15 de mar. de 2013

Apenas Junto Com as Mulheres Proletárias o Socialismo Será Vitorioso


Clara Zetkin-16 de Outubro de 1896

As investigações de Bachofen, Morgan e outros parecem provar que a repressão social das mulheres coincide com a criação da propriedade privada. O contraste na família entre o marido como proprietário e a mulher como não proprietária se tornou a base da dependência econômica e da ilegalidade social do sexo feminino. Essa ilegalidade social representa, de acordo com Engels, uma das primeiras e mais antigas formas da exploração de classes. Ele afirma:

“Na família, o marido representa a burguesia e a esposa o proletariado”.

No entanto, a questão das mulheres não era questionada neste sentido específico do mundo moderno. Somente o modo de produção capitalista, o modo de produção que criou a transformação social, que levantou a questão feminina destruindo o antigo sistema econômico e familiar, trazendo substância e sentido de vida para a grande massa de mulheres, durante o período pré-capitalista. Nós não devemos, entretanto, transferir para as atividades econômicas femininas antigas aqueles conceitos (como futilidade e mesquinhez) que são ligados às atividades femininas de nosso tempo. Desde que o antigo tipo de família existia, a mulher encontrará nas atividades produtivas, um sentido de vida, mesmo que ela não tenha consciência de sua ilegalidade social e de que seu desenvolvimento de seus potenciais enquanto indivíduo é limitado.

O período do Renascimento é tempestuoso e estressante, no sentido de despertar da individualidade moderna que era capaz de se desenvolver completamente em diversas direções. Encontramos indivíduos que eram gigantes bons e maus que rejeitam os mandamentos das religiões, das concepções morais e desprezam igualmente céu e inferno. Nós descobrimos as mulheres como centro da vida social, artística e política. E, ainda, não existe um traço de movimento feminino. Esta é a maior razão para o antigo sistema começar a ruir sob o impacto da divisão do trabalho. Milhares e milhares de mulheres não mais encontravam sentido na vida no interior da família, mas essa questão, de acordo com o que podemos analisar, foi resolvida na época com conventos, instituições de caridade e ordens religiosas.

As máquinas, o modo moderno de produção, lentamente acabaram com a produção doméstica e não apenas para milhares, mas para milhões de mulheres a pergunta era: Onde encontraremos nosso meio de vida? Onde nós encontraremos um sentido de vida assim como um trabalho que nos dê satisfação mental? Milhões estavam agora forçadas a encontrar seu meio e sentido de vida fora de suas famílias, na sociedade como um todo. Nesse momento, elas se tornaram conscientes do fato de que sua ilegalidade social esteve em oposição com a maioria de seus interesses básicos. A partir deste momento surgiram as modernas questões das mulheres. Aqui estão algumas estatísticas que mostram como o modo de produção moderno funciona para as questões das mulheres, mesmo as mais agudas. Durante 1882, 5,5 milhões das 23 milhões de mulheres e meninas na Alemanha estavam totalmente desempregadas, um quarto da população feminina não encontrava mais seu meio de vida na família. De acordo com o Censo de 1895, o número de mulheres empregadas na agricultura, no sentido mais amplo desse termo, havia crescido desde 1882 mais de 8% e no sentido estrito cerca de 6%, enquanto o número de homens empregados na agricultura decrescia cerca de 3% a 11%, por ano. Na área das indústrias e das minas, o número de empregadas cresceu cerca de 35% e o de homens cerca de 28%. No mercado de tecelagem, o número de mulheres empregadas cresceu mais de 94% e o de homens apenas 38%. Apenas esses números mostram muito mais a urgência em se resolver as questões das mulheres do que uma declamação inflamada.

O problema das mulheres, entretanto, está presente apenas entre aquelas classes da sociedade nas quais elas mesmas se tornaram produtos do modo capitalista de produção. Então, não encontraremos tais questões nos círculos camponeses, onde existe a economia natural (embora reduzida e puncionada). Mas, nós certamente encontraremos esses problemas naquelas classes da sociedade em que todas as crianças participam do modo moderno de produção. Existe um problema feminino para cada mulher do proletariado, da burguesia, da intelectualidade, etc. Assume uma forma diferente de acordo com a situação de classe de cada uma.

Como se entende um questionamento feminino na alta sociedade? As mulheres desta classe graças as suas propriedades, podem desenvolver sua individualidade e viver como desejam. Em toda sua vida, entretanto, ela ainda depende de seu marido. A guarda sobre o sexo mais frágil sobrevive na lei da família que afirma: “Ele deverá ser seu mestre”. E qual é a constituição da alta sociedade para que a mulher seja legalmente subjugada pelo marido? Em seus primórdios, essas famílias não seguiam pré-requisitos morais. Não era a individualidade, mas o dinheiro que decidia sobre o matrimonio. Seu mote é: No que o capital participa, moralidade sentimental não deve participar. Então, nessa forma de casamento, duas prostituições são tomadas como uma virtude. A eventual vida em família se desenvolve de acordo com os mesmos termos. Onde quer que a mulher não seja mais forçada a realizar seus deveres, ela transfere seus deveres de mulher, mãe e dona de casa para serviçais pagos. Se as mulheres destes círculos tem o desejo de dar a suas vidas um propósito sério, elas devem, primeiramente, aumentar a possibilidade de dispor de suas propriedades de forma independente e livre. Esta demanda representa o centro das demandas apresentadas pelo movimento feminino da alta sociedade. Estas mulheres, em sua luta pela realização de suas demandas contra o mundo masculino de suas classes, lutam exatamente a mesma batalha que a burguesia lutou contra as classes privilegiadas, ou seja, a batalha para remover todas as diferenças baseadas nas posses das propriedades.

O fato de que esta demanda não lida com os direitos dos indivíduos está provado pela defesa de Herr Von Stumm no Reichstag. Mas quando ele defendeu os direitos de uma pessoa? Este homem, na Alemanha, significa mais do que uma personalidade, ele é o dinheiro em carne e osso e se este homem se apresenta com uma mascara barata pelos direitos das mulheres, então isso só aconteceu porque ele foi forçado a dançar diante da “Arca da Aliança do Capitalismo”. Este é o Herr Von Stumm que sempre está pronto para colocar um basta para seus trabalhadores se eles não dançarem conforme sua música e ele certamente receberia com um sorriso satisfeito se o Estado, enquanto empregador colocasse os professores e intelectuais que insistem em discutir políticas públicas sob suas rédeas também. Os esforços de Herr Von Stumm não almejam nada além do que instituir a posse dos bens móveis no caso da herança feminina, uma vez que existem pais que adquiriram posses, mas não tem como escolher seus filhos, deixando apenas as filhas como herdeiras. Assim, o capitalismo honra a poucas mulheres, permitindo que elas dispusessem de suas fortunas. Esta é a fase final da emancipação da propriedade privada.

Como se apresentam os problemas femininos nos círculos da pequena burguesia, da classe media e da burguesia intelectual? Nesse caso, não é a propriedade que dissolve a família, mas principalmente os sintomas concomitantes da produção capitalista. Neste grau, a produção completa sua marcha triunfal, a classe media e a pequena burguesia estão cada vez mais próximas de sua destruição. Entre a burguesia intelectual, outra circunstância leva à piora das condições de vida: o capitalismo precisa de força de trabalho inteligente e treinada cientificamente. Isso então favoreceu uma super produção de trabalhadores cientificamente qualificados e contribuiu para o fenômeno de que as posições de respeito entre essas classes de profissionais estão se erodindo.

No mesmo nível, entretanto, o número de casamentos está caindo; mesmo com bases materias piores, o aumento da expectativa de vida dos indivíduos, faz com que os homens pensem duas ou três vezes antes de entrar em um casamento. A idade limite para se formar uma família aumentou e o homem não sofre pressão para se casar, pois em nosso tempo existem bastantes instituições sociais que oferecem uma vida confortável a um velho bacharel sem uma esposa legítima. A exploração capitalista da força dos proletários até os níveis mais exaustivos, está ai um grande suprimento de prostitutas que correspondem às demandas desses homens. Então, dentro dos círculos da burguesia o número de mulheres solteiras sempre cresce.

As mulheres e filhas destes círculos são empurradas para dentro da sociedade, elas próprias precisam se estabelecer em suas vidas nas quais não se espera apenas que elas tenham seu sustento, mas também saúde mental. Nestes círculos, as mulheres não são iguais aos homens na forma de donas das propriedades privadas, como elas são nos altos círculos. As mulheres nestes círculos ainda precisam garantir sua igualdade econômica com os homens e elas podem fazer isso a partir de duas demandas: A demanda por treinamento profissional igualitário e a demanda por oportunidades iguais de trabalho para ambos os sexos. Em termos econômicos, isto significa nada menos do que a realização do livre acesso a todos os empregos e competição igualitária entre homens e mulheres. A realização disso desencadeia um conflito entre homens e mulheres da burguesia e da intelectualidade. A competição das mulheres dentro do mercado de trabalho é a força que move a resistência dos homens contra as demandas daqueles que advogam pelos direitos das mulheres burguesas. Pura e simplesmente, medo da competição. Todas as outras razões que são listadas contra o trabalho feminino qualificado, como o cérebro feminino ser menor e a tendência natural das mulheres a serem mães são apenas pretextos. Esta batalha coloca as mulheres deste estrato social diante da necessidade de exigir seus direitos políticos, lutando politicamente, derrubando todas as barreiras que foram criadas contra a sua atividade econômica.

