19 de mar de 2013

Francisco I vem disputar o consenso social


Há 40 anos que o neoliberalismo se ensaiou nos nossos territórios com as ditaduras e o terrorismo de Estado, para depois se estender por toda a orbe. A Igreja na Argentina, salvo honrosas e escassas excepções, acompanhou a genocida ditadura nesse parto neoliberal, ainda que agora falem de pobreza e de ética.

A Igreja é parte do poder mundial, e não só do poder económico. A Igreja disputa historicamente o consenso da sociedade. É uma realidade a ter em conta em tempos de crise capitalista, considerada também uma crise de civilização, já que esta civilização contemporânea é comandada pelo regime do capital, ou seja, pela exploração do homem pelo homem, pela depredação da Natureza.

Quando o sistema mundial estava desafiado pelo avanço dos povos e o socialismo (como forma que tentava ser alternativa da ordem mundial) abriu caminho a teologia da libertação, em confronto aberto com o poder institucional de uma Igreja retrógrada. Assim a Igreja dos pobres mostrava-se a partir do sul do mundo, mais precisamente da Nossa América. A Igreja oficial não podia negar esse rumo que desbravava caminho entre os padres da base e serviu de fundamento a um grande debate mundial no seio da Igreja.

Os caminhos da ofensiva popular tocavam à porta da Instituição. A resposta contemporânea da instituição Igreja foi acompanhada da ofensiva capitalista para recuperar o poder económico do regime do capital. Essa ofensiva materializou-se nos anos 80 do século passado contra o socialismo e os povos, abrindo caminho ao poder reacionário dos Ratzinger e dos Bergoglio.

Há 40 anos que o neoliberalismo se ensaiou nos nossos territórios com as ditaduras e o terrorismo de Estado, para depois se estender por toda a orbe. A Igreja na Argentina, salvo honrosas e escassas excepções, acompanhou a genocida ditadura nesse parto neoliberal, ainda que agora falem de pobreza e de ética.

Um Papa polaco chegou à Igreja para acompanhar o princípio do fim da experiência socialista, ainda que se discuta o carácter daquela experiência. O capitalismo mundial necessitava do Este da Europa. A Alemanha assim o entendeu. Os EUA também. Sem o Este da Europa, ainda que já abandonado o projecto socialista original, o mundo deixou de ser bipolar e constituiu-se o caminho unipolar do capitalismo transnacional e neoliberal.

O caminho unipolar está a ser desafiado pela mudança política na Nossa América e o ressurgir do socialismo, seja pela mão da revolução cubana ou por processos específicos que ressurgem em alguns países (Venezuela ou Bolívia), inclusive em variados movimentos políticos, sociais, intelectuais, culturais, na nossa região.

Com a morte de Chávez e milhões de mobilizados a constituírem-se em sujeitos pelo cumprimento do legado revolucionário e socialista de Hugo Chávez, a Igreja lança para a mesa o símbolo de um Chefe da Igreja nascido no sul e comprometido com o projecto do norte.

O Papa argentino, Francisco I, vem cumprir o projecto do poder mundial de disputar o consenso da sociedade, especialmente dos povos. Não se trata apenas de sustentar posições contrárias ao matrimónio igualitário ou contra o aborto, largamente difundidos pelo bispo Bergoglio, mas de gerir a uma consciência de disciplinamento para a ordem contemporânea, reacionária, de dominação transnacional.

A Nossa América é hoje laboratório da mudança política. A Instituição Igreja quer intervir neste processo, e não é para desenvolver essas mudanças, mas para as travar. A disputa é pelas consciências. É uma batalha de ideias, pela mudança ou pelo retrocesso. Preocupa-os o efeito Chávez na região. Preocupa-os a sucessão política na Venezuela e a capacidade de alargar o rumo socialista. Precisam de disputar o consenso.

Mas, por mais tentativas institucionais para acompanhar a ofensiva do capital contra o trabalho, os trabalhadores e os sectores populares, inclusiva a Igreja dos pobres, o movimento religioso popular persiste na procura pela organização da sociedade do viver bem (Bolívia), do bem viver (Equador), do socialismo cubano, ou da luta pela emancipação social de grande parte da sociedade dos de baixo na Nossa América.

O Papa Francisco I vem pelas suas razões. Nós, os povos, devemos continuar a nossa luta e experimentação por uma nova sociedade, por um outro mundo possível, esse que se constrói na luta contínua contra a exploração, pela emancipação social, contra o capitalismo e o imperialismo, pelo socialismo.


* Júlio Gambina é presidente da Fundação de Investigações Sociais e Políticas (FISYP).

Tradução de José Paulo Gascão 
 

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