14 de set de 2012

Por uma resistência nacional na Líbia e por uma não “libianização” da Síria

Ousar Lutar Ousar Vencer - [Sturt Silva] Com a morte do embaixador dos EUA na Líbia, num atentado ao consulado dos ianques em Benghazi, o país voltou a ser manchete na grande mídia mundial.

No entanto, como será que realmente está a Líbia depois da derrubada de Muammar Abu Minyar al-Gaddafi?

Lembrando que a Líbia foi governada pelo Coronel Gaddafi até o ano passado, quando esse foi assassinato por mercenários durante o período que ficou conhecido como a "primavera árabe". Nos anos 60, com a liderança do Coronel, a Líbia concretizou uma revolução nacional libertadora experimentando a partir dai uma espécie de "socialismo islâmico", baseado principalmente no livro verde (de autoria do seu líder), passando a ter assim o melhor IDH da África.

Mas isso tudo foi antes do imperialismo ianque e europeu, através da OTAN, bombardear o país. Além dos ataques aéreos, os inimigos de Gaddafi contaram com apoio das milícias (muitas delas davam apoio e sustentabilidade ao governo) de terroristas (principalmente membros da Al-Queda) e dos burocratas do seu próprio governo, que preferiram se render ao imperialismo a resistir na manutenção de um projeto nacionalista burguês, para iniciar um processo contrarrevolucionário, embora chamado pelos liberais, erroneamente, em minha opinião, de revolucionário.

Recentemente o jornalista Thomas C. Mountain publicou na Counterpunch um artigo em 25/07/12, cuja versão portuguesa pode ser encontrada no Diário Liberdade com tradução do Vila Vudu, bem interessante sobre a Líbia pós Gaddafi.

Reproduzo trechos, seguido por alguns comentários meus.

"A Líbia dá sinais de estar-se convertendo na próxima Somália, com grande parte do país já controlado por milícias armadas de clãs ou tribos.

Como se viu acontecer na Somália, a Líbia está no processo de dividir-se, criando-se a leste a Cirenaica, rica em petróleo, que já lançou sua proclamação de independência de facto.

Trípoli, a capital da Líbia, parece estar andando na direção de converter-se no que foi Mogadishu, capital da Somália há 20 anos, com incontáveis milícias bem armadas, de áreas das periferias urbanas, que se instalam nas cidades e envolvem-se em infindáveis confrontos por território, disputando os restos de poder.

O único governo nacional real e modernizante que a Líbia jamais conheceu foi o governo de Gaddafi, assim como o único governo modernizante que houve na Somália foi o governo de Siad Barre.

Os dois países foram criados pelo colonialismo italiano e passaram a integrar o Império Colonial Italiano na África. Nenhum dos dois jamais teve qualquer unidade histórica. Antes do colonialismo italiano, a Líbia era algumas cidades-estado e as tribos, a maioria das quais absolutamente nômades.
 
Antes do colonialismo italiano, jamais existiu nem algum Rei da Somália nem alguma Terra da Somália governada por conselho tribal ou clânico, chefes ou conselhos de grandes chefes.

Nem num país nem no outro jamais se constituiu nação, antes exatamente o contrário. Mesmo assim, durante algum tempo, os dois países viveram bem – por difícil que seja acreditar, no caso da Somália.".

Ou seja, fala-se em "somalização" da Líbia. Em outro trecho do mesmo artigo o jornalista continua, agora questionando a renda do petróleo líbio.

"A Líbia hoje exporta mais de 90% de sua produção de petróleo e gás de antes da guerra, quase 2 milhões de barris/dia, de um dos melhores tipos de petróleo que há no planeta. Para onde vão os quase 200 milhões de dólares diários, 6 bilhões por mês, mais de 70 bilhões de dólares ao final de 2012, permanece mistério quase absoluto.

O chefão da Al-Qaeda e dos rebeldes líbios que fez o serviço mais sujo depois do bombardeio pela OTAN é o muitas vezes infame Abdelhakim Belhadj, ex-comandante da Al-Queda no Iraque e capo da Al-Queda no Norte da África. Hoje, comanda a maior, a mais militarmente bem organizada e a mais eficiente milícia que opera em Trípoli. Sob seu comando, operam milícias tribais de diferentes tamanhos e competências, entre as quais as milícias de Zintan que mantêm preso Saif al Islam Gaddafi.

Em relações de uma paz difícil com essas milícias, está o Conselho Nacional de Transição, chefiado, pelo menos em parte, por vários dos ex-comandantes de Gaddafi.

Eleições comandadas por um "governo" lá implantado pela OTAN não passam de artifício para encobrir a ilegitimidade do atual regime, cujo único projeto de governo é receber os 70 bilhões anuais da renda do petróleo e os dividendos dos $100 bilhões do fundo soberano líbio depositado em bancos ocidentais.

No campo oposto, contra, ao mesmo tempo, Belhaj e o Conselho Nacional de Transição, está o que se conhece como "Resistência Verde", que a imprensa-empresa ocidental chama de "militantes pró-Gaddafi". São grande parte da maior tribo que há na Líbia, os Warfalla, tribo da mãe de Saif al Islam, e dos quais se diz que, aos poucos, começam a organizar forças de autodefesa, para proteger suas comunidades contra ataques de senhores-da-guerra e respectivas milícias.

