2 de dez. de 2011

Lutas Operárias que Antecederam a Fundação do PCB.


Astrojildo Pereira

O Partido Comunista do Brasil nasceu das lutas operárias que agitaram o país durante os anos de 1917 a 1920, e se formou sob a influência decisiva da Revolução Socialista de Outubro. O que quer dizer que nasceu e se formou já na época das guerras imperialistas e das revoluções proletárias. Mas, para melhor se compreender o processo de sua gestação e do seu aparecimento na arena política brasileira, como partido independente da classe operária, torna-se necessário proceder a um retrospecto histórico do movimento operário brasileiro, pelo menos, a partir de 1906. Esta data é muito importante, porque assinala o início, entre nós, de uma organização operária de âmbito nacional, qual seria a Confederação Operária Brasileira, só organizada em 1908, mas cujas bases haviam sido lançadas pelo Congresso Operário reunido no Rio de Janeiro, naquele ano. Acresce, ainda, a circunstância, que é preciso igualmente levar em conta, de que o referido Congresso assinalou, do mesmo passo, o começo de todo um período de predomínio da influência anarco-sindicalista no movimento operário brasileiro.

Desde muito antes, desde os primeiros anos da República, tentativas se fizeram, tendo por fim a organização do nascente proletariado brasileiro em partido político do tipo social-democrático ou trabalhista, estruturado principalmente sobre a base de associações profissionais, de beneficiência ou de resistência, que já existiam ou começavam a existir. Neste sentido, um congresso foi convocado e se reuniu, em 1892, na capital do país; mas, dessa iniciativa restou, apenas, o noticiário nos jornais do tempo. Dez anos mais tarde, e, já com um caráter mais diferenciadamente político, reunia-se, em São Paulo, um congresso do Partido Socialista Brasileiro, o qual aprovou um longo programa socialista de tipo reformista; mas também essa iniciativa dentro em pouco se desfazia em nada.

Iniciativas semelhantes se repetiram de tempos em tempos, antes e depois de 1906, sobretudo no plano estadual e mesmo municipal, para efeitos quase que só eleitorais; tudo, porém, sem produzir qualquer resultado perdurável. E cabe observar, que mesmo no Congresso Operário de 1906 manifestou-se uma forte corrente favorável à formação de um partido político operário; mas, a corrente anarco-sindicalista predominou ali de maneira irredutível, com o seu visceral preconceito "anti-político". Nasceu, assim, em vez de um partido, a COB, central sindical inspirada nos moldes da CGT francesa.

Escaparia ao plano deste trabalho aprofundar o exame das causas de semelhante fato. Parece claro, porém, que ele se deve principalmente à própria estrutura econômica semi-feudal do país e, em conseqüência, à própria formação do proletariado nacional, aliás quase todo de imediata origem camponesa e artesanal, inclusive o que provinha de correntes imigratórias, influenciado pela ideologia pequeno-burguesa do anarquismo. A par disso, no entanto, havia uma certa tradição de luta operária (já não falando das lutas seculares dos escravos), que vinha desde os meados do século passado — por exemplo, a grande greve dos tipógrafos do Rio de Janeiro, em 1858. Creio que este último fator explica em grande parte até que ponto o espírito de revolta reinante nas massas de trabalhadores — e produzido, obviamente, pelas duras condições de trabalho a que eram sujeitos — viria a favorecer entre nós o surto do anarquismo, uma vez que o socialismo, confuso e vago socialismo, se apresentava aqui quase sempre sob as vestes do mais frouxo reformismo, que apenas de nome ouvira falar de Marx e do marxismo(1).

O que é fato é que o anarquismo, sobretudo em sua forma anarco-sindicalista, predominou no movimento operário brasileiro durante os anos que vão de 1906 a 1920. Isto não quer dizer que todo o movimento operário e sindical estivesse debaixo da influência absoluta do anarquismo. Havia muitas associações operárias de tipo reformista, beneficiente e mesmo da resistência, como se chamavam algumas delas, que nunca ou raramente aceitaram a orientação anarquista. Sendo que as de transportes urbanos, ferroviários, carregadores, portuários, etc., eram na sua maioria dominadas por velhos burocratas sindicais inteiramente a serviço dos patrões e dos governos — os ancestrais dos modernos pelegos.

O Congresso Operário de 1906 reuniu-se num período de animação do movimento operário. Nem fora esquecida ainda a grande greve dos cocheiros e carroceiros, em 1903, que tamanha atoarda suscitou na imprensa burguesa. Também em São Paulo, em 1905, se registrava uma greve de ferroviários da Companhia Paulista, que a polícia reprimiu com extrema brutalidade(2).

O Congresso, promovido pela Federação Operária Regional do Rio de Janeiro, reuniu-se precisamente em dias de abril, daquele ano, com a participação de delegados de numerosos sindicatos dos Estados, principalmente de São Paulo. Os delegados anarquistas, que, aliás, não constituíam maioria, mostravam-se mais combativos do que os não anarquistas e por isso mesmo dominaram o plenário, fazendo passar todas ou quase todas as suas teses e proposições. Mas a tarefa realmente importante, levada a efeito pelo Congresso de 1906, consistiu em ter lançado as bases da Confederação Operária Brasileira, organização sindical de âmbito nacional.

A COB organizou-se efetivamente em 1908, integrada por cerca de 50 associações sindicais do Rio, São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul, Pernambuco, etc. Estruturada à moda anarquista, isto é, na base pouco sólida de um federativismo extremamente frouxo, a COB concentrou a sua atividade quase que só em promover agitações populares de ordem geral. Neste sentido, e a seu crédito, merecem menção: o movimento anti-militarista de 1908, de que nos ocuparemos mais adiante, e as demonstrações de protesto contra o fuzilamento de Francisco Ferrer, na Espanha, em 1909, as quais culminaram, no Rio, com o desfile pelas ruas do centro da cidade, calculando-se que 5.000 pessoas participaram do mesmo.

Seguiu-se um período estacionário, que durou até fins de 1912, quando, por iniciativa da Federação Operária do Rio de Janeiro, constitui-se uma comissão reorganizadora da COB, com o encargo de convocar um novo congresso sindical nacional. Para veículo de propaganda e preparação do congresso, a comissão organizadora fez reaparecer, a 1.º de janeiro de 1913, o órgão da COB, "A Voz do Trabalhador", que se publicou desde então como quinzenário, atingindo a sua tiragem até 4.000 exemplares, cifra considerável para a época.

Por essa razão, vigorosas manifestações se realizaram nos principais centros operários do país contra o projeto de lei de expulsão de estrangeiros, a qual visava, particularmente, aos militantes operários de outras nacionalidades aqui radicados. As classes dominantes conservaram-se insensíveis ao clamor dos protestos operários e fizeram o projeto passar a toque de caixa no Parlamento. A lei de expulsão fora exigida ao governo federal pelos magnatas das Docas de Santos, em represália aos frequentes movimentos grevistas que se verificavam no grande porto de Santos. A fúria reacionária nem sequer respeitava certas aparências, e assim é que obteve do governo a expulsão de dezenas de trabalhadores estrangeiros, ainda quando o projeto se achava em discussão no Parlamento, lançando-se mão, para consumar a violência, do mais baixo e ignominioso recurso — decretando a sua expulsão, não como grevistas, nem como revolucionários, mas como ladrões e caftens.

Grande foi a indignação produzida nos meios operários por tão vergonhoso procedimento do governo. Por iniciativa da COB, levou-se a efeito um grande comício interestadual, convocado simultaneamente, para a mesma hora do mesmo dia (20 de maio de 1913), no Rio, em São Paulo, em Santos, em várias cidades de Minas e do Rio Grande do Sul. A COB, chegou mesmo a enviar delegados seus a Portugal, Espanha e Itália, principais fontes de emigração para o Brasil, para narrar de viva voz naqueles países, o que de verdadeiro se passava no Brasil, em matéria de respeito às liberdades democráticas, que a propaganda governamental brasileira apregoava na Europa, a fim de atrair braços para as fazendas de café, para os trabalhos de carga e descarga nos portos, para as fábricas de tecidos que começavam a desenvolver-se.

A carestia da vida, que então subia de maneira alarmante foi também motivo de larga agitação popular em diversas cidades brasileiras, realizando-se numerosos comícios, principalmente no Rio, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas, Alagoas, promovidos pela COB No Rio, cerca de 15 comícios de bairro foram efetuados, em preparação do comício central no largo de São Francisco, a 16 de março de 1913, do qual participou uma multidão superior a 10.000 pessoas, que depois desfilaram pelas ruas principais do centro.

Péssimas condições de trabalho, certos sinais de crise, a carestia crescente — eis aí os fatores que forçavam a classe operária a lutar em defesa dos seus interesses mais elementares. Sob a pressão de tais fatores e em correlação com eles, crescia a sua combatividade, de que foi exemplo típico a recente greve nas Docas de Santos (1912), durante a qual se registraram sérios choques entre a polícia e os grevistas.

Cabe observar, também de um modo mais geral, que já o movimento revolucionário popular mexicano de 1910-1912, o advento da república portuguesa de 1910 e bem assim a extraordinária revolução chinesa de 1912, repercutiam entre nós como um estímulo vivo ao espírito combativo do nosso povo, aliás, tantas vezes posto à prova no passado, e ainda num passado relativamente bem próximo, como foi o caso do movimento contra a vacina obrigatória em 1904 e o da revolta dos marinheiros da esquadra nacional em 1910.

