23 de mai. de 2010

A Última Superação do Marxismo

György Lukács - 1920

Trata-se de um artigo de juventude de Lukács, na mesma época em que escreveu História e Consciência de Classe.

É difícil que se passe um ano sem que Marx seja "superado" por algum solícito livre docente ou por algum filósofo da moda. A luta mortal que a sociedade burguesa deve realizar se desenvolve também no terreno ideológico. Estas superações mostram ao observador atento sempre o mesmo rosto. Mudam o teor da demonstração, os argumentos gnosiológicos ou metafísicos parecem novos, porém o caráter essencial, o ponto de partida e o ponto de chegada, são sempre os mesmos. Eles encontram sua origem na natureza pequeno-burguesa-parasitária da situação de classe dos intelectuais. Como verdadeiros pequeno-burgueses, os intelectuais não estão em condições de ver de maneira correta a realidade da luta de classes, e portanto menos ainda estão em condições de valorá-la. Eles tendem, como disse Marx, para as instituições estabelecidas, tal como para "não abolir os dois extremos, capital e trabalho assalariado, mas sim para atenuar suas contradições e levá-los a conviver em harmonia". Dado que os intelectuais são seres parasitários dentro do Estado capitalista, este último se lhes apresenta com um absoluto, ou ainda como o Absoluto. Eles contrapõem à teoria marxista uma utopia que, despojada das frases mais ou menos sedutoras, repousa sobre a glorificação do Estado existente".

O último grande representante desta série é o filósofo da moda Oswald Spengler, cuja obra A Decadência do Ocidente, embora engenhosa, mas em seu conjunto diletante, obteve recentemente este êxito que na realidade devia ter ocorrido com a profunda obra de Ernst Bloch, O Espírito da Utopia. O novo livro do senhor Spengler, Prussianismo e Socialismo, quer libertar o socialismo alemão de Marx. Escapou a Marx, parece, o grande problema da história da filosofia na época moderna, que nosso filósofo resume assim: "três povos personificaram o socialismo em sentido geral: espanhóis, ingleses e prussianos. Em Paris e em Florença se desenvolveu o oposto anárquico ao outro dos italianos e franceses.  Marx não estava por isso em condições de fazer os seguintes descobrimentos fundamentais: primeiro, que na revolução francesa não houve luta de classes; que não existe burguesia francesa, no entanto, "porém, todo verdadeiro francês era e é hoje um burguês". Todo verdadeiro alemão é um operário" na França não existem verdadeiras classes.

O segundo descobrimento é que na Inglaterra não existe o Estado; que somente a Inglaterra conhece o capitalismo no sentido verdadeiro; que em conseqüência só a Inglaterra existe uma distinção de classes. Assim, o superficial Marx, que distingui as classes segundo sua posição no processo de produção, foi aprofundado e superado; a divisão de classes deriva da distinta possessão de bens, é a contraposição entre rico e pobre. O pobre Marx, a quem escapou tudo isto, não podia portanto deixar de escapar também o fato de que o socialismo estava já realizado há muito tempo atrás, no reino da Prússia. Por este motivo, Marx não estava em condições de compreender o problema do Estado; disto segue seu elogio "diletante" da Comuna de 1871; e por isso mesmo não esteve em condições de apreciar o sistema dos conselhos (Rätesystem) que o Barão von Stein projetou anos antes. O socialismo superficial é recuperado da seguinte maneira pelo socialismo filosoficamente aprofundado. Este socialismo é uma ordem de autoridade, "dito em linguagem técnica, é o princípio burocrático". Assim, é natural que Marx não tenha visto nem sequer a socialização já existente "introduzida por Frederico Guilherme I e incessantemente desenvolvida até Bismarck". Correspondendo a esta filosofia profunda, também o conceito de imperialismo é renovado: "a verdadeira internacional é o imperialismo". Por isso, ambos os partidos, o conservador e o socialista, como representantes do socialismo aprofundado, pertencem ao mesmo grupo: os conservadores eram melhores oficiais, os socialistas melhores soldados". A reconciliação destes irmãos-inimigos é o objetivo do socialismo redescoberto filosoficamente. Vale a pena a crítica de tais escritos? Considerados como sintomas, eles são interessantes. O fato de que a única citação do senhor Spengler seja do senhor Lensch não demonstra somente sua ignorância em matéria de marxismo, mas também aonde levam necessariamente a teoria e a práxis dos socialistas de direita. E o restante deste folheto não se distingue em nada de outras "superações" do marxismo arqui-conhecidas desde tempos de Dühring e companhia, já então na primeira fila da adoração do Estado prussiano. Somente é novo que se comprove que tampouco a revolução conseguirá curar os alemães "de seu espírito servil, radicado na consciência nacional", como disse Engels.


 
FONTE: AQUI

22 de mai. de 2010

A heresia dos gregos dá esperança

"A Grécia é um microcosmo de uma moderna guerra de classe raramente reconhecida como tal" 

por John Pilger 
Quando a classe política britânica pretende que o seu casamento arranjado de Tweedledee com Tweedledum é democracia, a inspiração para os demais é a Grécia. Não é nada surpreendente que a Grécia seja apresentada não como um farol mas sim como um "país lixo" que tem a merecida punição pelo seu "sector público inchado" e pela "cultura do facilitismo" (Observer). A heresia da Grécia é que o levantamento do seu povo miúdo proporciona uma autêntica esperança ao contrário daquele pródigo com a guerra que vive na Casa Branca. 
 

A crise que levou ao "resgate" da Grécia por parte de bancos europeus e do Fundo Monetário Internacional é o produto de um sistema financeiro grotesco o qual está, ele próprio, em crise. A Grécia é um microcosmo de uma moderna guerra de classe raramente reconhecida como tal e que é travada pelos ricos imperiais com toda a premência do pânico. 

O que torna a Grécia diferente é que na sua memória viva está a invasão, a ocupação estrangeira, a traição do ocidente, a ditadura militar e a resistência popular. O povo comum não se deixa intimidar pelo corporatismo corrupto que domina a União Europeia. O governo de extrema-direita de Kostas Karamanlis, o que antecedeu o actual governo Pasok (social-democrata) de George Papandreu, foi descrito pelo sociólogo suíço Jean Ziegler como "uma máquina para a pilhagem sistemática dos recursos do país". 

A máquina tem amigos infames. O US Federal Reserve Board está a investigar o papel da Goldman Sachs e outros operadores americanos de hedge funds que jogaram na bancarrota da Grécia quando activos públicos eram liquidados e os seus ricos evasores fiscais depositaram 360 mil milhões de euros em bancos suíços. Os maiores proprietários gregos de navios transferiram as suas companhias para o exterior. Esta hemorragia de capital continua com a aprovação do Banco Central e de governos europeus. 

Em 11 por cento, o défice da Grécia não é mais alto do que o dos Estados Unidos. Contudo, quando o governo Papandreu tentou tomar emprestado no mercado internacional de capitais foi efectivamente bloqueado pelas agências de classificação americanas, as quais "degradaram" a Grécia para "lixo". Estas mesmas agências deram classificações triplo A a milhares de milhões de dólares dos chamados títulos hipotecários subprime e precipitaram assim o colapso económico de 2008. 

