7 de ago de 2011

China e EUA: acabou-se a amizade

O Banco Central chinês e os directores dos fundos estatais do gigante asiático começam a perder a paciência: na sua opinião, não existe já absolutamente nada a ganhar com o declínio da liquidez dos EUA. Existe, sim, muito a perder.

O Banco Central chinês e os directores dos fundos estatais do gigante asiático começam a perder a paciência: na sua opinião, não existe já absolutamente nada a ganhar com o declínio da liquidez dos EUA. Existe, sim, muito a perder.
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Ben Bernanke, presidente da Reserva Federal (Fed) estado-unidense, tem sustentado heroicamente a sua presidência. Desde o início do ano a Fed comprou em massa títulos do tesouro estado-unidense e, com mais de 1,5 milhares de milhões de títulos do tesouro em carteira, converteu-se no principal credor interno do próprio estado. Mesmo assim, foi insuficiente para conter o descontentamento de China, Japão, Reino Unido e estados do Golfo, os seus credores estrangeiros. Tal como já tinha sucedido no verão de 2008, quando Pequim pressionou o resgate dos gigantes hipotecários Fannie Mae e Freddie Mac, os chineses começaram a sentir-se novamente nervosos. A agência de notação chinesa Dagong Global Credit baixou pela segunda vez, implacavelmente, a classificação do credito dos empréstimos estatais dos EUA e ameaça vis a atribuir-lhes uma classificação ainda pior. O presidente da Dagong, Guan Jianzhong, afirma que os EUA se encontram já em situação de ruptura financeira. Não constituem segredo as preocupações do banco central chinês face à aventureira política orçamental dos EUA, que prejudica os interesses chineses.
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Com mais de 1,5 milhares de milhões de dólares em títulos do tesouro estado-unidense, a China continua a ser o mais comprometido credor dos EUA, a grande distância de todos os outros. Mais de metade das reservas chinesas de divisas de 3,2 milhares de milhões de dólares são empréstimos denominados em dólares. Uma bancarrota dos EUA faria derreter velozmente toda essa riqueza monetária. Ainda que o Congresso e a Casa Branca consigam, no último minuto, alcançar um consenso no que diz respeito ao aumento do tecto da dívida, a Dagong pretende continuar a pressionar a notação dos EUA, uma vez que, até à data, o governo não manifestou ter qualquer projecto de redução efectiva da dívida, e em nenhum caso é prevista uma recuperação autosustentada. São impossíveis, em todos os aspectos, novos programas de estímulo à economia: a política de expansão monetária de Obama está esgotada. 
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A China tem assumido honradamente, desde 2009, o papel de fiador dos EUA, e aumentou mais de um terço os seus depósitos de dívida pública norte-americana. E com isso chega-se a uma conclusão: o declive do dólar e a crise do orçamento estado-unidense não deixam aos chineses outra opção que não seja deixar-se de fantasias. Isso não significa deixar de adquirir ou desfazer-se de títulos do tesouro estado-unidenses, mas significa antes promover uma mudança de orientação. Desde o início do ano, os directores dos fundos estatais chineses têm-se empenhado em aumentar o investimento nos empréstimos europeus e em títulos do estado dos países emergentes. Esta manobra tem sido acompanhada da sua contrária, com a compra de títulos de dívida norte-americana a ver-se claramente reduzida. Dos mais de 250 mil milhões de dólares em reservas de divisas que a China juntou desde Janeiro de 2011, apenas 46 mil milhões correspondem a títulos do tesouro estado-unidense: uma mudança evidente. Desde 2007 que os chineses vêm acumulando mais de metade do seu crescimento anual em reservas de divisas do orçamento estado-unidense.
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Os actuais empréstimos para o financiamento dos programas europeus de resgate foram adquiridos no momento, em percentagens que chegam aos 40%, pelos bancos e fundos do estado chineses. Já no Outono de 2008 a Hungria escapou à bancarrota graças aos enormes créditos daquele país asiático. Sem qualquer dúvida, os juros que rendem os títulos de dívida pública da zona euro são bastante atractivos. Igualmente importante para os chineses é a estabilização da União Europeia e do espaço monetário europeu, que constitui para eles o mercado mais seguro do mundo.

A crise da dívida própria
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Se os chineses apoiam a zona euro é também porque para eles o euro emerge como moeda rival do dólar. Substituir o dólar como moeda de reserva mundial pode significar para os chineses conseguir uma moeda artificial sustentada por dinheiro procedente de créditos a partir de um cabaz de divisas: dólares, euros, ienes, libras ou francos suíços. Se tal viesse a suceder isso constituiria para a China uma passo mais no sentido de uma séria competição com os centros das finanças mundiais em Nova Iorque e Londres e em tornar o yuan uma moeda mundial completamente convertível. Que este plano tenha êxito ou não dependerá de como a República Popular faça a gestão da sua própria dívida, já que desde o despoletar da crise financeira mundial no Outono de 2008 os seus planos de estímulo à economia consistiram sobretudo no financiamento de créditos de muitos milhões aos governos provinciais: mais de 14 milhares de milhões de yuans (1,5 milhares de milhões de euros) foram mobilizados em projectos de infraestruturas. Nesse sentido a República Popular da China, de forma semelhante aos EUA, teve que dar combate ao sobreendividamento de muitas regiões: crescem os apelos a programas de resgate e à reestruturação da dívida. A própria crise da dívida chinesa reforça a intenção do país em abster-se no futuro em relação aos arriscados créditos externos aos EUA
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*Michael R. Kratkte, membro do Conselho Editorial de SINPERMISO, é professor de política económica e de direito fiscal na Universidade de Amesterdão, investigador associado no Instituto Internacional de História Social da mesma cidade, e catedrático de Economia Política e director do Instituto de Estudos Superiores da Universidade de Lancaster no Reino Unido.

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