Com relação propriamente à classe operária, convém lembrar, como contraprova, o que foi a reunião, em 1912, do "congresso operário" dos pelegos daquele tempo. Tratava-se, evidentemente, de pura manobra governamental tendo em mira amainar o ânimo combativo que se desenvolvia entre as massas. Era preciso acenar demagogicamente com as promessas de melhores dias, com uma série de leis trabalhistas, com o velho conto da casa operária, etc. O deputado Mario Hermes, oficial do exército, filho do presidente da República, juntamente com outro oficial, o tenente Serra Pulquerio, foram os instrumentos de que se serviu o governo Hermes para executar a sua política "operária". Os burocratas sindicais e os aventureiros, que sempre pululam nessas ocasiões, foram mobilizados e encarregados de montar o pomposo "congresso operário" o qual se reuniu nada menos que no Palácio Monroe, com todas as facilidades oficiais e oficiosas. Palhaçada ignóbil, a que a classe operária respondeu com indiferença, com desprezo — e que, ao cabo de algum tempo, dava em droga, como, aliás, era fácil de prever.

Mas, esse congresso de burocratas e aventureiros teve o mérito, se assim se pode dizer, de espicaçar a vanguarda operária organizada na COB, contribuindo em boa parte para que se tomasse a iniciativa de convocação de um legítimo congresso operário, que veio a reunir-se em setembro de 1913. Foi este de fato um congresso operário nacional, dele participando mais de 100 delegados a maioria dos quais vindos de muitos Estados, do Pará ao Rio Grande do Sul. Representou, sem dúvida alguma, um importante papel no conjunto do movimento operário brasileiro, sobretudo como fator de mútuo conhecimento, de congraçamento moral e de unidade nas lutas futuras. No entanto, do ponto de vista da orientação e dos métodos de organização, o Congresso de 1913 foi apenas uma confirmação e em certa medida um desdobramento do Congresso de 1906. Com a agravante — que hoje podemos perceber e caracterizar — de uma atitude em muitos casos ainda mais sectária e verbalista, como se pode verificar comparando as formulações adotadas nas teses de um e de outro.

* * *

A história do movimento operário brasileiro apresenta frequentes e significativos exemplos de luta contra as guerras e em defesa da causa da paz entre os povos. Não é difícil demonstrá-lo.

Já no Congresso de 1906, a moção adotada sobre a questão exprimia o sentimento dominante no seio da classe operária, ao considerar "que a guerra é um grande mal para os trabalhadores que lhe pagam todos os encargos com o seu dinheiro e o seu sangue" e a "incitar o proletariado à propaganda e ao protesto contra a guerra". É uma formulação vazada em termos gerais e sentimentais, mas nem por isso perde o seu valor com afirmação decidida contra os horrores da guerra.

Em 1908, jornais burgueses da Argentina e do Brasil, baseando-se em fúteis pretextos, lançaram-se numa campanha alarmista tendente a envenenar as relações diplomáticas entre os dois países — a serviço de escusos interesses, cuja origem se podia facilmente localizar: a diplomacia imperialista, empenhada em consolidar a sua dominação sobre a América Latina. O caso é que as ameaças de guerra pairavam no ar, e o governo brasileiro, alimentando a intriga e ao mesmo tempo aproveitando-se dela, fez passar no Parlamento uma lei estabelecendo o sorteio militar, coisa que as massas populares receberam com aversão. A COB, refletindo e interpretando essa aversão popular, promoveu uma campanha de agitação simultaneamente contra a guerra e contra a lei do sorteio. Criou-se uma Liga Anti-militarista, que editou um jornal de propaganda com o título Não Matarás! Publicaram-se manifestos e volantes, realizaram-se comícios na praça pública e conferências nas sedes sindicais, tanto no Rio quanto em cidades dos Estados. Em relatório sobre as atividades da COB nessa época, ficou registrada a seguinte informação:

"A 1 de dezembro desse mesmo ano (1908) realizava a Confederação uma estupenda manifestação de protesto, na qual tomaram parte cerca de 20 associações operárias do Rio e delegações de diversas sociedades de fora, formando um cortejo superior a 10.000 pessoas. E assim foi lançado pelo operariado brasileiro o primeiro grito de guerra contra a guerra."

O Congresso de 1913 aprovou a longa moção, em que se dizia o seguinte:
"...considerando que as guerras, com todos os seus horrores, são a seqüência lógica das ambições burguesas em detrimento exclusivo da classe trabalhadora, que é a única que vai derramar o seu sangue na defesa de sinistros interesses que não lhe pertencem," o Congresso "aconselha ao proletariado do Brasil para, em caso de guerra externa, declarar-se em greve geral revolucionária".

Linguagem tipicamente anarquista, mas, com tudo isso, exprimindo a seu modo o princípio de transformação da guerra externa imperialista em guerra interna revolucionária.

Durante todo o tempo da guerra imperialista de 1914-1918, mesmo depois que o Brasil se viu envolvido no conflito, em 1917, o proletariado brasileiro sustentou invariavelmente, pelos meios que lhe eram próprios e possíveis, a mesma posição de repúdio à guerra, de luta contra as suas conseqüências e pelo restabelecimento da paz. Os jornais operários que então se publicavam no Distrito Federal e nos Estados, refletiam nas suas colunas, pode-se dizer que unanimemente, esse estado de espírito de revolta contra a guerra e o capitalismo que a gerara.

Para exemplificar, citaremos desde logo as manifestações de rua levadas a efeito, no início da guerra, pelo proletariado de Santos. Mas foi a partir de 1915, ainda no primeiro trimestre, que a luta contra a guerra, pela paz, se ampliou e tomou o caráter de movimento nacional organizado.

A iniciativa deste movimento coube ao Centro de Estudos Sociais, que se achava estreitamente ligado à vida e à atividade dos sindicatos locais, funcionando na mesma sede da Federação Operária, localizada então na rua dos Andradas 87 (antigo largo do Capim). Aí se reuniram várias assembléias preparatórias e por fim, a 26 de março de 1915, uma grande assembléia de delegados de organizações sindicais e outras, bem como de representantes dos jornais operários e libertários que então se publicavam no Rio de Janeiro, deliberando-se criar uma Comissão Popular de Agitação contra a Guerra, composta pelos representantes das entidades presentes e de outras que lhe dessem posteriormente a sua adesão. Essa Comissão assumiu o comando do movimento, traçando para o Distrito Federal o plano de uma série de conferências, palestras, assembléias sindicais, comícios populares, etc., em preparação de um grande comício no dia 1.º de maio, que estava próximo, e que seria assim um 1.º de maio de luta pela paz. Deliberou-se igualmente publicar um manifesto sobre o problema da guerra e da paz, dirigido a todo o povo brasileiro. Em São Paulo, foi o movimento imediatamente secundado, constituindo-se uma Comissão Internacionalista contra a Guerra, à qual aderiram as seguintes organizações: Centro Socialista Internacional, Centro Libertário, Deutschen Graphischen Verbandes für Brazilien, Associação Universidade Popular de Cultura Racionalista, Allg Arbeiteryerein, Círculo de Estudos Sociais Francisco Ferrer, Grupo Anarquista "Os Sem Pátria", União dos canteiros, Federação Espanhola, os jornais Avanti!, La Propaganda Libertária, A Lanterna, Volksfreund. Preparando-se para as demonstrações de 1.º de Maio, a Comissão de São Paulo publicou um manifesto, datado de 8 de abril de 1915, o qual terminava com as seguintes palavras:

"Em 1.º de Maio, aproveitando a comemoração com que o proletariado afirma, em internacional manifestação, o seu direito à vida melhor, realizaremos nesta cidade, onde a guerra teve tão ruinosa repercussão no povo, lançando-o na miséria, a nossa primeira grande reunião pública pró-paz — Abaixo a guerra! Viva a Internacional dos Trabalhadores!"

No Rio, o comício de 1.° de Maio de 1915 foi, como se esperava, uma verdadeira demonstração de massa contra a guerra. Ao largo de São Francisco, onde se realizou, acorreram milhares e milhares de trabalhadores, de homens e mulheres, que ali proclamavam o seu horror à guerra e a sua disposição de luta pela causa da paz. Um dos oradores procedeu à leitura do manifesto Pela Paz!, no qual se fazia uma análise das causas e dos efeitos da guerra, e se expunham os fins da agitação em favor da paz que se iniciava no Brasil, a exemplo do que se estava fazendo na própria Europa em guerra e nas três Américas(3). Por fim, a massa aprovou por aclamação, com entusiasmo, a moção de encerramento do comício, em que se concluía, depois de uma série de outros considerandos:

"... considerando tudo isso, a grande massa popular reunida no largo de São Francisco de Paula, às 4 horas da tarde de hoje, em comício convocado pela Comissão Popular de Agitação contra a Guerra, representante de grande número de associações proletárias e libertárias desta cidade, resolve:

"l.º Deixar lavrado o seu solene e público protesto contra o crime premeditado e praticado pela burguesia européia;
"2.º Declarar a sua solidariedade ao proletariado de todo o mundo e ao movimento internacional contrário à guerra e favorável à paz que neste momento começa a agitar os povos dos países. neutrais; e
"3.º Concitar as classes trabalhadoras e todos os homens livres do Brasil a manifestar-se no mesmo sentido, por todos os meios possíveis, agitando, assim, a opinião pública nacional e criando um ambiente de profunda hostilidade e formal condenação à guerra e aos guerreiros, para que, obrigados por uma pressão popular universal, sejam os governos beligerantes levados a terminar, no mais breve espaço de tempo, a imensa, ruinosa e detestável matança que assola as terras da Europa."