O que aconteceu na Grécia foi roubo numa escala gigantesca, embora não inabitual. Na Grã-Bretanha, o "resgate" de bancos como o Northern Rock e o Royal Bank of Scotland custou milhares de milhões de libras. Graças ao antigos primeiro-ministro, Gordon Brown, e a sua paixão pelos instintos cobiçosos da City de Londres, estas prendas de dinheiro público foram sem condições e os banqueiros continuaram a pagar uns aos outros os despojos a que chamam bónus. Sob a monocultura política da Grã-Bretanha, eles podem fazer como quiserem. Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais notável, relata o jornalista de investigação David DeGraw, "[pois os principais bancos da Wall Street] que destruíram a economia pagam zero em impostos e obtém US$33 mil milhões em refinanciamentos". 

Na Grécia, tal como nos EUA e na Grã-Bretanha, disseram às pessoas comuns que deviam reembolsar as dívidas dos ricos e poderosos que incorreram nas mesmas. Empregos, pensões e serviços públicos estão para ser cortados e eliminados, sob a responsabilidade de corsários privatistas. Para a União Europeia e o FMI, apresenta-se a oportunidade para "mudar a cultura" e desmantelar a previdência social da Grécia, assim como o FMI e o Banco Mundial "ajustaram estruturalmente" (empobreceram e controlaram) países por todo o mundo em desenvolvimento. 


A Grécia é odiada pela mesma razão porque a Jugoslávia tinha de ser fisicamente destruída sob a pretensão de proteger o povo do Kosovo. A maior parte dos gregos são empregados pelo Estado e os jovens e os sindicatos abrangem uma aliança popular que não foi pacificada; os tanques dos coronéis no campus da Universidade de Atenas permanecem um espectro político. Tal resistência é anátema para banqueiros centrais da Europa e é encarada como uma obstrução à necessidade do capital alemão de capturar mercados na sequência da perturbada reunificação da Alemanha. 

Na Grã-Bretanha, foi tal a propaganda de uma teoria económica extremista conhecida primeiramente como monetarismo e depois como neoliberalismo, ao longo de 30 anos, que o novo primeiro-ministro pode, como o seu antecessor, descrever as suas exigências de que o povo comum pague as dívidas de vigaristas como sendo "fiscalmente responsável". Dentre as questões não mencionáveis, estão pobreza e classe. Quase um terço das crianças britânicas permanece abaixo da linha de pobreza. Na Kentish Town da classe trabalhadora, em Londres, a esperança de vida dos homens está abaixo dos 70. Duas milhas mais além, em Hampstead, é de 80. Quando a Rússia foi sujeita a uma "terapia de choque" semelhante, na década de 1990, a esperança de vida afundou drasticamente. Um recorde de 40 milhões de americanos empobrecidos está actualmente a receber selos alimentares: ou seja, eles não conseguem alimentar-se a si próprios. 

No mundo em desenvolvimento, um sistema de triagem imposto pelo Banco Mundial e pelo FMI determinou há muito se as pessoas vivem ou morrem. Sempre que são eliminadas tarifas e subsídios a alimentos e combustível pelo diktat do FMI, os pequenos agricultores sabem que foram declarados descartáveis. O World Resources Institute estima que a portagem da morte atinja 13-18 milhões de crianças a cada ano. "Isto", escreveu o economista Lester C. Thurow, "não é nem metáfora nem uma analogia da guerra, mas sim a própria guerra". 

As mesmas forças imperiais utilizaram horrendas armas militares contra países atacados cujas maiorias são constituídas por crianças, e aprovaram a tortura como um instrumento de política externa. É um fenómeno de negação que a nenhum destes assaltos à humanidade, nos quais a Grã-Bretanha está activamente empenhada, foi permitido que interferisse nas eleições britânicas. 

As pessoas nas ruas de Atenas não sofrem deste mal-estar. Elas têm clareza de quem é o inimigo e consideram-se, como outrora, mais uma vez sob ocupação estrangeira. E mais uma vez elas levantaram-se, com coragem. Quando David Cameron começa a seccionar £6 mil milhões [€6,81 mil milhões] dos serviços públicos na Grã-Bretanha, ele estará a tentar que a Grécia não aconteça na Grã-Bretanha. Deveríamos provar que errou. 


20/Maio/2010 
O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=576

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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Grécia: um presságio de grandes catástrofes

Com o bom senso de que disponho, não consigo explicar e menos ainda justificar a rapidez com que o nosso país, a Grécia, caiu em relação ao nível de 2009, ao ponto de perdermos uma parte da nossa soberania nacional para o FMI e nos encontrarmos sob sua tutela.

É pelo menos estranho que ninguém, até agora, se tenha dado o trabalho tão simples que consiste em analisar o curso da nossa economia até hoje, com fatos e números, para que nós, os não-iniciados, possamos compreender as verdadeiras razões desta queda vertiginosa e sem precedentes e dos acontecimentos que ocasionaram a perda da nossa independência nacional acompanhada de uma humilhação internacional.


Ouvi falar de uma dívida de 360 bilhões, mas constato ao mesmo tempo que muitos outros países têm a mesma ou até maiores. Não poderá ser então esta a principal razão da nossa desgraça. O que me desagrada também é a dimensão do exagero nos golpes desferidos ao nosso país em nível internacional: uma ação manifestamente altamente concertada contra um país financeiramente insignificante torna-se suspeita. Cheguei então à conclusão de que algumas pessoas nos querem encher de vergonha e medo para nos submeter ao FMI, que é um fator fundamental da política expansionista dos EUA.


Todo esse discurso sobre a solidariedade europeia não passa de poeira nos olhos para nos esconder o fato de se tratar claramente de uma iniciativa norte-americana que tem por objetivo nos mergulhar numa crise financeira largamente artificial, para que o nosso povo viva no medo, se torne ainda mais pobre, perca realizações e conquistas preciosas acabando finalmente de joelhos e aceite ser dominado por estrangeiros.


Mas para que serve isto tudo? Quais serão os projetos ainda a realizar, quais podem ser os objetivos a alcançar?


Embora eu sempre tenha sido (e ainda sou) um fervoroso adepto da amizade greco-turca, devo confessar que fico assustado com o súbito estreitamento das relações entre os nosso dois governos, as reuniões dos ministros e outros funcionários, os deslocamentos ao Chipre e a visita do Recep Tayyip Erdoğan. Suspeito que a política norte-americana esteja por trás disso tudo, com os seus planos encobertos relativos à nossa posição geográfica, à existência de jazidas submarinas, ao regime do Chipre e ao mar Egeu, aos nossos vizinhos do norte e à atitude arrogante da Turquia. Tais planos até agora só foram postos em xeque unicamente pela desconfiança e oposição do povo grego.


Conspiração


Todos à nossa volta acabaram mais ou menos por tomar lugar no trem dos EUA. Nós que continuamos a ser a única nota dissonante, apesar da instauração da junta militar e da perda de 40% do Chipre, os nossos abraços com Skoplje (capital da república ex-iugoslava da Macedônia) e os ultranacionalistas albaneses, nós que, apesar de todos esses golpes sucessivos, ainda não nos tornamos suficientemente "ajuizados".