Até então, me posicionei apenas diante da estrutura política básica e pura. Nós iremos, entretanto, cometer uma injustiça contra o movimento burguês pelos direitos das mulheres se nós atribuíssemos apenas motivações econômicas. Não, este movimento também contém um aspecto mais profundo. As mulheres da burguesia exigem não só seu sustento, mas também querem poder desenvolver sua individualidade. Exatamente junto a esse segmento encontramos esta trágica, porém psicologicamente interessante figura “Nora”, mulheres que estão cansadas de viver como bonecas, em casas de bonecas e que querem compartilhar do desenvolvimento da cultura moderna. A economia, bem como a intelectualidade empreendida pelos defensores dos direitos das mulheres da burguesia são completamente justificáveis.

No que diz respeito ao proletariado feminino, foi a necessidade do capitalismo de explorar e buscar incessantemente por uma força de trabalho barata que criou questão das mulheres. Essa também é a razão pela qual o proletariado feminino se tornou parte do mecanismo da vida econômica de nosso período e foi para as oficinas e para as máquinas. Elas saíram para a vida econômica para ajudar seus maridos na subsistência, mas o sistema capitalista as transformou em competidoras desleais. Elas queriam trazer prosperidade para a família, entretanto, a miséria se estabeleceu. As mulheres proletárias se empregaram porque queriam construir uma vida feliz e prazerosa para seus filhos, entretanto, elas ficaram totalmente separadas deles. Elas se tornaram iguais aos homens como trabalhadores; as máquinas davam as forças necessárias e em qualquer lugar o trabalho das mulheres gerava o mesmo resultado que o dos homens. E como as mulheres constituem uma força de trabalho barata e acima de tudo submissas, tanto que apenas raros casos se colocam contra a exploração do capitalismo, os capitalistas aumentaram as possibilidades de trabalho das mulheres na indústria. Como resultado, as mulheres proletárias alcançaram sua independência. Mas, verdadeiramente, o preço para isso foi muito alto e para o momento elas ganharam muito pouco. Se durante a Era da Família, o homem tinha o direito (pense na lei eleitoral da Bavária!) de domar sua mulher com um chicote, o capitalismo está, agora, domando-a ainda mais. Antigamente, o governo de um homem sobre sua mulher era amenizado por sua relação pessoal. Entre um empregador e um empregado, entretanto, existe apenas o vínculo financeiro. O proletariado feminino ganhou sua independência, mas nem como ser humano, nem como mulheres ou esposas elas tem a possibilidade de desenvolver sua individualidade. Para suas tarefas como esposa e mãe, restam apenas as migalhas que a produção capitalista deixa cair da mesa.

Então as lutas pela libertação das mulheres proletárias não podem ser comparadas às lutas que as mulheres da burguesia enfrentam contra os homens de sua classe. Ao contrário, elas devem empreender uma luta unitária com os homens de sua classe contra toda a classe capitalista. Elas não precisam lutar contra os homens de sua classe para derrubar as barreiras que foram erguidas contra sua participação no mercado da livre competição. A necessidade do capitalismo de explorar e desenvolver o modo moderno de produção as libera totalmente de travarem tal briga. Ao contrário, novas barreiras precisam ser erguidas contra a exploração do proletariado feminino. Seus direitos como esposa e mãe precisam ser restaurados e garantidos permanentemente. Seu clamor final não é a livre competição com os homens, mas o poder político nas mãos do proletariado. As mulheres operárias lutam lado a lado com os homens de sua classe contra a sociedade capitalista. Para se ter certeza, elas também concordam com as demandas do movimento feminino burguês, mas elas sabem que a simples realização dessas demandas é uma forma de impedir que o movimento entre na batalha, equipado com as mesmas armas, ao lado de todo o proletariado.

A sociedade burguesa não é fundamentalmente contra o movimento feminino burguês, o que pode ser provado pelo fato de que em vários estados foram iniciadas reformas das leis, em âmbito público e privado. Existem duas razões pelas quais a implementação dessas reformas parece demorar excepcionalmente na Alemanha: primeiramente, os homens temem a competição nas profissões liberais e precisa-se levar em consideração que o desenvolvimento da democracia burguesa é bastante lento e fraco na Alemanha, que não acompanha sua tarefa histórica porque sua classe dominante teme o proletariado. Temem que estas reformas só trarão vantagens para os social-democratas. Quanto menos a democracia burguesa se deixar levar pelo medo, mais estará preparada para realizar tais reformas. A Inglaterra é um bom exemplo. A Inglaterra é o único país que ainda tem uma burguesia verdadeiramente poderosa, enquanto a burguesia alemã, tremendo de medo do proletariado, se intimida em realizar reformas políticas e sociais. Assim como está a Alemanha, existe o fator adicional de visão Filistina ampla. A noção Filistina de prejuízo atinge profundamente a burguesia alemã. Para se ter certeza, este medo da burguesia alemã é muito raso. Garantir igualdade política para homens e mulheres não muda o atual balanço de forças. As mulheres proletárias acabam no proletariado e as da burguesia acabam no campo da burguesia. Não podemos nos deixar enganar pelas tendências socialistas no movimento de mulheres burguês, que só persistirá enquanto a burguesia feminina se sentir oprimida.

Quanto menos a democracia burguesa entende seu papel, mais importante é para a Social Democracia defender a igualdade política das mulheres. Não queremos parecer melhores do que somos. Não estamos reivindicando por um princípio, mas interessados na classe operária. Quanto mais o detrimento do trabalho feminino influenciar na vida dos homens, mais urgente se tornará a necessidade de incluí-las na batalha econômica. Quanto mais a batalha política afetar a existência de cada indivíduo, mais urgente será a participação das mulheres nessa luta. Foi a lei anti-socialista que deixou claro para as mulheres o que significava justiça de classe, Estado de classe e leis de classe. Foi esta lei que ensinou às mulheres a necessidade de aprender sobre a força que intervém tão brutalmente em suas famílias. A lei Anti-Socialista cumpriu com sucesso seu trabalho que não teria sido realizado por uma centena de agitadoras e, portanto, somos profundamente gratas a essa lei que como todos os órgãos do governo (desde o ministério até a polícia local) que participaram e contribuíram maravilhosamente com esses serviços involuntários de propaganda. Então, como podem acusar a nós, social democratas de ingratidão? (Risos) – sic.

Ainda existe outro evento que deve ser levado em consideração. Estou me referindo à publicação de Augusto Bebel, o livro “Mulheres e o Socialismo”. Este livro não deve ser julgado de acordo com seus aspectos positivos ou pelos seus atalhos. Deve ser julgado pelo contexto de quando foi escrito. Foi mais do que um livro, foi um evento – um maravilhoso tratado. (Bastante preciso). O livro apontou pela primeira vez a conexão entre a questão feminina e o desenvolvimento histórico. Pela primeira vez, deste livro soou um apelo: Nós apenas conquistaremos o futuro se persuadirmos as mulheres a se tornarem co-batalhadoras. Reconhecendo isso, não estou falando apenas como mulher, mas como uma camarada do partido.

Quais conclusões práticas nós podemos esboçar para nossa propaganda junto as mulheres? A tarefa que deste congresso do Partido não deve ser resumida a sugestões de detalhes práticos, mas desenhar diretrizes gerais para o movimento de mulheres.

Nossa linha de pensamento deve ser: não devemos conduzir propaganda especial para as mulheres, mas fazer agitação socialista entre as mulheres. Os interesses mesquinhos e momentâneos interesses do mundo feminino não podem ser permitidos nesse estágio. Nossa tarefa deve ser incorporar as trabalhadoras modernas na nossa luta de classes! Não temos tarefas especiais para a agitação junto às mulheres. Essas reformas para as mulheres que devem ser realizadas no âmbito da sociedade de hoje já são exigidas dentro do programa mínimo de nosso partido.

A propaganda das mulheres deve tocar naquelas questões que são de grande importância para todo o movimento operário. A principal tarefa, portanto, de acordar a consciência de classe das mulheres e incorporá-las à luta de classes vigente. A sindicalização das trabalhadoras é extremamente difícil. Durante os anos de 1892 a 1895, o número de trabalhadoras organizadas em centrais sindicais cresceu para cerca de 7000. Se adicionarmos a esse número as trabalhadoras organizadas em sindicatos locais e enxergarmos que ao menos 700.000 mulheres estão envolvidas ativamente nas grandes indústrias, então começaremos a entender o tamanho do trabalho de organização que ainda está a nossa frente. Nosso trabalho se torna mais difícil pelo fato de que muitas mulheres estão ativas na indústria caseira e podem, portanto, ser organizadas apenas com grande dificuldade. Também temos que lidar com a difundida crença entre as garotas jovens que seu trabalho industrial é apenas transitório e que terminará quando se casarem. Para muitas mulheres existe a dupla obrigação de ser ativa tanto na fábrica quanto em casa. O que é mais necessário para as trabalhadoras é obter uma jornada de trabalho legalmente fixada. Enquanto na Inglaterra todos concordam que a eliminação da indústria caseira, o estabelecimento de uma jornada de trabalho legal e o pagamento de salários mais altos são importantes requisitos para a sindicalização das trabalhadoras – na Alemanha, além desses obstáculos, enfrentamos também a obrigação da sindicalização e das assembléias. A completa liberdade de formar coalizões, que era garantida pela lei do Império, foi ilusoriamente retida pelas leis de cada estado federativo. Não quero discutir a forma como tal direito de formar um sindicato é tratado na Saxônia (mesmo que alguém possa falar de um direito lá). Mas em dois dos maiores estados federativos, a Bavária e a Prússia, as leis sindicais são tratadas de tal forma que a participação feminina nos sindicatos tem se tornado cada vez mais impossível. Mais recentemente na Prússia, o distrito do “liberal”, o eterno candidato a ministro, Herr Von Bennigsen tem feito o humanamente possível na interpretação da Lei da Sindicalização e das Assembléias. Na Bavária todas as mulheres são excluídas de reuniões públicas. Na Câmara de lá, Herr Von Freilitzsch declarou muito abertamente que ao lidar com a lei da sindicalização, não apenas o texto, mas também a intenção do legislador deve ser levada em consideração. Herr Von Freilitzsch está na melhor posição para saber exatamente as intenções dos legisladores, todos eles acabaram de morrer, antes deixando a Bavária com mais sorte do que qualquer um pudesse imaginar nos seus melhores sonhos, apontando Herr Von Freilitzsch como seu ministro da polícia. Isso não me surpreende por quem quer que receba um ofício de Deus também recebe a inteligência concomitante, e em nossa Era do Espiritualismo, Herr Von Freilitzsch obteve tanto sua inteligência oficial, como por meio da quarta dimensão, descobriu as intenções dos falecidos legisladores. (Risos.)

