social, que os representantes do capitalismo foram obrigados à cedência táctica de importantes direitos laborais e sociais que se traduziram em avanços civilizacionais no domínio da protecção social na doença, no desemprego e na velhice, no direito à saúde, à educação, nas condições de trabalho, nomeadamente na diminuição generalizada da jornada de trabalho, no reconhecimento no direito à organização e acção sindical em geral e nas empresas.


A Revolução de Abril, sendo a resposta do povo português à ditadura fascista e ao domínio do capital monopolista na vida dos portugueses, decorre desse amplo movimento que aspira a formas mais elevadas de emancipação social. Isso foi bem evidente nesse grandioso 1º. de Maio de 1974 que projectou a acção das grandes massas para o objectivo de profundas transformações políticas e sociais e ligou o projecto libertador ao da emancipação social e política dos trabalhadores, produzindo uma alteração qualitativa na natureza do 1º. de Maio no nosso país e que irá ter profundas repercussões na evolução da revolução portuguesa.


Aliás em Abril de 1974, lá no Sindicato dos Metalúrgicos como noutros sindicatos fundadores da CGTP, estávamos a preparar um grande 1º de Maio, proibido, para o Rossio, com panfletos que defendiam o direito à greve, o fim da guerra colonial e a liberdade.  


Aquele grande primeiro 1º de Maio teve uma participação espontânea mas já tinha uma ampla base organizada que vinha de longe.


Ainda sob a ditadura, as jornadas de luta do 1º. de Maio, por acção decisiva do PCP que assume um papel fundamental na sua organização, tiveram uma importância inquestionável na concretização da reivindicação da redução do horário de trabalho e na luta contra a ditadura e pela liberdade, nomeadamente na grande jornada de 1962 que mobilizou dezenas de milhar de trabalhadores, em diferentes zonas do país, e que pôs fim ao trabalho de sol a sol, com a conquista das 8 horas de trabalho nos campos.


A evolução da situação internacional e nacional, anos que nos separam da derrota do socialismo na URSS e nos outros países socialistas e a contra-ofensiva que desde então se desencadeou contra o mundo do trabalho, mostram bem quanto ilusórias eram as premissas em que assentavam o propagandeado e endeusado capitalismo de rosto humano, assente no seu modelo de “Estado Social”, hoje sujeito a acelerada degradação.


É certo que, desde finais dos anos 70 do século passado, a ofensiva neoliberal desencadeada pelo capitalismo, como resposta à sua profunda crise, mostrava já os seus propósitos de recuperar todas as parcelas de domínio perdido e repor os níveis anteriores de exploração do trabalho, senão aprofundá-los, mas a amplitude da ofensiva contra os direitos dos trabalhadores e as suas organizações projecta-se agora a um nível qualitativamente novo no ataque aos direitos e às condições de vida das massas. Uma ofensiva que só não tem ido mais longe, porque tem sido confrontada com a vigorosa luta dos trabalhadores e dos povos.


No novo quadro de relações de forças, alterado a favor do capital, o capitalismo deixa cair agora alguns dos disfarces com que pretendia encobrir a sua natureza exploradora e a social-democracia e os partidos socialistas, tal como no passado, assumem o papel de cúmplice do grande capital e de força de capitulação perante o programa neoliberal que passaram a assumir como seu em matérias centrais para garantir condições de vida dignas para os trabalhadores e os povos.


Esta contra-ofensiva do grande capital determinada pelas exigências de reprodução do capital e a obtenção do lucro máximo e que nestes últimos vinte anos redobrou na sua acção predadora, se conduziu à degradação generalizada das condições de vida e de trabalho de amplas massas, acabou também por levar ao agudizar e acentuar das próprias contradições do sistema de exploração, que se traduz na grave e profunda crise que o sistema capitalista enfrenta hoje.


Crise que é um rude golpe na fábula do capitalismo triunfante, de que seria capaz de dominar as suas contradições insanáveis e conter a acção destruidora inerente à sua própria evolução e a sua incapacidade para responder aos problemas dos trabalhadores e da humanidade.


Estas alterações no plano do capitalismo global, ampliaram e aceleraram os efeitos devastadores das políticas de recuperação capitalista no nosso país que os partidos da direita e o PS conduziram em anos sucessivos da sua acção governativa contra as conquistas de Abril, os direitos dos trabalhadores e do povo para promover uma escandalosa centralização e concentração da riqueza a favor do grande capital monopolista. 


Uma acção governativa que assumiu como suas as teses do capitalismo dominante de diabolização de tudo o que é público e de mercantilização dos direitos sociais; de estigmatização e desclassificação de todo o mundo de referências a um passado de conquistas sociais e que transfigurou os direitos sociais conquistados em privilégios, para impor o reino absoluto da flexibilidade, esse  mundo feito de precariedade e arbítrio.


São hoje bem visíveis as consequências desta política e das políticas que promoveram a desregulamentação financeira, as privatizações, a liberalização dos mercados, a livre economia de casino, em detrimento da produção real e das condições de vida dos trabalhadores e dos povos.


O desemprego crescente, o contínuo aumento da precariedade, a degradação da qualidade do emprego, a liquidação dos direitos laborais e sociais, a flexibilização e o aumento dos horários de trabalho, a desvalorização e liquidação da contratação colectiva, a desvalorização do valor dos salários e das reformas com o aumento da taxa de exploração do trabalho, acentuando as desigualdades sociais e fenómeno da pobreza e da exclusão social. Consequências que se alargam à liquidação do direito à saúde com a crescente degradação dos serviços públicos de saúde; à deterioração do sistema de protecção, ao direito a uma reforma digna e à protecção no desemprego e a todos os domínios da nossa vida colectiva.


É ver o que está a acontecer hoje mesmo com o país em resultado da desastrosa política de direita e da sua submissão aos ditames e à chantagem do mercado capitalista e do grande capital nacional e internacional. 


O país vive, neste momento, sobre uma intensa e perigosa operação de carácter especulativo dirigida a partir dos centros de decisão do grande capital que têm nas descredibilizadas agências de notação internacionais um dos seus principais instrumentos.


Não é excessivo afirmar que o capital financeiro "soltou os cães"! Essas agências que em plena crise, perante a especulação, as fraudes e os abusos, calaram! Essas agências que aplaudiram as formidáveis transferências de dinheiro dos Estados aumentando os seus défices.


Como predadores implacáveis que rapinam os recursos dos povos, o grande capital financeiro depois de ter absorvido incomensuráveis recursos públicos entregues por um poder político que o serve, lança agora um fortíssimo ataque contra a nossa economia visando apoderar-se de importantes recursos nacionais, estorquir milhões de euros dos nossos recursos por via da dívida, tornar mais dependente aquele que é hoje um dos mais dependentes países da União Europeia.


Perante este verdadeiro roubo feito a Portugal, o papel que PS e PSD (com o apoio do Presidente da República) se preparam para assumir é de participarem nessa operação, exigindo mais sacrifícios aos trabalhadores, não para resolver os problemas nacionais mas para entregar mais dinheiro aos especuladores.


Se existisse a vontade da Comissão Europeia e do Governo português a actual operação especulativa poderia ser interrompida desde já. Não é esse, contudo, o caminho que está a ser seguido.


A concertação entre PS e PSD, no seguimento dos entendimentos verificados sobre o Orçamento de Estado e sobre o PEC, não irá trazer nada de novo nem “acalmar os mercados”. Destina-se, isso sim, a aprofundar os aspectos mais negativos da política de desastre económico e social de que ambos têm sido responsáveis ao longo dos últimos 34 anos. Não se limitam a aceitar a chantagem do grande capital. Usam-na para dobrar a parada na exigência e aceleração de sacrifícios aos trabalhadores, aos que estão desempregados, aos reformados, aos pequenos e médios empresários. Chamam a isto missão patriótica. Como assim?


Quando se exigia uma nova política e uma enérgica tomada de posição contra as restrições da União Económica e Monetária, e a exigência do fim da especulação que estão a arrastar o país para o desastre, o que o grande capital reclama e o PS e PSD adoptam, são novos cortes nos salários, no subsídio de desemprego e noutras prestações sociais, o alargamento da jornada de trabalho, a privatização de serviços e empresas do Estado. E vamos ver o que mais, quando se sentirem em condições para isso!


Não podem por isso contar com o PCP para esta política. Contarão sim, com a nossa firme intervenção na denúncia destas medidas, contarão com o PCP na afirmação de uma política alternativa, na mobilização para a luta contra o PEC e a política de direita.


Hoje e passado 120 anos, as razões para comemorar o 1º. Maio mantêm-se actuais, porque tal como no passado se mantêm as condições de exploração do trabalho.


Hoje, tal como há mais de 100 anos o 1º de Maio continua a fazer sentido como jornada de luta pela exigência das reivindicações concretas dos trabalhadores, mas também como a grande manifestação de afirmação do projecto emancipador dos trabalhadores.


A evolução do capitalismo e a experiência de todos estes anos de combate pelos direitos dos trabalhadores, mostram quanto efémeras e inseguras são as conquistas dos trabalhadores, enquanto se mantiver o sistema de exploração.


Só o fim do capitalismo pode dar segurança e manter perenes os direitos sociais dos trabalhadores e dos povos.


Só a luta, a unidade e a organização dos trabalhadores tendo como objectivo a sua superação pode garantir a defesa e o alargamento das conquistas e criar as condições para uma alternativa política duradoura, onde o trabalho com direitos e o direito ao trabalho sejam um valor central e estruturante da nova sociedade liberta da exploração do homem pelo homem.


Num momento em que se agravam todos os problemas sociais e se desenha uma nova e violenta ofensiva que hipoteca o desenvolvimento, o emprego e as condições de vida dos trabalhadores e novas e mais agravadas condições de exploração, bem patentes no Programa de Estabilidade e Crescimento, na ordem do dia continua colocada a inadiável tarefa da ruptura e da mudança.


Ruptura com a política de direita e os paradigmas neoliberais das privatizações, das liberalizações a favor do grande capital e da desregulamentação do mercado de trabalho e da liquidação dos direitos.


Mudança no rumo do país com uma nova política patriótica e de esquerda, capaz de relançar o país na direcção do progresso e da justiça social.


Uma verdadeira política alternativa como aquela que o PCP propõe no seu Programa de Democracia Avançada para Portugal.


A resposta ao crescente agravamento da situação económica e social, de forma sustentada e coerente, a resposta aos grandes anseios das largas massas dos trabalhadores de garantia de emprego com direitos e uma vida melhor, exigem a realização desse Programa de ruptura e de mudança. Programa que o fracasso da política de direita e do capitalismo dominante, que estão na origem da crise que o país enfrenta, tornou ainda mais premente e actual.


O que Portugal precisa não é mais neoliberalismo disfarçado de capitalismo dito regulado, mas de uma coerente e firme política antimonopolista que assuma e garanta uma efectiva subordinação do poder económico do grande capital ao poder político, em nome dos reais interesses dos trabalhadores e do povo.


O que Portugal precisa não é de um Estado mínimo para as funções sociais, as tarefas do desenvolvimento económico e a promoção dos grandes interesses e dos grandes negócios do grande capital, mas de um Estado como o que defendemos no nosso Programa de Democracia Avançada para Portugal, que assegure as tarefas da realização de uma democracia política, económica, social e cultural que a Constituição da República consagra e projecta.


Um programa que tem como grandes objectivos a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e da população, a dinamização da actividade económica, do emprego, da defesa da produção nacional e dos sectores produtivos, o combate aos défices estruturais do país e a elevação das condições do desenvolvimento geral do país.


Um Programa que assume como um dos eixos essenciais de uma política alternativa a valorização do trabalho e dos trabalhadores, através de uma justa repartição da riqueza com a valorização dos salários e do seu poder de compra e o aumento do salário mínimo nacional, uma nova política fiscal para aliviar a carga sobre as classes laboriosas e a defesa do trabalho com direitos.


Um Programa com uma política de promoção de serviços públicos, nomeadamente um Serviço Nacional de Saúde de qualidade e uma Escola Pública que garanta a gratuitidade de todo o ensino e um sistema público e universal de Segurança Social fortalecido, na base de um novo sistema de financiamento que garanta a elevação das prestações sociais, das reformas e pensões.