Em seguida, a massa popular desfilou pelas ruas do Ouvidor, Uruguaiana, avenidas Rio Branco, Marechal Floriano, rua dos Andradas, até à sede da Federação Operária.

Nesse mesmo ano a COB tornou a si o encargo da preparação de um Congresso da Paz que se reuniu no Rio nos dias 14, 15 e 16 de outubro de 1915.(4)

Além de delegações do Distrito Federal, São Paulo, Pernambuco, Alagoas, Estado do Rio, Minas e Rio Grande do Sul, participaram do Congresso do Rio Janeiro, delegados da Argentina, de Portugal e da Espanha. No dia de sua inauguração, a COB lançou a público um manifesto em que concitava o "proletariado da Europa e da América a uma ação revolucionária que dê por terra com o atual estado de coisas, varrendo da face do mundo as quadrilhas de potentados e assassinos, que mantêm os povos na escravidão e no sofrimento."

Os debates e resoluções do Congresso, imbuídos da ideologia anarco-sindicalista, perderam-se, afinal de contas, em declarações verbais sem alcance prático. Visto com os nossos olhos de hoje, facilmente assinalamos as enormes debilidades de organização e orientação do Congresso da Paz de 1915; mas ao mesmo tempo, devemos reconhecer que ele marcou, com incontestável relevo, uma posição decidida de luta contra a guerra imperialista e em defesa da paz e da liberdade.

Falta-nos dados precisos sobre a atividade dos partidários da paz durante o ano de 1916 — a não ser os que nos oferecem por si mesmos os jornais operários, sendo certo que estes jornais, na sua quase totalidade, mantinham firme a bandeira da paz, por meio de artigos, comentários, notas, etc. Mas, os primeiros meses de 1917 assinalam, no Rio de Janeiro, o recrudescimento da campanha contra a guerra, e agora estreitamente ligada a uma enérgica agitação contra a carestia da vida. Durante os meses de março e abril desse ano, a Federação Operária local promoveu a realização de numerosos comícios pelos diversos bairros da cidade, e a 18 de abril, numa grande assembléia em sua sede foi aprovada uma mensagem, que se enviaria ao Presidente da República, na qual se protestava firmemente contra a eventualidade da entrada do Brasil na guerra e se sugeriam medidas tendentes a aliviar a crise econômica e financeira, cujos efeitos recaiam principalmente sobre as costas dos trabalhadores. A comemoração de 1.º de Maio de 1917 no Rio de Janeiro transcorreu igualmente sob o signo da luta contra a carestia, com impressionante desfile operário pelas ruas da capital.

E quando, finalmente, em outubro de 1917, o governo brasileiro, cedendo à pressão imperialista, entrou na guerra, a classe operária não se afastou uma polegada da posição de luta pela paz mantida sem desfalecimento desde o início das hostilidades entre os dois grupos imperialistas. Um periódico progressista que então se publicava na capital do país(5), e que mantinha ligações de simpatia no movimento operário, publicou o seu editorial com um título que equivalia a uma reafirmação inequívoca dos sentimentos não só da classe operária mas também de todo o povo brasileiro — "O Brasil não quer a guerra."

Em suma, podemos afirmar que os melhores elementos do proletariado, os mais capazes e combativos, mantendo-se fiéis ao internacionalismo proletário e condenando tenazmente a guerra imperialista, conseguiram realizar, durante a primeira guerra mundial e sem embargo das debilidades e deformações da ideologia anarco-sindicalista, uma tarefa meritória de mobilização das massas populares no sentido da luta em defesa da paz. Essa tarefa, levada por diante nas condições tão difíceis de nosso país, contribuiu sem dúvida a um proveitoso esforço de compreensão dos objetivos da Revolução de Outubro, que o proletariado brasileiro recebeu e saudou, com entusiasmo, desde o primeiro momento, como o próprio início da grande e sonhada revolução social internacional.

As notícias relativas à insurreição e à conquista do poder pela classe operária russa, guiada pelo Partido bolchevique, eram acompanhadas com imenso e apaixonado interesse pelos trabalhadores do Brasil. A imprensa burguesa apresentava tais notícias caluniosamente, deformando os fatos, torcendo o sentido dos acontecimentos revolucionários que se desenrolavam na Rússia; mas, o leitor operário, levado por seu instinto de classe, sabia descobrir o que havia de verdadeiro no cipoal confuso do noticiário transmitido pelas agências imperialistas. Por outro lado, os pequenos e pobres jornais operários, que se publicavam nas principais cidades brasileiras, rebatiam as mentiras, calúnias e deformações veiculadas pela imprensa burguesa, procurando, com os escassos elementos de que dispunham, mostrar a significação e a natureza dos fatos que se sucediam no antigo império dos tzares. Deve-se recordar, neste sentido, um folheto saído a lume, no Rio, em janeiro de 1918, sob o título A Revolução Russa e a Imprensa, no qual precisamente se defendia a Revolução de Outubro contra as calúnias mais grosseiras divulgadas pelos jornais, da reação burguesa. Boletins e volantes foram igualmente publicados com o mesmo propósito.

Ê certo que em muitas dessas publicações havia a suposição de que se tratava de uma revolução de tipo libertário, abrindo caminho ao anarquismo; mas, isso resultava simplesmente da completa ignorância, reinante em nosso meio, acerca do Partido de Lênin e Stálin e da posição realmente e consequentemente revolucionária que o mesmo sustentara, durante anos, nos quadros da II Internacional. O que se sabia desta última era que se tornara um reduto do mais podre oportunismo reformista, como a guerra aliás viera confirmar de maneira definitiva. E o que se sabia e se compreendia da Revolução Russa era que se tratava efetivamente de uma "revolução proletária". Postas as coisas nestes termos, tudo o mais vinha a ser secundário — e foi justamente essa consideração que serviu para esclarecer os melhores elementos do anarco-sindicalismo brasileiro e levá-los ao rompimento comos dogmas e preconceitos do anarquismo e à plena aceitação de princípio da ditadura do proletariado e das 21 condições de adesão estabelecidas pela III Internacional.

Mas, a par de suposições e conceitos errôneos, que transitavam através de comentários próprios, os periódicos anarco-sindicalistas favoráveis à revolução bolchevique — e todos o foram até pelo menos 1920 – publicavam em suas colunas artigos e documentos autênticos sobre a revolução, colhidos na imprensa operária da Europa e da América. Por exemplo, o semanário Spartacus, do Rio, estampou em seu 1.º número, publicado em agosto de 1919, a "Carta aos trabalhadores americanos” de Lênin, e algumas semanas mais tarde, o fundamental trabalho, também de Lênin, “A Democracia burguesa e a Democracia proletária", adotado, sob a forma de teses, pelo Congresso de fundação da Internacional Comunista, em março de 1919. A Hora Social, órgão da Federação das Classes Trabalhdoras de Pernambuco, publicou em novembro de 1919 o texto da primeira Constituição Soviética. O semanário em língua italiana Alba Rossa, de São Paulo, reproduziu em sua edição de 1.° de março de 1919, um artigo de Lênin sobre a paz de Brest-Listtowski, e um apelo de Máximo Gorki aos trabalhadores de todos os países. Vanguarda, diário do povo trabalhador, também de São Paulo, publicou em 11 de março de 1921 o discurso que Clara Zetkin havia pronunciado no Congresso de onde saiu o Partido Comunista Francês, em dezembro de 1920, e mais de um artigo de Losovski em números subsequentes. Estes exemplos podiam ser multiplicados com citações de todos os jornais operários da época.

Alguns intelectuais progressistas, com mais ou menos compreensão do fenômeno revolucionário, manifestavam também as suas simpatias pela Revolução Socialista de Outubro — e à frente deles, com mais decisão, colocou-se Lima Barreto, que publicou em 1919 um artigo sob o título "Manifesto Marximalista" (mais tarde recolhido no seu livro Bagatelas), o qual, como se pode imaginar, produziu enorme sensação.

Porém, nos sindicatos operários e nos movimentos de massa é que as manifestações de solidariedade do proletariado brasileiro à jovem República Operária e Camponesa atingiram mais extensão e vigor. As assembléias sindicais eram sempre numerosas e movimentadas e todas as vezes que se mencionavam nelas os exemplos de luta revolucionária dos trabalhadores russos, a massa presente demonstrava com unânime entusiasmo os seus sentimentos de fraternidade, admiração e apoio. Os sindicatos promoviam conferências, palestras e debates sobre assuntos relacionados com a Revolução Russa. Quando da intervenção de tropas imperialistas anglo-franco-japonesas, que sustentavam os generais contra-revolucionários Denikin, Yudenitch, Wrangel, Koltchak e outros, moções de protesto recebiam aprovação igualmente unânime das Assembléias e comícios onde eram apresentadas. Citemos alguns fatos.