Esta situação, portanto, não dá possibilidade para que as trabalhadoras se organizem junto aos homens. Até agora, elas enfrentaram uma luta contra o poder policial e estratagemas jurídicos e, superficialmente, parecem ter sido derrotadas. Na realidade, entretanto, elas se tornaram vitoriosas porque todas as medidas usadas para esmagar a organização das trabalhadoras só serviram para despertar sua consciência de classe. Se quisermos ter uma poderosa organização de mulheres, tanto no aspecto econômico como político, devemos então, primeiramente, cuidar da possibilidade para um movimento feminino livre, lutando contra a indústria caseira, por jornadas de trabalho menores e, acima de tudo, contra o conceito de organização da classe dominante.

Não podemos determinar, neste congresso do Partido, qual forma nossa propaganda entre as mulheres deve tomar. Devemos, primeiramente, aprender como faremos nosso trabalho junto às mulheres. Na resolução que vos foi apresentada, propõe-se para eleger delegadas sindicais, cuja tarefa será a de estimular a união e organização econômica das mulheres e para consolidá-la de maneira uniforme e planejado. Esta proposta não é nova; foi adotada em princípio pelo Congresso do Partido de Frankfurt, e em algumas regiões foi implanado com sucesso. O tempo irá dizer se essa proposta, quando aplicada em maior escala, é adequada para colocar as mulheres em maior medida no movimento proletário.

Nossa propaganda não deve ser realizada apenas de maneira falada. Um grande número de pessoas passivas não estão em nossas reuniões e incontáveis esposas e mães não podem vir. Na verdade, não deve ser tarefa da propaganda socialista alienar a mulher trabalhadora de seus deveres como mãe e esposa. Ao contrário, ela deve ser encorajada a realizar essas tarefas melhor do que nunca. Quanto melhor suas condições em sua família, quanto mais eficiente for em casa, maior será sua capacidade de lutar. Quanto mais ela for modelo e educadora de seus filhos, mais hábil ela será para faze-los continuar na luta com o mesmo entusiasmo e sacrifício que tivemos para a libertação do proletariado. Quando um trabalhador disser: “Minha esposa!” ela pensará “camarada de meus ideais, companheira em minhas batalhas e mãe dos meus filhos, para as futuras batalhas.” Muitas mães e esposas que despertam a consciência de classe em seus maridos e filhos fazem tanto quanto as camaradas que nós vemos em nossas reuniões.

Se a montanha não vai a Maomé, Maomé deve ir à montanha: Nós devemos levar o Socialismo para as mulheres através de uma propaganda escrita planejada. Para tal campanha, eu sugiro a distribuição de panfletos e eu não quero dizer do tradicional panfleto no qual todo o programa socialista e todo o conhecimento científico do século estão condensados em um quarto de página. Não, nós devemos usar pequenos panfletos nos quais se discuta um problema prático de um ponto de vista, principalmente aquele da luta de classes, que é a tarefa principal. E não devemos assumir uma atitude indiferente para a produção técnica de panfletos. Não devemos usar, como é nossa tradição, o pior papel e o pior tipo de impressão. Tal panfleto miserável será amassado e jogado fora pelas trabalhadoras que não tem o mesmo respeito pela palavra impressa do que os trabalhadores. Devemos imitar os norte americanos e ingleses que faziam pequenos livretos de quatro a seis páginas. Pois mesmo uma trabalhadora é mulher suficiente para dizer para si mesma: “Isso é mesmo encantador. Terei que pegá-lo e mante-lo.” As frases que realmente importam devem ser impressas em letras grandes. Então as trabalhadoras não ficarão com medo de ler e sua atenção será estimulada.

Por causa de minhas experiências pessoais, não posso defender a fundação de um jornal especial para as mulheres. Minha experiência não é baseada na minha posição como editora do “Gleichheit” (que não é destinado à massa feminina, mas à sua vanguarda progressista), mas como distribuidora de literatura entre as trabalhadoras. Estimulada pelas ações de Frau Gnauck-Kuhne, eu distribui jornais por semanas em certa fábrica. Eu me convenci que as mulheres lá não só não aprenderam com aquele jornal o que era esclarecedor, mas o que era engraçado e de entretenimento. Dessa forma, os sacrifícios de se publicar um jornal barato não valeriam a pena.

Também criamos uma série de brochuras que traziam o Socialismo mais próximo das mulheres como trabalhadoras, esposas e mães. Exceto pela poderosa brochura de Frau Popp, não tivemos uma só que chegou ao número de requerimentos que precisávamos. Nossa imprensa diária, também, precisa realizar mais do que fez até então. Alguns jornais diários tiveram a intenção de esclarecer as mulheres adicionando o suplemento especial para mulheres. O “Magdeburger Volkstimme” é um exemplo e o camarada Goldstein no Zwickau tem estimulado habilidosamente e com sucesso. Mas até agora a imprensa diária manteve a trabalhadora como assinante, enaltecendo sua ignorância, seu gosto ruim e informe, no lugar de esclarecê-las.

Repito que estou apenas colocando sugestões para vossa consideração. Propaganda entre as mulheres é difícil e onerosa e requer grande devoção e sacrifício, mas este será recompensado e deve ser trazido à luz. O proletariado poderá se libertar apenas se lutar unido, sem diferenciar-se por nacionalidade ou profissão. No mesmo sentido, só se libertará sem a distinção por sexo. A incorporação de grandes massas de trabalhadoras na luta pela libertação do proletariado é um pré-requisito para a vitória do ideal socialista e para a construção da sociedade socialista.

Apenas a sociedade socialista irá resolver o conflito que hoje é gerado pela atividade profissional das mulheres. Uma vez que a família como uma unidade econômica irá desaparecer e seu lugar será tomado pela família como uma unidade moral, as mulheres terão igualdade em direitos, igual em criatividade, será companheira de frente de seu marido; sua individualidade poderá crescer no mesmo tempo e ela cumprirá suas tarefas de esposa e mãe da melhor forma possível.


Tradução de Mayra Garcia da Silva
Movimento de Mulheres Olga Benário, Belo Horizonte

 

13 de mar. de 2013

113 anos de nascimento/Gregório Bezerra personificou os explorados e oprimidos do Brasil


Apresentação do livro Memórias, autobiografia do revolucionário comunista Gregório Bezerra, relançado pela Boitempo Editorial

Anita Leocadia Prestes*

É com profunda emoção que escrevo esta apresentação do livro de Memórias de Gregório Bezerra. Quando penso em Gregório, vejo diante de mim o povo brasileiro, os milhões de homens, mulheres e crianças do nosso país, maltratados e sofridos durante séculos de exploração e opressão.

Gregório é a legítima expressão desse povo, no que ele tem de mais autêntico e verdadeiro. É a genuína personificação dos explorados e oprimidos da nossa terra – jamais dos poderosos, dos exploradores. Estes sempre lhe dedicaram um indisfarçável ódio de classe, ódio dos opressores, conscientes do perigo, para os interesses dominantes, das “ideias subversivas” difundidas por homens como ele.

Na grande trincheira da luta de classes, Gregório sempre esteve do lado dos trabalhadores, dos desvalidos e dos oprimidos. Justamente por isso suportou constantes perseguições policiais, atrozes torturas e um total de 23 anos de cárcere em diversos presídios do Brasil. Teve de suportar a feroz campanha que os meios de comunicação a serviço dos interesses dominantes sempre moveram contra ele e contra os comunistas.

Conheci Gregório há muitos anos. Em 1946, eu tinha apenas nove anos de idade quando ele, eleito deputado federal por Pernambuco na legenda do Partido Comunista do Brasil (PCB), foi morar conosco, na casa de meu pai, Luiz Carlos Prestes. O partido havia conquistado a legalidade e elegera para a Assembleia Nacional Constituinte uma bancada comunista composta de um senador, Luiz Carlos Prestes, e catorze deputados, entre os quais Gregório Bezerra. Em nossa casa, além da família, moravam vários camaradas do PCB.

Gregório destacava-se, dentre todos, pela dedicação ao partido e à causa revolucionária que abraçara ainda jovem, mas sobretudo pelo humanismo que irradiava de sua pessoa. Ele sabia compreender os problemas de todos que o cercavam e relacionar-se bem e de maneira afetuosa tanto com as crianças quanto com os idosos, com pessoas importantes ou humildes, com homens ou mulheres. Gregório não incomodava; ao contrário, sempre ajudou em nossa casa e era capaz de manter permanentemente um convívio agradável com todos que o rodeavam. Lembro como minhas tias observavam que, de tantos companheiros que passaram por nossa casa, nenhum deixara tão boas lembranças e tantas saudades quanto ele.