Consequentemente, somos um povo que deve ser suprimido e é justamente isso que está acontecendo hoje. Convido os economistas, os políticos e os analistas a provar-me o contrário. Não vislumbro outra explicação plausível que não a de uma conspiração internacional de bastidores, contando com a participação de Europeus pró-americanos, como Merkel, com o Banco Central Europeu e a midia reacionária internacional que urdiram esta "armadilha", para fazer de uma nação livre um povo reduzido à escravidão. Pessoalmente, não consigo encontrar outra explicação. Reconheço, no entanto, não dispor de conhecimentos específicos e que o meu raciocínio só se assenta no bom senso. Mas talvez existam muitas outras pessoas a chegarem à mesma conclusão – assim veremos nos próximos dias.


De qualquer maneira, quero preparar a opinião pública e ressaltar que, se a minha análise está certa, então esta crise financeira (a qual, repito, nos foi imposta) não é mais que a primeira bebida amarga a tragar na deslumbrante festa que se vai seguir e que levará desta vez a pôr em causa questões nacionais tão vitais que nem quero imaginar aonde isto nos pode levar.


Só espero estar enganado.



*Mikis Theodorakis é músico e compositor, reconhecido por seu trabalho com a trilha sonora do filme Zorba, o Grego. Artigo originalmente publicado em Tlaxcala. Tradução: Pedro da Nóbrega. 


FONTE  AQUI 


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O primogênito dos sem-terra


Seu nome é carregado de simbolismo. Foi escolhido por um grupo de colonos sem-terra em uma reunião realizada sob lonas pretas. Marcos faz referência à palavra marco, início. Tiaraju é uma homenagem a Sepé Tiaraju, o líder dos índios guaranis morto em 1756 na defesa das terras do Rio Grande do Sul contra portugueses e espanhóis.

Marcos Tiaraju Correa da Silva, de 24 anos, foi a primeira criança nascida em um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O jovem perdeu a mãe em um conflito com ruralistas, cresceu em manifestações e hoje estuda medicina em Cuba. Quer voltar ao Brasil em um ano e meio, formado, para continuar a luta iniciada pelos pais.

A história de Marcos entrelaça-se com a trajetória do MST. Ele nasceu em 1º de novembro de 1985 na Fazenda Annoni, no norte do Rio Grande do Sul, na primeira área ocupada pelo recém-criado grupo. O local, para onde migraram 1,5 mil famílias de agricultores pobres, é o berço do movimento e tornou-se símbolo da batalha pela terra.

José Correa da Silva e Roseli Celeste Nunes da Silva, os pais, entraram no MST após ficarem cansados da vida miserável. Chegaram à fazenda de 9 mil hectares com algumas sacolas de roupa, os dois filhos – de 3 e 6 anos – e o sonho de virar donos de um pedaço de chão. Roseli, aos 31 anos, estava grávida de nove meses. “Não tínhamos alternativa”, afirma o pai de Marcos.

O bebê nasceu num hospital perto do acampamento. Viveu os primeiros meses de vida em barracas, amamentado em protestos e ocupações. Sua mãe o levou nos braços em uma marcha de 500 quilômetros que durou 28 dias, entre a Fazenda Annoni e Porto Alegre. 

Para os colonos, o menino virou um talismã desde o nascimento, lembra o padre Arlindo Fritzen, um dos fundadores do movimento. “Ele é o símbolo da vida, da esperança, para milhares de pessoas que se juntaram pelo sonho da reforma agrária. O sucesso dele é uma vitória, mostra que o sacrifício não foi à toa”, diz Fritzen, que batizou Marcos.

Perda da mãe
Em 31 de março de 1987, Roseli participava de uma manifestação em Sarandi, também no norte do estado, quando o caminhão de uma empresa agrícola avançou sobre uma barreira de colonos. Rose, como era chamada, morreu esmagada. Virou nome de acampamentos, assentamentos, escolas e brigadas do MST por todo o Brasil. A história dela foi contada nos documentários Terra para Rose e O Sonho de Rose, ambos da carioca Tetê Moraes.

Abalado com a morte da mulher e com três filhos pequenos para criar, o pai de Marcos não suportou a dura rotina nos acampamentos, onde faltava até água para beber. Foi tentar a vida na cidade como pintor de paredes, sem perder os vínculos com os amigos do movimento. A reaproximação com o MST ocorreu em 1996, quando a documentarista preparava o segundo filme sobre Roseli. “Decidimos que o sonho de Rose, o sonho de minha mãe, deveria virar realidade. Ela não poderia ter morrido em vão. Precisávamos ter nossa terra”, conta o estudante.

Convidado por um amigo, o futuro médico morou um ano em um assentamento na região metropolitana de Porto Alegre, longe da família. Lá, aos 14 anos, reencontrou-se com o passado. Essa temporada reascendeu seus ideais adormecidos, os mesmos que moveram sua mãe. “Ganhei uma camiseta estampada com uma foto dela comigo nos braços e uma frase que ela sempre repetia: ‘Prefiro morrer lutando do que morrer de fome’. Nunca foi fácil aceitar a sua morte e acredito que nunca será. Mas sinto orgulho do que ela fez.”

Em 1999, o sonho foi realizado. A família Silva recebeu 14 hectares em Viamão, nos arredores de Porto Alegre. Não foi fácil para Marcos seguir com os estudos e morar no novo assentamento. Caminhava diariamente 7 quilômetros até o ponto de ônibus mais próximo. Meses depois, ganhou uma bicicleta e passou a pedalar 30 quilômetros por dia para ir e voltar da escola. Pensou várias vezes em trocar os livros pela enxada.

De volta ao convívio com o movimento, passou a envolver-se mais em protestos e ocupações. Morou em acampamentos, pegou em foices e reviveu a rotina dos primeiros meses de vida. O passaporte para mudar de país e de vida veio em 2005, quando engrossou uma marcha de 12 mil sem-terra a Brasília. Acabou convidado a estudar medicina em Cuba. “Senti o compromisso moral de aceitar a proposta, já que diariamente dentro do movimento- levantamos a bandeira da educação e da saúde como forma de melhorar a vida dos mais pobres.”

Medicina

Sem nunca ter saído do Brasil e com espanhol precário, o gaúcho desembarcou em 2006 na ilha de Fidel Castro. Cursou os dois primeiros anos de faculdade em Havana e agora está em Camaguey, a oito horas da capital. Suas despesas com estudo, alimentação, higiene pessoal e moradia são custeadas pelo governo cubano. Também recebe auxílio financeiro do MST a cada três ou quatro meses. Se tudo der certo, se graduará em 2012. Ainda não escolheu qual especialização vai seguir, mas tem claro que voltará às fileiras do movimento. Quer usar a medicina para atender “os companheiros”. Diz querer ajudar a reconquistar a simpatia da população em relação aos sem-terra. “Temos de mostrar nossos objetivos e nossas raízes, a luta pacífica pela terra.”

O universitário sabe ser um símbolo da causa. Os filmes que contam a história de sua mãe são exibidos com sucesso nos acampamentos e assentamentos. Os documentários o fizeram conhecido entre os que lutam pela reforma agrária. “A história do Marcos dá uma energia positiva para jovens que passaram tantas dificuldades como ele. É uma mensagem de esperança”, afirma a documentarista Tetê Moraes, que acompanha os passos do estudante desde o nascimento e recentemente fez um curta-metragem sobre o filho de Rose.