No momento em que passam 120 anos sobre as primeiras manifestações do 1º Maio, entendendo o seu significado histórico, a sua evolução e a evolução da consciência de classe e política dos trabalhadores onde encontramos o PCP e a acção dos comunistas.


No longo percurso da sua luta, os trabalhadores cedo sentiram a exploração capitalista a que reagiram muitas vezes espontaneamente. Foram atingidos pelos despedimentos e pelo desemprego e, em certas situações, identificaram as novas máquinas mais produtivas como responsáveis por perderem os seus postos de trabalho e destruíram-nas, não vendo que o responsável era o capitalismo que os explorava e considerava peças descartáveis, Não tendo acesso a necessidades básicas criaram associações de socorros mútuos mas perceberam que não chegava, a exploração capitalista e os interesses antagónicos entre o trabalho e o capital levaram à criação dos sindicatos, organizações de classe para a defesa dos interesses dos trabalhadores no plano económico e social no confronto com os exploradores.


Neste percurso os trabalhadores portugueses construíram uma obra notável:- a CGTP-IN, o movimento sindical unitário, com as suas características distintivas de organização sindical de classe, unitária e de massas. A grande central sindical portuguesa, democrática e independente, que congrega os mais combativos sindicatos portugueses, a legítima herdeira e continuadora das tradições revolucionárias do 1º. de Maio. A grande, forte e ampla  central sindical dos trabalhadores portugueses que é o mais sólido baluarte e garantia da defesa dos interesses colectivos dos trabalhadores, contra a exploração. Neste ano que se assinala o 40º aniversário da CGTP-IN, mais uma vez reafirmamos o total empenhamento dos comunistas portugueses na defesa das suas características essenciais e para o seu necessário e imprescindível fortalecimento.


A criação de organizações de classe sindical foi um passo muito importante que levou o capital ao ataque aos sindicatos ou à criação de "sindicatos" amigos e colaborantes, mas os trabalhadores valorizando os seus sindicatos perceberam que não era suficiente, que era necessária a sua organização de classe no plano político, para disputar o poder político, para em todos o plano defender os seus interesses que se associam aos interesses de todas as camadas populares. E surge assim a necessidade do seu partido político.


Em Portugal, o Partido Comunista Português, com a sua natureza de Partido da classe operária e de todos os trabalhadores, é o que melhor defende os interesses e aspirações de todas as classes, camadas e sectores sociais anti-monopolistas. E aqui reafirmamos a nossa inabalável confiança nos trabalhadores portugueses, na sua luta e nas suas organizações de classe.
 
 
 
.
 
 

SÓ OS CÃES DE GUERRA DO IMPÉRIO E QUE NÃO CONSEGUEM SUPERAR O CULTO A PERSONALIDADE NÃO ENXERGAM O ÓBVIO

Aqui do Alto Xingu, os índios consideram visões mais abertas e íntegras as que vêem o óbvio, ou seja, que Cuba não tem condições de abrir o regime e convocar eleições livres em pleno estado de guerra que os Estados Unidos, desde 1961, mantem com o país, configurado pelo embargo, bloqueio econômicos — reiteradas vezes condenados pela ONU como atentado aos direitos humanos do povo cubano — e pela guerra secreta — sabotagens, tentativas de assassinatos e outras ações terroristas, empreendidas durante cinco décadas por organismos secretos-norteamericanos e pela máfia cubana de extrema direita de Miami, que apoiou decisivamente o golpe da eleição presidencial norte-americana de 2002.

 Ao longo dessas cinco décadas até 2008 ocorreram 713 atos de terrorismo na ilha, que vão de sequestros e explosões de aviões, navios mercantes e de passageiros e barcos de pesca e de patrulha a bombardeio de plantações, armazéns, usinas energéticas e indústrias e até a contaminação das exportações de açúcar nos portos, organizados e financiados a partir do território norte-americano e países satélites do Caribe, com um saldo de 3.478 mortos e 2.099 incapacitados, sem mencionar a explosão em pleno vôo de um avião de passageiros da companhia Cubana de Aviación, em outubro de 1976, que matou 76 pessoas, o ataque contra o Hotel Guitart, em Cayo Coco, contra o Hotel Meliá las Americas, em Varadero, estes ultimos visando prejudicar o fluxo de turistas para a ilha, bem como as mais de vinte e cinco tentativas de assaassinar/envenenar o Premier local.

 O resultado disso foi a produção de milhares de vítimas entre a população, que sofreu as piores consequências da guerra encoberta e não declarada contra o governo local, daí resultando a proliferação de hepatite e outras enfermidades, como pancreatite, febre tifóide, varicela, gripe, disenteria, difteria além da morte por insuficiência de milhares de nascituros colocados em incubadoras.

 Os bem informados do blog deveriam saber que a crise dos mísseis em 1962, resultante do bloqueio naval da ilha, resultou puramente da estratégia eleitoreira do então Presidente norte-americano. Como disse Luiz Alberto Moniz Bandeira, em seu livro: “De Martí a Fidel: A Revolução Cubana e a América Latina”: “Ele (Kennedy), contudo, colocou o mundo à beira do holocausto com o objetivo de obter ganhos na política interna dos Estados Unidos, para que o Partido Democrático fizesse a maioria do Congresso nas eleições de novembro, e compensar a humilhação que sofrera com a derrota na Baía dos Porcos…” Ainda, logo adiante, acrescenta o autor: “A política interna – John Kenneth Galbraith, embaixador dos Estados Unidos na Índia àquela época, reconheceu – foi o fator mais importante na decisão de impor o bloqueio naval a Cuba.”

 A propósito dos refugiados nas embaixadas e consulados, a representação local do Uruguai a eles se referiu como “a maioria da pior espécie”; na do Brasil, onde foram com eles encontrados armamentos pesados, o embaixador Sebastian Pinto referiu-se a eles igualmente como “…muitos dos quais são da pior espécie”, um dos quais já havia assassinado outro a pauladas dentro da própria embaixada brasileira, a ponto do embaixador haver solicitado ao Itamaraty o envio de policiais brasileiros: “Por absurdo que possa parecer todos corremos neste momento grave perigo de vida.” Os supostos dissidentes já haviam assassinado um Conselheiro da embaixada do México, já haviam cometido três assassinatos na embaixada do Equador, dois na do Uruguai e dois na do Brasil.

 Apesar dessas agressões, o governo da ilha, mesmo depois do bloqueio naval decorrente da crise dos mísseis de 1962, libertou 1.113 prisioneiros capturados durante a invasão da Baía dos Porcos e autorizou e facilitou a partida para os Estados Unidos de cerca de 1.000 parentes dos invasores, como libertou numerosos presos políticos, inclusive condenados a longas penas.

Em entrevista a Lisa Howard, da cadeia de televisão norte-americana ABC, o Premier manifestou, em 10.5.1963, a disposição de negociar a indenização das empresas norte-americanas expropriadas, como a seguir uma poilítica de paz “para com todos os países da América Latina.” A reação do Império foi aprovar, em 19.6.1963 um novo programa de sabotagens contra os maiores segmentos da economia da ilha, com o propósito de provocar o descontentamento contra o governo local. O fato é que o Império não queria que a ilha fosse um “case” de sucesso do socialismo na América Latina

 As visões mais abertas e integras não perceberam que o próprio presidente norte-americano à época fora assassinado pela Máfia local, em conluio com os refugiados cubanos e empresários da extrema direira norte-americana, sem descartar a colaboração de serviços secretos locais, inconformados com a postura daquele ex-presidente por ocasião da invasão da Baía dos Porcos e da crise dos míssseis. À época, a mídia militante servil ao Império divulgou boato de que o assassinato havia sido tramado pelo Premier da pequena ilha, numa tentativa de levantar o clamor da opinião pública em favor da invasão.

 Outro inaceitável para o Império foi o ex-presidente do Chile, eleito em 1970, mas cuja deposição foi decidida nessa ocasião e executada posteriormente em setembro de 1973, juntando-se, assim, com sua morte, aos assassinatos e deposição de outros dirigentes como Patrice Lumumba, Kwame Nkruma, Suharto, Goulart, etc. etc…

 Os esquecidos da História deveriam recordar que, em 1979, tal como fiozera em 1965, o Premier da ilha abriu o porto de Mariel para que cerca de 40.000 pessoas saíssem do país, fato que alarmou o governo norte-americano, pois muitos “soi-disant” dissidentes eram ladrões e criminosos comuns, libertados então da prisões, circunstância que levou o governo norte-americano a despachar em missão secreta à ilha um emissário para negociar – pasmem blogueiros – o retorno à ilha dos criminosos despachados para a Flórida. O Império agora recusava a abrigar os refugiados…

 De outro lado, os iluminados do blog deveriam ter visto também as 152 execuções que o então governador do Texas, e antecessor do atual Presidente, executou durante seus seis anos de governo, mais do que qualquer outro governador na história dos Estados Unidos, país que possui o maior número de prisioneiros em todo o planeta, sem mencionar as 740 bases militares ao redor do mundo e os centros de tortura terceirizados pelo Mundo, a fim de garantir a ferro e fogo a hegemonia do Império.

 Os bloguistas com visão imparcial deveriam ter estudado melhor História para perceber que, desde o início dos anos 1960, os sabotadores pretendem transformar as embaixadas e consulados estrangeiros como base de operações para seus ataques de sabotagem, conforme informou o Embaixador brasileiro Sebastian Pinto àquela época: “Por absurdo que pareça, eu mesmo fui sondado sobre a possibilidade de garantir, previamente, asilo aos que participassem de campanha de sabotagem.”

 As visões mais abertas e integras não notaram que, em 2008, apesar desse cerco de ferro, o regime cubano, em 2008, comutou todas as condenações à morte, transformadas em prisão perpétua ou por 30 anos, com exceção das que foram ditadas contra três pessoas culpadas de atos de terrorismo. Na ocasião, dissde Raul Castro, “no podemos desarmarnos frente a um imperio que no cessa de acosarnos y agredirnos. El terrorismo contra Cuba ha gozado de total impunidad en los Estados Unidos. Se trata de um verdadeiro terrorismo de Esdtado.

Quem quiser saber um pouco mais, basta ler o livro “De Martí a Fidel: A Revolução Cubana e a América Latina”, de Luiz Alberto Moniz Bandeira, começando pela leitura da reprodução, ao final do
livro, de documentos oficiais secretos, do governo norte-americano, recentemente liberados, dando conta da engendração de vários pretextos que justificassem a invasão de Cuba pelas forças armadas norte-americanas, como parte de um plano secreto para derrubar Castro, que incluíam a promoção de atentatos terroristas em Miami, a simulação de assassinatos de exilados cubanos nos Estados Unidos, a encenação de um ataque à base naval de Guantánamo, a explosão de um avião norte-americano, etc, naquilo que James Bamford, em seu livro “Body of Secrets” descreveu como “the most corrupt plan ever created by the U.S. government”.