Se Gregório sabia conversar com os adultos, também o sabia com as crianças, como era meu caso. Eis a razão por que guardo gratas lembranças dessa convivência que durou apenas dois anos, pois em 1948, após o fechamento do PCB pelo governo Dutra e a cassação dos mandatos dos parlamentares comunistas, ele foi sequestrado em pleno centro do Rio de Janeiro e levado clandestinamente para a Paraíba, onde, por meio de grosseira provocação policial, seria acusado de incendiar um quartel.

Mais tarde, eu já adulta, nossos caminhos, os meus e os dele, cruzaram-se algumas vezes na vida partidária. Foram, entretanto, encontros fugazes. Mas Gregório continuava sendo o mesmo companheiro atencioso, afável, amigo. Sempre acompanhei sua trajetória de dedicado militante comunista nos mais diversos pontos do país para onde o partido o enviava, seja na legalidade, seja na clandestinidade.

Foi com horror e indignação – como tantos outros brasileiros e também democratas de todo o mundo – que tomei conhecimento de sua prisão em Pernambuco, após o golpe militar de abril de 1964, e das bárbaras torturas a que fora submetido. Sua foto sendo arrastado seminu pelas ruas de Recife chocou a todos. Mas Gregório resistiu, apesar de já contar então com 64 anos de idade. Naquela ocasião, foi condenado a 19 anos de detenção. Mas então, em setembro de 1969, teve lugar no Rio de Janeiro o sequestro do embaixador norte-americano, promovido por organizações da esquerda armada. Em troca da vida do embaixador, os dirigentes desses grupos exigiram a libertação de quinze prisioneiros políticos que deveriam ser enviados para o exterior – entre eles estava o nome de Gregório Bezerra. Embora discordando desse tipo de ação, ele aceitou a libertação, divulgando, ao mesmo tempo, uma “Declaração ao povo brasileiro”, na qual explicava suas razões. Dizia então:


- Por uma questão de princípio, devo esclarecer que, embora aceite a libertação nessas circunstâncias, discordo das ações isoladas, que nada adiantarão para o desenvolvimento do processo revolucionário e somente servirão de pretexto para agravar ainda mais a vida do povo brasileiro e de motivação para maiores crimes contra os patriotas.

E adiante acrescentava:


- Não quero que, nesta hora, minha atitude ponha em risco a vida dos demais presos políticos a serem libertados. Nem desejo, como humanista que sou, o sacrifício desnecessário de qualquer indivíduo, ainda que seja o embaixador da maior potência imperialista de toda a história. Luto, por princípio, contra sistemas de força. Não luto contra pessoas, individualmente. Só acredito na violência das massas contra a violência da reação.

É uma declaração reveladora da personalidade de Gregório Bezerra: militante comunista dedicado e consequente, de firmeza inabalável na defesa de suas convicções revolucionárias e, por isso mesmo, insigne humanista. Reencontrei Gregório em Moscou, em 1973, onde ambos estivemos exilados, juntamente com outros compatriotas. Embora fisicamente alquebrado, como consequência das torturas a que fora submetido nos cárceres da ditadura militar, ele mantinha intacta a postura de profunda dignidade humana e as convicções de revolucionário comunista que sempre marcaram sua personalidade.

Forçado a viver no exílio, mesmo cercado do respeito, da admiração e do carinho dos companheiros soviéticos, assim como de exilados brasileiros e de outros países que então residiam na União Soviética, Gregório tinha seu pensamento permanentemente voltado para o Brasil. Sua maior aspiração era regressar à pátria e poder continuar lutando pelos ideais revolucionários a que dedicara toda sua vida.

Foram dez anos de exílio, até a conquista da anistia no Brasil, em agosto de 1979. Gregório seria um dos primeiros a regressar à terra natal, onde foi recebido com entusiasmo e carinho pelos trabalhadores, companheiros e amigos.




Durante os anos de exílio, Gregório, assim como Prestes, não deixou de contribuir para a luta pela anistia em nosso país. Viajou por diferentes países denunciando os crimes da ditadura militar. Com seu prestígio, tratou de mobilizar os mais diversos setores da opinião pública mundial em campanhas de solidariedade aos presos e perseguidos políticos no Brasil. Participou de congressos, conferências, seminários e entrevistas, sempre empenhado na luta pela democracia, contra o fascismo e por um futuro socialista para toda a humanidade, pois ele era também um militante internacionalista, para quem a luta do nosso povo não poderia jamais estar dissociada da luta dos trabalhadores do mundo inteiro.

Ao mesmo tempo, dedicou-se nesses anos a escrever suas Memórias, cuja nova edição em boa hora nos é proporcionada pela editora Boitempo. Sou testemunha de que Gregório escreveu seu livro sozinho e à mão. Companheiros residentes em Moscou naquela época se revezavam na datilografia das páginas já redigidas por nosso talentoso autor.

Gregório soube produzir um relato de sua vida, em linguagem simples e direta, sem qualquer afetação literária. Descreveu a vida de um camponês nordestino miserável, que se transformou em operário e soldado e, nesse processo, ingressou no Partido Comunista. Um militante que dedicou sua vida aos ideais comunistas, arcando com todas as consequências de tal escolha, sem jamais perder as características de grande figura humana.

Sou também testemunha do espírito de solidariedade e de companheirismo de Gregório durante aqueles difíceis anos de exílio, quando muitos companheiros entravam em desespero ou perdiam a perspectiva revolucionária. Gregório animava a todos que o procuravam, encorajava a quem estava abatido ou angustiado. Mostrava-se solidário com aqueles que precisavam de uma palavra ou de um gesto de amizade e de carinho. Seu apartamento em Moscou era um recanto aconchegante, onde se podia saborear algum prato da cozinha brasileira, por ele muito bem preparado, e de onde se saía reconfortado e confiante num futuro melhor.

Gregório era um otimista e infundia otimismo em todos que o procuravam, incluindo os jovens brasileiros que estudavam na URSS. Aos jovens, ele se esforçava por transmitir sua experiência e seus conhecimentos do Brasil para que, quando regressassem à pátria, estivessem preparados para enfrentar o futuro. A trajetória de vida de Gregório Bezerra é exemplar e deve servir de inspiração para os jovens de hoje, para aqueles que estão empenhados na realização de transformações profundas em nosso país que abram caminho para um futuro de justiça social e liberdade para todos os brasileiros. Futuro que, como nos ensina Gregório Bezerra, da mesma maneira que José Carlos Mariátegui, Fidel Castro, Che Guevara, Luiz Carlos Prestes e tantos outros revolucionários latino-americanos, só poderá ser alcançado com a revolução socialista. Gregório foi um comunista que jamais se dobrou diante das dificuldades e soube “endurecer sem jamais perder a ternura”, na feliz expressão cunhada por Ernesto Guevara.

Esperamos que a publicação desta nova edição das Memórias de Gregório Bezerra pela Boitempo constitua um estímulo à formação de jovens revolucionários em nosso país e em nosso sofrido continente latino-americano.

*Presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes, Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense. Filha de Olga Benario e Luiz Carlos Prestes.


"Apesar da dura realidade, Gregório jamais cultivou o ódio ou o rancor. Era por todos considerado um homem doce, generoso. Não foi um homem de letras, mas um grande observador e um brilhante contador de histórias. Assim é que suas páginas são narradas, sem afetações ou hipocrisia, passando pelo interior da mata e do agreste nos tempos de estiagem e seca, pelo Recife, o exílio na União Soviética, a militância no PCB. Dizia ele: “Não luto contra pessoas, luto contra o sistema que explora e esmaga a maioria do povo”. Em 1983, o Brasil perdeu este que foi um de seus grandes defensores. Para sorte dos que estavam por vir, porém, ele deixou suas memórias recheadas de verdades e esperanças e que, acima de tudo, representam a história de muitos outros “Gregórios” que transformaram o seu destino na luta para transformar a realidade instituída." (Boitempo Editorial)

Título: Memórias
Autor(a): Gregório Bezerra
Páginas: 648
Ano de publicação: 2011
Preço: R$ 74,00

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Fonte: prestesaressurgir.blogspot.com
 

Ex-diretor da Petobras: sob a ótica capitalista Brasil vive em crise e sob a socialista é desastre

Correio da Cidadania - [Valéria Nader e Gabriel Brito] Iniciado o terceiro ano de Dilma Rousseff à frente da República, o país encontra-se em uma considerável sinuca econômica.

As reiteradas tentativas de fazer a economia decolar, referendando a ideia de que o Brasil não seria atingido pela crise mundial, seguem dando no muro, apesar dos cada vez  mais robustos subsídios oferecidos pelo governo ao empresariado, nacional e internacional.

Para debater o atual cenário, o Correio da Cidadania entrevistou o engenheiro e professor da USP Ildo Sauer (foto), ex-diretor de petróleo e gás da Petrobras e implacável crítico dos governos petistas e sua metamorfose política. Para ele, o atual momento retrata uma disputa "intercapitalista" entre os diversos grupos de apoio ao governo, subsidiada por bilhões de reais do BNDES, ávidos em conquistarem espaços nos mais diversos segmentos econômicos. "Os pacotes de subsídios certamente vão completar o processo que FHC não conseguiu terminar", afirma.

