13 de set de 2010

E você, tem medo do Irã?

Renato Prata Biar*

Se um dia lhe fosse formulada a seguinte pergunta: qual, em sua opinião, pode ser considerado como o maior ataque terrorista da história da humanidade? Que imagens e personagens viriam primeiro à sua memória? Seria o World Trade Center nos Estados Unidos (11 de setembro de 2001) e alguns muçulmanos? Seria o atentado em Madri na Espanha (11 de março de 2004) e também alguns muçulmanos? Ou seria o atentado em Londres na Inglaterra (07 de julho de 2005) e, mais uma vez, tendo os muçulmanos como os principais personagens? Pois bem, se somarmos todos os mortos desses três atentados (Estados Unidos: aproximadamente 2.750 mortes; Londres: 55 mortes e Espanha: 190 mortes), chegaríamos a cerca de três mil vítimas fatais. O que, sem dúvida, é um número impressionante e assustador, pois uma única vida ceifada dessa maneira já pode ser considerada uma tragédia.

Porém, devemos antes nos perguntar o que é um ataque terrorista ou, melhor, o que é necessário para que um ataque seja considerado como terrorista. De forma bem sucinta (pois existem vários conceitos divergentes entre si para caracterizar o termo terrorismo), considera-se um ataque como terrorista quando se tem como alvo a população civil indefesa, desarmada e despreparada como foi, sem dúvida, o caso dos três atentados acima citados. O objetivo do ataque é, literalmente, causar o terror e o pânico na população como meio de alcançar determinados objetivos políticos que, não necessariamente, precisam ter uma conotação tática e estratégica de cunho militar.

Parece-nos, então, que não há dúvidas de que os ataques do World Trade Center, de Madri e de Londres foram indiscutivelmente ataques terroristas. Entretanto, quem citou um desses três como o maior ataque terrorista de toda a história, passou bem longe! Na verdade, mesmo se pudéssemos considerar os três como um único ataque, isso não seria suficiente para considerá-lo como o maior de todos. O maior ataque terrorista da história da humanidade ocorreu em duas etapas: o primeiro em 06 de agosto de 1945 na cidade de Hiroshima (com 140 mil mortos) e o segundo em Nagasaki (com 80 mil mortos), ambos ocorridos no Japão. É bom não esquecermos também que, nesses dois casos, não havia nenhum muçulmano envolvido. Muito pelo contrário, quem comandou e ordenou os dois ataques com bombas nucleares à população civil japonesa vestia terno e gravata, tinha a pele branca, olhos claros, se dizia cristão e, no momento dos ataques, ocupava o cargo de presidente dos Estados Unidos: o Sr. Harry S. Truman.

Seja terrorismo de Estado ou terrorismo efetuados por pequenos grupos independentes, ambos são terrorismo e a sua essência é a mesma: causar o máximo de terror e pânico na população para tirar proveitos políticos (neste caso, os Estados Unidos tinham como interesse não acabar com a guerra, mas mostrar para o mundo, e principalmente para a União Soviética, a sua supremacia militar). Aliás, os Estados Unidos são, dentre todos os países que detém um arsenal bélico nuclear, o único país do mundo que se utilizou desse armamento para atacar outro país, ou melhor, a população civil de outro país, no caso o Japão.

Mas as atividades estadunidenses não se resumem apenas ao terrorismo. Além de deterem esse "honrado" título de maiores terroristas mundiais, os Estados Unidos são também os maiores produtores de armas e artefatos de guerra no mundo e, consequentemente, os maiores traficantes de armas também (o complexo militar-industrial-acadêmico é responsável por empregar cerca de 30% da população economicamente ativa nos Estados Unidos).

Outras atividades peculiares dos estadunidenses são os assassinatos de líderes políticos de outros países que se posicionam contrários aos seus interesses como foi o caso, por exemplo, de Patrice Émery Lumumba (nascido no Congo Belga, 2 de julho de 1925 – morto em Katanga em17 de janeiro de 1961). Lumumba foi um lider anti-colonial e primeiro-ministro eleito em junho de 1960 na atual República Democrática do Congo depois de ter participado da conquista da independência do Congo Belga em relação à Bélgica.