 Aqui do Alto Xingu, os índios jamais assistiram a essas preocupações humanitárias cínicas e hipócritas do partido militante da midia neoliberal e de seus subintelectuais midiáticos, tipo Merval, Mainardi, et caterva:

a) ao longo dos quase 30 anos da sanguinária ditadura de Batista — que apenas nos seus últimos sete anos assassinou cerca de 20 mil pessoas –, patrocinada pelo Império até a sua queda em 1958, período em que cerca de 1,5% dos proprietários de terra, nacional ou estrangeiros, possuíam 46% da área do país, e cerca de 70% apenas 12%;
b) ao longo de quase um século que o Império mantem na ilha, à revelia do povo e governo locais, uma base aero-naval para controlar os países do Caribe, a rota do Canal do Panamá e o Norte da América do Sul;
c) quando, em 1959, o Império decidiu impor o bloqueio econômico da ilha — lançando-a virtualmente nos braços da União Soviética — fazendo com que, do dia para a noite, perdesse um mercado que absorvia 65% de suas exportações — quando estas representavam 30% do PIB — e que lhe fornecia cerca de 60% de suas importações, medida essa retaliada pelos novos dirigentes com a nacionalização das empresas do Império;
 d) quando, desde 1960, o Império decidiu informalmente recrutar e treinar dissidentes, inclusive com o apoio da Máfia, para futuras operações de guerra na ilha, política que se tornou oficial a partir de 1961, com o firme propósito de derrubar o regime ali vigente, do que resultou a morte de milhares de habitantes, que sofreram as piores consequências da guerra não declarada e do bloqueio econômico;
 e) quando, naquele ano, o Império aconselhou suas empresas petrolíferas na ilha a não refinarem o petróleo que o novo governo fora forçado a importar do Leste europeu, pressão exercida também sobre os armadores Onassis e Niachos para não fornecerem navios-tanques para seu transporte;
 f) quando o férreo bloqueio da ilha foi ainda apertado por ocasião da débâcle dos países do Leste europeu, os quais constituíam a principal alternativa de comércio para a ilha (80% de seu comércio exterior era com aquela região): o poder aquisitivo caiu 60% e as necessidades de racionamento sequer davam para atender as necessidades de sustento das famílias (o fornecimento de petróleo e derivados desapareceu, parando fábricas e instalações energéticas);
g) quando, em decorrência do bloqueio genocida — destinado a vingar a única derrota do Império na América Latina, na fracassada tentativa de invasão da Baía dos Porcos — a queda do PIB atingira cerca de 35%, em 1989, gerando a falta de antibióticos, de artigos de limpesa e antiviróticos, o que causou grande número de mortes por infecções e ataques de vírus;
h) quando o efêmero governo golpista da Venezuela ordenou, em 2002, a interrupção do fornecimento de petróleo à ilha, atendendo aos interesses do Império, que pretendiam sufocar a pequena ilha;
i) quando mafiosos sequestraram e levaram para o Império um menino, onde o mantiveram por sete meses, até que a Corte Suprema ordenasse a devolução da criança ao pai, que vivia na ilha;
j) quando um governo de um pequeno país, vítima de ataques e sabotagens de toda espécie, não se vê em condições de baixar a guarda em pleno estado de guerra que o Império lhe impôs desde 1961; e
k) quando, desde 1960 até fins de 1908, ocorreram 713 atos de terrorismo na ilha, 56 dos quais a partir de 1990, organizados e financiados a partir do Império, com um saldo de 3.478 mortos e 2.099 incapacitados, sem mencionar as dezenas de milhares de mortos e mutilados vítimas do genocídio representado pelo bloqueio econômico ao longo de meio século.

 Só os néscios, os hipócritas e os cínicos se recusam a reconhecer o esforço inaudito e heróico que o povo dessa pequena ilha faz para manter sua soberania, quando se sabe que conta com minúscula população, de apenas 11,2 milhões de habitantes, mas decididamente imbuída de imenso patriotismo, a ponto de cerca de a metade estar armada para sua defesa, frente a um Império, ao lado, com quase 300 milhões de habitantes , PIB de US$ 14 trilhões e uma capacidade de destruir o planeta mais de 10 mil vezes;

 Só os fariseus e cães de guarda do Império não enxergam o ÓBVIO: frente à agressão diuturna do bloqueio econômico, financeiro e militar imposta pelo Império à pequena ilha – que configura flagrante atentado aos direitos humanos de seu povo e fulgurante violação de leis internacionais – seu regime, por uma questão elementar de defesa da soberania, não pode ser uma democracia à moda Suíça, Filandesa ou Suéca, e que, por isso, cerca de 5,5 milhões de seus habitantes estão armados.

Não pergunte por quem os sinos dobram.
Eles dobram por nós”
(John Done)


.

27 de abr de 2010

O aniversário do nascimento de Lenine

O 140º aniversário do nascimento de Lenine decorreu em 22 de Abril de 2010. Deve-se ao diário alemão Junge Welt ter chamado a atenção para esta data: eu próprio contribuí para isso com um artigo reproduzido no meu blog . Mas como a ideologia dominante (mesmo à "esquerda") gosta de opor Gandhi, campeão da não-violência, a Lenine, dedicado ao culto da violência, chamo a atenção do leitor para duas pequenas páginas do meu livro  que demonstram algo radicalmente diferente. Por ocasião do primeiro conflito mundial, Gandhi orgulha-se de ser o "recrutador chefe" ao serviço do exército britânico e celebra as virtudes da vida militar. Qual é, em contrapartida, a atitude assumida pelo grande revolucionário russo? 


Com o desencadeamento da guerra, ainda que partindo de posições bastante diferentes, Lenine presta homenagem aos círculos do "pacifismo inglês" e em particular a E. D. Morel, um "burguês excepcionalmente honesto e corajoso", membro da Associação contra a conscrição e autor de um ensaio que desmascara a ideologia "democrática" da guerra brandida pelo governo britânico. Neste momento, o dirigente bolchevique encontra-se bem mais próximo do pacifismo do que Gandhi, situado em posições anti-téticas.

Constrangido a verificar que, apesar das propostas de pacifismo combativo expressas na véspera da guerra, mesmo o movimento socialista acabou em grande parte por se acomodar à carnificina e à união sagrada patriótica destinada a legitimá-la, Lenine nota com desgosto a "imensa confusão", a "imensa crise provocada pela guerra mundial no socialismo europeu" e exprime uma "profunda amargura" pela "bacanal de chauvinismo" que grassa doravante. Sim, "a confusão foi grande" junto àqueles que viam na Segunda Internacional um vislumbre de esperança contra o ódio chauvinista e o furor belicista. Neste sentido, "a coisa mais entristecedora da crise actual é a vitória do nacionalismo burguês", é a atitude de adesão ou de submissão ao banho de sangue; sim, "mais que os horrores da guerra", ainda mais mesmo do que a "carnificina", aquilo que é dolorosamente ressentido são "os horrores da traição perpetrada pelos chefes do socialismo contemporâneo" que, engolindo seus compromissos anteriores, contribuem activamente para a legitimação da violência guerreira, para o retorno à barbárie cultural geral e para o envenenamento dos espíritos. "O imperialismo jogou os destinos da civilização europeia" e pôde fazer isso servindo-se da cumplicidade daqueles que estavam destinados a fazer valor as razões da paz e da coabitação entre os povos.

Para confirmar a sua análise, Lenine cita in extenso a declaração difundida por círculos cristãos de Zurique, os quais exprimem a sua consternação face a uma vaga chauvinista e belicista que não encontra obstáculos: "Mesmo a grande internacional operária [...] extermina-se reciprocamente nos campos de batalha". Cinco anos antes, em 1909, em oposição à "bancarrota" do "ideal do imperialismo" belicista, Kautsky havia celebrado "a imensa superioridade moral" do proletariado (e do movimento socialista), o qual "odeia a guerra com todas as suas forças" e "fará tudo para impedir que as paixões militaristas ganhem terreno". Este precioso capital de "superioridade moral" verifica-se agora que está completamente dissipado. Se, pelo menos na sua primeira fase, a guerra e a participação na guerra configuram-se, no quadro de uma ideologia à qual mesmo o primeiro Gandhi não é estranho, como uma espécie de plenitudo temporum no plano moral (pela motivação espiritual e a fusão comunitárias que implicam), aos olhos de Lenine a explosão do conflito fratricida (que também lacera a própria classe operária) aparece em contraste como alguma coisa semelhante à "época da culpabilidade reconhecida": utilizo aqui a expressão que Lukacs retoma de Fichte em 1916, ao passo que ele é dilacerado por um profundo trabalho destinado a concluir, na vaga de protestos contra a imensa carnificina, com a sua adesão à Revolução de Outubro. Evidentemente, o revolucionário russo é demasiado laico para recorrer a uma linguagem teológica. E, contudo, a substância não muda: para além da indignação política, a explosão da guerra provoca nele uma consternação moral.

A esperança, moral antes mesmo de política, parece renascer graças uma fenómeno que poderia talvez avariar a máquina infernal da violência: é a "confraternização entre soldados de nações beligerantes, até nas trincheiras". Esta novidade aprofundou contudo a divisão do movimento socialista, que já se manifestar com a explosão da guerra. Em contraposição ao "ex-socialista" Plekhanov, o qual assimila a confraternização à "traição", Lenine escreve: "Está bem que os soldados maldigam a guerra. Está bem que exijam a paz". No "programa da continuação da carnificina" formulado pelo governo provisório russo, do qual também fazem parte "ex-socialistas", Lenine responde: "A confraternização numa frente pode tornar-se confraternização em todas as frentes. O armistício de facto numa frente pode e deve tornar-se armistício em todas as frentes".

É verdade, a confraternização constitui para os bolcheviques um momento essencial da estratégia visando o abate do sistema social responsável pelo massacre e portanto a transformação da guerra em revolução. Mas esta passagem é tornada inevitável pelas "ordens draconianas" com as quais os dois campos opostos enfrentam a confraternização. E é uma passagem que, desde o princípio do gigantesco conflito, é imaginada e de certa forma invocada também pelos círculos cristãos suíços que Lenine opõe positivamente aos socialistas convertidos às razões do chauvinismo e da guerra. O revolucionário russo chama a atenção em particular para isto:

"Se a miséria se torna demasiado grande, se o desespero toma a dianteira, se o irmão reconhece seu irmão sob o uniforme inimigo, talvez factos ainda totalmente inesperados se produzam, talvez as armas retornem contra aqueles que incitam a guerra, talvez os povos, aos quais foi imposto o ódio, subitamente os esqueçam, unindo-se".

Não parece que Gandhi se tenha ocupado do fenómeno da confraternização, o qual de qualquer forma está em contraste com o seu empenho em recrutar soldados e carne de canhão para o governo de Londres. 


O original encontra-se em domenicolosurdo.blogspot.com . A versão em francês encontra-se em http://www.legrandsoir.info/Anniversaire-de-la-naissance-de-Lenine.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/



.

Serra distribuirá as terras da Kátia Abreu?


Em recente entrevista ao Jornal do SBT, o demotucano José Serra falou mais duas besteiras. No figurino “Serrinha paz e amor”, ele prometeu: “Eu quero a reforma agrária pra valer, com gente produzindo melhor, cada vez mais e com terra”. Na sequência, tirando a máscara e assumindo o seu estilo brucutu, ele rosnou: “O MST vive de dinheiro governamental. Eu acho que a reforma agrária para o MST é pretexto. Trata-se de um movimento político, com finalidades políticas”.

Quanto à “reforma agrária pra valer”, o seu cinismo é de arrepiar. Afinal, o ex-governador nunca fez nada para distribuir terras em São Paulo. Pelo contrário: sempre apoiou os latifundiários e os grileiros, como o ricaço Sr. Cutrale que surrupiou terras públicas no interior paulista. A marca do seu lamentável reinado foi a da pura repressão aos movimentos que lutam pela reforma agrária. Tanto que ele é o presidenciável dos sonhos dos barões do agronegócio e das entidades ruralistas.

Rodeado de direitistas fanáticos

Além disso, José Serra se cercou de renomados direitistas, que negam a importância da reforma agrária e odeiam os movimentos sociais do campo. O coordenador de programa da sua campanha presidencial será Xico Graziano, que foi assessor do ex-presidente FHC e presidiu o Incra. Ele ficou famoso por afirmar, em alto e bom som, que “a reforma agrária é um atraso”, e por atacar sem piedade o MST. Para Graziano, as lideranças deste movimento praticam “banditismo rural”, “botam medo no Estado” e são “justiceiros, que invocam cânones divinos e arrebentam cercas”.

Outro reacionário convicto que terá papel de destaque na campanha presidencial do demotucano é Marcelo Garcia. Ele é um quadro do DEM e deixou sua agência de publicidade para cuidar da imagem do tucano. “Estou deslocado pelos Democratas para trabalhar no programa de governo do candidato José Serra”, informou. Antes de sair, o publicitário ajudou a criar uma campanha na internet da ONG fascista “Vamos tirar o Brasil do Vermelho”, em parceria com a Confederação Nacional da Agricultura (CNA). O sítio ainda não foi ao ar, talvez para evitar constrangimentos.