Em uma análise mais estrutural, Sauer constata que os anos petistas no governo central promoveram a fusão de dois projetos nacionais colocados à mesa no século 20. Preservando a "bem vinda herança maldita de FHC", de associação capitalista subordinada, Lula tentou também aplicar parte da visão cepalina, isto é, criar atores privados nacionais portentosos, a disputarem mercados e se tornarem hegemônicos em seu setor. Já a ideia de uma sociedade com "traços nitidamente socialistas", um terceiro projeto que desde o século passado ronda a esquerda e que ajudou a embasar o Partido dos Trabalhadores, caiu no esquecimento.

Desse modo, aliado a um "complô midiático contra a inteligência nacional", o governo tenta de todas as formas criar incentivos para que o atual projeto econômico mantenha seu fôlego e evite a crise social que está à espreita. Na visão de Sauer, o governo Dilma prossegue fiel aos paradigmas neoliberais e trata de "destruir tudo que ainda resta de capacidade de planejamento público", o que se comprova numa desastrosa gestão do setor elétrico e na campanha de desmoralização da Petrobras. Tudo em nome dos interesses da enorme base de sua sustentação do governo.

Quanto aos sempre polêmicos debates energéticos, Sauer reafirma a ineficiência no planejamento. Sempre pautado pelos grupos privados que o patrocinam, o governo faz "populismo" no setor com dinheiro do Tesouro Nacional, sem tocar na enorme lucratividade privada. As estatais estão sendo levadas ao abismo sem gerar qualquer excedente econômico com destinação social. "Sob a ótica capitalista, o país vive em crise. Sob a ótica socialista, é um desastre".

A entrevista completa com Ildo Luís Sauer pode ser conferida na íntegra a seguir.

Correio da Cidadania: Aqueles leitores que acompanham a conjuntura política, econômica e social têm se deparado com um cenário de muitas ambiguidades: por um lado, está uma grande parte dos interlocutores da grande mídia, acusando o atual governo Dilma de um aprofundamento inoportuno do 'dirigismo' estatal; de outra parte, há os defensores do atual acirramento daquela que seria uma visão e atuação mais 'desenvolvimentista' deste governo; e há ainda os que criticam esta que conformaria uma falsa dicotomia, vez que o atual governo pratica novas e mais sorrateiras formas de privatismo na economia. Como você, que participou do governo Lula e já trabalhou com Dilma, se posiciona neste debate?

Ildo Sauer: A pergunta é bastante arguta no sentido de posicionar o debate público e os conflitos que aparentemente estão na mídia. E posicionar outro debate, que não aparece. Em certa ocasião, afirmei que a grande questão do governo Lula foi que, ao acordarmos no meio de seu mandato, descobrimos que na verdade foi um governo de consolidação da hegemonia das relações sociais capitalistas, como forma de organizar a sociedade brasileira. Foi isso. Um partido que começou se proclamando socialista se converteu em fio condutor da consolidação definitiva, ou ao menos aprofundada, do capitalismo como relação social hegemônica para organizar a produção e a vida do país.

No entanto, há um conflito intercapitalista neste processo. Num artigo recente, usei tal referência, pois discutia desenvolvimento, energia e recursos naturais. Discutindo o que seria desenvolvimento, usamos três referências teóricas de anos anteriores, muitas delas vinculadas à visão de mundo de Andre Gunder Frank, Ruy Mauro Marini, Florestan Fernandes etc., em debates que vêm dos anos 50 e 60.

Vou tentar colocar nessa perspectiva: de um lado, a teoria inspirada em Gunder Frank, da dependência associada, também assinada por Fernando Henrique Cardoso, proclamando que nesses países, como o Brasil e os demais da América Latina, não haveria burguesia e estrutura produtiva organizada dentro dos moldes capitalistas, de modo que não haveria solução a não ser a associação ao capitalismo internacional. Simplificando, nada mais errado que proclamar a frase de FHC "esqueçam o que escrevi". Ele fez o que escreveu. De fato, ele internacionalizou grandes setores da economia brasileira e promoveu privatizações selvagens. Não conseguiu completar o processo porque houve uma resistência popular, como no caso da Petrobras, e alguns fracassos rotundos, como o racionamento de energia de 2001. Mas começou pelo sistema bancário e financeiro, que não precisava ser privatizado por já estar entranhado – apenas mudaram as taxas de transferência de valor, a taxa de câmbio e os juros, a partir das quais se estrutura o sistema financeiro.

Na infraestrutura, as telecomunicações foram privatizadas no tapa, com o processo altamente contestado da Embratel; bancos estaduais foram privatizados; a Petrobras virou Petrobrax por um tempo, e também sofreu privatização. E tinha uma cunha. Até então, a Petrobras tinha sido criada para servir aos consumidores e também à criação da estrutura produtiva sorbonne-capitalista do Brasil. Porque fornecendo derivados para a circulação de pessoas e mercadorias, levando essa circulação de mercadorias por todos os cantos do país – conforme se permitiu com a indústria do petróleo e automotiva -, com integração ao sistema produtivo, a tendência era de que esse capitalismo comercial se desenvolvesse de modo cada vez mais subordinado à lógica financeira.

O sentido era a criação de um outro capitalismo no Brasil. O que se cria, no entanto, quando FHC tenta privatizar a Petrobras e não consegue (apesar de ter vendido boa parte das ações) é, de certa forma, um conflito intercapitalista. De um lado, os capitalistas nacionais, aqueles que se beneficiaram da ação do Estado, ou do fundo público, como dizia Chico de Oliveira, pra reduzir a reprodução da força de trabalho, com gasolina, transporte de alimentos e urbano mais baratos, além do insumo material, no que foram ajudados. Porém, de outro lado, ao vender as ações da Petrobras na bolsa de Nova York, o capital financeiro que comprou tais ações passou a cobrar cada vez mais lucro, de modo que exige uma Petrobras puramente capitalista, voltada ao interesse dos acionistas, não mais como um instrumento do Estado.

A visão Fernandiana, de tentar criar aqui uma burguesia e hegemonia capitalistas, caminhava nessa direção, dando ênfase ao capital financeiro internacional. Nem tanto no caso da Petrobras, que tem muitas nuances. Mas nas telecomunicações, em muitas áreas do saneamento, em bancos estaduais como Banespa e BANERJ... Tudo isso foi internacionalizado. Uma terra arrasada pra privatizar tudo, estradas, rodovias, hidrelétricas. Não conseguiram privatizar todas as elétricas por conta do racionamento de 2001 e da resistência dos movimentos sociais.

Correio da Cidadania: Ou seja, a era FHC mais que corroborou os estudos e inferências teóricas do presidente sociólogo, certo?

Ildo Sauer: Certíssimo. E é ao lado de tal constatação que está a primeira visão, que acabo de relatar. A segunda visão é a cepalina, que também entendia que um dos primeiros caminhos para a produção e desenvolvimento seria a criação de uma espécie de burguesia nas cadeias produtivas da América Latina e, especialmente, no Brasil. Porém, criando atores nacionais. Pautava-se na substituição de importações, pra gerar mercado e cadeias produtivas. Tal visão foi derrubada por Collor e Fernando Henrique imediatamente. Mas também se trata de uma visão que enxergava um desenvolvimento que, em sua primeira etapa, passaria necessariamente por uma estrutura capitalista de produção. Essas eram as duas visões hegemônicas.

Já a terceira visão, que se embasava na análise de Ruy Mauro Marini, mas teve muita expressão com Milton Santos e Florestan Fernandes, é a que deu origem a grande parte da inspiração ideológica que, pelo menos no discurso, estava por trás do PT. Significava o seguinte: não há estrutura capitalista consolidada no país, e desenvolvê-la não é necessário. Poderíamos ir direto a outras formas de construção de estruturas sociais, baseadas em outros valores e princípios, como a solidariedade, a fraternidade, a igualdade, algo cooperativo. Ou seja, uma estrutura nitidamente socialista. Era isso que estava na base de grande parte das tendências e grupos do partido, até pouco antes de chegarem ao poder. Embora já se vissem prefeituras, como a de Ribeirão Preto, São Paulo e outras, com exceção de Porto Alegre, onde essa visão já não era presente na prática. O Orçamento Participativo também fazia parte de tal visão. Assim, o PT era um misto em 2000 – quando, por exemplo, Marta chegou ao poder em São Paulo, Palocci já tinha ocupado o poder em Ribeirão Preto, e por lá já havia feito privatizações... Enfim, o PT já se encontrava em metamorfose.

A pá de cal sobre tal visão se deu com a Carta aos Brasileiros, de 2002, com o teatro de aparente contragosto do candidato Lula, pedindo ao líder Mercadante que a lesse. Um teatro ao qual assisti pessoalmente, quando também estava à mesa um Chico de Oliveira assombrado com o que se dizia, assim como muitos de nós. De qualquer maneira, com o entusiasmo da vitória eleitoral, parecia que se deixaria a Carta de lado, que tudo não passava de algo pra marcar uma relação garantidora de governabilidade, com o posterior retorno do velho discurso, que se tornaria prática. Porém, o tempo foi passando e viu-se, definitivamente, que a grande missão de Lula, no discurso e na prática, era abandonar essa terceira visão aqui mencionada.

E a metamorfose que Lula incorporou foi dupla. Assumiu e absorveu toda a herança de FHC da dependência associada, da hegemonia financeira no país, de setores privatizados, cujos objetivos são obviamente a acumulação mais rápida, na escala mais veloz possível, vinculada ao sistema financeiro internacional. Com os grupos econômicos presentes aqui e lá fora, através dessa rede de grandes empresas, variadas cadeias produtivas, da abertura no setor petróleo e em outros mais.

