26 de mai de 2010

Actualidade do papel histórico da classe trabalhadora

Marcos Domich

Desde a expansão da onda liberal que se fala e se tem insistido muito na crise do movimento operário e sindical, na perda da sua centralidade social e sobretudo do que se denomina o papel de vanguarda da classe operária. Ao impor tudo isto como um facto definitivo e irrefutável – principalmente com a ajuda de um poderoso aparelho mediático – os monopólios, a burguesia mundial, em suma o imperialismo, utilizaram esta situação para impor o seu modelo económico e social sem oposição. O desaparecimento do campo socialista e sobretudo a dissolução contra-revolucionária da União Soviética reforçaram esta ideia. A publicação de obras como as de Francis Fukuyama (funcionário do aparelho estatal estadunidense), sobre «o fim da história» e a eternidade do sistema capitalista, criaram toda uma «base teórica» que, por outro lado, reforçou o que já tinha acontecido em círculos da «fina» intelectualidade da esquerda europeia que, a partir de posições revisionistas, reforçou esta base teórica. A intelectualidade latino-americana de esquerda – da «falsa esquerda» como acaba de a estigmatizar com precisão o Comandante Tomás Borge – menos criativa e mais imitadora, fez o seu próprio trabalho, incluindo na Bolívia, como é óbvio.

A produção teórica de qualquer das alas ou correntes da esquerda ou da direita das ciências sociais, que não é um mero jogo de especulação intelectual, serve para a prática social, para que as classes e as suas representações políticas imponham os seus modelos económicos e sociais. Isto caiu, naturalmente como sopa no mel às transnacionais e às classes possidentes. Estas, com a ideia imposta do fracasso do socialismo, do «estalinismo», etc., aplicaram o neoliberalismo e procederam ao desmantelamento e ao saque dos patrimónios nacionais. Sob a consigna da liberdade do mercado, destruíram os aparelhos produtivos nacionais e converteram tudo em mercadoria, até a água.

Tudo era «livre»; para a classe operária, para os trabalhadores em geral, inventou-se a livre contratação que significou a destruição dos seus instrumentos de luta, particularmente dos sindicatos e o submetimento a um sistema de exploração semelhante aos tempos de emergência do capitalismo. As leis de protecção do trabalho, o sistema de segurança social e muitas outras conquistas dos trabalhadores foram violentadas de forma clara. Até a mais histórica das conquistas dos trabalhadores: a jornada de oito horas, desapareceu. Na prática, anulou-se «legal» ou ilegalmente o que se conhece como conquistas sociais dos trabalhadores. Sob a consigna de que tudo isto se fazia em parlamentos democráticos de levanta-a-mão, sancionaram-se novas disposições que legalizaram estas realidades sociais cruéis para os trabalhadores.

Utilizámos muitas palavras para descrever estes arquiconhecidos factos, mas era necessário recordá-los para explicar o que se passa no nosso país e sobretudo o que ocorre no movimento operário e sindical em particular. O que é que se passa com a COB [Central Operária Boliviana], com os sindicatos, nesta conjuntura histórica por que passa a Bolívia? Começamos, de forma ex professa, com uma referência ao quadro internacional, porque o que se passou na Bolívia passou-se em todo o mundo. Isto sucedeu a mouros e a cristãos. Os trabalhadores, independentemente da cor da sua pele, idioma ou crença religiosa, sofreram todos por igual; todos os que vivem numa sociedade capitalista. Os matizes ou as peculiaridades das regiões, os povos ou intensidade da exploração, têm de ser levados em conta na hora da acção, mas não contradizem as regularidades do capitalismo, neste caso global. Enfatizamos isto porque não faltam obtusos que afirmam, por exemplo, que o sindicalismo é um mal-agradecido «invento europeu». E há também que fixar bem um facto: se o capitalismo internacional e o imperialismo campeiam no planeta, não se deve ignorar que há países que vivem uma situação distinta. A situação na Bolívia não é a mesma da Colômbia ou do Chile ou do Peru; particularmente não é a mesma a situação dos trabalhadores.

É um facto irrecusável que houve uma crise no movimento operário e sindical boliviano. Esta crise ainda continua a perturbar a acção dos trabalhadores e ainda não encontrou o caminho para a sua superação. Vejamos as duas faces desta crise. Uma é criada pelo próprio capitalismo. A destruição de postos de trabalho (a «deslocalização»), o virtual aniquilamento de destacamentos operários como o dos mineiros da COMIBOL [Corporação Mineira da Bolívia], na prática uma desproletarização do país. Tinha-se anulado o portador da ideologia de vanguarda, o que estava bastante seguro da sua missão histórica, formulada na Tese Socialista da COB em 1970. É certo que houve depois um processo de reproletarização como escreveu Garcia Linera [Vice-presidente da Bolívia]; alargaram-se as fileiras dos trabalhadores; não desapareceu o proletariado. Mas este tem agora as características de todo o proletariado recente, jovem: é mais classe em si do que classe para si.

A outra faceta é a da mentalidade, da consciência social dos trabalhadores e que de alguma forma é a dominante nas suas organizações naturais. Em toda a sociedade predomina a ideologia da classe dominante. Os trabalhadores bolivianos não escapam a esta regularidade que actua na sociedade capitalista. Isto leva ao desenvolvimento de uma luta incansável pela sua superação: recuperar a memória histórica dos trabalhadores, recordar as suas tradições e glórias, pois estas, sim, existiram.

Uma peculiaridade do movimento laboral e sindical boliviano é que também sofre algumas doenças que perturbam o adequado lançamento das lutas: o radicalismo que acredita que tudo se pode fazer de imediato e que, de facto, na conjuntura actual da Bolívia, é possível satisfazer plenamente todas as legítimas aspirações dos trabalhadores. Para isso recorrem a métodos, acções e a formulações e consignas que são francamente irracionais, carentes de sentido da realidade e de lógica elementar. Uma verdadeira «doença infantil», e infelizmente, por esta via coincidente com os propósitos e planos do imperialismo, da reacção nativa. São-lhes funcionais. Apagaram da sua memória histórica (se acaso a tiveram) o que se passou com os governos progressistas ou democráticos. Dizem que querem o socialismo, mas acreditam, por ventura, que se se desestabiliza ou se derruba o actual governo virá o socialismo?

A história tem, no entanto, a sua coerência e os trabalhadores não são alheios a ela. Esperamos que se imponha o pensamento avançado, que coincide com a sua verdadeira consciência de classe, com o seu real papel revolucionário.

* Marcos Domich, Professor da Universidade de La Paz, é amigo e colaborador de odiario.info.

Tradução de José Paulo Gascão

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