21 de nov. de 2010

Ciclo de conferências Socialismo e Educação


Inscrições gratuitas,envie nome completo para:ccse2010@gmail.com

Dias 22 e 23 de novembro de 2010 – Faculdade de Educação – UFMG

22/11 segunda-feiraAuditório Neidson Rodrigues

8:30hs – Ato de abertura com execução de “A Internacional”
9:00hs – Lênin: a política como educação revolucionária
Prof. Dr. Antônio Carlos Mazzeo (Unesp-Marília), presidente do Instituto Caio Prado Jr.
Prof. Sérgio Miranda (ex-deputado federal)
Prof. Dr. Antônio Júlio de Menezes Neto (UFMG), coordenador da mesa
14:00hs – O marxismo na América Latina: Caio Prado Jr., Paulo Freire e José Carlos Mariátegui
Prof. Dr. Antônio Júlio de Menezes Neto (UFMG)
Prof. Dr. Pablo Luiz de Oliveira Lima (UFMG)
Mestrando Fernando Conde UFMG), coordenador da mesa
18:00hs – Atividade cultural: apresentação da peça “Estômago” pela Cia. Crônica de teatro
Lançamento da revista do Instituto Caio Prado Jr. Novos Temas Número 2

23/11 terça-feira – Auditório Neidson Rodrigues

08:30hs – Gramsci e a escola unitária; Althusser e os aparelhos ideológicos.
Profa. Dra. Rosemary Dore (UFMG)
Prof. Dr. Walter Evangelista (UFMG)
Doutoranda Adilene Gonçalves Quaresma (UFMG), coordenadora da mesa
14:00hs – Marx, trabalho, práxis e educação
Prof. Dr. Hormindo Pereira de Souza Júnior (UFMG)
Prof. Ms. Paulo Denisar Fraga (UNIFAL-MG – Universidade Federal de Alfenas)
Graduanda em Pedagogia Aryanne Martins Oliveira (UFMG), coordenadora da mesa
18:00hs – Coquetel de encerramento

Fonte: AQUI

Globalização entra em concordata e risco de falência é inevitável

Laerte Braga

E os riscos de barbárie e selvageria também. É clássica a história do cidadão que ameaçado por outro com uma faca vai recuando, recuando, até que num determinado momento encontra uma parede às suas costas.

Laerte Braga
Fica com duas alternativas. Ou aceita dar tudo o que tem, ou resiste, se aventura a levar a facada, mas tenta salvar-se e ao que tem.

Por trás da desvalorização do dólar existe mais que perversidade do governo de Obama e de todo o mundo financeiro norte-americano, na tentativa de exportar inflação, resgatar uma dívida impagável, salvar dedos e anéis.

Existe o inacreditável arsenal militar capaz de destruir o mundo cem vezes. E tanto quanto a cobiça das conquistas levaram impérios à ruína, acaba sendo a última alternativa desses grandes conglomerados – os EUA são um conglomerado de empresas – de múltiplos interesses, mas todos numa espécie de frente comum para manter intocados os tronos dos senhores do mundo.

Bancos, grandes empresas, em países como o Brasil o latifúndio (hoje parceiro desse processo de globalização – "globalitarização" segundo o brasileiro Milton Santos –, no chamado agronegócio) e exércitos fantásticos/fanáticos, recheados de mercenários, forças terceirizadas para distribuir "democracia" e "liberdade" para o mundo.

Quando um boçal como Silvéster Stallone fala em defender a "pátria" Samuel Johnson dá um sorriso no túmulo e percebe o quanto estava certo ao classificar esse tipo de patriota de canalha.

O modelo está em concordata há tempos, nasceu concordatário e caminha a passos largos para a falência.

O resto do mundo (Tancredo Neves, ex-presidente do Brasil, não gostava da expressão "resto". Dizia que resto é de comida) ou reage, está encostado numa parede, ou aceita resignado o poder de Washington que é bem menor que o de Wall Street.

A máquina de fazer dinheiro nos EUA não está em mãos do governo, mas de bancos que detêm o controle acionário do banco central desde o governo de Woodrow Wilson (1912/1921). Está despejando dólares oficiais/falsos.

A derrota de Obama nas chamadas eleições de meio de mandato (perdeu a maioria na Câmara dos Representantes) não foi só consequência da crise que abala o país, mas da absoluta incompetência do presidente democrata de dar alguma resposta a alguma coisa que não seja determinada por um conjunto de marqueteiros. Foi emparedado por republicanos.

Obama é show. Primeiro presidente supostamente negro dos EUA, produto de um pânico coletivo em seu país diante do desgoverno Bush não percebeu as centenas, ou milhares de bombas relógios deixadas pelo antecessor. Estão explodindo agora.

O risco que a crise tome dimensões de um tsunami nunca visto, capaz de levar de roldão economias "sólidas" como Alemanha, Japão, arrastar a Europa a um vendaval jamais visto, faz com que os malucos de Washington e do Pentágono comecem a pensar no que Stanley Kubrick chamou de "corrida às cavernas" no filme Doutor Fantástico.

As medidas drásticas anunciadas por Washington, mas ainda em estudos, contrariam interesses de políticos norte-americanos, de grandes empresas, das classes dominantes, já que implicam em aumento de impostos, cortes de verbas em setores privilegiados – mas também na assistência social, o que aumenta o desemprego, a pobreza – e para complicar, redução de 700 bilhões de dólares no orçamento militar. Aí mexe com a macacada, que me perdoem os macacos.

Como é que ficam os generais que adoram brincar de atacar países como o Iraque, o Afeganistão, demonizar o Irã e como vão sustentar a base terrorista chamada Israel, no Oriente Médio?

Não me recordo com precisão, mas acho que foi Neville Chamberlain, primeiro-ministro inglês (1937/1940) quem disse que "a guerra é um negócio sério demais para ficar nas mãos de generais".

É como economia, importante demais para ficar restrita a economistas. Boa parte está a soldo dos donos do mundo e outra boa parte pensa que ser humano é um número, que tudo pode ser resolvido com uma equação, duas ou três no máximo.

São poucos, em relação ao todo, como Celso Furtado.

A junção generais (alguns os chamados R/3, aqueles civis que diante do espelho ficam em posição de sentido e se imaginam cheios de medalhas, Ramsey, por exemplo, ex-secretário de Defesa de Bush), com economistas digamos da General Motors, mais Citibank, etc, resulta nesse estado falimentar do modelo e na ameaça de uma catástrofe econômica e militar, logo política (a essência de tudo), se levarmos em conta que o presidente da maior potência do mundo (potência militar) não percebeu ainda que os chineses inventaram a bússola.

Obama hoje é só um fantoche à procura de um milagre. É possível que não controle nem o salão oval da Casa Branca. Que dirá o botão que aperta a ordem para o ataque.

