7 de nov de 2010

Da guerra ideológica conduzida contra o «socialismo real» na viragem dos anos 1980


Acabei de dar o meu acordo à reedição duma obra publicada há já vinte e cinco anos. Uma obra que tinha então por título: Cortina de ferro sobre o Boul’Mich. Notas sobre a imagem dos países ditos «de Leste» junto da elite cultivada do povo mais espiritual do mundo. Este livro tratava de países que já não existem e de campanhas de propaganda que há muito cumpriram a missão que delas se esperava. Assim, entendi desta vez dever acrescentar um copioso Prefácio e dei-lhe por novo sub-título: Formatação e desinformação no «mundo livre»[1]. Trato aí, extensivamente, da ilusão de autonomia em que vive o cidadão supostamente informado na época dos meios de comunicação de massas.

Quero crer na actualidade destas linhas por duas razões principais:

1º Depois que Mikhaïl Gorbatchev lançou, no plenário de Abril 1985, a política de katastroïka, e que obteve os resultados que sabemos (taxa de crescimento industrial atingindo o valor zero em 1989, tensões inflacionistas e queda do rublo, afundamento do nível de vida dos Soviéticos, etc.), depois do que se convencionou chamar a queda do muro de Berlim, em 1989, seguida do fim da União Soviética (1991) e do assalto terrorista lançado pela equipa de Eltsine contra o Parlamento russo (1993), um desencanto generalizado seguiu-se rapidamente à euforia de encomenda, à alegria telecomandada, que meios de comunicação e ideólogos oficiais tinham posto na ordem do dia no Ocidente. E a paz, desde então, tornou-se mais improvável que nunca.

2º Assiste-se ao «regresso» das classes sociais, à ressurreição dos mortos, ao desvendar das relações sociais. O capitalismo triunfante e desregulado aproxima-se como nunca antes do seu conceito e dos seus princípios fundadores. E a juventude deste mundo já não acredita nele, para não dizer que dele se desvia massivamente. — Mas, num ponto, no entanto, a «corrente» continua a não passar. Sobre a questão dos países ditos «de Leste» e sobre a história do movimento comunista internacional, a lavagem dos cérebros foi conseguida de forma duradoura. Continua-se a fazer valer, como se se tratasse dum dado incontestável que comunismo e nazismo devem ser tidos por duas «atrocidades» comparáveis.

Pareceu-me, por isso, actual fazer reaparecer estas páginas. O que me parece muito útil, é recordar através de que processos desmedidos e repetitivos a propaganda ocidental privou o cidadão de toda a autonomia de discernimento na sua percepção dos «países de Leste», hoje em dia defuntos ou «normalizados».

- I - 

A primeira imagem do totalitarismo, aos olhos dos turistas ocidentais que em diversas ocasiões acompanhei à União Soviética, era a espera bastante considerável a que eram obrigados os que desembarcavam no aeroporto de Moscovo. Eram, sobretudo, os seus primeiros sintomas que descrevia na primeira parte do meu livro, intitulado: «O essencial e o acidental», ou: «Como o que passa por acidental do lado de cá da cortina de ferro é essencial ao lado de lá».

Instalávamo-nos. Tomávamos posse do nosso quarto de hotel. Depois, arriscávamo-nos a deambular uma primeira vez pelas ruas deste planeta Marte. Dois ou três dias passavam. E, como, às horas das refeições, cada um trocava novidades, o estudante, o professor, o venerável reformado, todos tomavam conhecimento da existência duma traficância de divisas e de bugigangas fabricadas no Ocidente. Cada um deduzia, então, imediatamente a possibilidade de recorrer a esse tráfico por sua própria conta. Tramava-se então uma inacreditável mascarada. O filisteu ocidental metamorfoseava-se em casuísta e tentava justificar a sua conduta pouco gloriosa. Tornava-se rapidamente um defensor do monetarismo mais rígido: «O rublo está notoriamente sobre-avaliado. Portanto, eu trafico!», e… troco-o pela terça ou pela quinta parte da sua cotação oficial. Depois vinha o utilitarista: «Se as pessoas fazem negócio de divisas, é porque isso corresponde a uma necessidade. Portanto, eu trafico!». O filantropo, enfim, livre cambista em extremo e adepto da ajuda ao terceiro mundo, acrescentava à sua defesa: «Eles não têm nada que seja bonito! É preciso permitir-lhes que encontrem aquilo de que necessitam. Portanto, eu trafico!». E era assim que um grupo de turistas arranjava a metamorfosear-se numa feira da ladra itinerante, com os seus pequenos retalhistas, os seus vendedores de blue-jeans coçados e a sua secção grossista…

