22 de nov de 2011

A escolha dos camaradas

por Loïc Ramirez

"A autofobia também se manifesta nas fileiras dos que, mesmo continuando a declarar-se comunistas, se mostram obcecados com a preocupação de reafirmar que não têm nada a ver com um passado que consideram, tal como os seus adversários políticos, como meramente sinónimo de abjecção. A este narcisismo arrogante dos vencedores, que transfiguram a sua própria história, corresponde a auto-flagelação dos vencidos", afirmava o filósofo italiano Domenico Losurdo [1] . Um aviso para o movimento comunista europeu face à renegação do seu passado pró-soviético.

Obediente, o Partido Comunista Francês despiu-se das suas vestes marxistas-leninistas, abandonou a "ditadura do proletariado" e escondeu a foice e o martelo. Apesar de fortes resistências internas, o partido de Thorez, a exemplo de diversos partidos comunistas da Europa ocidental, iniciou a viragem para o século XXI asseptizado da sua "matriz bolchevique" [2] . Resulta daí uma distanciação das forças revolucionárias que, outrora, estariam próximas dele.

A morte de Alfonso Cano, abatido pelo exército colombiano a 4 de Novembro de 2011, provocou a reacção de inúmeros partidos comunistas que prestaram homenagem ao chefe guerrilheiro. "Honra e glória ao comandante Alfonso Cano!" anunciou o Partido Comunista da Venezuela num comunicado de imprensa [3] . "Alfonso Cano foi sem sombra de dúvida um revolucionário exemplar (…) Até sempre, Comandante Alfonso Cano!" escreve o Partido Comunista do México [4] . Quanto aos comunistas chilenos, exprimem as suas "profundas condolências pela morte do companheiro Alfonso Cano, primeiro comandante das FARC-EP, às mãos do exército colombiano, sustentado financeira e tecnicamente pelo aparelho militar do imperialismo americano [5] .

Na Europa, as vozes de protesto face à ofensiva militar de Bogotá são mais raras. O Partido Comunista Grego (KKE) é um dos poucos a pronunciar-se sobre o assunto, publicando um comunicado dirigido directamente aos membros do Comité Central das FARC-EP, qualificando-os de "Caros camaradas": "O camarada Cano tem um lugar de honra no meio dos milhares de combatentes, sindicalistas, dirigentes políticos, operários, camponeses e jovens que deram a vida nestes últimos anos pela nova Colômbia (…) O Partido Comunista da Grécia está solidário (…) apoiamos a luta para que as FARP-EP sejam reconhecidas como força beligerante e saiam imediatamente da lista de grupos terroristas da União Europeia" [6] . Em Espanha onde, dada a proximidade histórica que liga o país ao continente sul-americano, seria de esperar uma reacção do Partido comunista… nada. É preciso virarmo-nos para o PCPE (Partido Comunista dos Povos de Espanha) para ler numa nota: "Os comunistas choram hoje a morte de Alfonso Cano que passa a fazer parte da nossa história libertadora, pertencendo aos povos e os povos são invencíveis, prestamos homenagem a um revolucionário com a certeza de alcançar a vitória" [7] .

Dos lados da Praça do Coronel Fabien [NT 1] não foi emitido nenhum comunicado oficial relativo a este acontecimento. O quotidiano L'Humanité contentou-se em tratar esta notícia numa pequena nota, um "assunto delicado", de poucas linhas no seu número de segunda-feira, 7 de Novembro de 2011 [8] . Foi o semanário L'Humanité Dimanche (HD) que dedicou uma nota consequente ao assunto, na sexta-feira, 10 de Novembro, através da pluma do historiador e antigo jornalista Jean Ortiz [9] .