Consciente de seu papel histórico para o MST, o futuro médico busca inspiração na própria história para honrar a peleja de Roseli. Com o filho nos braços, em um depoimento do filme Terra para Rose, ela dizia: “Espero que quando ele (Marcos) estiver grande, tudo isso não seja em vão. Que ele tenha um futuro melhor”. 

FONTE: MST


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21 de mai. de 2010

"Israel está fazendo muito dinheiro com a ocupação da Palestina", diz economista israelense

Os impactos de anos de ocupação israelense sobre a economia palestina na Faixa de Gaza e na Cisjordânia e a nova onda de migração de trabalhadores da Ásia para substituir a mão-de-obra palestina, confinada nos territórios, são os principais temas abordados pelo economista israelense Shir Hever, membro do Alternative Information Center, nessa entrevista ao Opera Mundi.

Segundo o estudioso, mestre em História e Filosofia pelo Instituto Cohen, na Universidade de Tel Aviv, Israel tem controle inclusive sobre as doações internacionais. Independente da moeda que ingressa nos territórios (dólar, euro, libra etc), o montante precisa ser aplicado no Banco Central de Israel, e depois, convertido para o shekel, dando lucro para o Estado judeu. 
Efe (11/05/2010)
Checkpoint em Ramallah: todas as manhãs, dezenas de palestinos buscam trabalho em
colônias judaicas na Cisjordânia
Shir, autor de uma série de estudos sobre os impactos da ocupação – todos disponíveis para download em www.alternativenews.org – vive na Jerusalém dividida não apenas pela ocupação militar e pela política, mas por ações sócio-econômicas que ampliam o abismo criado pelo desejo de fazer da cidade uma capital israelense. Jerusalém é hoje, sem dúvida, a capital da ocupação.

Ainda que estejam sob a autoridade palestina, na verdade vilas e cidades dependem de Israel. Como isso ocorre, a economia da ocupação alimentando Israel?

Na verdade, isso está  na raiz da ocupação, quando o governo israelense procurava pelas políticas corretas para lidar com esse novo território sob seu controle. Havia um debate de como tratá-lo. Basicamente havia aqueles que diziam que a ocupação seria temporária, que não poderíamos anexar o território com todas essas pessoas e perder uma maioria judaica. Assim, seria melhor não investir na economia palestina, pois iríamos perder tudo no momento em que devolvêssemos os territórios à Jordânia ou ao Egito. Esse era o grupo do sionismo pragmático. O grupo mais messiânico dizia que o sionismo é um movimento, em andamento, de redenção religiosa. Estávamos destinados a continuar crescendo. Então a ocupação era um momento de triunfo e, obviamente, jamais iríamos devolver a terra. 
 
Esse debate político refletiu-se no projeto econômico. Eles estabeleceram um Comitê Econômico, chamado Comitê Bruno, que aconselhou a manutenção da separação entre o Estado de Israel e os Territórios Ocupados Palestinos. As recomendações foram imediatamente rejeitadas e o governo instalou um Comitê Ministerial, que aconselhou uma maior liberdade nas ações para que ganhássemos mais tempo. Isso previa permissão a palestinos para que trabalhassem em Israel, que israelenses pudessem ir aos tPos, em número restrito, e deixar que produtos fossem importados e exportados. Na realidade, a política realmente adotada nem foi essa, foi muito mais livre, quase não havia restrições. Israelenses que quisessem ir a Belém ou Ramallah primeiro precisavam de permissão, mas com o tempo nem isso mais era exigido. Mas havia uma política, que não estava escrita em nenhum lugar, mas todos sabiam a seu respeito, e que foi imposta de uma forma muito coerente: não permitir a palestinos desenvolver qualquer negócio local que pudesse concorrer com um setor israelense. Isso é importante destacar porque não se acha em documentos oficiais.


Isso ocorre até hoje ou após Oslo as coisas mudaram?

Não, depois de Oslo a situação tomou uma direção um pouco diferente. [Os acordos de paz Oslo foram mantidos entre Israel e o presidente da OLP, Yasser Arafat e mediados pelo presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton]


Podemos dizer então que os palestinos estavam sob essa situação de não-desenvolvimento até Oslo?

Sim, pelo menos de uma forma direta. Hoje há muitas limitações em relação ao desenvolvimento, mas feitas de uma forma diferente. Até Oslo, a preocupação era limitar aos palestinos o uso de seus próprios fundos para criar desenvolvimento. O que acontecia era que se alguém quisesse investir numa empresa local, permissões para que trouxesse maquinários ou material bruto, ou ainda, para que tivesse acesso a instituições financeiras, eram negados.

Quais os termos, hoje, dessa ligação entre Israel e os territórios?

Se for a um mercado hoje nos territórios, quase todos os produtos estão em hebraico. Isso porque o caminhão com a placa israelense passa pelo posto de controle de forma fácil. É mais fácil enviar um caminhão de Haifa a Belém (uma viagem que dura cerca de 2h30) do que de Ramallah a Belém (viagem que poderia durar 30min). Há, por exemplo, uma fábrica de leite e derivados em Ramallah. Muitos palestinos veem na prateleira os produtos de Ramallah e os produtos da Novah, uma companhia israelense, e escolhem a Novah. É o mesmo preço, mas o produto israelense é mais fresco. Os palestinos sabem que os produtos de Ramallah ficaram no posto de controle por pelo menos um dia. Não esperam que seja de boa qualidade. Isso dá uma grande vantagem para as companhias israelenses. 

Ativistas de diretos humanos tentam evitar prisão de garoto palestino que havia jogado pedras contra
veículos militares de Israel, em Hebron
Outra questão importante é a grande quantidade de subsídios que os assentamentos ganham do governo israelense. Pagam menos taxas, conseguem grandes empréstimos de capital, terra barata e muitos serviços públicos que não podem ter dentro de Israel. Se um israelense quiser começar uma indústria dentro de uma área industrial de um assentamento, como Ma´ale Adumin ou Atarot, terá condições muito mais favoráveis do que se o fizesse em uma cidade industrial, como Ashdod.

Uma questão que parece de grande importância é o controle que Israel exerce pelo fato de os territórios usarem o shekel israelense, um controle de políticas monetárias...

Isso é muito importante. Se você é do Brasil, então entende que caso controle a moeda, isso te dá muito poder, sobre quando criar inflação ou quando combater a inflação. Mas o que é ainda mais importante é que todo o dinheiro de ajuda humanitária que chega aos palestinos vem em forma de moeda estrangeira, euros, dólares ou ienes. No entanto, para que possam ser usados na economia palestina, devem ser convertidos em shekels, que por sua vez são usados para pagar salários, produtos, impostos e taxas. Então o que acontece é que esses fundos de fora que vêm aos palestinos ficam no Banco Central israelense. Isso significa, em termos práticos, que Israel está fazendo muito dinheiro com a ocupação da Palestina.

Como exportando a ocupação?

De acordo com a lei humanitária internacional, como poder ocupante, o poder soberano dentro dos territórios é Israel. Se uma criança não tem o que comer ou se há um doente que precisa de atenção médica, é responsabilidade israelense como poder soberano ocupante. Mas agora temos uma situação em que a comunidade internacional está disposta a tomar o papel de Israel. Em Gaza, de 70% a 80% da população recebe a maioria de suas calorias através de ajuda. E mesmo os 20% restantes suplementam a alimentação com a ajuda humanitária. Gaza é a região mais dependente do mundo hoje.