A decisão do governo chinês de rebaixar a classificação dos EUA para créditos é inédita e mostra a extensão da crise.

A atitude do governo brasileiro de começar a controlar capitais estrangeiros especulativos é outra jamais sonhada, pelo menos nesse modelo, onde a mídia privada brasileira (brasileira?) se regalava ao dizer que bilhões entraram na bolsa na segunda-feira e na terça, acrescida de outro tanto, saiam numa demonstração de pujança do nosso País.

A globalização na forma que se deu é quimera. Conversa fiada de vendedor da Torre Eiffel, com a diferença que se o comprador não comprar e pagar, as tropas de marines chegam.

Países europeus começam a dar sinais de esgotamento de suas economias na lógica perversa de um círculo que começa e termina em Washington/Wall Street e mesmo colônias norte-americanas na Europa (Grã Bretanha e Alemanha) já fazem estrugir gritos de intolerância diante da violência do colonizador.

No caso específico da América Latina significa que o governo de Dilma Rousseff vai de fato ter que matar um leão por dia e buscar alternativas ao modelo imposto desde a queda da União Soviética.





Acuado, sem vontade de abrir mão de seus privilégios, mas tentando o conto do paco (aquele que você troca um bilhete premiado por um suposto monte de dinheiro, mas na verdade por baixo é só jornal cortado), os Estados Unidos devem tentar reforçar suas políticas de agressão a países na Ásia, na África e particularmente na América Latina, ainda mais agora que o Brasil emerge como potência.

Deve ser por aí que a mídia colonizada começou semana passada uma campanha de críticas ao chanceler Celso Amorim, principal responsável pela dimensão de potência mundial que o Brasil ganhou nesses oito anos de Lula.

Essa mídia gosta, porque fala a linguagem de Washington, de chanceleres que ao chegar ao aeroporto de Nova York tirem os sapatos para a revista e caiam de quatro, enquanto andam descalços na indigência dos colonizados.

A globalização já começou em concordata e está em vias de falir. O problema é que a falência pode vir no troar dos canhões, se é que canhões ainda são usados em guerras dos dias de hoje.

O império norte-americano não é nada mais que uma grande Babel. Ou um tigre de papel como dizia Mao Tse Tung.

Foi o que ficou claro na reunião do G-20. Pior que essa história que aflige brasileiro sobre G-4 ou G-3 na Libertadores da América, ainda mais depois que Ricardo Teixeira (chefe da quadrilha CBF – Confederação Brasileira de Futebol) determinou que os juízes deem o título ao Corinthians.

Não houve propriamente fracasso na reunião do G-20. O que se decidiu foi não fechar o cemitério e deixar os coveiros de plantão, a qualquer momento chega o corpo putrefato do neoliberalismo.




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20 de nov. de 2010

África: A nova aventura do Imperialismo


“Quando no final de 2008 Mary Carlin Yates, vice-comandante da Africom para as questões civis-militares, esteve em Portugal para reuniões com responsáveis militares (?) e disse ser «muito importante que ouçamos e aprendamos com os nossos parceiros europeus, especialmente uma nação como Portugal com uma história naquele continente que penso terá muitas lições a ensinar-nos»”, não podiam ser mais clara: os americanos, com o total apoio do Governo português, vão arrastar o país para a nova aventura africana do imperialismo ianque, a qual já começou mas ninguém sabe como vai acabar; quantas vidas se vão perder, quantos cortes se tem que fazer no orçamento da saúde e da educação para pagar esta aventura?”

 


(…) Não esqueças, não tomes como uma fatalidade o que ainda não aconteceu, nem como impossível de concretizar aquilo que mais desejas.
Epicuro, Carta a Meneceu

Os Estados Unidos da América são os mais vorazes consumidores de petróleo do mundo, consumindo 21,7% de todo o petróleo extraído, muito embora só tenham 5% da população mundial, importando 57 % do que consomem, não parando de se retrair a produção1 própria.

«Mesmo aumentando a eficiência energética os Estados Unidos necessitam de mais fornecedores externos, prevendo-se que em 2020 a procura seja de 127 quadriliões de barris enquanto a produção interna atingirá só 86 quadriliões»1 diz o relatório apresentado por Dick Cheney ao presidente Bush, recomendando «a diversificação e aumento do fornecimento externo»2 alertando que «uma significativa interrupção do fornecimento externo lesará a nossa economia e a capacidade de promover os nossos objectivos económicos e políticos».

Por outras palavras, as grandes multinacionais do petróleo – aqui representadas por Dick Cheney – acham mais vantajoso a rapina do petróleo e a Casa Branca secunda essa prática. De facto, baseando-se no relatório, a administração Bush corta as verbas referentes ao aumento da produção nacional e de procura de soluções alternativas nacionais, querendo portanto dizer com isso que o fornecimento externo do petróleo continuaria, aumentaria e diversificar-se-ia.

Era este o objectivo das grandes multinacionais da indústria, e era esta a proposta do Council on Foreign Relations ao afirmar que «se deve encorajar o fornecimento de petróleo para além do Golfo Pérsico»3.

Outros dos aspectos ligados à procura de novas fontes do petróleo são de carácter técnico, melhor dizendo das reservas existentes particularmente na península arábica; os grandes campos de petróleo na Arábia Saudita estão em declínio como o de Ghawar que em lugar de extrair 22 milhões de barris por dia, como estava previsto, se ficará pelos 12,54, sendo este um sobejo motivo para se aumentar a procura noutros locais, sendo de todos o mais apetecível a África Ocidental.

De facto os países da África Ocidental fornecem actualmente 18% do petróleo que os EUA importam e este valor chegará aos 25% em 2015; esta região, que possui reservas de 40 biliões de barris, é de importância estratégica fundamental para os Estados Unidos e razão para que os seis países que fazem parte da ECOWAS5 fossem cortejados pela administração Bush que, subitamente, se enamorou do continente africano.

Há, portanto, razões para este súbito interesse.

Primeiro, porque as previsões das quantidades de petróleo existentes são as maiores que se conhecem até hoje, «esperando-se que a África Ocidental venha a ser o maior fornecedor do mercado americano»6; segundo, porque a concorrência é fraca, visto a China focalizar os seus interesses nos países da África Oriental; terceiro, porque a qualidade do crude é de «alta qualidade e baixo em enxofre, sendo ideal para ser refinado na costa Este»7 dos Estados Unidos; quarto, porque as perspectivas são colossais no que se refere à Nigéria, a Angola, ao Gabão e ao Congo-Brazzaville e os investimentos já realizados, no valor de 3,5 biliões de dólares, na construção de um oleoduto que liga o Chade aos Camarões na costa Ocidental de África, não são negligenciáveis.