É certo que a Colômbia fica muito distante da França e que não tem havido muitas ocasiões na história recente para os revolucionários dos dois países estreitarem laços. O PCF não tem tido, tanto quanto eu saiba, quase nenhum contacto com a guerrilha camponesa do país andino. No entanto, a secretária-geral, Marie-George Buffet, pronunciou-se sobre a libertação da ex-refém Ingrid Betancourt no verão de 2008 falando da "enorme alegria" que sentira com essa notícia. O PCF publicara uma declaração na qual afirmava partilhar da alegria da família Betancourt, considerando que "se impunha a exigência duma libertação unilateral por parte das FARC" [10] . Assim, o Partido, nessa altura, aprovava que se "exigisse" à guerrilha uma diligência que "seria um gesto político significativo a favor da paz", sem sequer falar dos prisioneiros políticos feitos por Bogotá e que são reclamados pelo grupo armado. A crer neste comunicado, cabe aos insurrectos fazer um gesto na direcção duma negociação de pacificação, enquanto estes não deixam de afirmar que foi a agressão estatal que os obrigou a pegar em armas.

O silêncio do PCF sobre a morte de Cano terá sido um mero esquecimento? É evidente que não e que isso reflecte, pelo contrário, uma decisão política bem amadurecida. Como poderia um partido legal, que faz parte do modelo democrático dum estado-nação como a França, que reconhece as suas instituições, ser solidário com uma organização rebelde classificada como "terrorista" pela União Europeia? No entanto, Carlos Medina Gallego, investigador na Universidade Nacional de Bogotá, disse isto: "As FARC-EP não têm poupado esforços para procurar obter junto da comunidade internacional o reconhecimento de "força beligerante" e não de terroristas, na medida em que essa identificação torna impossível qualquer saída política e negociada para o conflito" [11] .

Não é o único caso em que o Partido Comunista Francês se afasta de pessoas que se definem como "comunistas" com medo de ser atacado pela ideologia dominante. Julien Salingue é professor na Universidade Paris VIII Saint Denis e orientou as suas pesquisas sobre o conflito israelo-palestino. Em Setembro de 2002 entrevista o dirigente marxista-leninista da FPLP (Frente Popular de Libertação da Palestina). Ahmed Saadat, na altura detido pelas Autoridades palestinas, sob pressão dos Estados Unidos e de Israel, pelo assassínio do ministro Rehaman Zeevi em 2001. Eis um extracto da entrevista: "(J.S.) Há uns dias começou o processo de M. Barghouti, que foi profundamente mediatizado. Na sua opinião porque é que, enquanto se falou tanto dele, se mantém o silêncio sobre o senhor e os seus camaradas? (A.S.) Primeiro que tudo preciso de esclarecer que é importante que se fale de Barghouti (…) Quanto ao silêncio a nosso respeito, a primeira responsabilidade, como calcula, cabe à própria Autoridade Palestina, assim como às ONG que lhe estão ligadas. Optaram por dar destaque aos que estão em Israel porque, para eles, o nosso caso é bastante embaraçoso (…) A única coisa que conseguiram fazer foi ajudar os israelenses que exigiam há bastante tempo que a FPLP fosse posta na lista das organizações terroristas estabelecida pela União Europeia. A partir daí, ficou o assunto arrumado. Já antes, havia muitos PC que recusavam a encontrar-se connosco, e depois disso ainda foi pior. O PCF, por exemplo, que veio para se encontrar com a "esquerda palestina" recusou-se a encontrar-se connosco oficialmente. Idem para o PC de Chipre. E para outros. Isso faz parte igualmente do silêncio à nossa volta" [12] . Profundamente envolvido nas libertações de Marwan Barghouti (embora não comunista) e do jovem franco-argelino Salah Hammouri, conforme ficou demonstrado no trágico episódio no estádio de França no dia 11 de Novembro passado [13] , o MJCF (Movimento de Jovens Comunistas de França) ainda não soube integrar a libertação do comunista Ahmed Saadat nas suas reivindicações. Este último parece continuar a ser esquecido no seio da organização da juventude e na do PCF.

