9 de jun de 2010

Sobrenomes para as crises

Elsa Claro


AGORA chama-se crise europeia ao processo global de contrariedades econômico-financeiras que atenaza o mundo. A referência permanente à dívida dos Estados do Velho Continente é certa e está em sintonia com o déficit superlativo dos Estados Unidos: US$ 1,56 trilhão em 2010, isto é, 10,6% de seu PIB e o maior acumulado desde a II Guerra Mundial. É um recorde do qual, inexplicavelmente, pouco se fala.


Lógico que as mazelas alheias não aliviam as próprias, mas é preciso ter presente esse dado, acumulado pelo país onde se gerou o estalido, com réplica em diferentes espaços. Além disso, é o lugar de onde procedem várias das tendências provocadoras da debacle.


Outro fator soslaiado é que o neoliberalismo, instaurado por Ronald Reagan nos EUA, e por Margareth Thatcher, na Grã-Bretanha, nos anos 80, e posteriormente posto em prática pela União Europeia desde o ano 2000, está no bojo do problema que se tenta conjurar com essas mesmas normas. Se se despeja gasolina no fogo, com certeza vai crescer, e algo semelhante estão fazendo os governos europeus.


A zona do euro e o Reino Unido pretendem economizar 217,9 bilhões de euros e para consegui-lo não se lhes ocorre modificar as estruturas provocadoras da difícil situação. Mantêm um esquema necessitado de mudanças urgentes e cortam de onde menos há. Na Itália, por exemplo, até as contribuições para os deficientes foram reduzidas.


E são frequentes as contradições. A Alemanha concluiu o ano 2009 com um déficit de 3,3%, apenas umas décimas acima do exigido pelo Tratado de Masstrich, algo que poucos cumprem desde muito antes de explodir a bolha. Então, o governo fala de um plano de austeridade que se traduz na poupança de 10 bilhões de euros anuais, a partir de agora e até 2016. Para consegui-lo vai fazer igual ou parecido com o resto: diminuir ou congelar ordenados e pensões, diminuir os orçamentos sociais, incluindo os subsídios ao desemprego... etc, etc, sempre mantendo a salvo àqueles que jamais deixaram de receber receitas elevadas.


Pelo contrário, e segundo o Instituto Alemão de Pesquisas Econômicas de Berlim, os gastos da participação da Alemanha no Afeganistão são de 3 bilhões por ano. Cálculos dessa instituição indicam que se não se aumentam os 5.300 soldados que o governo Merkel tem atualmente no país centro-asiático, e supondo uma retirada dentro de três anos, participar da aventura iniciada por Washington teria custado ao país 36 bilhões de euros, quer dizer, muito acima do que se pretende economizar num quinquênio. E nesses cálculos não se inclui o orçamento militar.


"Herdamos um desastre econômico", disse o recém nomeado ministro da Fazenda britânico, George Osborne, ao se referir às reduções, culpando o governo anterior dos planos que se dispoem a executar os que acabam de assumir o mandato. Vão reduzir 970 milhões de euros das despesas no ensino (setor várias vezes reduzido), também há reduções similares no trabalho ou nas pensões. Estas reduções significam deixar sem trabalho médicos, enfermeiras, docentes, com o qual se deterioram setores bastante atingidos.


As medidas vão aumentar a taxa de desemprego no Reino Unido, que atualmente ultrapassa 8%, com inclinação a continuar aumentando nos próximos meses. Esses ajustes foram notificados pela rainha Isabel II, à maneira dos velhos costumes que, diga-se de passagem, se efetuam na Câmara dos Lordes, onde os Comuns (incluindo o primeiro-ministro e seu gabinete) não têm vagas e devem permanecer de pé, num recinto onde imperam o luxo e hábitos pouco acordes com a situação dominante.


O problema não está em que as casas reais europeias continuem recebendo elevadas somas dos Estados sem prestar contas de como as gastam, quer haja abundância, quer escassez. Como instituição, a EU tem estabelecida a entrega de subvenções à agricultura, mas o estímulo se aplica, ante tudo, segundo a quantidade de terras que se tenham, estejam ou não cultivadas. Os fazendeiros de menos alcance se queixam há tempo de que os grandes complexos recebem as maiores fatias. Deve ser verdade, pois o Departamento de Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do Reino Unido publicou seu relatório anual sobre os beneficiários das citadas contribuições agrárias e a família real recebeu 1. 449.152 euros dessas subvenções, durante o ano passado.


SEM REVERSO


A Espanha destaca entre as nações que como Portugal, Itália, Irlanda, Grécia, além das citadas nos parágrafos anteriores, aplicam uma receita errada. O governo de Zapatero continua recebendo tantas críticas do Partido Popular que pareceria se invertiram os papeis ideológicos. A demagogia e o oportunismo caracterizam a direita espanhola que também encontra neste fenômeno um pano de fundo para ocultar seus escândalos por corrupção ou a reviravolta dada às investigações sobre as vítimas do franquismo.


Como prova de que existem melhores caminhos, um grupo de organizações de esquerda tornou pública uma proposta de reformas urgentes em matéria tributária centrada nos contribuintes com maior capacidade econômica. Trata-se dum grupo de regras para as rendas superiores e tributos sobre as operações da bolsa "para desestimular os ataques especulativos", entre normas estruturais que tornariam desnecessárias as afetações sobre salário e pensões. Somente um imposto sobre a riqueza permitiria arrecadar 2,25 bilhões de euros adicionais cada ano.


Se a dívida externa espanhola é principalmente privada, seria sensato trabalhar sobre esse setor. Por isso se destaca que no primeiro trimestre de 2010 somente quatro grandes empresas (os bancos Santander e BBVA e as companhias Telefónica e Endesa) obtiveram benefícios superiores à poupança pretendida com o ajuste do governo.


Por tal motivo, as propostas de alternativas têm razão.


Algo essencial é advertido pelos economistas e outros especialistas: urge mudar o estado de coisas que coloca as finanças e a especulação acima dos Estados. A perda do poder político, concentrado ou dirigido pelo capital financeiro, é uma das piores consequências do neoliberalismo, afirma em seu livro sobre as expressões atuais do capitalismo o francês Dominique Pilón, presidente do comitê científico da Attact, entidade altermundista, que retrata a degradação do sistema, expressa nesses aumentos do déficit, na dívida e na penúria social (19 milhões de trabalhadores vivem na extrema pobreza na Europa), enquanto os grandes responsáveis pela crise continuam recebendo lucros alucinantes.


Terá dificuldades aquele que tente compreender como é possível que, em meio a uma crise internacional tão aguda, um organismo previsto também para auxiliar os países em problemas, consiga receitas quatro vezes superiores às obtidas em 2008. Falo do Fundo Monetário Internacional que obteve dividendos destacados com as taxas de juros cobradas às nações das quais exige fortes reduções, provocando tensões sociais quando os administradores do problema fecham as saídas razoáveis do labirinto. 
Granma Internacional Digital: http://www.granma.cu/


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