Quinto e último: a docilidade dos governos em relação às multinacionais e ao imperialismo, e a corrupção fomentada pelas grandes companhias, tornam esta região do mundo o terreno ideal para a sua transformação num novo quintal americano.

Existem também razões de carácter geopolítico que estão na base desta mudança radical da política dos EUA em relação à África que passou de um laissez faire a um engajamento rápido e de grandes dimensões políticas, diplomáticas e militares e de interferência na vida de estados soberanos.

A crescente presença da China, do Brasil e da Índia em África – que não se pode comparar, nem na forma nem nos objectivos, com os objectivos do imperialismo americano – é razão acrescida para esta mudança de estratégia da política externa estadunidense em relação ao continente, quer o residente da Casa Branca seja republicano ou democrata.

Fala docemente mas tem à mão uma moca…

Este provérbio, de origem africana, sintetizava a política externa do presidente Theodore Roosevelt, que o usava frequentemente querendo dizer: ou os países obedecem ao dictat dos interesses americanos, ou falará a força, quer dizer, a agressão militar.

Mais de cem anos passados este continua a ser o cuore da política estrangeira dos Estados Unidos, como muito bem expressou recentemente o arqui-reacionário jornalista Thomas Friedman8 ao afirmar: «a mão oculta do mercado nunca funcionará sem o punho oculto».

Para defender os interesses das multinacionais do petróleo em África é mesmo necessário um punho, e um punho forte.

«Em 2008 a Chevron teve um lucro de 23 biliões de dólares sendo metade dele proveniente de África; a ExxonMobil teve 45,2 biliões de dólares tendo 43% dele a mesma proveniência, bem como um terço das importações da BP»9, para não citar outras. Com estes colossais lucros não é de admirar que os grandes monopólios estejam interessados em manter o status quo e para isso é necessário que alguém os defenda.

O punho de que o reaccionário Friedman fala tem um nome – Africom.

O governólio10 de George Bush, dando prossecução prática às recomendações do CSIC11 que dizia: «dados os crescentes interesses energéticos na região, recomenda-se que os Estados Unidos devem fazer da segurança e do governo no Golfo da Guiné uma absoluta prioridade da política externa dos Estados Unidos em relação à África, promulgando uma política robusta para a região», por outras palavras - militarizar as relações dos EUA com África. Assim, George, o incansável servidor dos interesses das multinacionais do petróleo, viaja para uma tournée africana em Fevereiro de 2008.

Palavras não foram ditas já George, o diligente, tinha criado uma estrutura de comando independente para a África – a Africom, o punho – deixando a continuação desta política ao carismático e cândido Obama que, sem pestanejar, levará à prática a agressão, desta vez à escala de um continente, confirmando que quanto mais as coisas mudam, mais ficam na mesma na política externa do imperialismo.

Os maus da fita e os outros

Já em 2005, como preparatório do que se seguiu, o Pentágono tinha lançado a Iniciativa Contra-terrorista Trans-sahariana (TSCTI) e, antes disso, quer os Estados Unidos quer a França, particularmente esta última, tinham uma presença militar em África.

Em abono da verdade, diga-se, os americanos não são os únicos maus da fita.
A França, como ex-potência colonial, continuou, até recentemente, a assumir-se como o braço armado do neocolonialismo. Na Costa do Marfim estão estacionados 3.000 soldados franceses e no vizinho Togo estão mais homens e equipamento aerotransportado.

A França, por limitações orçamentais, viu-se obrigada a começar a pôr um termo à aventura neocolonial, reduzindo o número de efectivos e encerrando bases entre 1997 e 2002. Sarkozy foi o coveiro - muito a contragosto, diga-se – da Françafrique, como era designada a política francesa para a África, pretendendo-se agora a europeização da intervenção militar, segundo o general Dominique Trinquand.

Esta pretendida europeização deixa-nos a nós, portugueses, apreensivos no mínimo, dado a subserviência faces aos interesses imperialistas manifestada inúmeras vezes pelos «nossos» governos.

De qualquer forma o pequeno complexado que mora no Eliseu não levará avante a ideia; o império manda e ele não terá outra saída senão baixar a crista.

De facto, antes de o imperialismo americano se lançar na militarização de África, os mandantes da política externa do Tio Sam já tinham avaliado as implicações/colisões possíveis da presença francesa em África, e foram claros: «enquanto os franceses reduzirem as suas forças em África os Estados Unidos aumentarão as suas…» e «… num sentido lato podemos dizer que uma força dos Estados Unidos em África será um sinal de que a exclusividade da influência militar francesa acabou, efectivamente»12 .

Sarkozi, compreendeu. Adeus, França imperial!

Preâmbulos de uma ocupação

Foram feitas várias tentativas no sentido de localizar em África o quartel-general do Africom, que se revelaram frustradas pela oposição de vários países face ao repúdio popular que tais bases poderiam suscitar, o que não coibiu as relações públicas da Africom de mentir ao afirmar que «vários países africanos já se oferecem para receber o quartel-general»13, lembrando ao mesmo tempo que «qualquer que seja a localização do futuro quartel-general será necessário ter bases no Golfo da Guiné…». Pudera! É lá que está a galinha dos ovos de ouro.

Esta ausência de um quartel-general não impede que militares americanos e mercenários por ele pagos lancem operações clandestinas a partir de bases de satélites estratégicos localizadas no Kénia e em Djibuti.

Entretanto, o orçamento da Africom passou de 60 milhões para 310 milhões, excluindo custos operacionais; foi nomeado, como comandante, um dos únicos cinco afro-americanos que chegaram à patente de general de quatro estrelas; lança-se manobras navais de grande envergadura no Golfo da Guiné; desenvolve-se intensas campanhas de persuasão, nomeadamente com fornecimento de equipamento militar, cursos e viagens de estudo, junto de altas patentes africanas designadas oficialmente como friendly african militaires14 de modo a conseguir que fechem os olhos para o que se vai seguir; no plano diplomático também é intenso o movimento, não só entre as capitais africanas mas também europeias, e Lisboa em particular.

Dinheiro não falta. Só neste ano vai gastar-se, num só programa de 431 actividades e envolvendo 40 países, 6,3 biliões de dólares.

O Pentágono designa o Africom como um comando de combate unificado, que combinará funções militares e civis, esta pela necessidade de promover a imagem de «bons rapazes» – goodfellas.

Toda a agressão imperialista sempre se apresentou, publicamente, da forma mais altruísta possível; em África ela é apresentada como uma acção humanitária para combater a doença e o analfabetismo, para a construção de habitações, atribuição de bolsas de estudo e por aí fora… só nobres objectivos.
O outro argumento é o do combate contra o terrorismo que tem as costas largas e serve mesmo para encobrir as acções terroristas do imperialismo estado-unidense.