A grileira como vice-presidente

Prova maior do cinismo de José Serra, porém, é que sua candidata a vice-presidente poderá ser a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), atual presidente da CNA. Se o demotucano quisesse, de fato, realizar a “reforma agrária pra valer”, ele poderia começar propondo a desapropriação das terras griladas pela “musa da extrema-direita”. Segundo reportagem da Carta Capital, ela teria integrado a quadrilha que tomou 105 mil hectares de terras de 80 famílias de camponeses no município de Campos Lindos (TO). Ela e o irmão grilaram 2,4 mil hectares, desembolsando R$ 8 por hectare.

Ainda segundo a denúncia, as suas duas fazendas são improdutivas. Kátia Abreu também é alvo de ação civil do Ministério Público na Justiça de Tocantins por descumprir o Código Florestal e desrespeitar os povos indígenas. Ela ainda é acusada de desviar R$ 650 mil dos cofres da CNA para financiar a sua campanha ao Senado – o que é ilegal. Por estes e outros crimes, nada mais justo do que José Serra propor a desapropriação de suas terras. Será que o candidato demotucano está disposto a cumprir a sua promessa de fazer a “reforma agrária pra valer?”.

Criminalização dos movimentos sociais

Já no que se refere aos ataques ao MST, José Serra revelou mais uma vez a sua brutal conversão direitista. Até hoje a Justiça não comprovou o uso de “dinheiro governamental” pelo movimento. O candidato deveria ficar mais preocupado com as apurações sobre desvio de recursos públicos da CNA, que podem demolir sua sondada candidata à vice. Quanto ao MST ser um “movimento político”, qual o problema? Vai acionar a repressão? Ou só a CNA e outras entidades de direita podem fazer política? Na prática, o presidenciável tucano revela a sua aversão à democracia.

Para Gilmar Mauro, membro da direção nacional do MST, a entrevista de José Serra ao Jornal do SBT só revelou todo o seu reacionarismo. “Como é que um governador que perseguiu e mandou a polícia bater nos professores, que se recusou a recebê-los para negociar, pode se considerar um democrata?”. Ele lembra que durante sua gestão, Serra sempre agiu com violência contra o MST. “O que ele fez foi fechar escolas em assentamentos. Esse é o tratamento que o democrata Serra destinou à questão agrária e à educação das crianças, dos filhos dos trabalhadores rurais”.

Ainda segundo o líder do MST, o ex-governador também não tem moral para falar em reforma agrária. “Antes de falar, Serra deveria fazer. Enquanto esteve à frente do governo de São Paulo, ele não realizou um único assentamento. E olhe que o estado tem mais de um milhão de hectares de terras que poderiam ser destinadas a este fim”. Para Gilmar Mauro, o candidato demotucano é a expressão maior do autoritarismo, que visa criminaliza os movimentos sociais do campo para defender os interesses dos barões do agronegócio.

FONTE: MST

.

26 de abr de 2010

Em entrevista, blogueira Yoani Sánchez não explica suas contradições

Ferrenha opositora do regime cubano, a blogueira Yoani Sánchez concedeu uma entrevista ao jornalista francês Salim Lamranium, na qual cai em contradição diversas vezes. Especialista em assuntos relacionados à ilha, ele conseguiu colocá-la contra a parede e expor a fragilidade dos argumentos da cubana. Veja abaixo.

Yoani Sánchez é a nova personalidade da oposição cubana. Desde a criação de seu blog, Generación Y, em 2007, obteve inúmeros prêmios internacionais: o prêmio de Jornalismo Ortega y Gasset (2008), o prêmio Bitacoras.com (2008), o prêmio The Bob's (2008), o prêmio Maria Moors Cabot (2008) da prestigiada universidade norte-americana de Colúmbia. Do mesmo modo, a blogueira foi escolhida como uma das 100 personalidades mais influentes do mundo pela revista Time(2008), em companhia de George W. Bush, Hu Jintao e Dalai Lama.

Esta impressionante avalanche de distinções simultâneas suscitou numerosas interrogações, ainda mais considerando que Yoani Sánchez, segundo suas próprias confissões, é uma total desconhecida em seu próprio país. Como uma pessoa desconhecida por seus vizinhos - segundo a própria blogueira - pode integrar a lista das 100 personalidades mais influentes do ano?

Um diplomata ocidental próximo desta atípica opositora do governo de Havana havia lido uma série de artigos que escrevi sobre Yoani Sánchez e que eram relativamente críticos. Ele os mostrou à blogueira cubana, que quis reunir-se comigo para esclarecer alguns pontos abordados.
O encontro com a jovem dissidente de fama controvertida não ocorreu em algum apartamento escuro, com as janelas fechadas, ou em um lugar isolado e recluso para escapar aos ouvidos indiscretos da "polícia política". Ao contrário, aconteceu no saguão do Hotel Plaza, no centro de Havana Velha, em uma tarde inundada de sol. O local estava bem movimentado, com numerosos turistas estrangeiros que perambulavam pelo imenso salão do edifício majestoso que abriu suas portas no início do século 20.
Yoani Sánchez vive perto das embaixadas ocidentais. De fato, uma simples chamada de meu contato ao meio-dia permitiu que combinássemos o encontro para três horas depois. Às 15h, a blogueira apareceu sorridente, vestida com uma saia longa e uma camiseta azul. Também usava uma jaqueta esportiva, para amenizar o relativo frescor do inverno havanês.
Foram cerca de duas horas de conversa ao redor de uma mesa do bar do hotel, com a presença de seu marido, Reinaldo Escobar, que a acompanhou durante uns vinte minutos antes de sair para outro encontro. Yoani Sánchez mostrou-se extremamente cordial e afável e exibiu grande tranquilidade. Seu tom de voz era seguro e em nenhum momento ela pareceu incomodada. Acostumada aos meios ocidentais, domina relativamente bem a arte da comunicação.

Esta blogueira, personagem de aparência frágil, inteligente e sagaz, tem consciência de que, embora lhe seja difícil admitir, sua midiatização no Ocidente não é uma causalidade, mas se deve ao fato de ela preconizar a instauração de um "capitalismo sui generis" em Cuba.

O incidente de 6 de novembro de 2009

Comecemos pelo incidente ocorrido em 6 de novembro de 2009 em Havana. Em seu blog, a senhora explicou que foi presa com três amigos por "três robustos desconhecidos" durante uma "tarde carregada de pancadas, gritos e insultos". A senhora denunciou as violências de que foi vítima por parte das forças da ordem cubanas. Confirma sua versão dos fatos?

Efetivamente, confirmo que sofri violência. Mantiveram-me sequestrada por 25 minutos. Levei pancadas. Consegui pegar um papel que um deles levava no bolso e o coloquei em minha boca. Um deles pôs o joelho sobre meu peito e o outro, no assento dianteiro, me batia na região dos rins e golpeava minha cabeça para que eu abrisse a boca e soltasse o papel. Por um momento, achei que nunca sairia daquele carro.

O relato, em seu blog, é verdadeiramente terrorífico. Cito textualmente: a senhora falou de "golpes e empurrões", de "golpes nos nós dos dedos", de "enxurrada de golpes", do "joelho sobre o [seu] peito", dos golpes nos "rins e [...] na cabeça", do "cabelo puxado", de seu "rosto avermelhado pela pressão e o corpo dolorido", dos "golpes [que] continuavam vindo" e "todas essas marcas roxas". No entanto, quando a senhora recebeu a imprensa internacional em 9 de novembro, todas as marcas haviam desaparecido. Como explica isso?

São profissionais do espancamento.

Certo, mas por que a senhora não tirou fotos das marcas?

Tenho as fotos. Tenho provas fotográficas.

Tem provas fotográficas?

Tenho as provas fotográficas.

Mas por que não as publicou para desmentir todos os rumores segundo os quais a senhora havia inventado uma agressão para que a imprensa falasse de seu caso?

Por enquanto prefiro guardá-las e não publicá-las. Quero apresentá-las um dia perante um tribunal, para que esses três homens sejam julgados. Lembro-me perfeitamente de seus rostos e tenho fotos de pelo menos dois deles. Quanto ao terceiro, ainda não está identificado, mas, como se tratava do chefe, será fácil de encontrar. Tenho também o papel que tirei de um deles e que tem minha saliva, pois o coloquei na boca. Neste papel estava escrito o nome de uma mulher.

Certo. A senhora publica muitas fotos em seu blog. Para nós é difícil entender por que prefere não mostrar as marcas desta vez.

Como já lhe disse, prefiro guardá-las para a Justiça.

A senhora entende que, com essa atitude, está dando crédito aos que pensam que a agressão foi uma invenção.

É minha escolha.

No entanto, até mesmo os meios ocidentais que lhe são mais favoráveis tomaram precauções oratórias pouco habituais para divulgar seu relato. O correspondente da BBC em Havana, Fernando Ravsberg, por exemplo, escreve que a senhora "não tem hematomas, marcas ou cicatrizes". A agência
France Presse conta a história esclarecendo com muito cuidado que se trata de sua versão, sob o título "Cuba: a blogueira Yoani Sánchez diz ter sido agredida e detida brevemente". O jornalista afirma, por outro lado, que a senhora "não ficou ferida".
Não quero avaliar o trabalho deles. Não sou eu quem deve julgá-lo. São profissionais que passam por situações muito complicadas, que não posso avaliar. O certo é que a existência ou não de marcas físicas não é a prova do fato.

Mas a presença de marcas demonstraria que foram cometidas violências. Daí a importância da publicação das fotos.

O senhor deve entender que tratamos de profissionais da intimidação. O fato de três desconhecidos terem me levado até um carro sem me apresentar nenhum documento me dá o direito de me queixar como se tivessem fraturado todos os ossos do corpo. As fotos não são importantes porque a ilegalidade está consumada. A precisão de que "me doeu aqui ou me doeu ali" é minha dor interior.

Sim, mas o problema é que a senhora apresentou isso como uma agressão muito violenta. A senhora falou de "sequestro no pior estilo da Camorra siciliana".

Sim, é verdade, mas sei que é minha palavra contra a deles. Entrar nesse tipo de detalhes, para saber se tenho marcas ou não, nos afasta do tema verdadeiro, que é o fato de terem me sequestrado durante 25 minutos de maneira ilegal.

Perdoe-me a insistência, mas creio que é importante. Há uma diferença entre um controle de identidade que dura 25 minutos e violências policiais. Minha pergunta é simples. A senhora disse, textualmente: "Durante todo o fim de semana fiquei com a maçã do rosto e o supercílio inflamados." Como tem as fotos, pode agora mostrar as marcas.

Já lhe disse que prefiro guardá-las para o tribunal.

A senhora entende que, para algumas pessoas, será difícil acreditar em sua versão se a senhora não publicar as fotos.
Penso que, entrando nesse tipo de detalhes, perde-se a essência. A essência é que três bloggers acompanhados por uma amiga dirigiam-se a um ponto da cidade que era a Rua 23, esquina G. Tínhamos ouvido falar que um grupo de jovens convocara uma passeata contra a violência. Pessoas alternativas, cantores de hip hop, de rap, artistas. Eu compareceria como blogueira para tirar fotos e publicá-las em meu blog e fazer entrevistas. No caminho, fomos interceptados por um carro da marca Geely.

Para impedi-los de participar do evento?
A razão, evidentemente, era esta. Eles nunca me disseram formalmente, mas era o objetivo. Disseram-me que entrasse no carro. Perguntei quem eles eram. Um deles me pegou pelo pulso e comecei a ir para trás. Isso aconteceu em uma zona bastante central de Havana, em um ponto de ônibus.

Então havia outras pessoas. Havia testemunhas.
Há testemunhas, mas não querem falar. Têm medo.

Nem mesmo de modo anônimo? Por que a imprensa ocidental não as entrevistou preservando seu anonimato, como faz muitas vezes quando publica reportagens críticas sobre Cuba?
Não posso lhe explicar a reação da imprensa. Posso lhe contar o que aconteceu. Um deles era um homem de uns cinquenta anos, musculoso como se tivesse praticado luta livre em algum momento da vida. Digo-lhe isso porque meu pai praticou esse esporte e tem as mesmas características. Tenho os pulsos muito finos e consegui escapar, e lhe perguntei quem era. Havia três homens além do motorista.