No 1.º de maio de 1918, no Rio, foi aprovada a moção em que se declarava que o proletariado carioca resolvia por aclamação" manifestar a sua profunda simpatia pelo povo russo, neste momento em luta aberta e heróica contra o capitalismo." 

No 1.º de Maio de 1919 — grande demonstração de massas — entre outras moções foi aprovada a seguinte: 

"O proletariado do Rio de Janeiro, reunido em massa na praça pública e solidário com as grandes demonstrações dos trabalhadores neste 1.º de Maio, envia uma saudação especial aos proletariados russo, húngaro e germânico, e protesta solenemente contra qualquer intervenção militar burguesa tendo por fim atacar a obra revolucionária tão auspiciosamente encetada na Rússia." 

O Congresso Sindical de 1920 aprovou também uma saudação especial ao proletariado russo,

"que tão alto tem erguido o facho da revolta triunfante, abrindo o caminho do bem estar e da liberdade aos trabalhadores mundiais".

Noutra moção se dizia que o Congresso

"resolve declarar sua simpatia em face da III Internacional de Moscou, cujos princípios correspondem verdadeiramente às aspirações de liberdade e igualdade dos trabalhadores de todo o mundo."

Lembremos ainda que, em 1919, a União dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro proclamou uma greve geral na corporação contra a intervenção imperialista e de solidariedade à República Operária e Camponesa.

Todo aquele período de 1917-1920 caracterizou-se por uma onda irresistível de greves de massa, que em muitos lugares assumiram proporções grandiosas. Já antes mesmo, em julho de 1917, tinha havido a greve geral em São Paulo, paralisando completamente, durante alguns dias, a vida da cidade. Em 1918, 1919, 1920, no Rio, de novo em São Paulo, em Santos, em Porto Alegre, na Bahia, em Pernambuco, em Juiz de Fora, em Petrópolis, em Niterói e outras muitas cidades de norte a sul do país, as greves operárias se alastravam com ímpeto avassalador. Eram movimentos por aumento de salários e melhoria das condições de trabalho, mas uma coisa se mostrava evidente — a influência da Revolução de Outubro como estímulo à combatividade da classe operária.

Entre as mais sérias lutas sustentadas então pelos trabalhadores do Distrito Federal e cidades vizinhas do E. Rio, houve algumas que devemos destacar, pela significação de que se revestiram. Em primeiro lugar, cronologicamente, a greve do pessoal da Cantareira, no Rio e Niterói. Foi um movimento importante, desencadeado contra poderosa empresa imperialista, a cujo serviço se colocaram imediatamente as forças policiais, provocando graves conflitos. Num desses conflitos intervieram soldados e inferiores do exército aquartelados na capital fluminense, tomando o partido dos grevistas, e dois deles tombaram heroicamente, de armas na mão, ao lado dos operários. Isto se passou em agosto-setembro de 1918. Dois meses e pouco depois deflagrava o movimento de 18 de novembro, em que se envolveram vários sindicatos operários, à frente dos quais o dos operários em fábricas de tecidos, abrangendo igualmente fábricas de localidades vizinhas situadas no Estado do Rio. Em muitas dessas fábricas se travaram violentos conflitos provocados pela polícia, com mortes de lado a lado. Duras lutas de rua assinalaram também o início do movimento, na tarde daquele dia. O movimento malogrou-se devido a desastrosas falhas de organização, mas serviu para pôr à prova o agudo espírito de combatividade revolucionária de que os trabalhadores se achavam possuídos. Isto evidenciou-se ainda com o desfecho do processo criminal movido pela polícia contra os cabeças do movimento: sob a pressão da massa operária, que manifestava abertamente a sua solidariedade aos companheiros incriminados, foram estes absolvidos, depois de cerca de seis meses de prisão, e a tempo de participarem das grandes demonstrações do 1.° de Maio de 1919.
Ainda em 1919 voltaram os tecelões à carga numa nova greve de grandes proporções. A greve da Leopoldina, em 1920, abrangendo o Distrito Federal, os Estados do Rio e de Minas, marcou época nos anais dos movimentos grevistas do proletariado brasileiro, por sua tenacidade e pela onda de solidariedade que levantou em toda a massa trabalhadora a favor dos grevistas. A greve dos Marítimos, já no fim de 1920, quando o surto grevista entrava em descenso, fracassou lamentavelmente, mas apesar de tudo constituiu indiscutível demonstração de combatividade por parte da massa dos trabalhadores marítimos.

Especial registro merece, nesse período, a maneira pela qual os operários da construção civil conquistaram a jornada de 8 horas. Deu-se o caso que o sindicato da construção civil resolveu, depois de numerosas e sucessivas assembléias, "decretar" por conta própria o dia de 8 horas de trabalho em todas as obras de construção civil em andamento no Rio de Janeiro, o que realmente se efetivou, a partir de 2 de maio de 1919. Está claro que semelhante "método" de luta só produziu os resultados em mira porque se tratava de um sindicato poderoso e de um momento de impetuoso impulso de todo o movimento operário.

Não há dúvida que outras muitas das reivindicações pelas quais lutavam as massas trabalhadoras, nessa época, foram alcançadas, total ou parcialmente. Mas é um fato que a natureza e o volume das vitorias alcançadas não estavam em proporção com o vulto e a extensão do movimento geral. Mais ainda — as reivindicações formuladas, por aumento de salários, por melhores condições de trabalho, etc., constituíam como que um fim em si mesmo, e não um ponto de partida para reivindicações crescentes de nível superior. E que na realidade se tratava de lutas mais ou menos espontâneas, isoladas umas das outras, sucedendo-se por força de um estado de espírito extremamente combativo que se generalizava entre as massas. Admiráveis exemplos de firmeza, de bravura, de abnegação se verificavam um pouco por toda a parte, durante as greves e demonstrações de massa que se multiplicavam de maneira contagiosa, naqueles anos. Faltava porém um centro coordenador, um comando geral à altura das circunstâncias, em suma — uma direção política, que só um partido independente da classe poderia imprimir a todo o movimento. Em tais condições, era inevitável que, ao cabo de algum tempo, quebrado o ímpeto combativo das massas, pudesse a reação patronal e governamental retomar a iniciativa e desencadear uma onda de terror visando à liquidação do movimento revolucionário. As grandes greves e agitações de massa do período 1917-1920 puseram a nu a incapacidade teórica, política e orgânica do anarquismo para resolver os problemas de direção de um movimento revolucionário de envergadura histórica, quando a situação objetiva do pais (em conexão com a situação mundial criada pela guerra imperialista de 1914-1918 e pela vitória da revolução operária e camponesa na Rússia, abrira perspectivas favoráveisà derrubada do poder feudal-burguês dominante. A constatação deste fato, resultante de um processo espontâneo e a bem dizer instintivo de autocrítica, que se acentuou principalmente durante a segunda metade de 1921, sob a forma de acaloradas discussões nos sindicatos operários, é que levou diretamente à organização dos primeiros grupos comunistas, que se constituíram como passo inicial para a fundação do Partido Comunista.

A bancarrota do anarquismo fora total e com ela ficou encerrado umlargo período da história do movimento operário brasileiro. O conseqüente surgimento do Partido Comunista, ao mesmo tempo que assinalava o início de um novo período, era também a revelação de que as lutas precedentes haviam produzido um rápido amadurecimento político da classe operária brasileira, que assim mostrava compreender qual o papel histórico que lhe caberia à frente da revolução social e nacional em marcha.

Eis porque dizemos que a existência do Partido Comunista do Brasil corresponde a uma necessidade histórica que os fatos do passado demonstraram e são confirmados pelos fatos do presente. O Partido Comunista do Brasil nasceu e cresceu, vive e viverá porque precisamente lhe cabe a missão, como vanguarda consciente da classe operária, de organizar e dirigir as lutas de todo o povo brasileiro contra a exploração econômica e a opressão política, pelo progresso do país e sua libertação do jogo imperialista, pelo socialismo.


Notas:

(1) Basta considerar que o Manifesto Comunista só apareceu no Brasil, sob a forma de livro, editado pelo PCB em 1923. (retornar ao texto)
(2) São muito deficientes os dados e os materiais relativos às lutas operárias nos Estados. Pedimos aos camaradas que possuam, informações seguras sobre o assunto para que as comuniquem à redação desta revista. (retornar ao texto)
(3) Firmavam o referido manifesto as seguintes entidades: Confederação Operária Brasileira, Federação Operária do Rio de Janeiro, Sindicato Operário de Ofícios Vários, Sindicato dos Operários das Pedreiras, Sindicato dos Panificadores, Sindicato dos Sapateiros, Centro dos Operários Marmoristas, Liga Federal dos Empregados em Padarias, Liga Internacional dos Pintores, União dos Alfaiates, Sociedade União dos Estivadores, Centro Cosmopolita, Liga Anticlerical, Sindicato dos Estucadores, Centro de Estudos Sociais e os periódicos Na Barricada, A Tida, A Voz do Padeiro, O Clarim. (retornar ao texto)
(4) Para mais pormenores sobre este Congresso, veja-se a reportagem publicada na Voz Operária, n.° de 4 de Novembro de 1950. (retornar ao texto)
(5) O Debate. Devemos citar também a Semana Social, Jornal operário de Maceió que tomou posição decidida contra a guerra e por isso mesmo foi fechado pela policia. (retornar ao texto)

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«Só a classe operária é consequentemente revolucionária e inimiga incondicional do imperialismo. Só entre a classe operária e o imperialismo são impossíveis quaisquer compromissos. Todas as outras classes e camadas da população do país não são incondicionalmente hostis ao imperialismo».
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Primeira Edição: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 39 - Mar-Abr de 1952.
Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 39 - Mar-Abr de 1952.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.