Os verdadeiros objectivos desta nova agressão, que ainda vai nos seus primórdios – e que, por isso, é urgente denunciar e já – foram enunciadas nas linhas anteriores com clareza, espero eu.

A força ocupante e a NATO

A NATO há muito que deixou de ser uma organização «defensiva» do Atlântico Norte, assumindo-se como um bloco militarista global, e portanto também em África na qual, de resto, tem desenvolvido intensa actividade nomeadamente no Corno de África e, particularmente, no Sudão; se nesta parte de África os interesses não são exclusivos pode-se imaginar o que está planeado para a África Ocidental onde se encontra o petróleo vital para a América.

Nos vários países grandes produtores de petróleo nesta região a Nigéria e Angola são os de maior potencial; mas há também S. Tomé e Príncipe, cujo valor perspectivado das reservas de petróleo é mantido no segredo dos deuses, não obstante as maiores companhias americanas estarem a adjudicar blocos e a perfurar freneticamente, e a secretária de Estado, Hillary Clinton, ter visitado o arquipélago – percebendo-se assim que este pequeno país está na agenda de prioridades americanas – e «oferecido» a construção de um porto, o que o primeiro-ministro são-tomense agradeceu e disse, à comunicação social, ser um porto de grandes dimensões, logo rectificado pelos americanos no que diz respeito às dimensões… – era mais pequeno, disseram… Percebe-se.

Segundo um comandante americano na Europa, «este pequeno porto» como diz Hillary Clinton, será uma base militar e naval da dimensão da Diego Garcia no Oceano Indico.15

E nós, onde ficamos no retrato?

Em reuniões no Pentágono16 várias altas patentes americanas referiram-se à acção do Africom como sendo de vital importância para os Estados Unidos, o que já sabíamos, mas que só poderá ser realizada com êxito em colaboração com as ex-potências coloniais, o que não sabíamos mas suspeitávamos; mas disseram mais, referiram-se expressamente a Portugal e à Grã-Bretanha.

Assim se compreende a intensa actividade diplomática da Africom em Portugal; a embaixadora Mary Carlin Yates, vice-comandante da Africom para as questões civis-militares17, esteve em Portugal para reuniões com responsáveis militares (?) e disse ser «muito importante que ouçamos e aprendamos com os nossos parceiros europeus, especialmente uma nação como Portugal com uma história naquele continente que penso terá muitas lições a ensinar-nos» – e continuou referindo-se ao general Ward, comandante do Africom – «O general que esteve cá em Junho regressou muito entusiasmado com o diálogo que teve com os responsáveis militares e civis e pediu-me para vir e aprofundar o diálogo»18.

De facto o general Ward, que já tinha cá estado em 2008, voltou em 23 de Junho passado, para um Seminário de Dirigentes Seniores da Africom, realizado no nosso país por insistência das autoridades portuguesas19 – esta «insistência» diz bem do tipo de gente que está no Palácio das Necessidades – ministro, assessores, Governo, todos eles são a pandilha anti-patriótica e de traição nacional.

O general, que se fez acompanhar por William Bellamy, director dos Estudos Estratégicos Africanos dos Estados Unidos, e por Johnnie Carson, sub-secretário de Estado americano para os assuntos africanos, enfatizou «a parceria e comuns objectivos que temos com Portugal e os outros países lusófonos»20.

Mais claros não podiam ser e os perigos são evidentes: os americanos, com o total apoio do Governo português, vão arrastar o país para a nova aventura africana do imperialismo ianque, a qual já começou mas ninguém sabe como vai acabar; quantas vidas se vão perder, quantos cortes se tem que fazer no orçamento da saúde e da educação para pagar esta aventura?


A recente compra dos famigerados submarinos é o primeiro capítulo; se alguns dos nossos leitores ainda não sabem para o que servem, ou estão inclinados a aceitar os argumentos estafados do governo21 de «necessidades da defesa nacional», deixo-vos com esta notícia transmitida pela BBC em 22 de Junho passado e confirmada junto de fontes oficiais holandesas: «No mês passado a Holanda concordou com o pedido da NATO para enviar um submarino para as costas da Somália».

Agora já sabemos para que servem os submarinos. Esta não é a única razão, mas é uma das razões, pela qual desfilaremos em Lisboa no próximo dia 20, sob o lema Paz Sim – NATO Não.

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Notas:
1 Relatório do National Energy Policy Development Group (págs. 25 e 71) – 16 de Maio de 2001.
O grupo de trabalho que redigiu o relatório, feito em secretismo, era dirigido pelo vice-presidente Dick Cheney e dele faziam parte os presidentes das maiores multinacionais no domínio energético.
2 Idem (pág. 127).
3 in CFR – National Security Consequences of U.S. Oil Dependency – (pág. 31) – Outubro de 2006.
Quem, de facto, dirige a política externa dos Estados Unidos é, desde 1921, o Council on Foreign Relations dele fazendo parte as personagens mais agressivas do imperialismo. O jovem senador Barak Obama era um dos seus membros.
4 Kjell Aleklett – Association for Study of Peak Oil and Gas.
5 ECOWAS – Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (Angola, Chade, Guiné Equatorial, Gabão e Nigéria).
6 Idem 2 – (pág. 133).
7Idem.
8 in A Manifesto for the Fast World – New York Times Magazine, Março, 1989.
9 Center for American Progress – Rebecca Lefton e Daniel J. Weiss – Janeiro de 2010
10 Governólio – Governo do Petróleo
11 CSIC – Center for Strategic and International Studies
12 Andrew Hansen – Council on Foreign Relations, 8 de Fevereiro de 2008.
13 Stephanie Hanson – U.S. Africa Command, 3 de Maio de 2007.
14 Militares africanos amigos
15 in John Bellamy Foster – Main basse sur l’Afrique: la stategie de l’empire pour contrôler le continent.
16 Designação que se dá ao edifício do Ministério da Defesa, em Washington.
17 Nenhum Comando dos Estados Unidos (são seis) tem um civil como segundo comandante. A indigitação de um diplomata para este posto é indicadora da importância que os EUA dão à Africom, e a necessidade que têm de obrigar a compromissos políticos e militares com outros países.
18 Lusa
19 Afirmação de William Bellamy na conferência de imprensa realizada em Lisboa em 23 de Junho de 2010.
20 General William Ward em 1 de Julho de 2010, dirigindo-se ao pessoal da Africom.
21 O PS, o PSD e o CDS estiveram comprometidos na aquisição dos submarinos. Para mais sobre o assunto ver Avante! de 21 de Janeiro de 2010.
Este texto foi publicado no Avante de nº 1.929 de 18 de Novembro de 2010.