- II - 

A segunda parte da obra, intitulada «O político e o quotidiano», procura mostrar, recorrendo a algumas recordações exemplares, como qualquer nativo de «lá» se tornava, nas campanhas de imprensa dita «de esquerda», um símbolo obrigatório do todo. Relatos de manifestações desportivas, de campeonatos de xadrez, ou ainda de voos espaciais tripulados, etc.: A propaganda trabalhava em pleno, com uma constância e processos, cuja solidez concertada e deliberada apenas o recuo no tempo permite entrever.

Apenas um exemplo: seria preciso reler a reportagem que um jornal francês como o Libération, fazia, em Agosto de 1983, das provas do campeonato do mundo de atletismo em Helsínquia, na Finlândia. Mostrei como ali se pode encontrar um panegírico ridículo de tudo o que ostentasse as cores do Império. Vejamos a diferença de tratamento que este jornal impunha então a duas informações idênticas: dois grandes campeões são vítimas dum acidente semelhante com vinte e quatro horas de intervalo. Mal disfarçada ironia na página 17, a 8 de Agosto, para o cubano Alberto Juantorena, vítima duma ruptura de ligamentos após uma série dos 800 metros («Adios Alberto Juantorena»: o duplo campeão olímpico, «que declarava ganhar graças ao socialismo, terminou provavelmente a sua carreira nesta via dolorosa». Quase luto nacional, pelo contrário, para a americana Evelyn Ashford, colhida em plena prova por uma distensão muscular. Na primeira página do mesmo jornal, uma imensa fotografia mostra-a por terra, com a legenda: «Evelyn Ashford durante a final dos 100 m: a incerteza… a dor… a derrota») [2].

Tais eram, nas mais pequenas rubricas das gazetas deste género, as encenações e as muito pouco subliminares mensagens que os comissários da ideologia dominante faziam entrar à martelada nas cabeças.

- III - 

Uma terceira parte do livro («O angustiante e o bem conhecido») recenseia algumas das declarações mais belicosas ou extravagantes de três dos dissidentes mais mediatizados do seu tempo. As de Alexandre Soljenitsyne, antes de mais, que declarava sem rodeios, em 1980, a propósito da situação internacional: «Todos os esforços dos Estados Unidos se concentram num só: procurar adiar o confronto, ainda que fosse à custa de um declínio ininterrupto do seu poderio» [3]. Também as de Vladimir Boukovsky, que servia de porta-voz à campanha para instalar na Europa 108 mísseis Pershing e 464 do tipo Cruise. As de Soljenitsyne, ainda, cujo Arquipélago de Goulag terá vendido mais de 10 milhões de exemplares: «Os Estados Unidos - proclamava ele sem se rir - já há muito tempo deram provas de que são o país mais magnânimo e generoso da Terra. Seja onde for que aconteça uma inundação, um sismo, um incêndio, um cataclismo ou uma epidemia, quem vem em primeiro lugar em socorro das vítimas? Os Estados Unidos.» [4]. «A perda deste grande homem -escrevia por sua vez Andreï Sakharov ao general Pinochet, o carrasco de Santiago - a perda deste grande homem (falava assim de Pablo Neruda) ensombrará por longo tempo a época de renascimento e de consolidação anunciada pelo seu governo».

Pierre Daix, antigo membro do Partido Comunista Francês, tornou-se mesmo especialista deste ininterrupto fascínio. Soljenitsyne - afirmava ele em 1974 -«põe fundamentalmente em causa todas as ideias recebidas e as definições convencionais» [5]. Tudo se teria passado como se cada obra de cada dissidente constituísse uma fulgurante revelação, um inesperado trovão num céu até então sereno. Ora o essencial, em tudo isso, era um condicionamento da opinião pública e de modo nenhum uma revelação. «Que diz exactamente, [este mesmo Arquipélago de Gulag,] que seja tão decisivo, tão perturbador?», reconhecia um autor na moda. «A verdade sobre a U.R.S.S.? Esta verdade já a conhecemos […].“Informações” sobre os campos? Estas informações, já as temos, temos os números», etc. [6].