Tanto no governo FHC como no governo Lula, o debate privatizar empresas versus abertura do espaço econômico parece colocar posições diferentes. E existem mesmo diferentes posições. Porém, não privatizar a Petrobras e, ao mesmo tempo, entregar os campos onde é possível encontrar petróleo ao sistema financeiro internacional é tão grave quanto privatizá-la. Não privatizar a Eletrobras, mas deixá-la eunuca, incapaz, tornando-a praticamente inoperante, pra manter o velho discurso, tem o mesmo efeito econômico que entregar todas as hidrelétricas e o espaço das eólicas. O governo Lula fez esse hibridismo, de manter a herança que no discurso era maldita, mas bem-vinda na prática, agora aprofundada em todas as formas de organizar e gerir empresas estatais, num modelo de subordinação, deixando-as associadas a grandes empresas multinacionais. E também brasileiras – a grande novidade do Lula.

Correio da Cidadania: E quem são, a seu ver, estas 'brasileiras, a grande novidade de Lula'?

Ildo Sauer: A Petrobras, por pressão interna, foi obrigada a se associar aos grupos internacionais na exploração do petróleo, o que foi mantido nos anos Lula. Houve uma tentativa de vários grupos, de dentro da Petrobras, de reverter o processo. Mas a pressão de Brasília, comandada pela então ministra de Minas e Energia, era na direção contrária. O que Lula e seu governo, em síntese, fizeram? Mantiveram esse sistema, de interesses claros e definidos, ainda que em contradição, e incorporaram os conflitos ao governo. De outro lado, resolveu recuperar parte do discurso cepalino, e criar atores nacionais. E aí aparece algo interessante, notável, sutil: o discurso (de Lula em 2003) era fortalecer e criar tais atores, pois "se há multinacionais no Brasil, temos de criar as nossas". E quem seriam as candidatas? Havia a Petrobras, mas o grosso eram as empreiteiras contratistas, que são as grandes patrocinadoras dos quatro ou cinco grandes partidos do país. Não só pra fazer obras e exercer certo subimperialismo na África e América Latina, financiadas pelo BNDES, mas também, como ocorrido na Coréia e Japão pós-guerra, crescendo e se tornando grandes conglomerados.

Assim, a Camargo Correa se expandiu para as redes elétricas, em associação com Bradesco e CPFL, tendo cada vez mais distribuidoras elétricas, e caminhando para as rodovias e infraestruturas. A Odebrecht foi beneficiada pelo longo processo de consolidação da petroquímica no país, custeado pela Petrobras, tendo, ao final, a hegemonia na Braskem. A maior beneficiária deste processo nas telecomunicações, a partir de relações próximas e de longa data com a presidente da República, foi a Andrade Gutierrez. Todo o grande imbróglio e luta intestina no governo, com italianos, o grupo TIM, Daniel Dantas, ministros em lados opostos da disputa, e Lula nos dois lados, acabou consolidando a hegemonia de um grande monopólio nas telecomunicações, na telefonia celular.

Essa é uma síntese possível do governo Lula, mantendo o espaço do sistema internacional e também criando grandes atores privados nacionais. O mesmo se vê na siderurgia, que já vinha de vento em popa, com os grupos de FHC na CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), com Steinbruch, depois Gerdau e outros, chegando até a tentar as redes de atacado e varejo no supermercado. No setor frigorífico, usou dinheiro do BNDES, sabe-se lá sob qual justificativa estratégica, para um grupo econômico monopolizar todas as redes brasileiras e comprar as mais importantes dos EUA e Austrália e se proclamar grande e hegemônico. O mesmo se viu nas bebidas. Tudo isso sempre apoiado por dinheiro do BNDES. Eis a lógica do que aconteceu em vários segmentos no governo Lula. Com a sutileza de que foi apoiado, em grande parte, por movimentos sindicais atrelados ao PT e aos dirigentes partidários que, em geral, vinham de estratos do trabalho, não do capital.

Além do mais, há os fundos de pensão, outra muleta importante. Podem atuar pela regra da agilidade privada, mas podem ser comandados de forma paraestatal desde o Palácio do Planalto, onde se escolhem seus dirigentes, delegados, prepostos do governo central, utilizando-se toda a poupança gerada pelos salários dos trabalhadores das estatais e pelas contribuições das empresas públicas. Essa é a estrutura híbrida que foi criada.

Correio da Cidadania: Como você pode, então, associar toda esta retomada, destacando o hibridismo a que foi conduzido o governo Lula, ao debate que está colocado hoje na imprensa, conforme já citado?

Ildo Sauer: O debate colocado hoje é que, dentro e fora do governo, vemos o embate intercapitalista, de grupos se enfrentando e tentando monopolizar cada vez mais segmentos com apoio do governo e suas frações, de tão ampla base. Desde o começo, o governo Lula trouxe os conflitos de fora da sociedade pra si, pairando sobre todos. Basta citar o movimento ambientalista comandado por Marina Silva e os conflitos com o setor de Minas e Energia. Pareciam dois governos diferentes, mas era um só, sob a arbitragem suprema de Lula, que depois delegou a coroa, parcialmente, à princesa sucessora, nomeada e ungida ao Palácio.

De modo que, das três vertentes e concepções citadas de desenvolvimento, a que deu origem ao ideário do partido foi abandonada, em nome de um hibridismo das outras duas, subordinadas agora ao capital internacional e ao emergente capitalismo brasileiro, que atua aqui dentro e lá fora também, sempre ancorado no BNDES e outros recursos públicos.

Assim, o conflito que vemos na mídia são manifestações desse processo. Há grupos que vêm sendo mais ou menos favorecidos. Com mais apoio, ou não, dentro da estrutura de sustentação ao governo. De modo que não sobrou oposição. Por quê? Porque o projeto da chamada socialdemocracia, que na verdade era neoliberalismo, foi incorporado e plenamente mantido dentro do atual governo.

Portanto, temos aí a concorrência intercapitalista, disputando, por exemplo, a Petrobras. Os acionistas querem preços mais elevados pra terem mais lucros; o governo usa a empresa pra tentar reduzir a inflação, o custo da reprodução da força de trabalho, da mobilidade. Em favor de quem? De aumentar a taxa de lucratividade da economia brasileira. Não em favor dos trabalhadores, mas dos grupos que estão aí, todos com seus representantes e delegados instalados dentro dos vários órgãos de governo e poder, os chamados crachás de aluguel. Que muitas vezes são funcionários de carreira, de longa trajetória, de currículo até respeitável, mas que não estão lá pra cumprir uma função de Estado, de governo, ou de um programa político transparente; são delegados que estão lá pra defender seus patrocinadores. Por isso tantos conflitos, trata-se de um espaço em disputa.

Disputa pela capacidade produtiva brasileira de gerar excedente econômico no agronegócio, na cadente indústria e na área de serviços, que em parte se reduz, após sustentar o surto de crescimento econômico dos anos Lula – visto que os últimos dois anos parecem mais a era FHC. Crescimento que teve tudo a ver com a explosão dos preços do petróleo, dos produtos agroindustriais, os minerais, enfim, as commodities do mercado internacional, em função do processo de expansão produtiva na China, que por sua vez também está em risco.

Tudo isso passou a gerar uma renda econômica (diferença entre custos de produção e renda do capital e trabalho diretamente aplicada); o preço internacional de tais commodities (soja, arroz, milho, carne, frango, minério de ferro, além da autossuficiência em petróleo) proporcionou uma diferença grande entre o custo e o preço, permitindo que tamanha renda fosse reciclada aqui dentro. A taxa de câmbio mantida naquele período ajudou a reduzir a inflação e o custo da reprodução da força de trabalho, pois grande parte dos produtos da cesta básica está vinculada ao câmbio, ao dólar, guardando relação com o mercado internacional. Como consequência paralela, tivemos a redução da capacidade produtiva da indústria e agora o Brasil corre o risco de se tornar um país primário, desindustrializado e ausente de várias cadeias produtivas. Se essa relação de preços das commodities for ameaçada - o que pode ocorrer, especialmente em função da expansão da China em muitos países da América Latina e da África, a fim de acessar esses produtos primários a partir de termos de troca mais favoráveis -, o país poderá passar por uma crise profunda no futuro. É algo que está no horizonte.

Correio da Cidadania: Em face deste cenário, como situa o pacote de infraestrutura que o governo lançou no ano passado, prevendo investimentos de mais de 100 bilhões de reais nas grandes áreas estratégicas, como rodovias, ferrovias, portos e aeroportos?

Ildo Sauer: O governo tem feito muita propaganda em termos de infraestrutura, com poucos resultados. Basta olhar para a transposição do São Francisco, os planos de expansão de rodovias, ferrovias e portos deste pacote... Ao invés de organizar a máquina pública, criar universidades de treinamento para gestão pública - como se fez no serviço público francês, a exemplo também da Petrobras e algumas outras empresas no Brasil, que formam seus quadros para tentar fazer seus gestores -, o governo declara que as empresas públicas são incapazes de gerir qualquer investimento e que a saída só pode ser privatizar, organizando pacotes de grande incentivo. Pacotes que certamente vão completar o processo que FHC não conseguiu terminar.