Jerusalém era o centro de cultura, política e economia, junto com Jaffa antes de 1948. Projetos recentes, como o Muro, desligaram esse centro do resto da Cisjordânia. Que impacto isso tem na economia e vida dos palestinos?

Jerusalém ainda é a cidade com a maior renda per capita e com a maior receita entre as cidades palestinas, inclusive Ramallah. Pessoas vivendo em Jerusalém que acham emprego em Israel, e muitas delas trabalham em Jerusalém Oeste e servem israelenses no seu trabalho, ganham a média de renda israelense, que é muito maior do que o valor na Cisjordânia. Eles têm, portanto, uma renda per capita alta, mas quando fazem suas compras, pagam preços israelenses. Ainda que Jerusalém tenha média de valores de salário maior do que qualquer lugar em Gaza ou na Cisjordânia, de acordo com os padrões israelenses, mais de 70% dos palestinos estão abaixo da linha de pobreza. Então é a cidade mais rica se você a olha como uma cidade palestina, mas é a cidade mais pobre se você a olha como uma cidade israelense.

A única forma que as pessoas de Jerusalém Leste têm de sobreviver é o fato de poderem usar a habilidade de estar na fronteira, de ter um cartão de identidade azul especial, que os trata como residentes, mas não cidadãos israelenses. Isso lhes dá a possibilidade de se moverem dentro de Israel. Podem andar também dentro da Cisjordânia. Por causa disso, podem ir a Ramallah ou a Belém, comprar por preços mais baratos e depois ir a Jerusalém Oeste para ganhar algum dinheiro. E se eles precisam de um hospital, vão ao Augusta Victoria, um hospital dentro de Jerusalém Leste que lhes dá um tratamento mais barato. Se precisam de serviços de bem-estar social, vão à Jerusalém Oeste, pois estão dentro do sistema israelense de assistência social. Que fique claro: esse não é um sistema oficial. E não quer dizer que são ricos ou que sua média de qualidade de vida seja melhor do que a da elite de Ramallah.


Como o Muro afeta a vida dos palestinos em Jerusalém?

O que o Muro está fazendo é tornar difícil aos palestinos de Jerusalém Leste fazer esse jogo de sobrevivência. Agora, se quiserem ir fazer compras em Ramallah, têm que esperar no posto de controle por horas. Mesmo que passem, esperam por horas. Se quiserem ir ao hospital, têm que esperar. Se quiserem mandar os filhos à escola, há um problema dependendo de que lado do Muro estão. Eles tentam superar as dificuldades que o Muro traz, mas é possível ver como ele está destruindo o padrão de vida. Por exemplo, muitos palestinos estão mudando-se para o lado oeste do Muro para que continuem a ter acesso a seus trabalhos, escolas, à assistência social. Eu fiz um estudo sobre os impactos econômicos do Muro na vida dos palestinos de Jerusalém Leste especificamente e estimei os custos, por danos, em 200 milhões de dólares por ano. 

Uma outra questão  é a substituição da mão-de-obra palestina dentro de Israel. Como isso ocorreu e as consequências até  hoje?

Em 1991, tivemos o primeiro fechamento da Cisjordânia por causa da guerra do Iraque. Muitos palestinos apoiavam Saddam Hussein, então Israel os puniu por sua posição política. Oslo começa logo em seguida, em 1994, e (Shimon) Peres, na equipe de negociação, pensava que podia usar os palestinos como trabalho barato, usá-los em um modelo neocolonial de exploração. Mas no meio das negociações, (Ytzhak) Rabin, o primeiro-ministro, interveio e disse ‘não gosto nem um pouco dessa direção. Quero separação’. E ele substituiu o negociador do lado israelense, removeu o homem de negócios e trouxe generais para centrar em questões de segurança. Então falavam de fechamento o tempo todo, o que é uma violação dos Acordos de Paris (1973), assinados entre Israel e os palestinos. Isso provocou uma grande separação entre o mercado israelense e a mão-de-obra palestina.

É importante entender que o setor de construção israelense veio a ficar extremamente dependente da mão-de-obra barata palestina. Em Israel, pensavam ‘por que comprar máquinas quando gasto menos com mão-de-obra?’. Havia um sistema de trabalho barato na construção e na agricultura. Quando o fechamento veio, empresas começaram a fazer lobby no governo, dizendo ‘precisamos de mais trabalhadores baratos, o que vocês vão fazer?’. O governo então deu permissões para que importassem trabalhadores migrantes de países não-árabes e não-muçulmanos. Mas o problema é que nem o governo e nem os chefes das empresas queriam pagar o custo da vinda desses trabalhadores das Filipinas ou da Tailândia. O que eles fazem é deduzir do salário do trabalhador o valor gasto com a vinda. Isso acontece até hoje. Esses trabalhadores chegam a Israel e em um primeiro momento, que pode levar meses, trabalham para o dono e não ganham qualquer dinheiro.


Não há  qualquer direito para eles?

Não, muito poucos. O que aconteceu em certo momento é que a prefeitura de Tel Aviv organizou um sistema de assistência social de emergência. Fizeram isso porque de outra forma haveria uma crise. Na verdade, oficialmente, eles têm direitos. Mas ninguém os informa deles, muito menos seus empregadores. Pode até ser que depois de algum tempo ele tome contato com organizações de direitos humanos ou de trabalhadores, mas depois desse ponto, em que ele já pagou o que “devia” a seu empregador pelo custo de sua vinda, ele é despedido. O dono da empresa traz um outro trabalhador com a mesma permissão dada pelo governo de Israel. Aquele que foi demitido permanece em Israel ilegalmente, pois quer ganhar dinheiro, ajudar suas famílias. Então temos a seguinte situação: o máximo de trabalhadores palestinos permitidos dentro de Israel é de 120 mil. Agora, por esse sistema, temos cerca de 300 mil trabalhadores imigrantes de fora. Hoje, são menos, pois a polícia os deporta. Mas o auge foi em 2002.

Quando Sharon virou o primeiro-ministro e Netanyahu o ministro das Finanças, começaram a se livrar deles. O que a polícia está fazendo é ir a lojas durante o Natal. Se vê que há uma pessoa comprando enfeites, pede documentos ou se vê alguém negro ou pessoa com aparência asiática do leste, também. É triste ir ao sul de Tel Aviv e ver que durante no final do ano as pessoas ficam com medo de entrar nas lojas e celebrar o Natal, pois vão se expor. 
Opera Mundi

20 de mai. de 2010

O círculo vicioso de dívida e depressão - É uma guerra de classe

por Ismael Hossein-Zadeh [*]

Nunca antes tantas dívidas foram impostas a tantas pessoas por tão poucos operadores financeiros – operadores que agem a partir da Wall Street, o maior cassino na história, e de um punhado de contrapartes menores ao redor do mundo, especialmente na Europa.

A dívida externa soberana e os seus incumprimentos ocasionais não são sem precedentes [1] . O que é, ao contrário, único no caso da atual dívida externa soberana é que ela é composta majoritariamente de dívidas privadas contabilizadas como dívida pública; isto é, dívida que foi acumulada por especuladores financeiros e, então, descarregada sobre os governos para que fosse paga pelos contribuintes como dívida nacional. Tendo assim socorrido "banksters" insolventes, muitos governos ficaram eles mesmos insolventes ou quase, e estão pedindo ao público que economize pão e manteiga para pagar uma dívida que não é da sua responsabilidade.