Tudo isso não teria, evidentemente, a menor importância, se tantas obras não tivessem sido promovidas com o único fim de instituir referências ideológicas que rompiam com as que prevaleciam depois do fim da II Guerra Mundial… Da Nomenklatura de M.Voslensky a uma insigne chatice publicada por um casal de «comunistas» franceses de regresso da União Soviética [7], passando pelos panfletos dos «nouveaux philosophes», vendia-se, no mínimo, 400 mil exemplares de cada uma destas produções. Fazia-se delas objecto de campanhas de imprensa (escrita), de rádio, de televisão; saturava-se o espaço público de discursos visando inculcar a ideia que a esquerda não pode ter senão vergonha pelo seu passado; e qualquer ideia de justiça social foi forçada a apresentar a sua defesa, ou seja foi sentada no banco dos réus.

- IV -

Enfim, numa quarta e última parte, intitulada «O uniforme e o livre arbítrio», tentei praticar uma espécie de psicanálise da esquerda do faz de conta. Por que deslizes progressivos de linguagem o pensamento francês se veio a encontrar em estado de sítio? Que mecanismos de memorização e de ocultação selectivos permitiram que, das efusões terceiro-mundistas, se tenha tão rapidamente chegado ao paradigma da IV República: uma França socialista, «aliada fiel» dos Estados Unidos? [8]

É que a retórica dos anos de 1975 usou e abusou essencialmente de cinco figuras características: a elipse, a falsa simetria, o pôr em dúvida, o caso de consciência e, last but not least, a repetição.

1 / A elipse, significou a pura e simples abolição da história recente, a da social-democracia nomeadamente: os futuros nazis dos corpos francos (que liquidaram a revolução espartaquista por ordem dos social-democratas), a complacente contemplação dos massacres de Espanha, os deputados socialistas que votaram a destituição dos seus colegas a seguir deportados e forneceram ministros a Pétain, as guerras coloniais, o golpe do Suez, etc., -tudo isso passou duma penada ao esquecimento. Dos mortos, nenhuma notícia. Enquanto isso, o Partido Comunista Francês entendia, a cada passo, lavar as mãos do Gulag. Porque, aparte o regime hitleriano, apenas o comunismo pode agora evocar carnificinas de inocentes. 

2 / A falsa simetria: o tema das duas «super potências» - dos dois imperialismos de intentos paralelos e crimes idênticos – inflectia até permitir um ridículo inverter dos pratos da balança. Num momento em que 500 mil soldados americanos estavam deslocados fora das fronteiras do seu país, a questão das questões em que o «Boul’Mich» insistia e reincidia era a do expansionismo grão-russo.

3 / Terceira figura, massivamente utilizada: o pôr em dúvida. O que era o eurocomunismo? Foram sete anos de reflexão. Suspender a sua opinião, discutir o passado e sobretudo, o seu próprio, “eurocomunizar” os clichés do momento, - tais eram as tarefas reputadas primordiais para o intelectual comunista.

4 / Quarta flor desta retórica: o caso de consciência. Trinta anos antes, Gide tinha já fornecido a fórmula: «É testemunhar mal o seu amor limitando-nos apenas aos louvores», escrevia no seu Retour d’U.R.S.S. «E o meu espírito está ordenado de tal ordem que a sua maior severidade se dirige àqueles que queria poder sempre aprovar» [9]. Era cada vez mais insignificante lembrar que o analfabetismo, a mal-nutrição, o desemprego, tinham sido varridos do mapa do mundo lá onde o socialismo tinha triunfado, e apenas lá. Esquadrões da morte, fascismo e C.I.A., países-propriedade da United Fruit… O angustiante já não estava aqui: era preciso que se encontrasse nas exactas paragens onde tínhamos depositado as nossas esperanças.

5 / Last but not least, a repetição: se considerarmos as «manchetes» do jornal Libération, no período que vai de Agosto de1980 a Agosto de 1983 (ou seja, um período de 37 meses), apercebemo-nos que a manchete se refere uma vez à Turquia, duas vezes à África do Sul, 4 vezes ao Chile, 6 vezes à Irlanda do Norte, 7 vezes à América central e… 77 vezes à Polónia.