O governo, surpreendentemente, segue esta lógica mantendo em sua base de apoio setores dos trabalhadores até de segmentos diretamente afetados pelo pacote. No setor elétrico, isto já ocorreu. E o mesmo se vê na atual tentativa de desmoralização da Petrobras. A empresa está com problemas realmente sérios. Mas tais problemas vêm da forma como o governo conduz a empresa, reduzindo o preço da gasolina a um patamar impeditivo de prover um excedente de magnitude para a Petrobras. De outro lado, os crachás de aluguel e delegados de interesses dentro da empresa, vinculados a vários segmentos do governo, têm feito vários investimentos inaceitáveis, como na refinaria de Pernambuco, que está saindo por 20 bilhões de dólares. Certamente, não poderia custar mais do que 7 bilhões, pra não causar prejuízo, porque o máximo que se consegue no mercado, em média, é um excedente de 7 ou 8 dólares por barril refinado. E lá, só pra recuperar o investimento, o custo do refino será de 25 ou 30 dólares. Inviável. Vai perder, não vai recuperar. O Comperj no RJ é a mesma coisa. No caso do gasoduto Urucu, em Manaus, previsto em 2 ou 3 bilhões de reais, chegou-se a 5 bilhões. Todos estes investimentos ocorrem em função de uma estrutura de gestão subordinada aos interesses externos, o que só pode gerar problemas.

O que o governo está promovendo é a destruição da Petrobras, quando deveria fortalecê-la e usá-la como instrumento de geração de excedente econômico. Deveria fazê-la produzir todo o petróleo brasileiro, com pagamento pelos serviços, por 15 a 25 dólares pelo barril, sem impostos, gerando um excedente de 65 a 75 dólares por barril, já que o barril vale hoje entre 90 e 100 dólares. O excedente poderia ir direto para um fundo público, para financiar educação e saúde públicas. Algo semelhante ao que deveria ser feito na área elétrica, através das hidrelétricas, onde se poderia produzir um excedente econômico da ordem de 10 bilhões de reais por ano, vendendo energia próxima ao custo médio, pagando o custo de produção.

O que fez o governo? Está doando essa energia toda, além dos subsídios que tem concedido, que virão do dinheiro que ele tem em Itaipu. A Eletrobrás tinha um crédito junto a Itaipu que o Tesouro Nacional assumiu. Antes, o Tesouro já tinha assumido os créditos da Eletrobrás em Itaipu. Hoje, Itaipu deve uns 35 bilhões de reais ao Tesouro, que serão pagos em cerca de 10 anos. São 3,5 bilhões por ano. O que o governo fará com tal dinheiro? Tentará reduzir custos do sistema elétrico que foi mal gerido, pra tentar reduzir a tarifa e dar um presente socialmente regressivo aos grandes consumidores elétricos residenciais, industriais e comerciais. Há um exemplo flagrante: sei de um empresário maranhense que tem uma mansão que consome energia por 5 mil reais por mês. Se cumprida a promessa de redução de 20% nas tarifas, ele terá um benefício mensal de mil reais. Um empregado dele, por sua vez, que ganha pouco mais de um salário mínimo e paga um pouco mais de 60 reais por mês na conta, terá um subsídio de 12 reais. Algo semelhante acontece no setor industrial. As maiores beneficiárias serão as grandes empresas, que não necessariamente irão empregar mais, inovar tecnologicamente e produzir mais. Apenas aumentarão seus lucros. De modo que esse populismo com o patrimônio público na área elétrica também vai nessa direção.

O governo Dilma está tentando desmoralizar o resto que há de possibilidade de gestão pública em setores estratégicos para, no limite, destroçá-los, como conseguiram os tucanos, tudo à mercê desta disputa intercapitalista que está colocada. E o BNDES é o grande instrumento. O que é o BNDES? Um banco 100% público. O governo está com quase 2 trilhões de reais de dívida pública. Apesar da redução dos juros, ainda paga juros altos sobre a dívida, que vem aumentando em grande parte para capitalizar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e, principalmente, o BNDES – no caso do BNDES, de modo a ser o baluarte dessa ação de tentar desesperadamente gerar investimentos em vários segmentos, sempre sob a égide privada.

Com o aporte indiscriminado a grupos nacionais e internacionais, temos aqui uma versão acabada do mencionado hibridismo entre a dependência associada e a visão cepalina da economia, embora todas metamorfoseadas e já subordinadas, sem abrir mão de nenhum dos princípios mais fundamentais e queridos ao neoliberalismo. Lógica que aportou aqui nos anos 90 e não está com jeito nenhum de que sairá. Pelo contrário, está se aprofundando.

É assim que vejo todos esses anúncios, na área elétrica, do petróleo, especialmente no caso dos novos leilões de campos de petróleo. Trata-se de áreas onde não se sabe quanto há de petróleo, cuja exploração não foi terminada ou nem começou, mas que já se encontram subordinadas à pressão desses que querem açodadamente arrancar toda e qualquer gota de petróleo, convertê-lo em dinheiro e distribuir esse dinheiro, embora ainda existam disputas a serem definidas, de modo a se saber quem serão os beneficiários. E nada garante que a renda resultante desse processo será revertida socialmente. Estamos arrancando bens naturais únicos, não reprodutíveis, que pertencem às gerações futuras, e convertendo-os em riquezas para alguns, deixando uma herança negativa através da poluição, rejeitos e resíduos, além de cidades inviáveis e uma estrutura produtiva degradada.

De forma que o cenário não me parece favorável, sob qualquer ótica. Sob a ótica capitalista, o país vive em crise. Sob a ótica socialista, é um desastre.

Correio da Cidadania: Pensando agora no setor de sua atuação mais específica, o energético, uma das medidas que mais polêmica causou nos últimos tempos foi a MP 579, para renovação antecipada das concessões de geradoras, em sua maioria estatais, sob a prerrogativa de uma necessária e justa redução das tarifas elétricas. Como vê a medida, os resultados que dela já emergiram até agora e o seu impacto para as estatais?

Ildo Sauer: Evidentemente, é um ataque contra as empresas públicas, que já encontram problemas de gestão no presente. Deveriam fortalecer Furnas, Eletronorte, Chesf, mas estão 'arrancando' projetos de usinas a rodo. No passado, propusemos a criação da estatal Hidrobrás, mediante operação cooperativa dessas três citadas, mantendo-as íntegras em suas operações e capacitação, gerando excedente econômico para o país. Agora, reduziram o custo de 22 mil megawatts de energia, pois Chesf, Cemig e Copel vão entrar inteiramente na jogada. Mas o governo liquidou a RGE (Rio Grande Energia) por cerca de 20 bilhões de reais, fora aquilo que já disse de Itaipu, para indenizar e não deixar morrer a Eletrobrás e suas subsidiárias, especialmente as três maiores (Furnas, Eletronorte e Chesf).

No entanto, a tarifa que o governo irá pagar (por ele arbitrada) não custeia nem a operação, quanto mais a manutenção. Portanto, temos riscos nesse sentido, estamos destruindo a capacidade de engenharia, estamos destruindo os últimos bastiões que havia de capacidade de planejamento público, de implementar, produzir e operar sistemas complexos, como eram os casos de Furnas, Chesf, Eletronorte...

Há críticas às empresas públicas, mas elas deveriam ser melhoradas, não destruídas. De um lado, trata-se disso, de destruir o resto das empresas de enorme capacidade, como já revelaram alguns atores do sistema hidrelétrico brasileiro que estão aí, alvo de tamanha disputa. E de outro lado, o governo antecipou o fim das concessões usando para isso a RGE, o fundo produzido por tarifas públicas, entre 18 e 20 bilhões de reais, utilizados pra dar um fôlego a tais empresas e fazer populismo. O governo vai entregar energia dessas empresas, antes dos impostos, a cerca de 8 a 10 reais o megawatt/hora (mW/h). Com impostos, vai chegar a algo próximo de 30 reais o mW/h. No entanto, esse é o excedente de 10 bilhões de reais por ano que será doado aos grandes consumidores.

Ou seja, o governo age dessa forma sem mexer na enorme lucratividade da participação privada no setor elétrico. Há empresas vendendo energia gerada nas pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), que antes também eram públicas e foram privatizadas. A energia delas entrava no sistema por 20 a 30 reais o mW/h. Depois da decisão do governo, foram privatizadas e sua energia recomprada a 200 reais o mW/h, vendida como energia renovável e incentivada. E o governo tem muitos contratos ainda, desde FHC e nos leilões da própria Dilma, de energia térmica, que custa hoje entre 180 e 200 reais o mW/h.

Pra manter isso, a estrutura de contratos mal feitos, com muitos riscos embutidos (que na verdade não existem, tudo pra justificar a permanência desse tipo de contratos), o governo está esterilizando patrimônio público – para, ainda assim, manter o Brasil com a terceira tarifa mais cara do mundo. Caindo talvez pra décimo lugar, mas, de toda forma, sem ter um grande impacto.

E além do mais, observa-se o mau planejamento. A expansão do sistema elétrico sob os governos Lula e Dilma fez com que não tivéssemos suficiente número de usinas hidrelétricas e eólicas operando desde 2011, 2012. O que fez com que agora, mesmo com período chuvoso, usemos todo o parque termelétrico, com muitas usinas com o mW/h sendo vendido por até 800 reais. Também usinas a óleo diesel com GNL (gás natural liquefeito) importado entraram em operação, acumulando prejuízos. E agora o governo anuncia pela imprensa que o custo será absorvido pelo Tesouro Nacional, à custa de mais impostos ou mais endividamento público. O mesmo Tesouro que financia a expansão e os benefícios que o BNDES vem outorgando a vários grupos escolhidos.

Note bem: de um lado, o governo reduziu receitas públicas, a partir da conta de consumo de combustíveis. Um exemplo é o que ocorre no Amazonas, onde o processo de acabar com as usinas que queimam óleo diesel demorou anos e ainda nem se completou, mesmo com o gasoduto Urucu/Manaus disponível desde 2009. E essa conta é distribuída entre todos, chegando agora ao Tesouro. Vários outros custos que estavam sendo levados ao consumidor agora vão simplesmente migrar rumo ao Tesouro Nacional. Só que o Tesouro também é do consumidor, e a diferença é que ele tem de ter um papel mais amplo. Jogar essa conta sobre os consumidores elétricos apenas alivia a conta daqueles que têm mais renda e consomem mais energia, as empresas. Portanto, estamos diante de uma redução tarifária socialmente regressiva.