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18 de nov. de 2010

Urgente: ameaça concreta contra direitos sociais

Escrito por Maria Lucia Fattorelli    


Diversas matérias jornalísticas divulgadas nos últimos dias comprovam que o plano do novo governo é reduzir os gastos sociais, a fim de fazer sobrar mais recursos para o pagamento dos juros da dívida pública.
 
Matérias tentam impor ao funcionalismo público, previdência, assistência e demais gastos sociais a responsabilidade pelo desequilíbrio das contas públicas. Na realidade, o rombo está no pagamento dos maiores juros do mundo, calculados sobre uma dívida que não tem contrapartida real, feita de juros sobre juros; golpes sobre golpes, como comprovou a recente CPI da Dívida Pública na Câmara dos Deputados.
 
O massacre planejado contra os servidores e beneficiários da Previdência e Assistência Social é flagrante:
 
"Durante reunião com a presidente eleita Dilma Rousseff, na segunda-feira, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, apresentou uma proposta de política fiscal para o país, cuja essência é que as despesas correntes primárias cresçam menos que o Produto Interno Bruto (PIB). Essas despesas são aquelas relacionadas com o pagamento de salários do funcionalismo, com a previdência e assistência social e o custeio da máquina pública. Elas não incluem o pagamento dos juros das dívidas públicas e os investimentos". (Valor Econômico - 10/11/2010)
 
A iminência de nova Reforma da Previdência para reduzir gastos sociais também é flagrante. O ministro Paulo Bernardo já declarou que pretende limitar as despesas correntes à metade do crescimento do PIB, o que poderá ser aprovado com facilidade no Congresso, face à composição da futura base do governo Dilma naquela Casa, suficiente para aprovar a reforma da Previdência:
 
"Outra preocupação do governo é com o déficit da Previdência. Para o ministro, não é possível dar aumento real para os benefícios acima de um salário mínimo. Sobre a reforma da Previdência, Bernardo considera que, em algum momento, isso deverá ser feito e que ‘antecipar isso para um bom momento político’ pode ser uma boa idéia". (O Estado de São Paulo, 11/11/2010)
 
O sistema de privilégio da dívida pública - que beneficia grandes bancos e corporações - é produto de fraudes denunciadas pela CPI da Dívida Pública e que precisam ter sua investigação aprofundada e devidamente denunciada, para que os recursos parem de se esvair no ralo dos juros e sejam destinados ao cumprimento dos direitos humanos da sociedade brasileira.
 
O gráfico a seguir, que retrata a distribuição dos recursos do Orçamento Geral da União em 2009, demonstra que o pagamento de juros e amortizações da dívida federal consumiu 36% dos recursos, correspondente a R$ 380 bilhões, ou seja, mais de R$ 1 bilhão POR DIA! 


Se considerarmos também a rolagem da dívida – que é a parcela da amortização da dívida paga com a emissão de novos títulos públicos –, os gastos com a dívida consumiram em 2009 nada menos que 48% dos recursos.
 
Devido ao crescimento acelerado do estoque da dívida pública – a Interna já ultrapassa R$ 2,3 trilhões e a Externa US$ 300 bilhões –, esta consome gradativamente parcela mais relevante dos recursos para o cumprimento de seu serviço: pagamento de juros e amortizações.
 
Dentre as ameaças aos servidores públicos que se encontram em gestação, merecem ser destacadas algumas, pois terão impacto também sobre os servidores da esfera estadual e sobre toda a sociedade que demanda serviços públicos:
  • PLP 549/2009, que congela os salários dos servidores públicos por 10 anos, enquanto a dívida pública recebe remuneração garantida todos os anos, pelos maiores juros do mundo;
  • Anúncio, pelo Ministério da Previdência, de "necessidade" de nova Reforma da Previdência dos servidores e regime geral, aumentando ainda mais a idade para aposentadoria e redução de benefícios (é importante ressaltar que o presidente Lula vetou - no dia da estréia do Brasil na Copa do Mundo - o fim do fator previdenciário que havia sido aprovado no Congresso Nacional);
  • PEC 233/2008, que propõe uma reforma tributária que altera o financiamento da Seguridade Social (na medida em que transforma as contribuições sociais - que tem destinação vinculada - em impostos);
  • Limitação dos "gastos primários", ou seja, limitação de todos os gastos sociais, enquanto para os gastos com a dívida não são estabelecidos quaisquer limites.
Essas ameaças de cortes de gastos sociais se tornam especialmente preocupantes diante da conjuntura internacional de crise financeira, que atingiu fortemente os EUA, países da Europa e está servindo de argumento para a aplicação de medidas de ajuste neoliberal aqui no Brasil, agora que passaram as eleições. Muitas das medidas aplicadas nos países europeus também já se encontram em gestação aqui no Brasil, como o congelamento de salários de servidores e redução de benefícios e direitos previdenciários, acima mencionados. Tais medidas representam a subtração de recursos de áreas essenciais para que se destinem ao pagamento dos juros da dívida pública, que nunca foi auditada, como determina a Constituição.
 
No Brasil, a recente CPI da Dívida Pública realizada na Câmara dos Deputados apontou uma série de graves indícios de ilegalidades e ilegitimidades no processo de endividamento brasileiro, tendo o Relatório Final da CPI reconhecido, em seu diagnóstico, que:
 
 
  • As elevadíssimas taxas de juros (não-civilizadas) foram o fator mais importante para o crescimento da dívida, inclusive dos estados e municípios;
  • A dívida interna cresceu nos últimos anos para financiar a compra de dólares das reservas internacionais, com grande custo para as contas públicas;
  • O Senado Federal renunciou à sua competência, pois permitiu emissões de títulos sem especificar suas características;
  • Há falta de transparência na divulgação dos números da dívida, bem como falta de informações e documentos à CPI;
  • O montante dos gastos com juros da dívida divulgado pelo governo é menor do que o efetivamente gasto. Isto porque os juros anunciados pelo governo se referem somente aos "juros reais", ou seja, descontada a inflação. A outra parcela dos juros (ou seja, referente à atualização monetária da dívida) é contabilizada equivocadamente como "amortizações".
 
Apesar do grave diagnóstico, contraditoriamente, o Relatório Final não admitiu ter encontrado irregularidades no endividamento, não recomendou a auditoria da dívida (prevista na Constituição) e também não recomendou acionar o Ministério Público para o aprofundamento das investigações.
 
Porém, a pressão constante das entidades da sociedade civil que participaram das sessões da CPI fez com que somente 1/3 dos 24 membros da CPI votassem a favor deste "Relatório-Pizza", que foi aprovado pelo apertado placar de 8 a 5.
 