Após transferirem milhões de milhões de dólares de dívida podre ou ativos tóxicos da contabilidade dos especuladores financeiros para a dos governos, os magnatas financeiros globais, seus representantes no aparelho de Estado e a mídia corporativa, agora acusam o gasto social (na realidade, o povo) de ser o responsável pela dívida e pelo déficit!

O recente motto do presidente Obama de "responsabilidade fiscal" e suas freqüentes reclamações sobre "gastos governamentais fora de controle" são reflexos desta estratégia insidiosa de culpar as vítimas pelos crimes dos algozes. Também refletem o fato de que os poderosos interesses financeiros que receberam milhões de milhões de dólares dos contribuintes, que os salvaram da bancarrota, estão agora ditando estratégias de arrecadação através das quais os governos podem recuperar dos contribuintes esses dólares. Na realidade, os governos e instituições multilaterais como o FMI estão atuando como oficiais de justiça ou coletores de impostos a favor dos "banksters" e de outros magos das finanças.

Não somente isto é injusto (é, na verdade, equivalente ao roubo, e portanto criminoso) mas também provoca recessão, na medida em que pode aumentar o desemprego e minar o crescimento da economia. É reminiscência da notória política econômica do presidente Herbert Hoover de cortar gastos durante uma recessão, uma política fiscal contraditória condenada a piorar a recessão. É, na verdade, a receita para um círculo vicioso de dívida e depressão: à medida em que os gastos são cortados para pagar as dívidas, a economia e (portanto) a receita advinda dos impostos encolhe, o que então aumenta a dívida e o déficit, o que levará a mais cortes!

Gastos em infra-estrutura nacional, tanto física (como estradas e escolas) e infra-estrutura social (como saúde e educação) são a chave do desenvolvimento socioeconômico de longo prazo. Cortar gastos públicos para pagar pelos pecados dos jogadores da Wall Street é minar a saúde de uma sociedade no longo prazo em termos de incentivos à produtividade e crescimento sustentado.

Mas os poderosos interesses financeiros e seus cobradores de dívidas parecem estar mais interessados em cobrar dívidas que investir na recuperação econômica, criação de empregos ou desenvolvimento socioeconômico de longo prazo. Como muitas agências de cobranças de dívidas, o FMI e os estados que servem de agentes dos "banksters" através de seus programas de austeridade poderiam chorar algumas lágrimas de crocodilo por simpatia às vítimas de suas políticas de austeridade; mas, novamente como quaisquer outros agentes de cobrança de dívidas, eles parecem estar dizendo: "lamentamos pela perda de seu emprego ou de sua casa, mas as dívidas devem ser cobradas – de qualquer maneira"!

Um aspecto ainda mais ultrajante do ônus da dívida colocado nas costas dos contribuintes desde 2008 é que a maior parte das alegações ocultas de dívidas são fictícias e ilegítimas: devem-se em grande parte a bolhas de preços de ativos manipuladas, especulações dúbias ou ilegais, e à escandalosa conversão de perdas financeiras de apostadores em passivos públicos.

Como foi notado antes, medidas onerosas de austeridade que forcem o público a pagar uma dívida externa em grande parte fraudulenta não são novas. Chamando benignamente essas medidas opressivas de "Programas de Ajuste Estrutural", o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial as têm por décadas imposto a muitos países menos desenvolvidos para cobrar dívidas em nome dos titãs financeiros internacionais.

Para "ajudar" as nações devedoras a criar arranjos para o serviço da dívida com credores externos, o FMI impôs severas condições à maneira como elas geriam suas economias – assim como estão agora sendo impostas (em colaboração com banqueiros europeus e americanos) estas políticas de austeridade sobre as nações devedoras na Europa. O propósito principal dessas condições restritivas é desviar ou transferir recursos nacionais do uso interno para credores externos. Isso inclui não somente as medidas de austeridade de cortar gastos sociais e/ou elevar impostos, mas também a privatização de empresas públicas, industriais nacionais, e receitas fiscais futuras.

Chamando essas privatizações a preços de liquidação de "subornização" ("briberization") , o ex-economista chefe do Banco Mundial Joseph Stiglitz revelou (numa entrevista com o renomado repórter investigativo Greg Palast) como os ministros de Finanças e outras autoridades burocráticas dos países devedores atendiam as demandas do Banco para vender suas empresas de eletricidade, água, transporte e comunicação em troca de algum "adoçante" aparentemente irresistível. "Podia-se ver seus olhos arregalados" à perspectiva de comissões de 10% pagas através de contas em bancos suíços simplesmente por terem cortado alguns milhares de milhões no preço de venda dos ativos nacionais. [2] .

Os "programas de ajuste estrutural" do FMI/Banco Mundial/OIC também incluem políticas neoliberais de "liberalização do mercado de capitais". Em teoria, supõe-se que a desregulamentação do mercado de capitais conduza à entrada e investimento de capital estrangeiro, trazendo desta forma industrialização, criação de empregos e expansão econômica. Na prática, todavia, a liberalização financeira freqüentemente leva a mais saída de capital (ou fuga de capitais) do que a entradas. Embora ainda haja entradas de capital, este é nem tanto capital produtivo ou industrial mas capital improdutivo ou especulativo (também conhecido como "hot money"): grandes quantidades de capital que estão constantemente se movendo pelas fronteiras internacionais atrás de oportunidades de especulação em imóveis, moedas ou taxas de juros.

Para atrair capital estrangeiro aos mercados relativamente vulneráveis ou a nações devedoras, o FMI freqüentemente recomenda aumentos drásticos nas taxas de juros. Taxas de juros mais altas, todavia, são tanto anti-desenvolvimentistas quanto prejudiciais ao objetivo do serviço da dívida. Taxas de juros mais altas tendem a destruir o valor das propriedades, desviar recursos financeiros do investimento produtivo e aumentar a carga do serviço da dívida.

Por exemplo, nas Filipinas, que em 1980 adotaram o Programa de Ajuste Estrutural do FMI, "o pagamento de juros como percentual dos gastos totais do governo foi de 7% em 1980 a 28% em 1994. Os gastos de capital, por outro lado, caíram de 26% para 16%". Em contraste, "os vizinhos das Filipinas no Sudeste da Ásia ignoraram as receitas do FMI. Limitaram o serviço da dívida enquanto aumentavam os gastos de capital dos governos para sustentar o crescimento. Não surpreendentemente, eles cresceram de 6% a 10% de 1985 a 1995,..enquanto as Filipinas mal cresceram e ganharam a reputação de ser um mercado fraco que repeliu investidores". [3] .

Uma condição fundamental do "programa de reestruturação do FMI/Banco Mundial/OIC é a liberalização do comércio. O livre comércio sempre foi a bíblia dos economicamente fortes, hipocritamente pregando aos pobres. Ele capacita os fortes a usar seu poder de mercado para ganhos econômicos, perpetuando assim a divisão internacional do trabalho na qual os países tecnologicamente avançados se especializam em produção e exportação de alta tecnologia e produtos de alto valor agregado, enquanto os países menos desenvolvidos estão condenados ao fornecimento de produtos pouco ou nada processados. Não é de surpreender, então, que esta política unilateral de liberalização comercial seja por vezes chamada de "imperialismo de livre mercado".

