3 de jun de 2010

O Crime “Excessivo” (Editorial de L´Humanité)

Patrick Le Hyaric*

A partir de agora não há mais desculpas nem tergiversações. Os dirigentes políticos de Washington, da União Europeia e de cada um dos seus governos se não sancionarem agora o Estado de Israel ficarão também com as mãos tintas de sangue, pela sua cumplicidade nos crimes do terrorismo sionista.

Em Gaza já se tinha visto a desumanidade de que era capaz o governo israelense. Sabia-se o seu desprezo total pelos princípios do direito internacional. Pressentia-se a sua vontade de esmagar pela fome e pela sede o povo de Gaza mantendo à sua volta um bloqueio escandaloso. Apesar disso não se podia imaginar que os dirigentes deste Estado fossem capazes da atacar com comandos, de madrugada, uma flotilha de seis barcos fretada por organizações não governamentais com fins humanitários, de matar pessoas a sangue-frio e ferir outras pessoas que iam a bordo.

Esta «coligação da flotilha da liberdade» composta por pessoas oriundas de uma quinzena de países, de opiniões e credos diversos, tinha apenas um objectivo: levar comida, água, medicamentos e materiais de construção à população de Gaza.

Com este bárbaro e sangrento acto, os dirigentes israelenses mostram claramente que querem que o bloqueio a Gaza seja total. Dito de outro modo, querem exterminar este povo sem nada nas mãos. As palavras não são demasiado fortes. Todas as chancelarias do Mundo, a ONU, a União Europeia, a quase totalidade das instituições se dizem chocadas, indignadas com estes novos crimes do exército israelense, com estas manifestas violações do direito internacional. Não bastam palavras! São precisos actos. Até agora o vai-vem dos dirigentes do mundo entre Bruxelas, Washington e Telavive não serviu de grande coisa senão para estender um véu de ilusões sobre as pretensas iniciativas de paz enquanto escondem a impunidade total dos dirigentes israelenses, que continuam a colonizar, a ocupar, a privar da liberdade o povo palestino e a sujeitá-lo a um regime de apartheid. Há alguns dias, Israel foi admitido na OCDE como se nada se passasse. É por os dirigentes israelenses se sentirem protegidos que eles se podem permitir tais atrocidades.

O momento não é mais o do palavreado que aventa permanentemente esta impunidade. Os governos, a ONU e a União Europeia devem reagir firmemente. Impõe-se um inquérito internacional sob a égide da ONU e uma reunião do Conselho de Segurança que deve condenar, claramente e sem meias tintas, estes actos de barbárie e tirar daí todas as consequências. Que, finalmente, os Estados e a ONU executem as recomendações do relatório Goldstone, que a União Europeia suspenda imediatamente o acordo de associação Israel-União Europeia, que cessem as vendas de armas dos Estados Unidos e da União Europeia e os investimentos em Israel enquanto não for levantado o bloqueio contra Gaza, enquanto prosseguir a colonização-ocupação, enquanto não forem libertados os prisioneiros políticos palestinos.

Decididamente, excessivo, é excessivo! Depois do que acaba de suceder, as instituições e os governos que se contentarem com palavras de admoestação sem continuidade tornar-se-ão cúmplices destes crimes abomináveis. Os Estados Unidos e a União Europeia, como outros grandes países, tem os meios para fazerem cessar uma situação que já durou demasiado tempo. A mobilização pela justiça, pela democracia, pela segurança, pela paz e para que povo palestino tenha finalmente acesso aos seus direitos devem ser ainda mais amplificada. 

* Director do L´Humanité

Este Editorial foi publicado no jornal francês L’Humanité de dia 1 de Junho de 2010.

Tradução de José Paulo Gascão



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