A pressão das entidades também fez com que 8 deputados da CPI assinassem o "Voto em Separado" do deputado Ivan Valente (PSOL/SP), que pede a auditoria da dívida, e o encaminhamento ao Ministério Público de diversos indícios de ilegalidades apuradas, dentre eles:
  • Juros sobre Juros (Anatocismo), ilegal segundo o STF;
  • Juros flutuantes na dívida externa – ilegais, segundo a Convenção de Viena
  • Ausência de contratos e documentos; ausência de conciliação de cifras; cláusulas ilegítimas;
  • Ilegalidade do livre fluxo de capitais, que deu origem à dívida interna;
  • A grande destinação dos recursos orçamentários para o pagamento da dívida viola os direitos humanos e sociais;
  • O Banco Central faz reuniões com os bancos e outros rentistas para definir as previsões de inflação, que definem as taxas de juros.
 
Este Voto em Separado já foi entregue ao Ministério Público, cabendo às autoridades e à sociedade civil acompanharem de perto esse processo, para que sejam aprofundadas as investigações e elaboradas as ações judiciais cabíveis.
 
A despeito das diversas ilicitudes apontadas pela CPI, o pagamento do serviço da dívida goza de imenso privilégio, em detrimento do povo brasileiro, que arca com elevada carga tributária e não recebe o devido retorno em serviços públicos. Além dos crescentes contingenciamentos efetuados para produzir o superávit primário, diversas outras fontes alimentam o pagamento dos juros e amortizações da dívida, principalmente as seguintes:
 
a) lucros das estatais (por isso é que elas se endividam para realizar investimentos, apesar de altamente lucrativas, pois seus lucros distribuídos ao governo não são destinados a reinvestimentos, mas para pagar dívida);
 
b) lucro do Banco Central (quando há lucro, esse vai para pagar dívida; quando dá prejuízo, como em 2009 - de R$ 147 bilhões -, o Tesouro Nacional cobre com recursos decorrentes de excesso de arrecadação ou emissão de novos títulos da dívida);
 
c) recebimento de juros e amortizações da questionável dívida dos estados e municípios com a União (todo sacrifício dos entes federados - cerca de 13% de sua receita - é destinado para o pagamento da dívida);
 
d) emissão de novos títulos;
 
e) As Medidas Provisórias 435 e 450 (já transformadas em lei) determinam que toda sobra de recursos orçamentários vinculados por lei a áreas sociais, que não chegaram a ser executados, pode ser destinada ao pagamento da dívida, ou seja, ao final do ano, há uma "limpa geral" no caixa e os recursos vão para pagar juros e amortizações;
 
f) o rendimento dos recursos da Conta Única do Tesouro, depositados no Banco Central.
 
Além de todas essas verbas, novas medidas estão sendo programadas pelo próximo governo para cortar gastos sociais a fim de destinar ainda mais recursos para o pagamento dos juros.
 
Por isso é urgente estancar essa sangria, realizando-se a AUDITORIA DA DÍVIDA.
 
Nesse contexto de corte de gastos, evidenciam-se anúncios de que alguns setores de alto escalão deverão receber a devida atenção, conforme recado dado pela grande mídia:
 
"Em visita à Coréia do Sul, a presidente eleita, Dilma Rousseff, disse que, se não houver aumento salarial no Executivo, "não vamos ter ministros no Brasil", mas se recusou a falar sobre eventuais reajustes nas remunerações do Congresso e do Supremo Tribunal Federal". (Folha Online - 11/11/2010)
 
Merece destaque também o fato de que a mesma página do jornal Valor Econômico de 10/11/2010, que noticiou a necessidade de corte de despesas com pessoal e previdência, informou também sobre a previsão de recursos para aumento para o Supremo Tribunal Federal: 



As autoridades que comandam os poderes constituídos da República precisam tomar posição pública em relação ao problema do endividamento público brasileiro, especialmente face às denúncias e indícios de ilegalidades documentados pela CPI.
 
Há décadas o endividamento público tem sido utilizado como instrumento de especulação e saque de recursos públicos. Até mesmo os poços de petróleo do Pré-Sal foram vendidos pela União à Petrobrás para obter superávit primário, ou seja, a reserva de recursos para o pagamento da dívida. É importante lembrar que a maior parte dos lucros distribuídos pela Petrobrás vai para os investidores privados, e a parcela que vai para o governo é destinada, por lei, para o pagamento da dívida.
 
O sacrifício social decorrente da utilização da dívida como instrumento de especulação é imenso, enquanto o bilionário lucro dos bancos cresce exponencialmente e as transferências de lucros ao exterior têm ultrapassado todas as expectativas. Ao mesmo tempo, o Banco Central contabiliza prejuízos bilionários (R$ 147 bilhões em 2009) e o povo, que paga a conta mediante o pagamento de elevada carga tributária, tem o direito de saber a destinação dada a esses recursos, pois apenas uma pequena parcela é direcionada a serviços e investimentos públicos. É preciso dar maior transparência aos gastos financeiros e à esterilização de recursos para a composição do superávit primário e pagamento de juros.
 
Diante do exposto, é urgente mobilizar a sociedade para que esta não venha a ser ainda mais sacrificada, pois querem direcionar parcela ainda maior de recursos para os juros. Para isso, é preciso fortalecer o enfrentamento à política de endividamento público, divulgando a verdade dos fatos, especialmente diante da ausência de transparência e contrapartida dessa dívida para a sociedade. Entendemos que o primeiro passo é a realização de ampla e profunda auditoria da dívida, prevista na Constituição Federal, porém jamais realizada. A auditoria possibilitará o conhecimento real de todo o processo, baseado em provas e documentos.
 
O Equador demonstrou que é possível enfrentar o setor financeiro de forma soberana. A realização da auditoria oficial da dívida daquele país (2007/2008) foi instrumento essencial nesse processo, pois permitiu a redução da dívida externa com os bancos privados internacionais (Bonos Global 2012 e 2030) em 70%, enquanto os investimentos em saúde e educação quadruplicaram. Respaldado no relatório da auditoria, que foi devidamente referendado pelas instâncias jurídicas, o presidente Rafael Correa apresentou uma proposta soberana no sentido de que aceitaria reconhecer apenas 25 a 30% dos mencionados títulos, sendo que 95% dos detentores dos mesmos acataram imediatamente tal proposta, sem qualquer contestação.
 
A experiência equatoriana abriu caminho para a CPI da Dívida no Brasil (2009/2010), que apurou graves indícios de ilegalidades e ilegitimidades que precisam ter sua investigação aprofundada, pois significam lesão ao patrimônio público, ofensa aos direitos humanos e desrespeito a diversos dispositivos constitucionais, conforme texto disponível na página da Auditoria Cidadã na internet (1).
 