Passadas apenas dez semanas da sua eleição, foi deposto juntamente com o seu governo num golpe de estado, aprisionado e assassinado (seu corpo foi esquartejado e dissolvido em ácido para que não deixasse vestígios) em janeiro de 1961, em circunstâncias que indicaram provável cumplicidade e apoio dos governos da Bélgica e dos Estados Unidos.

Num exemplo mais recente, temos o caso da descoberta de um plano para assassinar o presidente da Bolívia Evo Morales, eleito democraticamente, que seria posto em prática por grupos para-militares bolivianos, patrocinados material e financeiramente pelos Estados Unidos, para aplicarem um golpe de estado naquele país. Aliás, entre as décadas de 1960 e 1970 não houve um único golpe de estado na América Latina que não tivesse o envolvimento direto ou indireto dos Estados Unidos. Mas como são inúmeros os exemplos, vamos citar apenas mais um que, além de atual, é extremamente emblemático para o entendimento do pensamento, das ações e dos interesses imperialistas dos dias de hoje: o caso do Irã.

Para entendermos melhor a questão do Irã, devemos começar por saber um pouco da história desse país. Somente depois disso conseguiremos entender o quanto de hipocrisia, mentira e cinismo está inexoravelmente ligado às críticas e à campanha que está sendo vinculada contra o povo iraniano, e que acaba por esconder os verdadeiros motivos de tal campanha: o interesse pelo ouro negro (petróleo) e a estratégia geopolítica dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Em 1953, Mohammed Mossadegh, primeiro-ministro do Irã, eleito democraticamente em 1951, foi deposto por um golpe de Estado orquestrado e financiado pela CIA (Central de Inteligência Americana). Mossadegh gozava de enorme popularidade entre o povo iraniano, pois era considerado um grande nacionalista. Foi durante seu mandato que houve a nacionalização da empresa petrolífera Anglo-Iranian Oil Company (corporação britânica que explorava a extração de petróleo no país) que, primeiramente, desagradou a Inglaterra e logo em seguida também aos Estados Unidos. Mossadegh foi então afastado do poder, detido e condenado à prisão por três anos, e após sua libertação passou o resto dos seus dias em prisão domiciliar. Em seu lugar, assumiu um ditador e fantoche dos Estados Unidos, Mohammed Reza Pahlavi. ]

O governo do xá Reza Pahlavi foi caracterizado por massacres contra os opositores ao regime ditatorial, lançando mão de assassinatos em massa e tortura sempre tendo o apoio político, material e financeiro dos Estados Unidos. Era também considerado pela grande maioria do povo iraniano como um traidor das tradições iranianas e das Leis islâmicas. Além disso, a miséria e a desigualdade crescentes entre o povo iraniano durante seu governo fomentou ainda mais a insatisfação e a indignação contra o regime do xá, o que ocasionou crescentes movimentos para a sua derrubada do poder, e que culminou naquilo que ficou conhecido como a Revolução Islâmica Iraniana, em 1979. Com a Revolução, o xá Reza Pahlavi abandona o país e busca asilo nos Estados Unidos que, obviamente, o recebeu de braços abertos.

Entretanto, devido a essa receptividade do governo estadunidense, ocorreu a expulsão da sua embaixada do Irã e a detenção de 53 americanos que passaram à condição de reféns para pressionar os Estados Unidos a liberar cerca de 23 bilhões de dólares de dinheiro iraniano em contas estadunidenses (a negociação durou 444 dias e foi resolvida de forma bastante obscura, pois não se divulgou de que forma foi conseguida a libertação dos reféns pelo governo estadunidense, que começou no governo Jimmy Carter e terminou no governo de Ronald Reagan).

A Revolução Islâmica Iraniana, portanto, que teve como seu líder de maior expressão, Ruholla Khomeini (após a Revolução ganhou o estatuto de aiatolá, que significa perito em religião e direito) foi o acontecimento que deu as características que até hoje regem o regime político e social do Irã (uma Teocracia fundamentada no Alcorão, o livro sagrado da religião islâmica).

Outro acontecimento interessante e que retrata bem a ética estadunidense ocorreu durante a guerra do Irã contra o Iraque (1980-1988). Nessa época como vimos, o Irã já era considerado um inimigo, o que levou os Estados Unidos a apoiar material e financeiramente o Iraque do então já ditador, porém naquela época aliado, Saddam Hussein.