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1 de dez. de 2011

Um homem que cresce, cresce e cresce. E mesmo depois de morto não para de crescer










Em 1933, no pequeno município de Alta Garcia, província de Córdoba na Argentina, Carlos “Calica” Ferrer Zorrilla de quatro anos foi apresentado por seus pais a um amigo de cinco que marcaria para sempre a sua vida, e mais tarde a história de toda humanidade: Ernesto Guevara de La Serna, ou apenas Ernestito como era chamado. Como dizia um amigo em comum, Guevara e Calica foram reunidos pelo bacilo de Koch, que provoca asma. No ano de 1932, a família Guevara mudou- se para a região serrana em busca de alívio para o problema respiratório do pequeno Ernesto.

Em seu livro “De Ernesto a Che” – A segunda e última viagem de Guevara pela América Latina, Calica conta que não se lembra quando conheceu o amigo. “Com certeza deve ter sido em um dos típicos aniversários infantis a que nossas mães nos devem ter arrastado, depois de lavados, engomados e emperiquitados como era costume naquele tempo. Com certeza, devem ter dito a Guevara: ‘Venha, você vai conhecer o filho do doutor Ferrer, o médico que o atendeu; quem sabe se tornam amigos’”.


Na conservadora e provinciana cidade de Alta Garcia, além da asma, os Guevara e os Ferrer tornaram-se próximos por compartilharem visões progressistas sobre diferentes assuntos e simpatizar ideologicamente com o socialismo clássico. Um exemplo das posições que compartilhavam, estava relacionada à situação da Espanha na década de 1930. Ambas as famílias declaravam apoio incondicional à nova República que havia se instalado no país, que logo se explodiria em uma guerra civil e por, consequência, na ditadura fascista de Francisco Franco.
Assim, brincando e brigando como qualquer par de amigos, cresceram juntos. E em 7 de julho 1953, os amigos partiram em uma viagem pela América Latina (descrita no livro de Calica).

A viagem, a segunda pelo continente de Ernesto, acabaria transformando o amigo de Calica no Comandante Che Guevara. “Mas quando viajamos, Ernesto não sabe que vai chegar a ser Che, isso é uma coisa que é preciso ter cuidado para não super dimensioná-lo. Para não tirá-lo da realidade. Che é um homem de carne e osso. E quando era criança, adolescente e jovem fez as travessuras que faz qualquer ser humano”.

O escritor acompanhou de perto as transformações do amigo. “Pude conhecê- lo intimamente. Haver estado viajando com ele por muitas horas, ombro a ombro, e comentar e conversar. Acompanhar e entender. O importante é que Che, por ser muito inteligente, foi captando o que ia acontecendo e foi armando um plano em sua mente. Ele percebeu que pelo caminho convencional não conseguiria nada e que era o momento das armas. A América Latina, quando nós estávamos viajando, era um lugar de ditadores: Somoza, Papa Doc, Trujillo, Batista... Era gente que os norte-americanos manipulavam fácil, e assim quando manipulavam um homem, comandavam um país. Ernesto foi desenvolvendo até conhecer Fidel. E depois de Fidel, sim, Ernesto se torna Che”.

Na formação de Che, Calica destaca uma pessoa importante. “Eu digo que a sua melhor preparação política é a partir do momento em que ele conhece a sua primeira mulher, Hilda Gadea. Uma mulher que era intelectualmente muito preparada, que realmente o colocou no marxismo. A partir daí, Ernesto passa a perceber qual pode ser a forma de encarar as coisas para começar o que tinha de ser feito imediatamente: reunir doze tipos para fazer uma revolução”.

Ecos

Quarenta e quatro anos depois de sua morte, ainda parece impossível dimensionar o personagem histórico Ernesto “Che” Guevara. Calica cita um outro amigo pessoal de Guevara, o ex-ministro cubano Orlando Borrego, para ajudar a sintetizar a falta de proporção. “A biografia de Che ainda não está escrita. Todas as boas verdades vão se somando pra que ela seja escrita. É Fantástico imaginar que a vida de um homem de 39 anos, depois de tantas coisas escritas, ainda não se pode condensar o que foi”.

Na visão do amigo, quando triunfa a revolução, Che se consolida como a figura forte, jovem e revolucionária. “É importante destacar a idade que tinha. Aos 32 anos era o primeiro comandante. Depois foi Ministro. Instituiu fábricas, colégios, foi educador. Foi embaixador itinerante da revolução”.

Uma outra definição lembrada por Calica é a do comandante cubano. “Em poucas palavras, Fidel Castro definiu Che como um personagem que soube despertar uma chama de insurgência e de justiça dos latino-americanos e que depois se recorre a outras lugares”.

Carne, osso e mito

Calica carrega consigo as duas visões de Che, uma de seu amigo e a outra do mito. “É uma questão de evolução de um amigo que cresce, que cresce, que cresce. E que mesmo depois de morto se engrandece ainda mais. Por um lado, me sinto feliz que assim seja. Dei-me conta que seu exemplo e sua morte tiveram um destino útil para humanidade.”
Para Calica, mesmo os seus opositores, em sua maioria e de alguma forma, respeitam o revolucionário. “Das pessoas, digamos mais indiferentes, em geral pelo menos reconhecem em Che um homem muito valente, que deu sua vida por um ideal. Já os que fazem uma crítica implacável como a que sai da cabeça de Mário Vargas Llosa, que por exemplo vai ao jornal mais conservador da Argentina, La Nación, e publica disparates ridículos, creio que estes não tenham efeito. É tão contundente o peso de Che, que para seus detratores não há muitos argumentos”.

Reunião das famílias Ferrer e Guevara - Fotos: Reprodução
Além de escritor, Calica se dedica a estudar e divulgar a memória do herói da Revolução Cubana. Por alguns anos, durante as décadas de 1970,1980 e 1990, a imagem de Che esteve “apagada” em seu país de origem. Calica explica que anos de ditadura seguido de anos do governo Carlos Menem foram fundamentais para este quase lapso de memória “Primeiro uma ditadura. Depois o medo que ela deixou de a qualquer momento um milico se levantar e novamente assassinar mais 30 mil pessoas. Então as pessoas não falavam muito de Che. Por fim, é preciso entender que os 10 anos de [Carlos] Menem, se não foram tão trágicos, foram tão ruins quanto a ditadura. Vendeu-se e privatizou-se tudo. Não era um ambiente propício para pensar que Che poderia ter mais homenagens.” Apesar das ditaduras e dos governos liberais, Calica entende que na América Latina de hoje a luta do revolucionário continua tendo reflexos. “Por exemplo, quando falei com Che sobre ir à Bolívia disse: ‘Não! Bolívia, não’. Porque ali observei um indígena manso, castigado. E ele pensou o contrário. E a prova está que, pela primeira vez na história da Bolívia, à frente está um indígena de esquerda. Que pode não ser o ideal, mas que é parte de todo um processo que está ocorrendo na América. Incluindo Venezuela, Equador...”.

Das tantas produções, “Diários de Motocicleta” de Walter Salles e “Che” partes 1 e 2 de Steven Soderbergh são citados por Calica como bons filmes a respeito do amigo. No entanto, ele diz que não são poucas as vezes que escuta, lê e vê bobagens. “Tenho escutado cada mentira, que muitas vezes tenho que intervir.”
Com orgulho e saudade, Calica fala do amigo. Mas se perguntado sobre uma autobiografia sua ele responde “Veja bem, se você conhecesse um amigo de Karl Marx, iria querer saber sobre Marx. Não sobre o seu amigo”.


De Ernesto a Che - A segunda e última viagem de Guevara pela América Latina
Autor: Carlos "Calica" Ferrer
Editora: Planeta 
Páginas: 238

28 de nov. de 2011

A estrada pedregosa para Damasco - A pergunta de um trilhão de dólares

 Pepe Escobar, Asia Times Online

A pergunta de um trilhão de dólares no “Inverno Árabe” é quem piscará primeiro no roteiro do Ocidente para esgueirar-se até Teerã via Damasco.

Quando examina o tabuleiro regional e o conjunto formidável de forças que se alinham contra eles, o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei e a ditadura militar do mulariato em Teerã veem simultaneamente Washington, a superpotência; os estados-membros e bombardeadores malucos da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN; Israel; todas as monarquias absolutas sunitas árabes; e até a maioria sunita da Turquia secular.

Sistema S-300

E a República Islâmica só pode contar, a seu favor, com Moscou. Não é tão pouco quanto possa parecer.

A Síria é indiscutível aliada chave do Irã no mundo árabe – e Rússia, junto com China, são seus aliados geopolíticos chaves. A China, até agora, continua a repetir que solução para a Síria, seja qual for, terá de ser negociada.