Tema da manchete na primeira página do Libération

(1 de Agosto de1980 – 1 de Agosto de 1983)


Não é que não tivesse acontecido nada na América central durante este período; a «manchete» de 5 de Fevereiro de 1982 informa-nos, de resto, de passagem: «Salvador. 35 mil mortos desde 1979, num país de 4 milhões de habitantes » [10]. A África do Sul apenas figuraria neste brilhante palmarés quando da interdição do rugbymen francês de jogar nos seus estádios, e à chegada a França do poeta Breyten Breytenbach, libertado havia pouco da prisão. Sobre a Turquia, a única manchete data do dia seguinte ao golpe de Estado de Setembro de 1980 [11]. Quanto à Irlanda do Norte, as suas fugazes aparições na primeira página do jornal aludem, as mais das vezes, a algum atentado espectacular cometido por militantes do I.R.A…O mesmo tratamento ou quase, era comum a outros jornais mais ou menos enfeudados às ideias e aos capitais próximos do Partido Socialista.

Tem-se a impressão, bem entendido, de desfrutar duma autonomia que não existe num mundo assim formatado. E regressamos a este título, tão deliciosamente irónico, dum livro francês: «Os média pensam como eu!» [12]. Neste caso, o ponto de exclamação que acaba por tornar a fórmula relativamente divertida, vale por si só o que Spinoza escrevia a respeito da pedra que, uma vez atirada, e de seguida tendo adquirido consciência, se imaginaria progredir através dos ares pelos seus próprios meios, crendo-se muito livre e que apenas perseverava no seu movimento porque era essa a sua vontade [13]. Porque é acarinhada, mimada, esta opinião pré-fabricada, com recurso aos procedimentos que enumeramos. – Faz-se crer ao público que, em face dos fenómenos do mundo, ele pensa. E isto torna-se mais um acontecimento, reforçando em cada qual a «ilusão dum domínio cerebral» sobre uma época que deve acompanhar até à exaustão, sem sobre ela ter jamais qualquer verdadeira influência.

Notas:

[1] Salem (J.), Cortina de ferro no Boul’Mich…, Paris, Delga, 2009. — «Boul’Mich» (contracção de «boulevard Saint-Michel») designa aqui a ala «esquerda» do microcosmos político - mediático francês, - com as suas reservas mediáticas, as suas redes sociais e os seus fast thinkers (comentadores) encartados.
[2] Mais vale, na verdade, o desgosto cruel e cinegético dum repórter de televisão, declarando a propósito da mesma campeã americana: «Ela foi fulminada em pleno voo… como um coelho !» (Antenne 2, 8 de Agosto de 1983).
[3] Soljenitsyne (A.), L’Erreur de l’Occident, Paris, Grasset & Fasquelle, 1980, p. 91 ; rééd. 2006
[4] Soljenitsyne (A.), « Discours de Washington (30 juin 1975), prononcé à l’invitation de l’A.F.L.-C.I.O. », Paris, Seuil, 1975, p. 28
[5] Daix (P.), Ce que je sais de Soljenitsyne, Paris, Seuil (coll. « Combats »), 1974, p. 206
[6] Cf. Lévy (B.-H.), La Barbarie à visage humain, Paris, Grasset, 1977, p. 180.
[7] Cf. resp. : Voslensky (M.), La Nomenklatura. Les privilégiés en U.R.S.S., Paris, Belfond, 1980 ; e : Kehayan (J. et N.), Rue du prolétaire rouge, Paris, Seuil (coll. « Points-Actuels »), 1978
[8] Entre os meses de Dezembro de 1981 e Novembro de 1983, François Mitterrand interveio 57 vezes a favor da implantação dos mísseis americanos na Europa
[9] Gide (A.), Retour d’U.R.S.S., Paris, Gallimard, 1950, p. 16
[10] Libération, 5 de Fevereiro de 1982
[11] Em Janeiro de 1984, a ditadura de Ankara confessava manter 75 000 pessoas na prisão.
[12] Brune (F.), « Les médias pensent comme moi ! ». Fragments du discours anonyme, Paris, L’Harmattan, 1993 ; nouvelle éd. augmentée : 1996.
[13] Spinoza (B.), Carta LVIII, a Schuller.

* Jean Salem, filósofo e professor na Sorbonne (Paris), é amigo e colaborador de odiario.info.

Nenhum comentário:

Postar um comentário