Aproveitando-se da chamada crise da dívida do Terceiro Mundo, o FMI, o Banco Mundial e a OIC impuseram o livre comércio e outros "programas de ajuste" sobre 70 países em desenvolvimento durante os anos 80 e 90. "Devido a esta liberalização comercial", aponta Walden Bello, membro da Câmara de Deputados das Filipinas e presidente da Coligação pela Liberação das Dívidas, "ganhos em crescimento econômico e redução da pobreza anunciados pelos países em desenvolvimento nos anos 60 e 70 desapareceram nos anos 80 e 90. Em praticamente todos os países estruturalmente ajustados, a liberalização comercial eliminou vastas parcelas da indústria, e países que apresentavam excedente no comércio agrícola tornaram-se países deficitários". Bello aponta ainda, "O número de pobres subiu na América Latina e no Caribe, na Europa Central e Oriental, nos estados árabes e na África subsaariana". Em contraste, na China e no Leste da Ásia, onde o livre comércio neoliberal e outros Programas de Ajuste Estrutural foram rejeitados, ocorreram desenvolvimento econômico significativo e considerável redução da pobreza. [3] .

A atitude dos parasitas financeiros internacionais e de suas agências arrecadadoras como o FMI com relação às conseqüências desastrosas de suas condições de "reestruturação" é instrutiva.

Um funcionário do FMI foi citado como tendo reconhecido que os pacotes de austeridade do Fundo freqüentemente levaram à cobrança de dívidas sem crescimento econômico. Mas ele acrescentou: "o Fundo é um bombeiro, não um carpinteiro, e não se pode esperar que o bombeiro reconstrua a casa só porque a salvou do fogo". Obviamente, o que o "bombeiro" tenta salvar das chamas são as exigências externas de credores, não as economias ou a subsistência dos devedores.

Outro componente do "programa de ajuste" do FMI/Banco Mundial para o serviço da dívida externa é chamado eliminação das "distorções de preço", ou o estabelecimento de "preços baseados no mercado". São termos elaborados e enganadores para elevar os preços de bens essenciais como comida, água e serviços públicos. Também incluem a eliminação de subsídios para a saúde, educação, transporte, moradia e assemelhados; assim como a redução de salários e benefícios para a classe trabalhadora. Na essência , são meios indiretos de tributar os pobres para pagar aos ricos, os credores.

Onde estas medidas de austeridade tornaram as condições de vida intoleráveis para o povo, provocaram o que veio a ser conhecido como os "motins anti-FMI". Os motins contra o FMI são "dolorosamente previsíveis. Quando uma nação está 'derrotada e empobrecida, [o FMI] tira proveito e espreme dela a última gota de sangue. Eles aumentam a pressão até que, finalmente, a caldeira explode', como quando o FMI eliminou os subsídios à comida e ao combustível para os pobres na Indonésia em 1998. A Indonésia explodiu em distúrbios..." [2] . Outros exemplos dos "motins anti-FMI" incluem os protestos bolivianos sobre a elevação dos preços da água e os levantes no Equador contra o aumento dos preços do gás de cozinha. Como os levantamentos contra o FMI e Banco Mundial criam um ambiente econômico inseguro ou incerto, freqüentemente conduzem a um círculo vicioso de fuga de capitais: desindustrialização, desemprego e desintegração sócio-econômica.

Somente quando os distúrbios tenderam a revoluções, os megabancos parasitas e seus coletores de dívidas, o FMI e/ou o Banco Mundial, foram forçados a aceitar condições menos onerosas para o serviço da dívida, ou mesmo o seu repúdio. O povo argentino merece crédito por ter dado um bom exemplo deste tipo de reestruturação da dívida.

No final de 2001 e início de 2002, ele tomou as ruas para protestar contra as crescentes medidas de austeridade impostas por instâncias do FMI e do Banco Mundial. "Manifestações políticas e saques de armazéns rapidamente se espalharam pelo país... O governo declarou estado de sítio, mas a polícia freqüentemente observava os saques 'com as mãos nas costas'. Havia pouco que o governo pudesse fazer. Um dia depois de as demonstrações começarem, o principal ministro econômico, Domingo Cavallo, renunciou; poucos dias depois, o presidente Fernando de la Rua caiu... Na esteira das renúncias, um governo interino apressadamente convocado imediatamente renegou US$ 155 mil milhões da dívida externa da Argentina, o maior incumprimento de dívidas na história". [4] .

A Argentina também desvinculou sua moeda (peso) do dólar dos EUA (que fora vinculada ao dólar em 1991). Após deixar de pagar sua dívida externa e derrubar o vínculo da sua moeda com o dólar, a Argentina desfrutou do mais robusto crescimento econômico no mundo. A reestruturação da dívida a la Argentina, ou seja, o repúdio da dívida, é o que hoje as nações presas na armadilha das dívidas na Europa e em outras partes precisam fazer para se livrarem das cadeias da escravidão por dívidas.

Tendo submetido muitas nações dos países menos desenvolvidos do Sul às suas notórias medidas de austeridade, os cavaleiros das finanças internacionais estão agora se ocupando em aplicar essas medidas de empobrecimento aos países mais desenvolvidos do Norte, especialmente na Europa. Por exemplo, o governo grego nos meses recentes anunciou uma série de cortes em salários e benefícios para a classe trabalhadora, um congelamento de três anos nas pensões e um segundo aumento neste ano nos impostos sobre vendas, assim como no preço do combustível, álcool e tabaco, em troca de um plano de socorro prometido pelo FMI e pelo Banco Central Europeu.

Os requisitos de austeridade dos cobradores de dívidas em vários países do Leste Europeu (como Letônia e Lituânia) foram ainda mais draconianos. Thomas Landon Jr., do The New York Times, reportou recentemente que, ameaçada com a quebra, "a Lituânia cortou os gastos públicos em 30% – incluindo a redução dos salários do setor público entre 20 e 30% e a redução das pensões em 11%... E o governo não parou por aí. Elevou impostos sobre grande número de bens, como produtos farmacêuticos e álcool. Os impostos empresariais se elevaram a 20%, de 15%. O imposto sobre o valor acrescentado subiu a 21%, de 18%" (1 de abril de 2010).

Além destas medidas opressivas terem levado à transferência de 9% do produto interno bruto (eufemisticamente chamado "poupança nacional") das necessidades internas para os cobradores de dívidas, ainda aprofundaram o agravamento da crise econômica: "O desemprego saltou de um dígito só para 14%,– e uma economia já vacilante encolheu 15% no último ano". [ibid]

Na Letônia, outra vítima das finanças predatórias globais, as consequências recessivas das medidas de austeridade impostas pelos credores foram ainda mais devastadoras: "A Letônia experimentou o recorde dos dois piores anos de declínio econômico, perdendo mais de 25% do seu PIB. Projeta-se um encolhimento ainda maior durante a primeira metade deste ano... Com 22% de desemprego... e cortes nos fundos para a educação que causaram um dano de longo prazo, os custos sociais desta trajetórias são igualmente altos" [5] .