Os combatentes armados são camaradas embaraçosos? É certo que até Hugo Chavez se resignou a entregar às autoridades colombianas combatentes da guerrilha, sob pena de ver cair em cima dele os raios da propaganda mediática acusando-o de ser cúmplice de perigosos terroristas. Conforme confessou, explicou que a detenção do colombiano da oposição Joaquin Becerra tinha sido necessária para não cair na armadilha que queria atraí-lo para um terreno publicitário desfavorável. Teve que cortar entre a legalidade internacional e os camaradas [14] . O PCF, porém, também já recorreu à luta armada no passado. Em condições especiais, é certo (a ocupação por um exército estrangeiro). Será necessário analisar a situação colombiana e tentar compreender se a acção da guerrilha se justifica ou se é contraproducente? Logicamente, dada a sua proximidade histórica, ideológica e geográfica com as FARC, o Partido Comunista Colombiano poderia ser levado a utilizar luvas na altura de se pronunciar sobre Cano, prejudicado que já está pela amálgama entre os seus militantes e os guerrilheiros. Podemos compreender a importância que tem para estes actores políticos legais pesar cada palavra no momento de tratar dum assunto tão delicado num país maioritariamente hostil aos guerrilheiros. Isso não impede o director do semanário Voz (jornal comunista) de afirmar: "O Partido Comunista Colombiano não adere ao coro de alegria que invade o governo nacional, os círculos militares e os representantes da extrema-direita e os partidários da guerra na Colômbia em relação à morte de Alfonso Cano, principal dirigente da guerrilha das FARC. Somos humanistas e por isso é-nos dolorosa a morte dos nossos compatriotas. Ainda mais quando se trata de um combatente revolucionário" [15] . Uma declaração sem ambiguidade do dirigente comunista que reconhece ao guerrilheiro o estatuto de "revolucionário" e o aceita assim totalmente no seio dessa família política. A isto acresce um artigo na Voz , de Armando Orozco Tovar, cujo título resume o partido assumido: "O rosto do herói" [16] .

Em França é pois assim tão delicado para o PCF reconhecer Alfonso Cano como um "camarada"? Para os meios de comunicação evidentemente seria fácil fazer correr a tinta sobre a solidariedade expressa por um partido político para com um "narco-terrorista". A opção de se distanciar pode pois facilmente ser entendida como uma atitude pragmática e razoável a que ninguém tem nada a opor. Parece-me apenas que é uma pena que o partido que tem sede na Praça do Coronel Fabien não apresente nenhumas condolências, nenhuma demonstração de respeito, pela morte, a milhares de quilómetros, nas montanhas da América do Sul, de um homem que, esse sim, seria reconhecido como um Pierre Georges [NT 2] .

19/Novembro/2011 [1] Fuir l'Histoire, la révolution russe et la révolution chinoise aujourd'hui, D. Losurdo, edições Delga, 2007, página 7
[2] www.lemonde.fr/...
[3] www.tribuna-popular.org/...
[4] www.comunistas-mexicanos.org/...
[5] www.abpnoticias.com/...
[6] http://es.kke.gr/news/news2011/2011-11-08-farc-ep
[7] pcpe.es/internacional/...
[8] L'Humanité, 7 Novembro 2011, página 15
[9] L'Humanité Dimanche, semana de10 a 16 Novembro, página 65
[10] http://www.pcf.fr/sujets/211
[11] FARC-EP, temas y problemas nacionales 1958-2008, C.M.Gallego, Universidad Nacional de Colombia
[12] www.juliensalingue.fr/...
[13] Agressão física dos militantes do MJCF, na sequência da exibição duma bandeirola a favor da Palestina aquando do desafio França-EUA, ver www.lesinrocks.com/
[14] Ver o artigo sobre este assunto em http://www.legrandsoir.info/L-heure-des-bons-et-des-mauvais-choix.html
[15] carloslozanoguillen.blogspot.com/...
[16] Jornal Voz, n°2615, semana de 9 a 15 Novembro, pag. 9

[NT 1] Local onde está a sede do PCF.
[NT 2] – Pierre Georges (1919-1944), mais conhecido por Coronel Fabien, foi um dos dois membros do Partido Comunista Francês que efectuou as primeiras execuções de alemães durante a ocupação da França na II Guerra Mundial. Em 1940, juntou-se à Resistência Francesa nos Partisans Franco-Atiradores, que na altura ainda actuavam sobretudo através de sabotagens de equipamento alemão em França.

O original encontra-se em http://www.legrandsoir.info/le-choix-de-ses-camarades.html.
Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .



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