Considerando o posicionamento noticiado pelos diversos veículos de comunicação nos últimos dias, de que o governo federal terá que limitar os gastos sociais em relação ao PIB - ou seja, impedir que os gastos sociais aumentem sua participação no bolo econômico nacional - para que os gastos com a dívida pública permaneçam sem limite, é fundamental que a sociedade civil se mobilize e exija o respeito aos Direitos Humanos no país, o cumprimento da Constituição Federal de 1988 e a realização da auditoria da dívida pública.
 
As matérias citadas acima e outras sobre o tema podem ser lidas nos links a seguir:
 
 
 
 
 
 
 
Maria Lucia Fatorelli é coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida.
 
Nota:
 
 
FONTE: AQUI



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15 de nov. de 2010

Panela de grilos

Nisso virou a reunião do G-20 em Seul, capital da República da Coréia.

O que é o G-20?, perguntarão muitos leitores saturados de siglas. Mais um engendro do poderoso império e seus aliados mais ricos que criaram o G-7: os Estados Unidos, o Japão, a Alemanha, a França, o Reunido Unidos, a Itália e o Canadá.  Depois decidiram admitir a Rússia no clube que então recebeu o nome de G-8.

Posteriormente se dignaram a admitir cinco importantes países emergentes: a China, a Índia, o Brasil, o México e a África do Sul. O grupo cresceu depois com a admissão de vários países da OCDE, mais outra sigla, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico: a Austrália, a República da Coréia e a Turquia. Ao grupo adicionaram a Arábia Saudita, a Argentina e a Indonésia, e totalizaram 19. O vigésimo membro do G-20 foi nada mais, nada menos que a União Européia. A partir deste ano 2010, um país, a Espanha, recebeu a singular nomeação de “convidado permanente”.

Outra importante reunião de alto nível internacional é levada a cabo quase simultaneamente no Japão, a da APEC (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico). Se os pacientes leitores somam ao grupo anterior os países seguintes: Malásia, Brunei, Nova Zelândia, Filipinas, Singapur. Tailândia, Hong Kong, China Taipei, Papua-Nova Guiné, Chile, Peru e Vietnã, com importantes trocas comerciais e todos banhados pelas águas do Pacifico, têm o que é chamado APEC: Foro de Cooperação Econômica Ásia-Pacifico, o quebra-cabeça completo. Apenas lhes faltaria o mapa; um laptop pode subministrá-lo perfeitamente.

Nesses eventos internacionais são discutidos os aspectos fundamentais da economia e das finanças do mundo. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, com poder decisivo nos assuntos financeiros, têm dono: os Estados Unidos. 
 
É importante lembrar que ao finalizar a Segunda Guerra Mundial, a indústria e a agricultura dos Estados Unidos estavam intactas; as da Europa Ocidental, totalmente destruídas excetuando as da Suíça e da Suécia; a URSS, materialmente arrasada e com enormes perdas humanas que ultrapassavam os 25 milhões de pessoas; o Japão vencido, arruinado e ocupado. Por volta de 80% das reservas em ouro do mundo passaram aos Estados Unidos.

De 1 a 22 de Julho de 1944, num isolado embora amplo e confortável hotel de Bretton Woods, pequena localidade do estado de New Hampshire no nordeste dos Estados Unidos, foi realizada a Conferência Monetária e Financeira da recém-criada Organização das Nações Unidas.

Os Estados Unidos obtiveram o excepcional privilégio de converter seu papel moeda em divisa internacional, conversível em ouro à taxa fixa de 35 dólares a onça Troy. Visto que a imensa maioria dos países deposita suas reservas de divisa nos próprios bancos dos Estados Unidos, o que equivale a um considerável empréstimo ao país mais rico do mundo, a conversibilidade ao menos estabelecia um máximo à impressão sem limites de papel moeda. E ao menos significava uma garantia para o valor das reservas dos países depositadas em seus bancos.

Partindo desse enorme privilégio, e tendo a emissão de notas a limitante de sua conversibilidade em ouro, o poderoso país aumentava seu controle sobre as riquezas do planeta.

As aventuras militares dos Estados Unidos na aliança com as antigas potências coloniais, principalmente o Reino Unido, a França, a Espanha, a Bélgica, a Holanda e a recém-criada Alemanha Ocidental, levaram-nos a guerras e aventuras militares que deixaram em crise o sistema monetário nascido em Bretton Woods.

Na época da criminosa guerra contra o Vietnã, país onde os Estados Unidos estiveram a ponto de usar as armas nucleares, o Presidente norte-americano decidiu de maneira unilateral e desavergonhada suspender a conversibilidade do dólar. Desde então a emissão do papel moeda não teve limites. Abusaram de tal forma desse privilégio que o valor da onça Troy de ouro passou de 35 dólares a cifras que têm ultrapassado já os 1 400 dólares, isto é, não menos de 40 vezes o valor que manteve durante 27 anos, até 1971 em que Richard Nixon adotou a funesta decisão.

O pior da atual crise econômica que afeta atualmente a sociedade norte-americana é que as medidas anticrise de outros momentos da história do sistema capitalista imperialista dos Estados Unidos não conseguiram reiniciar a marcha normal. Imerso numa dívida do Estado que se aproxima aos 14 trilhões de dólares, quer dizer, tanto quanto o PIB dos Estados Unidos, o déficit fiscal continua; os enormes gastos para salvar os bancos e a redução quase a zero das taxas de interesse apenas reduzem por baixo de 10% o nível de desemprego, nem o número de famílias cujas moradias estão a ser arrematadas. Crescem os gigantescos orçamentos destinados à defesa que ultrapassam os restantes do mundo, e pior ainda: os destinados à guerra.

O presidente dos Estados Unidos, eleito há apenas dois anos por um dos partidos tradicionais, sofreu a maior derrota nos últimos três quartos de século. Nessa reação misturam-se a frustração e o racismo.

O economista e escritor norte-americano William K. Black estampou uma frase memorável: “A melhor forma de roubar um banco é ser seu dono”. Os setores mais reacionários dos Estados Unidos afiam seus dentes fazendo sua uma idéia que seria a antítese da dos bolcheviques em outubro de 1917: “Todo o poder para a extrema direita dos Estados Unidos”.

Segundo parece, o Governo dos Estados Unidos com suas medidas tradicionais anti-crise, tomou outra decisão precipitada: a Reserva Federal anunciou que compraria 600 bilhões de dólares americanos antes da reunião do G-20.

Na quarta-feira 10 de novembro, uma das mais importantes agências de imprensa dos Estados Unidos informou: “O presidente Barack Obama chegou à Coréia do Sul para participar das reuniões dos 20 principais poderes econômicos do mundo.