A única base russa no Mediterrâneo está no porto sírio de Tartus. Não por acaso, a Rússia instalou seu sistema S-300 de defesa – dos melhores sistemas de mísseis terra-ar de todas as altitudes que há no mundo, comparável ao sistema Patriot dos EUA – em Tartus. E o sistema será atualizado, em breve, para o S-400, ainda mais sofisticado.

Do ponto de vista de Moscou – e também do ponto de vista de Teerã –, mudança de regime em Damasco é caso de não-não. Significaria expulsão de virtualmente todos os navios russos e iranianos, do Mediterrâneo.

Mas o Ocidente está-se movimentando pelas laterais. Diplomatas em Bruxelas confirmaram ao jornal Asia Times Online que os ex-"rebeldes" líbios – hoje empenhados em inventar algum governo com um mínimo de credibilidade – já deram sinal verde para que a OTAN construa uma vasta base militar na Cyrenaica.

A OTAN não tem poder de decisão nesses assuntos. Quem decide é o patrão – o Pentágono –, interessado em reforçar o Africom, em coordenação com a OTAN. Estima-se que nada menos que 20 mil pares de coturnos serão desembarcados em solo líbio – 12 mil dos quais, no mínimo, coturnos europeus. Serão responsáveis pela “segurança interna” da Líbia, mas lá ficarão também de prontidão, para futuras campanhas militares que visem – e que outros alvos haveria? – Síria e Irã.

Derrubar aqueles xiitas 

Dado que a mais recente “coalizão de vontades” – a qual, por falar nisso, é repetição do modelo líbio – está contra o regime de Bashar al-Assad na Síria, ela representa também um guerra de cristãos/sunitas contra xiitas, sejam da minoria alawita na Síria ou das maiorias xiitas no Irã, Iraque e Líbano.

Tudo isso é parte e item da “oportunidade estratégica” identificada pelo poderoso lobby israelense em Washington: se atacarmos o elo Damasco-Teerã, aplicaremos golpe mortal ao Hezbollah no Líbano. Isso, creem os ideólogos, pode agora ser vendido à opinião pública sob a máscara da ex-Primavera Árabe – agora já “Inverno Árabe”, depois da metamorfose, antes “Verão Árabe”, e já completamente contrarrevolução árabe.

Do ponto de vista de Teerã, o que está acontecendo na Síria é cobertura “humanitária” para uma complexa operação antixiita e anti-Irã.

O mapa do caminho já está claro. Um fraco, dividido, não representativo Conselho Nacional Sírio – ao estilo líbio – já está criado. E já há uma guerrilha (“insurgência”) sunita, pesadamente armada, operando dos dois lados da fronteira entre Líbano e Turquia. A sanções já pesam duramente sobre a classe média síria. Incansável campanha internacional de propaganda de demonização do regime de Assad também já está em campo. E abundam ações de guerra "psicológica", para estimular deserções do exército sírio (que não estão funcionando).

Relatório de pesquisador baseado no Qatar para o International Institute for Strategic Studies (IISS)[1] chega bem perto de admitir que o autodesignado “Exército Síria Livre” [em inglês Free Syria Army] nada é além de um bando de islamistas linha-dura, uns poucos desertores do exército genuíno e a maioria são ‘irmãos’ superrradicais da Fraternidade Muçulmana pagos e armados por EUA, Israel, monarquias do Golfo e Turquia. Nada há de “pró-democracia” nesse pessoal – como a imprensa-empresa ocidental e a mídia de propriedade dos sunitas não se cansam de repetir que haveria.

Quanto ao Conselho Nacional Sírio, sediado em Washington e Londres e salpicado como sempre de vários exilados sinistros, o seu programa de governo promete governar a Síria tão militarmente como sempre foi o governo sírio – variação da junta militar que governa o Egito – especialista em bombardear cidadãos que protestem. O que obriga a pensar que a única solução sensível é o povo sírio derrubar o estado policial do regime Assad, e pôr-se veementemente contra o sinistro Conselho Nacional Sírio.

O modelo de ditador dessa temporada

E há, como sempre, o ocidente desorientado e mal informado, que acredita que a Liga Árabe – agora nada além de fantoche da política exterior dos EUA – estaria alinhada a alguma das aspirações democráticas do povo sírio. O blogueiro As'ad Abu Khalil (“The Angry Arab News Service”) acerta quando diz que, depois da queda do presidente Hosni Mubarak no Egito, “a Liga Árabe é hoje uma extensão do Conselho de Cooperação do Golfo [CCG]”.

Esse CCG é, de fato, o Clube Contrarrevolucionário do Golfo. Seu esporte preferido é privilegiar ditadores “modelo” – a começar por eles mesmos, mas incluindo Ali Abdullah Saleh no Iêmen e os reizinhos da Jordânia e do Marrocos, que serão anexados ao CCG porque, por mais que adorassem estar no Golfo Persa, não estão (geograficamente falando). Por outro lado, o CCG odeia ditadores “errados” – como o já detonado Muammar Gaddafi e Assad, os quais, não por acaso, estão associados a repúblicas seculares.

A Casa de Saud, a Jordânia e o ascendente Qatar estão mais do que confortabilíssimos, fazendo o jogo de EUA e Israel. A Casa de Saud – cão alfa do CCG – invadiu o Bahrain com 1.500 soldados para esmagar protestos pró-democracia em tudo semelhantes aos do Egito e Síria. A Casa de Saud ajudou a dinastia sunita al-Khalifa, que reina no Bahrain, a disseminar a tortura contra os xiitas, que são 70% da população; os bahrainis confirmam que todos os torturados sempre eram forçados a confessar laços diretos com Teerã, “o mal”.

No Egito, a Casa de Saud apoiou Mubarak até depois de deposto. Hoje apoia – até agora com mais de US$4 bilhões de dólares – uma junta militar que, basicamente, quer manter o poder, sem qualquer tipo de fiscalização ou transparência, sob fachada “democrática”.

A Casa de Saud de modo algum poderia conviver com qualquer tipo de democracia egípcia bem sucedida. Quem acredite que a Casa de Saud algum dia defendeu ou defenderá direitos humanos e democracia no Oriente Médio deve autointernar-se no manicômio mais próximo.

A Liga Árabe – também uma extensão da Casa de Saud – deu carta branca à OTAN para bombardear estado-membro. Suspendeu a Síria dia 12 de novembro – o mesmo que fez com a Líbia, dia 22 de fevereiro –, porque, diferente do que aconteceu no caso da Líbia, as ordens que EUA e países europeus deram ao Conselho de Segurança da ONU foram devidamente vetadas por Rússia e China.
Bem-vindos a uma “nova” Liga Árabe na qual, se você não se ajoelha ante o altar do CCG, você é automaticamente condenado a “mudança de regime”.

Mas ajoelhar-se e cultuar o CCG não se compara a ajoelhar-se e cultuar o Pentágono e a OTAN. Jordânia e Marrocos são membros do Diálogo Mediterrâneo da OTAN; e o Qatar e os Emirados Árabes Unidos são membros da Iniciativa de Cooperação de Istambul da OTAN. Além disso, Jordânia e Emirados Árabes Unidos são as duas nações árabes que fornecem soldados para a OTAN no Afeganistão.

Ivo Daalder, embaixador do governo Obama à OTAN, já ordenou que a Líbia seja incluída no Diálogo Mediterrâneo, com Marrocos, Jordânia, Egito, Tunísia, Argélia, Mauritania e Israel. E, no início de novembro, deu ao Conselho do Atlântico a receita completa para atacar a Síria: uma “urgente necessidade” (por exemplo, criar a impressão de que Assad massacrará os civis de Homs); um “relatório regional” (que virá à velocidade da luz, do CCG/Liga Árabe); e um mandado da ONU (Rússia e China já disseram que não, não haverá mandado da ONU).

Eis, portanto, o que se pode esperar dessa “coalizão de vontades”: muita violência e ataques de agentes secretos atribuídos ao regime Assad; apoio imediato do CCG/Liga Árabe à democracia; e, provavelmente, ataque unilateral (porque, dessa vez, não haverá Conselho de Segurança da ONU que autorize a intervenção).

O sonho do Grande Oriente Médio

Não surpreende que mentes lúcidas em Damasco, perscrutando o futuro nas folhas de chá, tenham decidido agir. Damasco enviou mensageiros secretos para sondar o estado de ânimo de Washington. O preço de Damasco ser deixada em paz: cortar todos os laços com Teerã. O regime Assad ficou com o problema de descobrir o que lhe seria dado em troca.

Os alawitas, menos de 12% da população e toda a elite dirigente, não abandonarão o regime Assad. Cristãos e druzos só podem esperar o pior de uma nova ordem muito possivelmente dominada pela Fraternidade Muçulmana mais linha dura. Vale o mesmo para um vizinho crucialmente importante: o governo de Nuri al-Maliki em Bagdá.

A Rússia sabe que, se o modelo atualmente implantado na Líbia for reproduzido na Síria – e com o Líbano, hoje, já sob bloqueio de facto pela OTAN –, o Mediterrâneo será aquele sonho afinal concretizado, “um lago da OTAN”, que é o mesmo que dizer que o Mediterrâneo estará sob total controle dos EUA.