Ao mesmo tempo, é importante ressaltar, 9 das 12 empresas que mais tiveram lucratividade nos últimos anos no Brasil são da área de energia. O que indica uma enorme assimetria. Muitas empresas privadas continuam vendendo energia térmica para o sistema por 180, 200 reais o mW/h. Agora, pra reduzir o risco de racionamento, o governo está queimando de 800 milhões a 1 bilhão de reais por mês em combustíveis. Uma conta enorme que ou será rateada entre os consumidores ou, pior ainda, será repassada ao Tesouro Nacional. O que significa que ou ele se endividará mais ou não haverá dinheiro pra fazer saúde e educação públicas - os únicos dois caminhos para alterar as relações sociais dentro do país. Se for mantida a redução tarifária, será à custa do Tesouro. A máquina de fazer custos está de pé. O governo não fez mudança estrutural, fez só uma mudança contábil, transferiu o nome de quem paga a conta. E, claro, tirou das estatais a receita que teriam.

De modo que é assombroso ver o governo que veio do partido concebido nos anos 80 – a partir das visões de Marini e Florestan, e com a noção de que poderíamos migrar diretamente de um país ainda não industrializado e sem base capitalista solidificada para um sistema socialista – adentrar nesse sistema. Uma lógica onde o Tesouro Nacional e os recursos públicos são usados pra atender toda gama de interesses incrustados e encastelados dentro de uma base de governo tão ampla, onde cada um busca seu naco numa disputa que se manifesta em todos os espaços.

Correio da Cidadania: Mau planejamento à parte, apagão tem sido palavra-chave no setor, e vêm acontecendo, de fato e com frequência, notórios cortes de energia em distintas regiões, inclusive nesta capital. O risco de apagão é real?

Ildo Sauer: Nenhum risco de racionamento pode ser descartado. Mas só poderemos ter uma impressão mais forte entre abril e maio, olhando os reservatórios. O "problemaço" do planejamento criou outro grande problema e uma desgraça criou um alívio. O fato de o país não ter crescido tanto em 2011 e 2012 fez com que a demanda elétrica não fosse aquela prevista. Mesmo assim, os reservatórios estão num nível preocupante, não se pode ter certeza de como estarão até o dia 1º de maio, quando as chuvas de março já terão encerrado o verão há muito tempo e poderemos fazer um balanço pra saber se, mesmo com essas térmicas operando a um custo de quase R$ 1 bilhão por mês em termos de combustível, e com todo esse fiasco energético do governo Dilma, não teremos a catástrofe ainda maior de ter de cortar o consumo. Mas o fato de a economia periclitar ajuda a evitar tal quadro.

Assim, ainda que seja baixo o risco de racionamento, a ameaça está no horizonte. Mesmo que as probabilidades não sejam elevadas, não se pode descartá-las. Ao mesmo tempo em que a presidente anunciava que não há risco algum (uma mentira, porque sempre há risco), na reunião do começo do ano com especialistas do setor elétrico e da climatologia foi dito que, "se não chover, cabeças vão rolar". É a frase pronunciada por ela e que saiu dos bastidores. Fica claro o espírito e o ânimo em relação ao assunto. É evidente que, no momento, temos de aguardar o fim do período de chuvas, fazer o balanço em abril e ver em maio qual o nível de conforto, pra seguir operando normalmente ou pra começar a fazer gestão de carga, dependendo do nível dos reservatórios.

Outro escândalo é que há usinas eólicas na Bahia e Rio Grande do Norte, com quase 600 Megawatts de potencial, que estão prontas e não foram interligadas ao sistema elétrico por falta de transmissão. Algo semelhante se repete agora. Os escândalos ambientais e agressões sociais que acompanharam a construção de Santo Antonio e Jirau estão chegando a termo, com algumas turbinas entrando em operação. E agora faltam linhas de transmissão pra levar a energia aos centros de consumo. A energia está sendo escoada para o Acre e Rondônia, liberando a produção de energia térmica. Mas dado o nível de risco das demais regiões do país, essa energia disponível seria extremamente bem vinda pra reduzir custos. O que mostra que a capacidade de gestão do governo, e de quem se proclama grande gerentona, mãe do PAC, na verdade é uma grande farsa.

Correio da Cidadania: A construção de grandes hidrelétricas na Amazônia tem como uma de suas justificativas justamente a necessidade de o país se adequar a uma demanda maior e crescente de energia elétrica, e de forma sustentável. Você acredita nessa necessidade e argumentação? O medo de desabastecimento justifica a construção de barragens na região, com todos os seus conhecidos descalabros sociais, ambientais etc.?

Ildo Sauer: Esse argumento do desabastecimento pode ser usado, sim. É evidente que, desde 2002, 2003, o programa de governo da Frente Popular previa que se fizesse um inventário total de todos os recursos energéticos do país. Hidrelétricas, eólicas, co-geração com bagaço de cana, com gás natural, PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas), racionalização do uso de energia... Tudo isso posto numa avaliação técnica, ambiental e social, descartando-se aqueles projetos que fossem inviáveis social e ambientalmente, orientando os demais pelo critério técnico-econômico. E sequencialmente, por ordem de mérito, os projetos seriam postos em prática. Até agora nada disso foi feito.

O que o governo fez, a partir da expansão da demanda em 2005, foi começar a lançar um monte de projetos. Belo Monte era um deles, que vinha desde a ditadura militar, ressuscitado com os mesmos problemas sociais e ambientais, apesar de uma pequena redução do reservatório. O complexo de Santo Antonio e Jirau, por sua vez, foi herdado da era FHC, um consórcio privado, com Furnas e Odebrecht no projeto, unicamente. Depois, o governo repartiu as duas usinas entre seus sócios Odebrecht e Camargo Correa, dando a cada uma delas um sócio estatal pra servir de muleta na administração dessas duas hidrelétricas do Rio Madeira. Assim foi feito. O governo certamente vai usar essa ameaça de risco em seu complô midiático contra a consciência social e tentar enfiar goela abaixo outros projetos que favoreçam seus sócios, e não a sociedade e seu todo. Estão aí projetos como São Luiz dos Tapajós e outros mais na linha de tiro.

Temos condição de atender a toda demanda do país, com os menores custos possíveis, a partir de uma associação entre projetos hidreletricamente viáveis com projetos eólicos igualmente viáveis, com a complementação térmica apenas de longo prazo, operando com combustíveis flexíveis. Mas considerando a fragmentação das instituições que operam, planejam e dirigem o sistema elétrico e o conjunto de interesses presentes nesses espaços, a decisão nunca é do interesse público. É aquela que os grupos de plantão, com mais força de lobby, desejam. Exemplo disso é o lobby nuclear, que conseguiu enfiar goela abaixo Angra 3, que custará mais de 10 bilhões de reais só pra ser concluída, quando a energia que gerará poderia ser providenciada com metade desse dinheiro em eólicas ou hidrelétricas ambiental e socialmente viáveis. Com o que não restaria como herança às gerações futuras, sem necessidade e pagando por isso, 1000 toneladas de combustíveis altamente radioativos, a exigirem cuidado por 300 anos se forem reprocessados. Está bem que o governo postergou a ideia das quatro usinas nucleares que tinha proposto pra 2020. Mas há um lobby muito forte no seio do governo para que tais projetos voltem à agenda. Fato é que o governo central serve pra arbitrar os interesses expressos em sua base de apoio – econômica, política e sindical. Mas sempre tem um vencedor aqui e outro acolá nessa trajetória de implantação quase caótica de projetos energéticos, dentro da lógica do próprio capitalismo e suas condições inerentes.

Vejo, portanto, o que ocorre no governo do seguinte modo: disputa por espaço econômico e pela consolidação de interesses patrocinados por alguns grupos. Porque o interesse público e a ideia de uma sociedade mais justa, solidária e igualitária– o que exigiria investimentos planejados em educação e saúde públicas, em infraestrutura, reformas agrária e urbana, mobilidade, proteção ambiental, ciência, tecnologia – ficou completamente em segundo plano. O governo se tornou mero árbitro dos interesses aqui descritos pra tentar manter uma taxa de crescimento minimamente viável e evitar a crise social, em razão da escassa renda distribuída.

É fato que continuar crescendo a 2%, ou menos, por ano deixará todo esse projeto ameaçado, certamente. E o que vem depois ainda é uma grande incógnita, em face da debilidade, lamentável, das propostas genuinamente de esquerda. Acho que é necessário ressuscitar os princípios de esquerda – não necessariamente com um partido específico, mas com vários que tenham inserção nessa visão – para criar uma frente nacional, a exemplo do que foi visto na Bolívia, Equador, Venezuela. Um processo que teria suas nuances, mas que retomaria o debate político em novas bases, a fim de produzir outra proposta a confrontar os grupos reconhecidos hoje: o governo, como centro-direita, e a oposição, nitidamente neoliberais de direita também. Ambos muito parecidos em vários aspectos.

O que falta mesmo para o país é um maior debate e mobilização de esquerda, que está anestesiada. Uma fração significativa das forças sociais que potencialmente poderiam ser atores principais de tal mobilização – movimentos sociais, sindicais e trabalhistas – continua subordinada a um projeto de governo que, na verdade, nada mais foi que uma traição permanente e contínua aos interesses mais fundamentais desses mesmos grupos sociais.

Valéria Nader, economista e jornalista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.
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