Entretanto, isso não fez com que os Estados Unidos perdessem uma grande oportunidade de fazer negócios com o próprio Irã: o presidente Ronald Reagan simplesmente passou a vender armas também para os iranianos (escândalo que ficou conhecido como Irã-Contras).Tendo como pilar de sustentação de sua economia o Complexo Militar-industrial-acadêmico, esse tipo de comportamento mercenário acaba por tornar-se rotineiro.

Não foi diferente com os Talibãs no Afeganistão, onde os Estados Unidos também financiaram, armaram e treinaram esse grupo de guerrilheiros para que eles derrotassem a União Soviética (o que de fato aconteceu). E hoje esses mesmos Talibãs são considerados, pelos Estados Unidos, como um grupo de terroristas.

Bem, agora os Estados Unidos bradam aos quatro ventos que o Irã é a grande ameaça à paz mundial (e fica a pergunta: que paz?!), pois o Irã pretende construir a sua bomba atômica (seria essa bomba do mesmo tipo que, segundo o presidente G.W. Bush e sua gangue, disseram que havia no Iraque?).

Devemos lembrar que o Irã, ao contrário de Israel, que sequer permite a fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica em seu território, é signatário do acordo internacional de não-proliferação de armas nucleares. Mas mesmo assim, é o Irã que é considerado como uma grande ameaça, enquanto Israel é considerado um aliado na luta pela paz. Historicamente, não é Irã que tem o hábito de invadir o território de outros países, desrespeitar acordos e leis internacionais e, com uma política tipicamente Nazista, tenta a todo custo exterminar o povo palestino.

Na última e mais recente campanha midiática contra o Irã, faz-se a acusação de que neste país aplicam-se métodos bárbaros para a aplicação da pena de morte – neste caso específico, trata-se de uma mulher que está condenada à pena de apedrejamento até a morte por ter traído seu marido e também por ter participado de seu assassinato. E aí vem outra pergunta: existe pena de morte civilizada e humana? Se fosse possível, deveríamos perguntar pra quem já cumpriu esse tipo de condenação. A pena de morte não é por si só uma barbárie independentemente do método que se utilize? A cadeira elétrica, a injeção letal (comumente usadas nos Estados Unidos, onde cerca de 70% daqueles que são executados são negros e latinos) podem ser consideradas como justas e civilizadas?

Por que os Estados Unidos não tentam interferir também na Arábia Saudita, onde não há um único resquício de democracia e também há pena de morte por enforcamento, decapitação, etc.? Em 2006, na Arábia Saudita, uma mulher foi condenada à morte acusada de bruxaria. Sendo que no ano anterior, em 2005, um homem já havia sido condenado e decapitado também pela acusação de práticas de bruxaria. Seria porque a Arábia Saudita atende de forma total e subserviente aos interesses estadunidenses? E o que dizer das prisões de Guantánamo em Cuba, de Bagram no Afeganistão e de Abu Ghraib no Iraque (todas controladas pelos Estados Unidos), onde estão mais do que comprovados os constantes desrespeitos aos direitos humanos, às leis internacionais, além das constantes e mais diversas e perversas práticas de tortura contra os prisioneiros? Malcolm X (1925-1965), um dos maiores defensores dos direitos dos negros nos Estados Unidos, e que morreu assassinado, já sabia qual era a resposta que daria solução para o seu país. Dizia ele:

" Por que o negro precisa de lei para provar que é ser humano? O branco não precisa provar que é ser humano. Digo isso pelo seguinte: nós nunca teremos liberdade real entre brancos e negros nesse país sem destruir esse país, sem destruir o atual sistema político, sem destruir o atual sistema econômico, sem reescrever a Constituição inteira, sem destruir tudo o que os Estados Unidos supostamente defendem."



E completava: "Vou me unir com qualquer um, de qualquer cor, desde que eles queiram acabar com a miséria desta Terra."

Diante de tudo isso, nos resta apenas concluir com uma última pergunta: e você, tem medo do Irã?

*Renato Prata Biar; Historiador; Pós-Graduado em filosofia; RJ


FONTE: AQUI
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