Moscou também sabe que, no Grande Oriente Médio concebido pelos EUA – da Mauritânia ao Cazaquistão – os únicos países que não estão ligados à OTAN por miríades de “parcerias” são, além da Síria: o Líbano, a Eritréia, o Sudão e o Irã.

Quanto ao Pentágono, o nome do jogo é “reposicionamento”. Porque, se você sai do Iraque, você tem de ir para outro ponto qualquer no “arco de instabilidade”, de preferência no Golfo. Já há 40 mil soldados dos EUA no Golfo, 23 mil dos quais no Kuwait. Um exército secreto "extra", para o Pentágono e a CIA, está sendo treinado pela ex-Blackwater, já “reposicionada” como Xe, nos Emirados Árabes Unidos. Está nascendo uma OTAN do Golfo. Talvez... OTANCCG, ou CCGOTAN?

Quando os neoconservadores dos EUA governavam o universo – há apenas poucos anos – o motto era “Homens de verdade vão para Teerã”. É hora de melhorar isso. A coisa hoje está mais para “homens de verdade vão para Teerã via Damasco, mas só se tiverem colhões para encarar Moscou”.

FONTE:Diário Liberdade


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26 de nov. de 2011

Com a marca da rebeldia-Há cem anos nasciam Marighella e Mário Lago, criativos e contestadores

HERBERT CARVALHO

Fotos: Reprodução



Duas guerras mundiais e três revoluções – a russa, a chinesa e a cubana – deixaram no século 20 as marcas de profundos e sangrentos confrontos entre países e classes sociais. Foi um tempo de partido e de homens partidos, como definiu Carlos Drummond de Andrade. Apesar disso – ou por isso mesmo – foi também um tempo em que era impossível ser revolucionário sem uma certa dose de romantismo, como afirmou o mais famoso deles, Vladimir Ilitch Ulianov, o Lênin. A revolução estava presente nas barricadas e nas diferentes formas de expressão artística. “Sou mais afiado que uma navalha, mais incômodo que um ouriço, mais estridente que uma bomba”, advertia o poeta russo Vladimir Maiakóvski. 

Nascidos há cem anos, dois brasileiros percorreram essas veredas da militância política e estética, consagrando suas vidas ao projeto de humanismo revolucionário, plasmado por Che Guevara na fórmula da ternura que tempera a dureza do combate. 

O baiano Carlos Marighella (1911-1969), assassinado pela ditadura militar em uma emboscada comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, passou na cadeia ou na clandestinidade a maior parte dos seus 57 anos. De 1932, quando ainda estudante de engenharia aderiu ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e sofreu sua primeira prisão, até tornar-se o guerrilheiro mais célebre e procurado do país durante os anos de chumbo, desfrutou de curto intervalo com plena liberdade, entre 1945 e 1947, antes de a Guerra Fria chegar ao Brasil e alijar os simpatizantes da então União Soviética do jogo político. Reconhecido pela coragem com que enfrentou os torturadores do Estado Novo, pela atuação destacada como deputado na Constituinte de 1946 e pela ousadia de lançar-se à frente de um punhado de jovens em luta desigual contra um adversário muito mais armado e assessorado pela CIA (a central de inteligência dos EUA), deixou também uma obra poética (reunida no livro Rondó da Liberdade, Editora Brasiliense, 1994) com versos “de ternura e ira, simples, claros, brasileiros”, de acordo com a avaliação de Jorge Amado. 

Já o carioca Mário Lago (1911-2002), advogado por formação e artista de múltiplos talentos – poeta, autor teatral, compositor de música popular brasileira, radialista e ator de cinema, teatro e televisão –, publicou na imprensa seu primeiro poema aos 15 anos e nunca mais saiu do gosto do público: da revista teatral Flores à Cunha, escrita por ele em 1933, até a derradeira aparição em O Clone, da Rede Globo, aos 90 anos, em 2001, foram mais de 30 filmes (como Terra em Transe, de Glauber Rocha), 53 telenovelas e minisséries e uma centena de canções, dentre as quais o samba Ai, que Saudade da Amélia e a marchinha de carnaval Aurora são sucessos cantados e gravados até hoje. Porém, mesmo a maioria de seus fãs ignora a trajetória do militante preso sete vezes entre 1932 e 1969, que mantinha sempre ao alcance uma maleta com escova de dentes e muda de roupa, como ele mesmo conta no livro Reminiscências do Sol Quadrado (Cosac & Naify, 2001). A seguir, Problemas Brasileiros resgata essas facetas menos conhecidas de duas figuras emblemáticas da política e da cultura brasileiras no século passado. 

Prova em verso

“Ei, Brasil – africano! Minha avó era nega hauçá, ela veio foi da África, num navio negreiro. Meu pai veio foi da Itália, operário imigrante. O Brasil é mestiço, mistura de índio, de negro, de branco.” Com esses versos do poema Canto para Atabaque, o primogênito de numerosa prole, fruto da união entre Augusto Marighella e Maria Rita – nascido na Baixa do Sapateiro, em Salvador (BA) –, revela as próprias origens e o DNA da rebeldia futura. Do lado paterno, olhos claros e a herança combativa dos anarquistas do norte da Itália, resumida numa questão: por que os pobres trabalham toda a vida e nunca têm nada? Na vertente materna, a tradição dos negros islamizados trazidos da Nigéria e do Sudão, protagonistas de revoltas de escravos como a dos malês. 

A vocação poética de Carlos Marighella se manifesta aos 18 anos, nos bancos escolares. Sorteado para responder ao ponto “Catóptrica, leis de reflexão e sua demonstração, espelhos, construções de imagens e equações catóptricas” da prova de física, realizada em 23 de agosto de 1929, começa assim: “Ginásio da Bahia aos 23/ De 29 deste oitavo mês./ Doutor, a sério falo, me permita/ Em versos rabiscar a prova escrita./ Espelho é a superfície que produz,/ Quando polida a reflexão da luz”. Ao final de 40 versos, a prova lhe rendeu nota dez, foi por ele utilizada como propaganda eleitoral na vitoriosa campanha de 1946 e ficou exposta até 1965, protegida por moldura envidraçada, no corredor do colégio, como exemplo para novas gerações de estudantes. 

Três anos depois, já integrante da juventude comunista do PCB, Marighella participava de uma manifestação estudantil quando foi espancado e preso pelas forças repressivas do interventor Juracy Magalhães. Do cárcere, irreverente e cáustico como outrora fora o conterrâneo Gregório de Matos (apelidado de Boca do Inferno), ele desafia o algoz com uma paródia de Vozes d’África, de Castro Alves, intitulada Vozes da Mocidade Acadêmica: “Juracy! Onde estás que não respondes?/ Em que escuso recanto tu te escondes,/ quando zombam de ti?/ Há duas noites te mandei meu brado,/ que embalde desde então corre alarmado.../ Onde estás, Juracy?” A essa quadra inicial seguem-se 17 outras no mesmo tom, até o golpe final: “Basta, senhor tenente! De teu bucho/ Jorre através das tripas um repuxo/ De Judas e sandeus!/ Há duas noites... eu soluço um grito.../ Escuta-o conclamando do infinito/ À morte os crimes teus!”

Amplamente divulgados, esses versos transformam-se no passaporte de ingresso de Marighella à política baiana e garantem ao autor o ódio não apenas ideológico e de classe, mas também pessoal de Juracy Magalhães. Ridicularizado como numa peleja entre repentistas nordestinos, o prócer da União Democrática Nacional (UDN) se vingará articulando, nos bastidores, a cassação do PCB e do mandato de seus parlamentares. 

Companheiro Pádua

Também influenciado pelo anarquismo italiano na pessoa de seu avô materno, Giuseppe Croccia, contraponto para o conservadorismo de seus pais, Mário Lago tem uma insólita e cruel introdução ao mundo da política: aos 12 anos assiste pela janela de sua casa, na Rua da Relação, no centro do Rio de Janeiro, ao espancamento do engenheiro Conrado Niemeyer, no prédio da Polícia Central, que ficava em frente. Estarrecido, viu em seguida estendido na calçada o corpo inerte daquele opositor do governo de Arthur Bernardes, que governou sob estado de sítio de 1922 a 1926. 

Ao mesmo tempo em que estudava piano com a professora Lucília, primeira mulher do compositor Heitor Villa-Lobos, por insistência do pai, maestro Antônio Lago do teatro de revista, o adolescente Mário já liderava uma greve estudantil no Colégio Pedro II contra a obrigação recém-instituída de levar canecas de casa. Nessa instituição modelar de ensino teve a influência de outro anarquista, o professor de português José Oiticica, que volta e meia ia preso, enquanto seus alunos vibravam com as peripécias da Coluna Prestes, expressão maior da rebeldia militar tenentista. 

Quando eclode a Revolução de 1930, o jovem que tenta ganhar a vida como repórter é designado para cobrir a libertação dos presos políticos. Ao ouvir o vibrante discurso do líder sindical comunista Roberto Morena, esquece a incumbência, perde o emprego, mas inicia-se na militância que o levará, seis décadas depois, em 1989, a fazer estes versos para a primeira campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva: “Por mais que matem os sonhos/ Os sonhos ninguém anula/ Eles caminham no vento/ Gritando o nome de Lula!” 