Belhaj esteve preso na Líbia, onde foi torturado por gente que, hoje, circula entre os capi do Conselho Nacional de Transição, entregue a eles como prisioneiro, pela CIA-EUA, num dos programas pelos quais prisioneiros da CIA eram entregues a outros países para serem interrogados. A tortura de Belhaj só acabou quando Saif al Islam Gaddafi convenceu seu pai a perdoar Belhaj e seus chefes, em troca de uma promessa de coexistência pacífica que Belhaj imediatamente traiu.

O que se sabe é que Belhaj tem manifestado alguma espécie de benevolência em relação à Saif al Islam, o que pode explicar por que o filho de Gaddafi continua vivo, mantido a salvo, longe do alcance, ao mesmo tempo, da Corte Internacional de Justiça e do Conselho Nacional de Transição, entregue à proteção de aliados de Belhaj em Zintan.

É altamente provável que Belhaj esteja operando para assumir o controle sobre os bilhões do petróleo, mantendo-os fora do alcance do governo imposto pela OTAN, ao mesmo tempo em que trabalha para vingar-se de seus ex-torturadores, hoje no Conselho Nacional de Transição confinados em Benghazi (quando não estão fora do país).

Para conseguir o que almeja, Belhaj pode bem se interessar por aceitar um acordo de cessar-fogo com a Resistência Verde, a qual também quer o fim do governo do Conselho Nacional de Transição fantoche da OTAN. Descartado o Conselho Nacional de Transição, poder-se-á talvez cogitar de um acordo de paz entre Belhaj e Saif al Islam, para tentar pôr fim ao fogo e ao sangue que ainda pinga dos sabres, na Líbia.

Mas isso também pode não passar de delírio desejante, e depende de a OTAN não intervir militarmente para defender "seu" Conselho Nacional de Transição – ameaça presente que, por sua vez, pode explicar a paciência de que Belhaj e seus aliados têm dado várias provas.

Quem sabe? A verdade muitas vezes é mais estranha que qualquer ficção. E o que hoje parece delírio desejante pode converter-se em realidade, amanhã ou depois de amanhã. Mas, no que tenha a ver com a Líbia estar caminhando na direção de converter-se numa nova Somália, sim, a história indica precisamente esse rumo.".

Basta também lembrar que a situação líbia não é só instável no campo político e totalmente dependente no campo econômico, mas retrocedeu, e em muito, no campo social. As conquistas que vieram com governo Gaddafi foram para o ralo, assim como foram a estabilidade e a soberania do país.

O pior disso tudo é que se depender da vontade da famigerada "opinião pública mundial" esse método deve ser seguido na Síria. Seria a "libianização" da Síria. Terroristas financiados principalmente pelas duas mais reacionárias monarquias do Golfo, Katar e Arábia Saudita, tem travado uma guerra, já com características de uma guerra civil, com o atual governo de Bashar al-Assad. No entanto, as mesmas forças populares e democráticas que pediam mudanças no regime sírio, no auge da primavera árabe, atualmente vendo os perigos dessa estratégia, vide o caso líbio, mudou de tática, inclusive entre elas se encontra o Partido Comunista Sírio.

Para os comunistas sírios e demais forças progressistas o objetivo em primeiro lugar agora é manter a soberania nacional e pressionar o estado internamente por reformas políticas, como já vem acontecendo e dando resultado. No caso do Partido Comunista essas reformas políticas tem em sua essência a defesa do povo a partir de suas organizações reivindicativas. Além disso, se defende o enfretamento da política liberal e o incentivo a um projeto desenvolvimentista da econômica nacional com forte interferência do estado.

Como resume muito bem Ammar Bagdash, Secretário-Geral do Partido Comunista, em entrevista ao jornal Imprensa Popular, do Partido Comunista Brasileiro. Segundo o dirigente sírio há três tarefas fundamentais para ser enfrentadas na atual conjuntura síria:

1- Defesa da independência nacional e da soberania, enfrentando as conspirações imperialistas e os movimentos reacionários árabes e locais. Mobilização das massas nessa direção, sob a grande palavra de ordem nacional "A Síria não vai se ajoelhar!". Ativação das atividades e relações internacionalistas do partido de modo a mobilizar a opinião pública em diversos países progressistas do mundo no apoio à unidade e firmeza nacional Síria.

2- Enfrentamento da política econômica liberal em todas as suas formas e manifestações, de modo a defender a produção nacional e os interesses dos produtores, propondo alternativas concretas, com ênfase na orientação geral adotada pela 11ª Conferência de fortalecimento do setor público e do papel intervencionista do Estado, nos marcos de um capitalismo de Estado nacional que tem tarefas a cumprir e uma natureza social.

3- Firme defesa dos interesses das massas trabalhadoras, no sentido de elevar o patamar de suas lutas reivindicativas. Ênfase em elevar essa tarefa à prioridade máxima das organizações partidárias, levando em conta as condições objetivas de cada província e as demandas específicas de suas populações, bem como as demandas públicas de grupos de trabalhadores em nível nacional. Independentemente do quadro de liberdades democráticas, independentemente do nível de efetividade das lutas reivindicativas de massas, defender os interesses do povo é a essência da essência do Partido Comunista Sírio.

Assim como a resistência antiimperialista síria, ficamos também na torcida para que a resistência líbia adquira força e apoio popular e consiga montar um bloco popular e de unidade nacional para concretizar sua segunda revolução de libertação nacional. Este é o único caminho, embora difícil, porém não impossível, para os líbios recuperarem sua soberania e voltar a pensar em reconstruir seu país com dignidade.

Sturt Silva, graduando em História, é blogueiro e colabora com o Diário Liberdade direito do Brasil.



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