Então havia quatro homens no total, e não três.
Sim, mas não vi o rosto do motorista. Disseram-me: "Yoani, entre no carro, você sabe quem somos." Respondi: "Não sei quem são os senhores." O mais baixo me disse: "Escute-me, voce sabe quem sou, você me conhece." Retruquei: "Não, não sei quem é você. Não o conheço. Quem é você? Mostre-me suas credenciais ou algum documento." O outro me disse: "Entre, não torne as coisas mais difíceis." Então comecei a gritar: "Socorro! Sequestradores!"

A senhora sabia que se tratava de policiais à paisana?
Imaginava, mas eles não me mostraram seus documentos.

Qual era seu objetivo, então?
Queria que as coisas fossem feitas dentro da legalidade, ou seja, que me mostrassem seus documentos e me levassem depois, embora eu suspeitasse que eles representavam a autoridade. Ninguém pode obrigar um cidadão a entrar em um carro particular sem apresentar suas credenciais. Isso é uma ilegalidade e um sequestro.

Como as pessoas no ponto de ônibus reagiram?
As pessoas no ponto ficaram atônitas, pois "sequestro" não é uma palavra que se usa em Cuba, não existe esse fenômeno. Então se perguntaram o que estava acontecendo. Não tínhamos jeito de delinquentes. Alguns se aproximaram, mas um dos policiais lhes gritou: "Não se metam, que são contrarrevolucionários!" Esta foi a confirmação de que se tratava de membros da polícia política, embora eu já imaginasse por causa do carro Geely, que é chinês, de fabricação atual, e não é vendido em nenhuma loja em Cuba. Esses carros pertencem exclusivamente a membros do Ministério das Forças Armadas e do Ministério do Interior.

Então a senhora sabia desde o início, pelo carro, que se tratava de policiais à paisana.
Intuía. Por outro lado, tive a confirmação quando um deles chamou um policial uniformizado. Uma patrulha formada por um homem e uma mulher chegou e levou dois de nós. Deixou-nos nas mãos desses dois desconhecidos.

Mas a senhora já não tinha a menor dúvida sobre quem eles eram.
Não, mas não nos mostraram nenhum documento. Os policiais não nos disseram que representavam a autoridade. Não nos disseram nada.

É difícil entender o interesse das autoridades cubanas em agredi-la fisicamente, sob o risco de provocar um escândalo internacional. A senhora é famosa. Por que teriam feito isso?
Seu objetivo era radicalizar-me, para que eu escrevesse textos violentos contra eles. Mas não conseguirão.

Não se pode dizer que a senhora é branda com o governo cubano.
Nunca recorro à violência verbal nem a ataques pessoais. Nunca uso adjetivos incendiários, como "sangrenta repressão", por exemplo. Seu objetivo, então, era radicalizar-me.

No entanto, a senhora é muito dura em relação ao governo de Havana. Em seu blog, a senhora diz: "o barco que faz água a ponto de naufragar". A senhora fala dos "gritos do déspota", de "seres das sombras, que, como vampiros, se alimentam de nossa alegria humana, nos incutem o medo por meio da agressão, da ameaça, da chantagem", e afirma que "naufragaram o processo, o sistema, as expectativas, as ilusões. [É um] naufráfio [total]". São palavras muito fortes.
Talvez, mas o objetivo deles era queimar o fenômeno Yoani Sánchez, demonizar-me. Por isso meu blog permaneceu bloqueado por um bom tempo.

Contudo, é surpreendente que as autoridades cubanas tenham decidido atacá-la fisicamente.
Foi uma torpeza. Não entendo por que me impediram de assistir à passeata, pois não penso como aqueles que reprimem. Não tenho explicação. Talvez eles não quisessem que eu me reunisse com os jovens. Os policiais acreditavam que eu iria provocar um escândalo ou fazer um discurso incendiário.

Voltando ao assunto da detenção, os policiais levaram meus amigos de maneira enérgica e firme, mas sem violência. No momento em que me dei conta de que iriam nos deixar sozinhos com Orlando, com esses três tipos, agarrei-me a uma planta que havia na rua e Claudia agarrou-se a mim pela cintura para impedir a separação, antes de os policiais a levarem.

Para que resistir às forças da ordem uniformizadas e correr o risco de ser acusada disso e cometer um delito? Na França, se resistimos à polícia, corremos o risco de sofrer sanções.
De qualquer modo, eles nos levaram. A policial levou Claudia. As três pessoas nos levaram até o carro e comecei a gritar de novo: "Socorro! Um sequestro!"

Por quê? A senhora sabia que se tratava de policiais à paisana.
Não me mostraram nenhum papel. Então começaram a me bater e me empurraram em direção ao carro. Claudia foi testemunha e relatou isso.

A senhora não acaba de me dizer que a patrulha a havia levado?
Ela viu a cena de longe, enquanto o carro de polícia se afastava. Defendi-me e golpeei como um animal que sente que sua hora chegou. Deram uma volta rápida e tentaram tirar-me o papel da boca. Agarrei um deles pelos testículos e ele redobrou a violência. Levaram-nos a um bairro bem periférico, La Timba, que fica perto da Praça da Revolução. O homem desceu, abriu a porta e pediu que saíssemos. Eu não quis descer. Eles nos fizeram sair à força com Orlando e foram embora.

Uma senhora chegou e dissemos que havíamos sido sequestrados. Ela nos achou malucos e se foi. O carro voltou, mas não parou. Eles só me jogaram minha bolsa, onde estavam meu celular e minha câmera.

Voltaram para devolver seu celular e sua câmera?
Sim.

Não lhe parece estranho que se preocupassem em voltar? Poderiam ter confiscado seu celular e sua câmera, que são suas ferramentas de trabalho.
Bem, não sei. Tudo durou 25 minutos.

Mas a senhora entende que, enquanto não publicar as fotos, as pessoas duvidarão de sua versão, e isso lançará uma sombra sobre a credibilidade de tudo o que a senhora diz.
Não importa.

Yoani Sánchez tenta explicar porque deixou a Suíça para voltar para Cuba

Na segunda parte da entrevista concedida ao jornalista francês Salim Lamrani, a dissidente cubana Yoani Sánchez, dona do blog Generación Y, relata os motivos que a levaram a deixar a Suíça, onde viveu por dois anos, para regressar à Cuba. Segundo ela, as saudades da família e a culpa por usufruir de sapatos e da internet no exterior a fizeram voltar para a ilha caribenha.

Em 2002, a senhora decidiu emigrar para a Suíça. Dois anos depois, voltou a Cuba. É difícil entender por que a senhora deixou o "paraíso europeu" para regressar ao país que descreve como um inferno. A pergunta é simples: por quê?
É uma ótima pergunta. Primeiro, gosto de nadar contra a corrente. Gosto de organizar minha vida à minha maneira. O absurdo não é ir embora e voltar a Cuba, e sim as leis migratórias cubanas, que estipulam que toda pessoa que passa onze meses no exterior perde seu status de residente permanente. Em outras condições eu poderia permanecer dois anos no exterior e, com o dinheiro ganho, voltar a Cuba para reformar a casa e fazer outras coisas. Então o surpreendente não é o fato de eu decidir voltar a Cuba, e sim as leis migratórias cubanas.

O mais surpreendente é que, tendo a possibilidade de viver em um dos países mais ricos do mundo, a senhora tenha decidido voltar a seu país, que descreve de modo apocalíptico, apenas dois anos depois de sua saída.
As razões são várias. Primeiro, não pude ir embora com minha família. Somos uma pequena família, mas minha irmã, meus pais e eu somos muito unidos. Meu pai ficou doente em minha ausência e tive medo de que ele morresse sem que eu pudesse vê-lo. Também me sentia culpada por viver melhor do que eles. A cada vez que comprava um par de sapatos, que me conectava à internet, pensava neles. Sentia-me culpada.

Certo, mas, da Suíça, a senhora podia ajudá-los enviando dinheiro.
É verdade, mas há outro motivo. Pensei que, com o que havia aprendido na Suíça, poderia mudar as coisas voltando a Cuba. Há também a saudade das pessoas, dos amigos. Não foi uma decisão pensada, mas não me arrependo. Tinha vontade de voltar e voltei. É verdade que isso pode parecer pouco comum, mas gosto de fazer coisas incomuns. Criei um blog e as pessoas me perguntaram por que eu fiz isso, mas o blog me satisfaz profissionalmente.

Entendo. No entanto, apesar de todas essas razões, é difícil entender o motivo de seu regresso a Cuba quando no Ocidente se acredita que todos os cubanos querem abandonar o país. É ainda mais surpreendente em seu caso, pois a senhora apresenta seu país, repito, de modo apocalíptico.
Como filóloga, eu discutiria a palavra, pois "apocalíptico" é um termo grandiloquente. Há um aspecto que caracteriza meu blog: a moderação verbal.
Não é sempre assim. A senhora, por exemplo, descreve Cuba como "uma imensa prisão, com muros ideológicos". Os termos são bastantes fortes.
Nunca escrevi isso.
São as palavras de uma entrevista concedida ao canal francês France 24 em 22 de outubro de 2009.
O senhor leu isso em francês ou em espanhol?
Em francês.
Desconfie das traduções, pois eu nunca disse isso. Com frequência me atribuem coisas que eu não disse. Por exemplo, o jornal espanhol ABC me atribuiu palavras que eu nunca havia pronunciado, e protestei. O artigo foi finalmente retirado do site na internet.
Quais eram essas palavras?
"Nos hospitais cubanos, morre mais gente de fome do que de enfermidades." Era uma mentira total. Eu jamais havia dito isso.
Então a imprensa ocidental manipulou o que a senhora disse?
Eu não diria isso.
Se lhe atribuem palavras que a senhora não pronunciou, trata-se de manipulação.
O Granma manipula a realidade mais do que a imprensa ocidental ao afirmar que sou uma criação do grupo midiático Prisa.
Justamente, a senhora não tem a impressão de que a imprensa ocidental a usa porque a senhora preconiza um "capitalismo sui generis" em Cuba?
Não sou responsável pelo que a imprensa faz. Meu blog é uma terapia pessoal, um exorcismo. Tenho a impressão de que sou mais manipulada em meu próprio país do que em outra parte. O senhor sabe que existe uma lei em Cuba, a lei 88, chamada lei da "mordaça", que põe na cadeia as pessoas que fazem o que estamos fazendo.
O que isso quer dizer?
Que nossa conversa pode ser considerada um delito, que pode ser punido com uma pena de até 15 anos de prisão.
Perdoe-me, o fato de eu entrevistá-la pode levá-la para a cadeia?
É claro!
Não tenho a impressão de que isso a preocupe muito, pois a senhora está me concedendo uma entrevista em plena tarde, no saguão de um hotel no centro de Havana Velha.
Não estou preocupada. Esta lei estipula que toda pessoa que denuncie as violações dos direitos humanos em Cuba colabora com as sanções econômicas, pois Washington justifica a imposição das sanções contra Cuba pela violação dos direitos humanos.
Se não me engano, a lei 88 foi aprovada em 1996 para responder à Lei-Helms Burton e sanciona sobretudo as pessoas que colaboram com a aplicação desta legislação em Cuba, por exemplo fornecendo informações a Washington sobre os investidores estrangeiros no país, para que estes sejam perseguidos pelos tribunais norte-americanos. Que eu saiba, ninguém até agora foi condenado por isso. Falemos de liberdade de expressão. A senhora goza de certa liberdade de tom em seu blog. Está sendo entrevistada em plena tarde em um hotel. Não vê uma contradição entre o fato de afirmar que não há nenhuma liberdade de expressão em Cuba e a realidade de seus escritos e suas atividades, que provam o contrário?
Sim, mas o blog não pode ser acessado de Cuba, porque está bloqueado.
Posso lhe assegurar que o consultei esta manhã antes da entrevista, no hotel.
É possível, mas ele permanece bloqueado a maior parte do tempo. De todo modo, hoje em dia, mesmo sendo uma pessoa moderada, não posso ter nenhum espaço na imprensa cubana, nem no rádio, nem na televisão.
Mas pode publicar o que tem vontade em seu blog.
Mas não posso publicar uma única palavra na imprensa cubana.
Na França, que é uma democracia, amplos setores da população não têm nenhum espaço nos meios, já que a maioria pertence a grupos econômicos e financeiros privados.
Sim, mas é diferente.
A senhora recebeu ameaças por suas atividades? Alguma vez a ameaçaram com uma pena de prisão pelo que escreve?
Ameaças diretas de pena de prisão, não, mas não me deixam viajar ao exterior. Fui convidada há pouco para um Congresso sobre a língua espanhola no Chile, fiz todos os trâmites, mas não me deixam sair.
Deram-lhe alguma explicação?
Nenhuma, mas quero dizer uma coisa. Para mim, as sanções dos Estados Unidos contra Cuba são uma atrocidade. Trata-se de uma política que fracassou. Afirmei isso muitas vezes, mas não se publica, pois é incômodo o fato de eu ter esta opinião que rompe com o arquétipo do opositor.
Blogueira dissidente afirma ser contra embargo a Cuba e tenta explicar proximidade com Obama

Na terceira e última parte da entrevista feita pelo jornalista francês Salim Lamrani com a blogueira Yoani Sánchez, a entrevistada fala de sua relação com o presidente Barack Obama, que recentemente respondeu - por "sorte" - a perguntas da cubana, da insistência de Washington em manter o embargo econômico contra Cuba e do sucesso de seu blog, Generación Y. " Meu blog tem 10 milhões de visitas por mês. É um furacão", disse.