Ainda em 1930, Mário Lago entra para a Faculdade de Direito e, ao mesmo tempo, para a Juventude Comunista do PCB, onde, por questões de segurança, assume o codinome de “companheiro Pádua”. Em janeiro de 1932, ao participar na porta de uma fábrica de comício comemorativo da semana dos Três Ls (Lênin, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht) enfrenta sua primeira prisão, de dois dias, encerrada por este vaticínio certeiro do delegado: “Comunista é feito puta e bicheiro, a gente solta e eles voltam”. Mário volta no mesmo ano, preso durante uma pichação. De sua primeira cadeia guardaria na lembrança um gesto de solidariedade, que se repete em outras: “Estava apavorado, numa saleta do Hospital Central do Exército. De repente um sargento parou na porta, olhou para o pátio, examinando-o com cuidado, e disse em tom conspirativo: ‘Se você tem algum papel que comprometa, rasgue e jogue na latrina. Eu fico tomando conta’. Foi como se, num instante, aquela sala se enchesse de gente me batendo no ombro em gesto amigo. E o medo sumiu por encanto”.
 
“Sessões espíritas”

O embate direto entre comunismo e fascismo começa na Guerra Civil Espanhola, em 1936. No Brasil, no dia 1º de maio desse ano, Carlos Marighella é preso no Rio de Janeiro, quando tentava reorganizar a direção do PCB, golpeada pela repressão desencadeada após a derrota do levante militar de novembro de 1935. É barbaramente torturado, dias a fio, nas “sessões espíritas” ordenadas pelo chefe de polícia Filinto Müller, que na mesma época conduziram à loucura o alemão Arthur Ewert, integrante da Internacional Comunista enviado ao país com o nome de Harry Berger. Dessa experiência Marighella aprende uma lição: “Ensinaram-me que é melhor mil vezes morrer lutando com os policiais do que lhes permitir que supliciem o preso imobilizado”. 

Entre 1939 e 1945 permanece seis anos nos presídios de Fernando de Noronha (PE) e da Ilha Grande (RJ), onde compõe, entre outros, dois poemas em homenagem a Luís Carlos Prestes e um dedicado à União Soviética, intitulado Muralha, enaltecendo a resistência contra a invasão nazista. Os poemas políticos, porém, são minoria na obra de Marighella, que do ponto de vista formal varia do verso livre aos sonetos rimados e metrificados, esbanjando lirismo e sensualidade, como se depreende de alguns títulos: Balada do Amor, A Lenda da Flor, Seios, Ímã, A Pérola e O Perfume.
 
Na Constituinte de 1946, o jovem deputado de 35 anos não se bate apenas pelas bandeiras do PCB em defesa dos trabalhadores e da soberania nacional, mas também em prol do divórcio, da liberdade religiosa e do ensino laico, com posições avançadas e ainda atuais. Ao questionar em discurso o dogma do casamento indissolúvel, vinculando em perspectiva histórica a família à propriedade privada, afirma: “A Igreja Católica nega o divórcio precisamente porque sabe que o adultério é tão inevitável quanto a morte. Como única vingança ao seu alcance, as mulheres escravizadas pelo homem enfeitam as respeitáveis cabeças de seus maridos”. É também nessa época que se torna o responsável pela revista teórica Problemas, do PCB, e conhece a aeromoça Clara Charf, sua companheira até a morte. 

Contrariando a imagem sisuda de dirigentes como Prestes, diante do qual o militante comum se perfilava ao dirigir-lhe a palavra, Marighella ria, dançava e cantava músicas de Jackson do Pandeiro no cordão carnavalesco carioca do Bola Preta. Esse homem alegre, porém, um dia chorou, compulsivamente, na reunião clandestina de 1956 do Comitê Central do PCB, quando viu a imagem de Josef Stálin, endeusada pelos comunistas do mundo todo, ser desconstruída pelo relatório de Nikita Kruschev. Mas não abandonou o partido, como muitos fizeram naquele momento. Até a opção pela luta armada, em 1967, continuaria a ser a única sombra a Prestes nas votações internas do PCB. 

Grandes parcerias

Após três meses atuando como advogado, Mário Lago se rende às suas verdadeiras vocações, expressas no título da biografia que a historiadora Mônica Velloso lhe dedicou: Mário Lago: Boemia e Política (Editora FGV, 1997). Como boêmio, torna-se parceiro de Ataulfo Alves – com quem faz Atire a Primeira Pedra (além de Amélia) – e de Custódio Mesquita (coautor de Nada Além, canção imortalizada por Orlando Silva). Também divide com Noel Rosa o amor da bailarina Ceci (ver PB nº 400). 

Para a campanha eleitoral do PCB, em 1946, Mário Lago parodia suas próprias músicas. Fracasso fica assim: “Tô fraco de trabalhar e não ter tostão,/ Tô fraco de ouvir promessa e tapeação,/ Tô fraco, tô fraco, tô fraco... mas vai melhorar./ Basta pra isso acabar,/ o povo se organizar,/ votar na chapa popular”. E Amélia, que ele sempre garantiu não ser a exaltação da submissão feminina, mas da solidariedade da mulher em relação ao companheiro, ganha estes versos: “Nunca vi fazer tanta promessa,/ como em véspera de eleição./ Até a banha que é escassa anda à beça,/ em troca de votos pra reação./ Mas hoje o povo não é mais Amélia,/ que achava bonito não ter o que comer./ É inútil a banha dos oportunistas,/ o voto do povo é dos comunistas!” 

Em um comício no Largo da Carioca, em 1947, conhece Zeli Cordeiro, filha do dirigente comunista Henrique Cordeiro, esposa que lhe daria cinco filhos e sempre recebia a polícia com calma e ironia. Ia para a cozinha e voltava com uma bandeja: “Mário, meu bem, cafezinho pra você!”

Preso no ano seguinte, ao ser identificado, um carcereiro lhe pergunta: “O Mário Lago do samba?” Diante da resposta positiva, um castigo extra: ouvir mais de 40 sambas do tira metido a compositor, cada um pior que o outro. Durante o interrogatório, ao fazer um inventário de seus ganhos com direito autoral, é interrompido pelo irritado delegado: “Tudo isso fazendo samba?” “E com a consciência tranquila!” é a resposta que lhe custa um soco, na única vez em que apanhou na cadeia. 

Dois tempos

A partir dos anos 1950 os destinos dos dois militantes se aproximam e se cruzam diretamente. Radialista desde meados da década anterior, Mário Lago é indicado por Marighella, em 1957, para viajar à União Soviética, onde participa de programas na Rádio Moscou. 

Dois dias após o golpe militar de 1964, o então secretário-geral do Sindicato dos Radialistas e líder de três greves do setor tem a casa invadida por dez policiais armados de metralhadoras. Enquanto revistam gavetas, um deles sussurra ao ouvido de Mário: “Eu nem vou contar pra patroa que vim prender o senhor, senão vai ser briga pra muito tempo. Ela é fã de suas novelas, não perde uma”. 

Durante os quase dois meses que Mário Lago passa na Ilha das Flores e no presídio Fernandes Viana, na Rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro, Marighella é baleado, no dia 9 de maio, em um cinema no bairro da Tijuca. No relato desse episódio, publicado na forma de livro no ano seguinte, sob o título Por Que Resisti à Prisão, ele adverte sobre “o grau de violência a que se elevará o preço de nossa libertação”. Em dezembro de 1968, após a decretação do AI-5, Marighella conclama os revolucionários à luta armada de modo peculiar: “Quem Samba Fica, Quem Não Samba Vai Embora”, é o título do documento que divulga.

Enterrado no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, em 1969, na presença apenas dos coveiros e de 15 agentes da repressão, seu corpo é levado dez anos depois para Salvador, onde em túmulo projetado por Oscar Niemeyer está gravado: “Não tive tempo para ter medo”. 

Com Mário Lago, ao contrário, o tempo fez um acordo: “Nem ele me persegue, nem eu fujo dele”, dizia, ao completar 90 anos. O bastante para ver restaurada a democracia, ser anistiado e reintegrado à Rádio Nacional, onde encabeçara a lista dos demitidos por razões políticas em 1964. Não chegou a escrever a própria biografia, como pretendia, mas deixou, entre as histórias do período de trevas, mais duas. Preso após o AI-5, encontra na cadeia o líder anticomunista Carlos Lacerda, a quem pergunta se o coletivo da cela já estava organizado e ouve como resposta: “Você fica sendo o secretário. Já está tarimbado nisso!” Ao ser transferido, trava o seguinte diálogo com um sargento: “O senhor não muda, hein, seu Mário? Virou, mexeu, tá preso.” “Nem o senhor. Virou, mexeu, tá prendendo.”

O relato final é sobre a prisão de sua filha Graça, em 1969. Isolada numa cela da Marinha, ela escuta o refrão de uma canção de Chico Buarque: “Quem é você? Me responda que eu quero saber”. Ao ouvir pela segunda vez, compreende que companheiros de infortúnio tentam identificá-la. Quando, tomada pela emoção, ela começa a cantar os compassos iniciais de Ai, que Saudade da Amélia, espalha-se a informação: “É a filha do branco”. Que dali por diante não estaria mais sozinha.

FONTE: AQUI ("Revista Problemas Brasileiros", nº 407 (set/out/2011).)


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