13 de jun de 2010

12 de junho: um dia dos namorados estritamente capitalista

Estranho um comunista falar desse tema, afinal a imagem que temos dessas pessoas que defendem uma sociedade tão difícil de ser alcançada se resume a todo aquele estereótipo russo soviético que temos em nossas mentes. Mas isso é um engano. Ao navegar no sítio da Juventude Comunista Cubana (http://www.juventudrebelde.cu/ - fantástico, por sinal), vi um texto sobre um feriado naquele país e falava que os jovens saíam de suas casas para encontrarem uma possível cara metade (http://www.juventudrebelde.cu/suplementos/sexo-sentido/2010-04-23/para-amores-colores/). Logo pensei: se a União da Juventude Comunista – UJC – quer dialogar com os jovens brasileiros, por que não escrever também um artigo sobre o tema?
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Com o aprofundamento do capitalismo na economia mundial, o nosso calendário e cultura tiveram grandes mudanças: a questão religiosa do natal dá lugar a um dialético movimento de pessoas que têm capital para gastar e, de fato, lotam as lojas, shopping´s, supermercados ou hipermercados, etc. e de outro lado um exército de trabalhadores que gostariam de passar essa data com a família, mas são mega – explorados por causa da carga excessiva de trabalho. Temos o dia das mães, o dia dos pais, dia das crianças, aniversários, carnaval, dentre outras, que servem, além de celebrarem algo com alguma intensidade, são também os motores para deixar a chama do lucro do comércio acesa todo o ano. E o dia dos namorados entra nesse contexto, infelizmente.

Em primeiro lugar, não sou contra datas comemorativas, elas fazem parte da cultura de um povo, de uma nação. Os comunistas do mundo todo comemoram a vitória heróica do povo soviético contra o nazi – facismo, entre outros milhares de exemplos. O capitalismo, através de sua tática que usa massivamente todos os meios de comunicação possíveis, conseguiu quebrar uma lógica que há uns 50 anos atrás tínhamos nas cidades grandes e que ainda prevalecem em algumas cidades do interior (embora, isso seja muito raro), o de manter as pessoas se encontrando, sejam em festas, para conversarem sobre alguma coisa durante horas, organizarem algo em conjunto (existiam até associações de bairro!). Era importante olhar nos olhos das pessoas, compartilharem suas dificuldades, suas alegrias. Logo, o coletivo prevalecia sobre o individual. Notem, não que isso acabou, não sou extremista, mas é muito raro ver hoje um cenário tão favorável ao encontro de pessoas.

Os desenvolvimentos da tecnologia e das ciências a serviço do capital têm imperado outro modo de vida: submissão à ordem da coisificação do ser humano. Ou seja, devemos mais nos preocupar em produzir, em gastar todo o tempo de nossa vida para atender as exigências da burguesia e, fazemos isso muito bem, conscientemente ou não. Trabalhar muito, não conversar com os colegas de trabalho sobre outras coisas alheias ao ofício, estudar bastante, de dia, de noite. E nem ousem em ir para alguma festinha no sábado - tem trabalho de faculdade para entregar na próxima semana! E claro, devemos inventar um tempo para ir à academia e moldar nossos músculos como a mídia exige, para atender aos padrões “normais” de beleza e estarmos dispostos ao serviço no dia seguinte
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Qual o resultado do estilo de vida supracitado (e quem falar que não sabe do estou falando, que atire a primeira pedra!)? É o esvaziamento de lugares ou momentos os quais as pessoas se encontram e até facilitam que algo mais avançado seja feito (na linguagem informal – encontrar uma cara metade). As empresas capitalistas agradecem, a burguesia fala que o povo brasileiro é muito submisso, estamos contentes porque o que a grande mídia, endeusada em um monitor de TV ou qualquer canal de transmissão de suas bizarrices, que impera o que devemos ser e cumprimos cabalmente tal imposição. 

Agora vem o dia 12 de junho que no Brasil é o dia dos namorados, data que é variável de país a país, cultura a cultura. Existe uma alguma coisa no ar que diz o seguinte: não devemos nos esquecer de comprar os presentes! Na psicologia, está provado que o primeiro momento do encontro de um casal se dá através de questões objetivas, como a aparência, os sinais corporais (olhar, sorriso, etc.), porém, com o passar do tempo a relação amadurece (pelo menos se espera) e outros valores são colocados de modo a consubstanciar um relacionamento mais longo e duradouro, como o jeito de ser, os sonhos, o estilo de vida, etc. Não que dar presentes seja algo inerente ao sistema capitalista ou a ótica burguesa, dar coisas bonitas a quem nós amamos é algo normal e vem sendo legado culturalmente desde os nossos ancestrais mais remotos, mas o que questiono sobre o dia 12 é o seguinte: tirando o pouco que o proletariado tem de seus ganhos, a data existe só para movimentar a economia e o comércio? Então, o que devemos comemorar? Um namoro heroicamente construído na conjuntura social descrita? Isso é louvável, mas não creio ser esse o objetivo central. 

Vamos supor um(a) jovem, independente da sua posição sexual que queira sair no sábado do dia 12 para encontrar alguém. Em Minas Gerais não existem praias, mas o que importa, quem vai à praia nesse inverno? Então vamos ao shopping! Mas lá é um lugar o qual as pessoas vão para comprar alguma coisa, na maioria das vezes, de maneira impulsiva (não planejada), elas não têm tempo para conversar. Vamos para uma boate! Sim, mas lá não é um lugar para um casal se conhecer melhor, compartilhando seus sentimentos. E um show? Mesma conjuntura. E uma festa na casa de um parente? Só vão familiares. Um bar! Ninguém vai a um bar para ficar “bom”, mas para ficar “ruins” (quem ler que entenda!). É possível fazer dezenas e dezenas de exemplos, mas provavelmente chegaremos a um mesmo resultado: faltam espaços de convivência para que as pessoas possam se conhecer melhor. Esse é o grande desastre do dia dos namorados desse ano (e nos anos antecessores e posteriores). 

O que me consola é o fato que em uma sociedade socialista, os valores do povo são outros, a lógica burguesa sobre a vida vira cinzas. Dá até uma certa inveja, no calor caribenho, os camaradas da Juventude Comunista Cubana e os jovens daquele país se deleitarem de amores na tão aconchegante, sensual e romântica Havana. Mas lembrando que temos pouco tempo para essas coisas, voltemos à árdua tarefa militante de lutar por uma sociedade mais justa, igualitária, a qual os seres humanos sejam o foco de todo o trabalho gerado pela nação. E lá se vai mais um dia dos namorados e a continuação da subestimação das relações humanas, ao contrário da sua subjetividade.

*Texto do camarada Alex Roberto Corrêa – Secretário de Movimento Estudantil da União da Juventude Comunista de Minas Gerais.




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