Então a senhora se opõe às sanções econômicas.
Absolutamente, e digo isso em todas as entrevistas. Há algumas semanas, enviei uma carta ao Senado dos EUA pedindo que os cidadãos norte-americanos tivessem permissão para viajar a Cuba. É uma atrocidade impedir que os cidadãos norte-americanos viajem a Cuba, do mesmo modo que o governo cubano me impede de sair de meu país.
O que acha das esperanças suscitadas pela eleição de Obama, que prometeu uma mudança na política para Cuba, mas decepcionou muita gente?
Ele chegou ao poder sem o apoio do lobby fundamentalista de Miami, que defendeu o outro candidato. De minha parte, já me pronunciei contra as sanções.
Este lobby fundamentalista é contra a suspensão das sanções econômicas.
O senhor pode discutir com eles e lhes expor meus argumentos, mas eu não diria que são inimigos da pátria. Não penso assim.
Uma parte deles participou da invasão de seu próprio país em 1961, sob as ordens da CIA. Vários estão envolvidos em atos de terrorismo contra Cuba.
Os cubanos no exílio têm o direito de pensar e decidir. Sou a favor de que eles tenham direito ao voto. Aqui, estigmatizou-se muito o exílio cubano.

O exílio "histórico" ou os que emigraram depois, por razões econômicas?

Na verdade, oponho-me a todos os extremos. Mas essas pessoas que defendem as sanções econômicas não são anticubanas. Considere que elas defendem Cuba segundo seus próprios critérios.
Talvez, mas as sanções econômicas afetam os setores mais vulneráveis da população cubana, e não os dirigentes. Por isso é difícil ser a favor das sanções e, ao mesmo tempo, querer defender o bem-estar dos cubanos.
É a opinião deles. É assim.
Eles não são ingênuos. Sabem que os cubanos sofrem com as sanções.
São simplesmente diferentes. Acreditam que poderão mudar o regime impondo sanções. Em todo caso, creio que o bloqueio tem sido o argumento perfeito para o governo cubano manter a intolerância, o controle e a repressão interna.
As sanções econômicas têm efeitos. Ou a senhora acha que são apenas uma desculpa para Havana?
São uma desculpa que leva à repressão.
Afetam o país de um ponto de vista econômico, para a senhora? Ou é apenas um efeito marginal?
O verdadeiro problema é a falta de produtividade em Cuba. Se amanhã suspendessem as sanções, duvido muito que víssemos os efeitos.
Neste caso, por que os EUA não suspendem as sanções, tirando assim a desculpa do governo? Assim perceberíamos que as dificuldades econômicas devem-se apenas às políticas internas. Se Washington insiste tanto nas sanções apesar de seu caráter anacrônico, apesar da oposição da imensa maioria da comunidade internacional, 187 países em 2009, apesar da oposição de uma maioria da opinião pública dos EUA, apesar da oposição do mundo dos negócios, deve ser por algum motivo, não?
Simplesmente porque Obama não é o ditador dos EUA e não pode eliminar as sanções.
SL - Ele não pode eliminá-las totalmente porque não há um acordo no Congresso, mas pode aliviá-las consideravelmente, o que não fez até agora, já que, salvo a eliminação das sanções impostas por Bush em 2004, quase nada mudou.
Não, não é verdade, pois ele também permitiu que as empresas de telecomunicações norte-americanas fizessem transações com Cuba.
A senhora terá de admitir que é bem pouco quando se sabe que Obama prometeu um novo enfoque para Cuba. Voltemos a seu caso pessoal. Como explica esta avalanche de prêmios, assim como seu sucesso internacional?
Não tenho muito a dizer, a não ser expressar minha gratidão. Todo prêmio implica uma dose de subjetividade por parte do jurado. Todo prêmio é discutível. Por exemplo, muitos escritores latino-americanos mereciam o Prêmio Nobel de Literatura mais que Gabriel García Márquez.
A senhora afirma isso porque acredita que ele não tem tanto talento ou por sua posição favorável à Revolução cubana? A senhora não nega seu talento de escritor, ou nega?
É minha opinião, mas não direi que ele obteve o prêmio por esse motivo nem vou acusá-lo de ser um agente do governo sueco.
Ele obteve o prêmio por sua obra literária, enquanto a senhora foi recompensada por suas posições políticas contra o governo. É a impressão que temos.
Falemos do prêmio Ortega y Gasset, do jornal El País, que suscita mais polêmica. Venci na categoria "Internet". Alguns dizem que outros jornalistas não conseguiram, mas sou uma blogueira e sou pioneira neste campo. Considero-me uma personagem da internet. O júri do prêmio Ortega y Gasset é formado por personalidades extremamente prestigiadas e eu não diria que elas se prestaram a uma conspiração contra Cuba.

A senhora não pode negar que o jornal espanhol
El País tem uma linha editorial totalmente hostil a Cuba. E alguns acham que o prêmio, de 15 mil euros foi uma forma de recompensar seus escritos contra o governo.
As pessoas pensam o que querem. Acredito que meu trabalho foi recompensado. Meu blog tem 10 milhões de visitas por mês. É um furacão.
Como a senhora faz para pagar os gastos com a administração de semelhante tráfego?
Um amigo na Alemanha se encarregava disso, pois o site estava hospedado na Alemanha. Há mais de um ano está hospedado na Espanha, e consegui 18 meses gratuitos graças ao prêmio The Bob's.
E a tradução para 18 línguas?
São amigos e admiradores que o fazem voluntária e gratuitamente.
Muitas pessoas acham difícil acreditar nisso, pois nenhum outro site do mundo, nem mesmo os das mais importantes instituições internacionais, como as Nações Unidas, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a OCDE, a União Europeia, dispõe de tantas versões de idioma. Nem o site do Departamento de Estado dos EUA, nem o da CIA contam com semelhante variedade.
Digo-lhe a verdade.
O presidente Obama inclusive respondeu a uma entrevista que a senhora fez. Como explica isso?
Em primeiro lugar, quero dizer que não eram perguntas complacentes.
Tampouco podemos afirmar que a senhora foi crítica, já que não pediu que ele suspendesse as sanções econômicas, sobre as quais a senhora diz que "são usadas como justificativa tanto para o descalabro produtivo quanto para reprimir os que pensam diferente". É exatamente o que diz Washington sobre o tema. O momento de maior atrevimento foi quando a senhora perguntou se ele pensava em invadir Cuba. Como a senhora explica que o presidente Obama tenha dedicado tempo a lhe responder apesar de sua agenda extremamente carregada, com uma crise econômica sem precedentes, a reforma do sistema de saúde, o Iraque, o Afeganistão, as bases militares na Colômbia, o golpe de Estado em Honduras e centenas de pedidos de entrevista dos mais importantes meios do mundo à espera?
Tenho sorte. Quero lhe dizer que também enviei perguntas ao presidente Raúl Castro e ele não me respondeu. Não perco a esperança. Além disso, ele agora tem a vantagem de contar com as respostas de Obama.
Como a senhora chegou até Obama?
Transmiti as perguntas a várias pessoas que vinham me visitar e poderiam ter um contato com ele.
Em sua opinião, Obama respondeu porque a senhora é uma blogueira cubana ou porque se opõe ao governo?
Não creio. Obama respondeu porque fala com os cidadãos.
Ele recebe milhões de solicitações a cada dia. Por que lhe respondeu, se a senhora é uma simples blogueira?
Obama é próximo de minha geração, de meu modo de pensar.
Mas por que a senhora? Existem milhões de blogueiros no mundo. Não acha que foi usada na guerra midiática de Washington contra Havana?
Em minha opinião, ele talvez quisesse responder a alguns pontos, como a invasão de Cuba. Talvez eu tenha lhe dado a oportunidade de se manifestar sobre um tema que ele queria abordar havia muito tempo. A propaganda política nos fala constantemente de uma possível invasão de Cuba.
Mas ocorreu uma, não?
Quando?
Em 1961. E, em 2003, Roger Noriega, subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos, disse que qualquer onda migratória cubana em direção aos EUA seria considerada uma ameaça à segurança nacional e exigiria uma resposta militar.
É outro assunto. Voltando ao tema da entrevista, creio que ela permitiu esclarecer alguns pontos. Tenho a impressão de que há uma intenção de ambos os lados de não normalizar as relações, de não se entender. Perguntei-lhe quando encontraríamos uma solução.
A seu ver, quem é responsável por este conflito entre os dois países?
É difícil apontar um culpado.
Neste caso específico, são os EUA que impõem sanções unilaterais a Cuba, e não o contrário.
Sim, mas Cuba confiscou propriedades dos EUA.
Tenho a impressão de que a senhora faz o papel de advogada de Washington.
Os confiscos ocorreram.
É verdade, mas foram realizados conforme o direito internacional. Cuba também confiscou propriedades da França, Espanha, Itália, Bélgica, Reino Unido, e indenizou estas nações. O único país que recusou as indenizações foram os EUA.
Cuba também permitiu a instalação de bases militares em seu território e de mísseis de um império distante...
...Como os EUA instalaram bases nucleares contra a URSS na Itália e na Turquia.
Os mísseis nucleares podiam alcançar os EUA.
Assim como os mísseis nucleares norte-americanos podiam alcançar Cuba ou a URSS.
É verdade, mas creio que houve uma escalada no confronto por parte de ambos os países.
Os cinco presos políticos cubanos e a dissidência
Abordemos outro tema. Fala-se muito dos cinco presos políticos cubanos nos EUA, condenados à prisão perpétua por infiltrar grupelhos de extrema direita na Flórida envolvidos no terrorismo contra Cuba.
Não é um tema que interesse à população. É propaganda política.
Mas qual é seu ponto de vista a respeito?
Tentarei ser o mais neutra possível. São agentes do Ministério do Interior que se infiltraram nos EUA para coletar informações. O governo de Cuba disse que eles não desempenhavam atividades de espionagem, mas sim que haviam infiltrado grupos cubanos para evitar atos terroristas. Mas o governo cubano sempre afirmou que esses grupos estavam ligados a Washington.
Então os grupos radicais de exilados têm laços com o governo dos EUA.
É o que diz a propaganda política.
Então não é verdade.
Se é verdade, significa que os cinco realizavam atividades de espionagem.
Neste caso, os EUA têm de reconhecer que os grupos violentos fazem parte do governo.
É verdade.
A senhora acha que os Cinco devem ser libertados ou merecem a punição?
Creio que valeria a pena revisar os casos, mas em um contexto político mais apaziguado. Não acho que o uso político deste caso seja bom para eles. O governo cubano midiatiza demais este assunto.
Talvez por ser um assunto totalmente censurado pela imprensa ocidental.
Creio que seria bom salvar essas pessoas, que são seres humanos, têm uma família, filhos. Por outro lado, contudo, também há vítimas.
Mas os cinco não cometeram crimes.
Não, mas forneceram informações que causaram a morte de várias pessoas.
A senhora se refere aos acontecimentos de 24 de fevereiro de 1996, quando dois aviões da organização radical Brothers to the Rescue foram derrubados depois de violar várias vezes o espaço aéreo cubano e lançar convocações à rebelião.
Sim.
No entanto, o promotor reconheceu que era impossível provar a culpa de Gerardo Hernández neste caso.
É verdade. Penso que, quando a política se intromete em assuntos de justiça, chegamos a isso.
A senhora acha que se trata de um caso político?
Para o governo cubano, é um caso político.
E para os EUA?
Penso que existe uma separação dos poderes no país, mas é possível que o ambiente político tenha influenciado os juízes e jurados. Não creio, no entanto, que se trate de um caso político dirigido por Washington. É difícil ter uma imagem clara deste caso, pois jamais obtivemos uma informação completa a respeito. Mas a prioridade para os cubanos é a libertação dos presos políticos.
O financiamiento dos dissidentes cubanos pelos Estados Unidos
Wayne S. Smith, último embaixador dos EUA em Cuba, declarou que era "ilegal e imprudente enviar dinheiro aos dissidentes cubanos". Acrescentou que "ninguém deveria dar dinheiro aos dissidentes, muito menos com o objetivo de derrubar o governo cubano". Ele explica: "Quando os EUA declaram que seu objetivo é derrubar o governo cubano e depois afirmam que um dos meios para conseguir isso é oferecer fundos aos dissidentes cubanos, estes se encontram de fato na posição de agentes pagos por uma potência estrangeira para derrubar seu próprio governo".
Creio que o financiamento da oposição pelos EUA tem sido apresentado como uma realidade, o que não é o caso. Conheço vários membros do grupo dos 75 dissidentes presos em 2003 e duvido muito dessa versão. Não tenho provas de que os 75 tenham sido presos por isso. Não acredito nas provas apresentadas nos tribunais cubanos.
Não creio que seja possível ignorar esta realidade.
Por quê?
O próprio governo dos EUA afirma que financia a oposição interna desde 1959. Basta consultar, além dos arquivos liberados ao público, a seção 1.705 da lei Torricelli, de 1992, a seção 109 da lei Helms-Burton, de 1996, e os dois informes da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre, de maio de 2004 e julho de 2006. Todos esses documentos revelam que o presidente dos EUA financia a oposição interna em Cuba com o objetivo de derrubar o governo de Havana.
Não sei, mas...
Se me permite, vou citar as leis em questão. A seção 1.705 da lei Torricelli estipula que "os EUA proporcionarão assistência às organizações não-governamentais adequadas para apoiar indivíduos e organizações que promovem uma mudança democrática não violenta em Cuba."
A seção 109 da lei Helms-Burton também é muito clara: "O presidente [dos Estados Unidos] está autorizado a proporcionar assistência e oferecer todo tipo de apoio a indivíduos e organizações não-governamentais independentes para unir os esforços a fim de construir uma democracia em Cuba".
O primeiro informe da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre prevê a elaboração de um "sólido programa de apoio que favoreça a sociedade civil cubana". Entre as medidas previstas há um financiamento de 36 milhões de dólares para o "apoio à oposição democrática e ao fortalecimento da sociedade civil emergente".
O segundo informe da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre prevê um orçamento de 31 milhões de dólares para financiar ainda mais a oposição interna. Além disso, está previsto para os anos seguintes um financiamento anual de pelo menos 20 milhões de dólares, com o mesmo objetivo, "até que a ditadura deixe de existir".
Quem lhe disse que esse dinheiro chegou às mãos dos dissidentes?
A Seção de Interesses Norte-americanos afirmou em um comunicado: "A política norte-americana, faz muito tempo, é proporcionar assistência humanitária ao povo cubano, especificamente a famílias de presos políticos. Também permitimos que as organizações privadas o façam."
Bem...
Inclusive a Anistia Internacional, que lembra a existência de 58 presos políticos em Cuba, reconhece que eles estão detidos "por ter recebido fundos ou materiais do governo norte-americano para realizar atividades que as autoridades consideram subversivas e prejudiciais para Cuba".
Não sei se...
Por outro lado, os próprios dissidentes admitem receber dinheiro dos EUA. Laura Pollán, das Damas de Branco, declarou: "Aceitamos a ajuda, o apoio, da ultradireita à esquerda, sem condições". O opositor Vladimiro Roca também confessou que a dissidência cubana é subvencionada por Washington, alegando que a ajuda financeira recebida era "total e completamente lícita". Para o dissidente René Gómez, o apoio econômico por parte dos EUA "não é algo a esconder ou de que precisemos nos envergonhar".
Inclusive a imprensa ocidental reconhece. A agência France Presse informa que "os dissidentes, por sua parte, reivindicaram e assumiram essas ajudas econômicas". A agência espanhola Efe menciona os "opositores financiados pelos EUA". Quanto à agência de notícias britânica Reuters, "o governo norte-americano fornece abertamente um apoio financeiro federal às atividades dos dissidentes, o que Cuba considera um ato ilegal". E eu poderia multiplicar os exemplos.
Tudo isso é culpa do governo cubano, que impede a prosperidade econômica de seus cidadãos, que impõe um racionamento à população. É preciso fazer fila para conseguir produtos. É necessário julgar antes o governo cubano, que levou milhares de pessoas a aceitar a ajuda estrangeira.