“As tensões sobre políticas monetárias e interesses comerciais fizeram-se notar antes da cúpula do Grupo dos 20. O ambiente tornou-se quente devido a uma decisão dos Estados Unidos de inundar sua débil economia com 600 bilhões de dólares à vista. A manobra fez com que líderes do mundo fiquem enfurecidos.

“Obama, contudo, defendeu a medida tomada pela Reserva Federal.”

A própria agência comunicou à opinião mundial em 11 de novembro:

“Na quinta-feira, um forte sentimento de pessimismo caracterizou o início da cúpula econômica dos principais países ricos e em desenvolvimento, da qual participaram os líderes mundiais profundamente divididos sobre suas políticas monetárias e comerciais.

“Fundado em 1999 e elevado a nível de cúpula há dois anos, o Grupo dos 20 (G-20, um foro que abrange países desenvolvidos como os Estados Unidos e a Alemanha, e também a gigantes emergentes como a China e o Brasil) virou peça central dos esforços governamentais para reativar a economia global e evitar outro colapso financeiro mundial...”

“Um fracasso da Cúpula de Seul teria conseqüências graves. O risco é que os países tentem manter suas divisas artificialmente baixas para dar a suas exportações uma vantagem competitiva nos mercados mundiais e isso levaria a uma destrutiva guerra comercial.

“Além disso, os países ver-se-iam tentados a pôr taxas alfandegárias às exportações, uma repetição das políticas que agravaram a Grande Depressão da década de 1930.”

“Alguns países, como por exemplo, os Estados Unidos, acham que a máxima prioridade é pressionar a China para que permita a reavaliação de sua moeda ante outras divisas, de modo que diminuam os enormes superávits comerciais do gigante asiático com Washington ao encarecer as exportações chinesas e abaratar as importações estadunidenses.

“Outros países estão furiosos pelos planos da Reserva Federal estadunidense de fazer uma injeção de 600 bilhões de dólares frescos à débil economia do país. Eles vêem essa ação como uma medida egoísta para encher os mercados com dólares, diminuindo dessa maneira o valor da nota verde, oferecendo aos exportadores estadunidenses uma vantagem de preços injusta.

“Os países do G-20 [...] encontram pouco espaço comum no tema mais incômodo: o que se pode fazer com uma economia mundial que depende dos enormes déficit comerciais dos Estados Unidos com a China, a Alemanha e o Japão.”

“O presidente do Brasil, Luz Inácio Lula da Silva, advertiu na quinta-feira que o mundo iria à bancarrota se os países ricos fazem recortes em seu consumo e tentam de obter prosperidade só tendo como base as exportações.”

“Se os países mais ricos não consomem e todos querem espalhar sua economia com base nas exportações, o mundo irá à falência porque não existe alguém que compre. Todos querem vender...”

“A cúpula começou com certo pessimismo para Obama e o presidente sul-coreano, Li Myung-bak, cujos ministros não conseguiram chegar a um acordo sobre um tratado de livre comércio, estagnado há tempo e do qual havia esperanças para que fosse resolvido nesta semana.”

“Os mandatários do G-20 reuniram-se na quinta-feira à noite no Museu Nacional da Coréia em Seul para o jantar que marcou o início oficial da cúpula.”

“Nas ruas dos arredores, vários milhares de manifestantes protestaram contra o G-20 e o governo da Coréia do Sul.”

Na sexta-feira, dia 12 de novembro, a cúpula concluiu com uma declaração de 20 pontos e 32 parágrafos.

Como é de supor o mundo não é constituído apenas por 32 países em total que fazem parte do G-20 ou só a APEC. Os 187 que votaram a favor da eliminação do bloqueio a Cuba perante os dois que votaram a favor de mantê-lo e os três que se abstiveram, totalizam 192. Para 160 deles não existe tribuna onde possam falar sobre o saqueio imperial de seus recursos e seus urgentes necessidades econômicas. Em Seul a Organização das Nações Unidas nem sequer existe. Essa benemérita instituição não dirá ao menos uma palavra?

Por estes mesmos dias chegaram do Haiti notícias verdadeiramente dramáticas — onde um sismo matou em questão de minutos por volta de 250 mil pessoas em janeiro deste ano — através de agências de notícias européias:

“As autoridades haitianas advertem a rapidez com que a epidemia de cólera se estende pela cidade de Gonaives, na zona norte da ilha. O prefeito desta localidade costeira, Pierreleus Saint-Justin, garante ter enterrado pessoalmente 31 pessoas na terça-feira, à espera de sepultar mais 15 cadáveres.
  
“’Outros poderiam estar morrendo enquanto falamos’ declarou. [...] desde o dia 5 de novembro já foram inumados 70 corpos só na zona urbana de Gonaives, mas ‘são mais as pessoas que morreram em áreas rurais’ próximas à cidade.”

“... a situação ‘torna-se catastrófica’ em Gonaives  [...] as inundações provocadas pelo furacão ‘Tomas’ podem fazer com que piore a situação.”

“As autoridades sanitárias do Haiti anunciaram na quarta-feira que até o dia 8 de setembro o número de vítimas produto da doença tinha aumentado em todo o país a 643. O número de contagiados de cólera no mesmo período é de 9 971. As emissoras de rádio informam que as cifras que serão divulgadas na sexta-feira poderiam fazer referência inclusive a mais de 700 mortos.”

“... O governo assevera que a doença está a incidir gravemente na população de Porto Príncipe e ameaça os subúrbios da capital, onde mais de um milhão de pessoas continuam a viver em barracas de campanha desde o terremoto de 12 de janeiro.”

Hoje as notícias falam de 796 mortos e 12 303 pessoas afetadas.

Mais de três milhões de habitantes estão ameaçados, muitos deles vivendo em barracas de campanha e nas ruínas que deixou o terremoto, sem água potável.

A principal agência norte-americana informou no sábado:

“A primeira parte do Fundo Estadunidense de Reconstrução para o Haiti já está a caminho, mais de sete meses depois de ter sido prometida para ajudar à reconstrução do país após o devastador terremoto de janeiro.”

“... transferirá nos próximos dias 120 milhões de dólares — aproximadamente uma décima parte da quantidade total prometida — ao Fundo de Reconstrução do Haiti administrado pelo Banco Mundial, disse P. J. Crowley, porta-voz do Departamento de Estado.”

“Um assistente do Departamento de Estado disse que o dinheiro destinado ao fundo será utilizado em tirar o entulho, em moradias, créditos, apoio ao plano da reforma educativa do Banco Interamericano de Desenvolvimento e para apoiar o orçamento do governo haitiano".

A respeito da epidemia de cólera, doença que já afetou durante anos muitos países da América do Sul, e que se pode estender pelo Caribe e por outras partes de nosso hemisfério, não foi dita  nem uma palavra.

*A tradução foi feita pelo Portal Cuba.