O problema é que os dissidentes cometem um delito que a lei cubana e todos os códigos penais do mundo sancionam severamente. Ser financiado por uma potência estrangeira é um grave delito na França e no restante do mundo.
Podemos admitir que o financiamento de uma oposição é uma prova de ingerência, mas...
Mas, neste caso, as pessoas que a senhora qualifica de presos políticos não são presos políticos, pois cometeram um delito ao aceitar dinheiro dos EUA, e a justiça cubana as condenou com base nisso.
Creio que este governo se intrometeu muitas vezes nos assuntos internos de outros países, financiando movimentos rebeldes e a guerrilha. Interveio em Angola e...
Sim, mas se tratava de ajudar os movimentos independentistas contra o colonialismo português e o regime segregacionista da África do Sul. Quando a África do Sul invadiu a Namíbia, Cuba interveio para defender a independência deste país. Nelson Mandela agradeceu publicamente a Cuba e esta foi a razão pela qual fez sua primeira viagem a Havana, e não a Washington ou Paris.
Mas muitos cubanos morreram por isso, longe de sua terra.
Sim, mas foi por uma causa nobre, seja em Angola, no Congo ou na Namíbia. A batalha de Cuito Cuanavale, em 1988, permitiu que se pusesse fim ao apartheid na África do Sul. É o que diz Mandela! Não se sente orgulhosa disso?
Concordo, mas, no fim das contas, incomoda-me mais a ingerência de meu país no exterior. O que faz falta é despenalizar a prosperidade.
Inclusive o fato de se receber dinheiro de uma potência estrangeira?
As pessoas têm de ser economicamente autônomas.
Se entendo bem, a senhora preconiza a privatização de certos setores da economia.
Não gosto do termo "privatizar", pois tem uma conotação pejorativa, mas colocar em mãos privadas, sim.
É uma questão semântica, então. Quais são, para a senhora, as conquistas sociais deste país?
Cada conquista teve um custo enorme. Todas as coisas que podem parecer positivas tiveram um custo em termos de liberdade. Meu filho recebe uma educação muito doutrinária e contam-lhe uma história de Cuba que em nada corresponde à realidade. Preferiria uma educação menos ideológica para meu filho. Por outro lado, ninguém quer ser professor neste país, pois os salários são muito baixos.
Concordo, mas isso não impede que Cuba seja o país com o maior número de professores por habitante do mundo, com salas de 20 alunos no máximo, o que não ocorre na França, por exemplo.
Sim, mas houve um custo, e por isso a educação e a saúde não são verdadeiras conquistas para mim.
Não podemos negar algo reconhecido por todas as instituições internacionais. Em relação à educação, o índice de analfabetismo é de 11,7% na América Latina e 0,2% em Cuba. O índice de escolaridade no ensino primário é de 92% na América Latina e 100% em Cuba, e no ensino secundário é de 52% e 99,7%, respectivamente. São cifras do Departamento de Educação da Unesco.
Certo, mas, em 1959, embora Cuba vivesse em condições difíceis, a situação não era tão ruim. Havia uma vida intelectual florescente, um pensamento político vivo. Na verdade, a maioria das supostas conquistas atuais, apresentadas como resultados do sistema, eram inerentes a nossa idiossincrasia. Essas conquistas existiam antes.
Não é verdade. Vou citar uma fonte acima de qualquer suspeita: um informe do Banco Mundial. É uma citação bastante longa, mas vale a pena. "Cuba é internacionalmente reconhecida por seus êxitos no campo da educação e da saúde, com um serviço social que supera o da maior parte dos países em desenvolvimento e, em certos setores, comparável ao dos países desenvolvidos. Desde a Revolução cubana de 1959 e do estabelecimento de um governo comunista com partido único, o país criou um sistema de serviços sociais que garante o acesso universal à educação e à saúde, proporcionado pelo Estado. Este modelo permitiu que Cuba alcançasse uma alfabetização universal, a erradicação de certas enfermidades, o acesso geral à água potável e a salubridade pública de base, uma das taxas de mortalidade infantil mais baixas da região e uma das maiores expectativas de vida. Uma revisão dos indicadores sociais de Cuba revela uma melhora quase contínua desde 1960 até 1980. Vários índices importantes, como a expectativa de vida e a taxa de mortalidade infantil, continuaram melhorando durante a crise econômica do país nos anos 90... Atualmente, o serviço social de Cuba é um dos melhores do mundo em desenvolvimento, como documentam numerosas fontes internacionais, entre elas a Organização Mundial de Saúde, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e outras agências da ONU, e o Banco Mundial. Segundo os índices de desenvolvimento do mundo em 2002, Cuba supera amplamente a América Latina e o Caribe e outros países com renda média nos mais importantes indicadores de educação, saúde e salubridade pública."
Além disso, os números comprovam. Em 1959, a taxa de mortalidade infantil era de 60 por mil. Em 2009, era de 4,8. Trata-se da taxa mais baixa do continente americano do Terceiro Mundo; inclusive mais baixa que a dos EUA.
Bom, mas...
A expectativa de vida era de 58 anos antes da Revolução. Agora é de quase 80 anos, similar à de muitos países desenvolvidos. Cuba tem hoje 67 mil médicos frente aos seis mil de 1959. Segundo o diário ingles The Guardian, Cuba tem duas vezes mais médicos que a Inglaterra para uma população quatro vezes menor.
Certo, mas, em termos de liberdade de expressão, houve um recuo em relação ao governo de Batista. O regime era uma ditadura, mas havia uma liberdade de imprensa plural e aberta, programas de rádio de todas as tendências políticas.
Não é verdade. A censura da imprensa também existia. Entre dezembro de 1956 e janeiro de 1959, durante a guerra contra o regime de Batista, a censura foi imposta em 630 de 759 dias. E aos opositores reservava-se um triste destino.
É verdade que havia censura, intimidações e mortos ao final.
Então a senhora não pode dizer que a situação era melhor com Batista, já que os opositores eram assassinados. Já não é o caso hoje. A senhora acha que a data de 1º de janeiro é uma tragédia para a história de Cuba?
Não, de modo algum. Foi um processo que motivou muita esperança, mas traiu a maioria dos cubanos. Fui um momento luminosos para boa parte da população, mas puseram fim a uma ditadura e instauraram outra. Mas não sou tão negativa como alguns.
Luis Posada Carriles, a lei de Ajuste Cubano e a emigração
O que acha de Luis Posada Carriles, ex-agente da CIA responsável por numerosos crimes em Cuba e a quem os EUA recusam-se a julgar?
É um tema político que não interessa às pessoas. É uma cortina de fumaça.
Interessa, pelo menos, aos parentes das vítimas. Qual é seu ponto de vista a respeito?
Não gosto de ações violentas.
Condena seus atos terroristas?
Condeno todo ato de terrorismo, inclusive os cometidos atualmente no Iraque por uma suposta resistência iraquiana que mata os iraquianos.
Quem mata os iraquianos? Os ataques da resistência ou os bombardeios dos EUA?
Não sei.
Uma palavra sobre a lei de Ajuste Cubano, que determina que todo cubano que emigra legal o ilegalmente para os EUA obtém automaticamente o status de residente permanente.
É uma vantagem que os demais países não têm. Mas o fato de os cubanos emigrarem para os EUA deve-se à situação difícil aqui.
Além disso, os EUA são o país mais rico do mundo. Muitos europeus também emigram para lá. A senhora reconhece que a lei de Ajuste Cubano é uma formidável ferramenta de incitação à emigração legal e ilegal?
É, efetivamente, um fator de incitação.
A senhora não vê isso como uma ferramenta para desestabilizar a sociedade e o governo?
Neste caso, também podemos dizer que a concessão da cidadania espanhola aos descendentes de espanhóis nascidos em Cuba é um fator de desestabilização.
Não tem nada a ver, pois existem razões históricas e, além disso, a Espanha aplica esta lei a todos os países da América Latina e não só a Cuba, enquanto a lei de Ajuste Cubano é única no mundo.
Mas existem fortes relações. Joga-se beisebol em Cuba como nos EUA.
Na República Dominicana também, mas não existe uma lei de ajuste dominicano.
Existe, no entanto, uma tradição de aproximação.
Então por que esta lei não foi aprovada antes da Revolução?
Por que os cubanos não queriam deixar seu país. Na época, Cuba era um país de imigração, não de emigração.
É absolutamente falso, já que, nos anos 1950, Cuba ocupava o segundo lugar entre os países americanos em termos de emigração rumo aos EUA, atrás apenas do México. Cuba enviava mais emigrantes aos EUA do que toda a América Central e toda a América do Sul juntas, enquanto hoje ocupa apenas o décimo luigar, apesar da lei de Ajuste Cubano e das sanções econômicas.
Talvez, mas não havia essa obsessão de abandonar o país.

Os números mostram o contrário. Atualmente, repito, Cuba ocupa apenas o décimo lugar no continente americano em termos de emigração aos EUA. Então a obsessão de que a senhora me fala é mais forte em nove países do continente, pelo menos.
Sim, mas na época os cubanos iam e vinham.

É a mesma coisa hoje, já que a cada ano os cubanos do exterior voltam nas férias. Além disso, antes de 2004 e das restrições impostas pelo presidente Bush limitando as viagens dos cubanos dos EUA a 14 dias a cada três anos, os cubanos constituíam a minoria dos EUA que viajava com mais frequência a seu país de origem, muito mais que os mexicanos, por exemplo, o que demonstra que os cubanos dos EUA são, na imensa maioria, emigrados econômicos e não exilados políticos, já que voltam a seu país em visita, algo que um exilado político não faria.
Sim, mas pergunte-lhes se querem voltar a viver aqui.

Mas é o que a senhora fez, não? Além disso, em seu blog, a senhora escreveu em julho de 2007 que seu caso não era isolado. Cito: "Há três anos [...] em Zurique, decidir voltar e permanecer em meu país. Meus amigos acharam que era uma piada, minha mãe negou-se a aceitar que sua filha já não vivia na Suíça do leite e do chocolate". Em 12 de agosto de 2004, a senhora se apresentou no escritório de imigração provincial de Havana para explicar seu caso. A senhora escreveu: "Tremenda surpresa quando me disseram para procurar o último da fila dos 'que regressam'. [...] E logo encontrei outros 'loucos' como eu, cada um com sua cruel história de retorno". Então existe esse fenômeno de regresso ao país.
Sim, mas é gente que regressa por razões pessoais. Há alguns que têm dívidas no exterior, outros que não suportam a vida lá fora. Enfim, uma multidão de razões.

Então, apesar das dificuldades e das vicissitudes cotidianas, a vida não é tão terrível aqui, já que alguns regressam. A senhora acha que os cubanos têm uma visão idílica demais da vida no exterior?
Isto se deve à propaganda do regime, que apresenta de uma maneira negativa demais a vida lá fora, com um resultado oposto para as pessoas, que idealizam demais o modo de vida ocidental. O problema é que, em Cuba, a emigração de mais de onze meses é definitiva. As pessoas não podem viver dois anos fora, voltar por um tempo e ir embora de novo etc.

Então, se compreendo bem, o problema em Cuba é mais de ordem econômica, já que as pessoas querem abandonar o país só para melhorar seu nível de vida.
Muitos gostariam de viajar ao exterior e poder voltar logo, mas as leis migratórias não permitem. Tenho certeza de que, se fosse possível, muita gente emigraria por dois anos e voltaria logo para ir embora de novo e regressar, etc.

Em seu blog, houve comentários interessantes a respeito. Vários emigrados falaram de suas desilusões com o modo de vida ocidental.
É muito humano. Você se apaixona por uma mulher e, três meses depois, perde suas ilusões. Compra um par de sapatos e, depois de dois dias, não gosta deles. As desilusões são parte da condição humana. O pior é que as pessoas não podem voltar.

Mas as pessoas voltam.
Sim, mas só de férias.

Mas têm o direito de ficar todo o tempo que quiserem, vários anos inclusive, salvo o fato de perderem algumas vantagens vinculadas à condição de residente permanente, como os cupons de racionamento, a prioridade para a moradia etc.
Sim, mas as pessoas não podem ficar aqui por vários meses, pois têm sua vida lá fora, seu trabalho etc.

Isso é outra coisa, e é igual para todos os emigrados do mundo inteiro. Em todo caso, as pessoas podem perfeitamente voltar a Cuba quando quiserem e permanecer no país o tempo que quiserem. O único problema é que, se ficam mais de onze meses fora do país, perdem algumas vantagens. Por outro lado, custa-me compreender por que, se a realidade é tão terrível aqui, alguém que tem a oportunidade de viver fora, em um país desenvolvido, desejaria voltar para viver novamente em Cuba.
Por múltiplas razões, por seus laços familiares etc.

Então a realidade não é tão dramática.
Não diria isso, mas alguns têm melhores condições de vida que outros.

Quais são, para a senhora, os objetivos do governo dos EUA em relação a Cuba?

Os EUA querem uma mudança de governo em Cuba, mas isso é o que quero também.

Então a senhora compartilha um objetivo com os EUA.
Como muitos cubanos.

Não estou convencido disso. Mas por quê? Porque é uma ditadura? O que Washington quer de Cuba?
Creio que se trata de um questão geopolítica. Há também a vontade dos exilados cubanos, que são levados em conta, e querem uma nova Cuba, o bem-estar dos cubanos.

Com a imposição de sanções econômicas?
Tudo depende de quem é a referência. Quanto aos EUA, creio que querem impedir a explosão da bomba migratória.

Ah, é? Com a lei de Ajuste Cubano, que incita os cubanos a abandonar o país? Não é sério. Por que não anulam essa lei, então?
Creio que o verdadeiro objetivo dos EUA é acabar com o governo de Cuba para dispor de um espaço mais estável. Muito se fala de Davi contra Golias para descrever o conflito. Mas o único Golias, para mim, é o governo cubano, que impõe um controle, a ilegalidade, os baixos salários, a repressão, as limitações.

A senhora não acha que a hostilidade dos EUA contribuiu para isso?
Não apenas acho que contribuiu, mas também que se transformou no principal argumento para se afirmar que vivemos em uma fortaleza assediada e que toda dissidência é traição. Acredito que, na verdade, o governo cubano teme que este confronto desapareça. O governo cubano quer a manutenção das sanções econômicas.

Verdade? Porque é exatamente o que diz Washington, de um modo um pouco contraditório, pois, se fosse o caso, deveria suspender as sanções e assim deixar o governo cubano diante de suas próprias responsabilidades. Já não existiria a desculpa das sanções para justificar os problemas de Cuba.
Cada vez que os EUA tentaram melhorar a situação, o governo cubano teve uma atitude contraproducente.

Em que momento os EUA tentaram melhorar a situação? Desde 1960 só se reforçaram as sanções, à exceção da era Carter. Por isso é difícil manter esse discurso. Em 1992, os EUA votaram a lei Torricelli, com caráter extraterritorial; em 1996, a lei Helms-Burton, extraterritorial e retroativa; em 2004, Bush adotou novas sanções, e as ampliou em 2006. Não podemos dizer que os Estados Unidos tentaram melhorar a situação. Os fatos provam o contrário. Além disso, se as sanções são favoráveis ao governo cubano e servem apenas de desculpa, por que não eliminá-las? Não são os dirigentes que sofrem com as sanções, e sim o povo.
Obama deu um passo nesse sentido - insuficiente, talvez, mas interessante.

Ele apenas eliminou as restrições que Bush impôs aos cubanos e lhes impedia de viajar a seu país por mais de 14 dias a cada três anos, na melhor das hipóteses, e contanto que tivessem um membro direto de sua família em Cuba. Bush inclusive redefiniu o conceito de família. Um cubano da Flórida com apenas um tio em Cuba não podia viajar a seu país, porque o tio não era considerado membro "direto" da família. Obama não eliminou todas as sanções impostas por Bush, e nem sequer voltamos à situação que havia com Clinton.
Creio que as duas partes deveriam, sobretudo, baixar o tom, e Obama o fez. Mas Obama não pode eliminar as sanções, pois falta um acordo no Congresso.
Mas pode aliviá-las consideravelmente assinando simples ordens executivas, o que por enquanto ele se recusa a fazer.
Está ocupado com outros temas, como o desemprego e a reforma da saúde.

No entanto, teve tempo de responder à sua entrevista.
Sou uma pessoa de sorte.

A posição do governo cubano é a seguinte: não temos de dar nenhum passo em direção aos EUA, pois não impomos sanções aos EUA.
Sim, e o governo diz também que os EUA não devem pedir mudanças internas, pois isso é ingerência.

É o caso, não?
Então, seu eu pedir uma mudança, também é ingerência?

Não, porque a senhora é cubana e, por isso, tem direito de decidir o futuro de seu país.
O problema não é quem pede as mudanças, e sim quais são as mudanças em questão.

Não estou certo disso, porque, como francês, não gostaria que o governo belga ou o governo alemão se intrometessem nos assuntos internos da França. Como cubana, a senhora aceita que o governo dos EUA lhe diga como deve governar seu país?
Se o objetivo é agredir o país, é evidentemente inaceitável.

A senhora considera as sanções econômicas uma agressão?
Sim, as considero uma agressão que não teve resultados e é uma múmia da guerra fria que não faz nenhum sentido, atinge o povo e tem fortalecido o governo. Mas repito que o governo cubano é responsável por 80% da crise econômica atual, enquanto 20% resultam das sanções.

Volto a repetir: é exatamente a posição do governo dos EUA, e os números provam o contrário. Se fosse o caso, não creio que 187 países do mundo se preocupassem em votar uma resolução contra as sanções. É a 18ª vez consecutiva que uma imensa maioria dos países da ONU se pronuncia contra esse castigo econômico. Se fosse marginal, não creio que eles se incomodassem.
Mas não sou uma especialista em economia, é minha impressão pessoal.

O que a senhora aconselha para Cuba?
É preciso liberalizar a economia. É claro que isso não pode ser feito de um dia para o outro, pois provocaria uma ruptura e disparidades que afetariam os mais vulneráveis. Mas é preciso fazê-lo gradualmente e o governo cubano tem a possibilidade de fazê-lo.

Um capitalismo "sui generis", com a senhora diz.
Cuba é uma ilha sui generis. Podemos criar um capitalismo sui generis.

Yoani Sánchez, obrigado por seu tempo e disponibilidade.
Eu que agradeço.

O jornalista francês Salim Lamrani é professor encarregado de cursos na Universidade Paris-Sorbonne - Paris IV e na Universidade Paris-Est Marne-la-Vallée. Especialista nas relações entre Cuba e os Estados Unidos, acaba de publicar Cuba: Ce que les médias ne vous diront jamais (Paris, Editions Estrella, 2009). Contato: lamranisalim@yahoo.fr
 

.
.