Enquanto as crises da dívida das economias européias mais fracas como Grécia, Letônia, Lituânia, Espanha, Portugal e Irlanda atingem estágios críticos de sustentabilidade, as economias relativamente mais fortes da Alemanha, França e Reuni Unido estão também em perigo de crises de endividamento e déficit. Na verdade, de acordo com uma estimativa recente do FMI, mesmo nas economias mais avançadas da Europa a relação dívida/PIB logo se elevará a uma média de 100% [6] .

Naturalmente, os Estados Unidos também estão sobrecarregados com uma montanha de dívidas que rapidamente se aproxima da dimensão do seu produto interno bruto (de quase US$ 13,5 milhões de milhões). Uma diferença fundamental entre os Estados Unidos e outras nações endividadas é que os EUA não estão tão à mercê de seus credores ou do FMI como outras nações. Portanto, pode-se razoavelmente argumentar que, com base no interesse público ou nacional, poderiam embarcar numa política fiscal expansionista, isto é, um pacote de estímulos mais agressivo, que aproveitaria o poder do "governo como empregador de última instância", mais ou menos como Roosevelt fez, criando desta forma empregos, rendimento e crescimento econômico. Isso ainda aumentaria a cobrança de impostos do governo e reduziria a dívida e o déficit.

Julgando-se pelos registros e pelas projeções orçamentárias, todavia, da administração Obama e do Congresso infestado de lobbies essa política fiscal expansionista parece muito improvável. Não somente o grosso da assistência governamental anti-recessão tem sido dedicada ao resgate dos jogadores da Wall Street como também os relativamente pequenos gastos de estímulo têm sido majoritariamente canalizados para os bolsos do setor privado/financeiro – através de programas perdulários e inefetivos como o CARS (programa de estímulo à troca de veículos velhos por veículos com maior eficiência energética), crédito de impostos para novas aquisições de imóveis, incentivos fiscais aos empregadores por contratação, e assemelhados. Isso contrasta fortemente com o que Roosevelt fez nos primeiros anos da Grande Depressão, criando empregos e rendimento direto e imediatamente pelo próprio governo.

Não somente o débil pacote de estímulos logo chegará ao fim como também o governo recentemente impôs um congelamento de três anos em todas as despesas públicas com exceção dos gastos militares e das chamadas subvenções. Na medida em que seu rendimento, junto com sua tradicional parcela de assistência federal, definham, muitos estados (especialmente Califórnia, Florida, Nova Iorque, Arizona, Nevada e Nova Jersey) enfrentam sérias dificuldades financeiras. E quando reduzem ou eliminam serviços essenciais como bibliotecas, museus, parques, escolas, centros de arte e hospitais, e entregam cartas demissão aos seus empregados, as condições recessivas só podem se exacerbar.

As crescentes dificuldades econômicas dos países oprimidos pela dívida não se devem tanto a recursos ausentes ou insuficientes em resultado da distorcida e cruel distribuição desses recursos. Está cada vez ficando mais claro que a maioria trabalhadora ao redor do mundo enfrenta um inimigo comum: uma oligarquia financeira improdutiva que, como parasitas, sugam o sangue econômico do povo trabalhador, simplesmente por negociar ou apostar em declarações de propriedade.

A retificação desta situação desagradável apresenta alternativas cruas: ou os poderosos interesses financeiros, usando o poder do estado, são bem sucedidos em cobrar suas dívidas através do empobrecimento do público; ou o público se cansará desse círculo vicioso de dívida e depressão, e se levantará em protesto – como nos "motins anti-FMI" na Argentina – para repudiar a dívida amplamente fictícia e ilegítima. Isto é naturalmente uma guerra de classes. A questão real é quando o povo trabalhador e outras vítimas do ônus injusto da dívida entenderão a gravidade deste desafio, e se levantarão para a tarefa crítica de se livrarem dos grilhões da dívida e da depressão.

Ainda que o repúdio possa limpar a atual dívida tóxica das economias das sociedades devedoras, ele não prevenirá seu retorno no futuro. A defesa contra tais recorrências requer também que se nacionalizem os bancos e outros intermediários financeiros. Só faz sentido que a poupança nacional seja guardada por gestores públicos democraticamente controlados – e não por bancos privados motivados pelo lucro e não-eleitos.
Notas.
[1] Para um relato abrangente da história das crises e incumprimentos de dívidas soberanas veja, por exemplo, Carmen M. Reinhart and Kenneth S. Rogoff, This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly. Princeton, NJ: Princeton University Press, 2009.
[2] Greg Palast, " The Globalizer Who Came In From the Cold ," gregpalast.com , October 10, 2001.
[3] Walden Bello, " The Poverty Trip – Is Corruption the Cause ," Counter Punch , April 30 – May 2, 2010.
[4] Arthur McEwan, " Economic Debacle in Argentina—The IMF Strikes Again ," Dollars & Sense , March-April 2002.
[5] Mark Weisbrot, " Baltic Countries Show What Greece May Look Forward to If It Follows EC/IMF Advice ," The Guardian Unlimited , April 28, 2010.
[6] Nouriel Roubini, " The Debt Death Trap ," Project Syndicate , April 16, 2010.

[*] Autor de The Political Economy of U.S. Militarism . Leciona economia na Drake University, Des Moines, Iowa.

O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/zadeh05142010.html . Tradução de RMP.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . 

A importância histórica da morte de Martí-115º aniversário de sua gloriosa morte.

FAZENDO abstração dos problemas que hoje angustiam a espécie humana, nossa Pátria teve o privilégio de ser berço de um dos pensadores mais extraordinários que nasceu neste hemisfério: José Martí.

Em, 19 de maio, completa-se o 115º aniversário de sua gloriosa morte.

Não seria possível avaliar a magnitude de sua grandeza sem levar em conta q ue aqueles com os quais escreveu o drama de sua vida também foram figuras extraordinárias, como Antonio Maceo, símbolo perene da firmeza revolucionária que protagonizou o Protesto de Baraguá, e Máximo Gómez, internacionalista dominicano, professor dos combatentes cubanos nas duas guerras pela independência onde participaram. A Revolução Cubana, que ao longo de mais de meio século vem resistindo os ataques do império mais poderoso existente, foi fruto dos ensinamentos daqueles predecessores.

Apesar de que quatro páginas do diário de Martí nunca estiveram ao alcance dos historiadores, o que consta no resto daquele diário pessoal, detalhadamente escrito e outros documentos seus daqueles dias, é mais do que suficiente para conhecer os detalhes do acontecido. Como nas tragédias gregas, foi uma discrepância entre gigantes.

Na véspera de sua morte em combate escreveu a seu íntimo amigo Manuel Mercado: "... já estou todos os dias em perigo de dar minha vida por meu país e por meu dever — já que o entendo e tenho ânimos para realizá-lo — de impedir a tempo com a independência de Cuba que se estendam pelas Antilhas os Estados Unidos e caiam, com essa força mais, sobre nossas terras da América. Quanto fiz até hoje e farei, é para isso. Em silêncio teve ser e como indiretamente, porque há coisas que para consegui-las devem estar ocultas, e de se proclamarem como são, trariam dificuldades muito sérias para conseguir sobre elas o fim".

Quando Martí escreveu estas palavras lapidárias, Karl Marx já tinha escrito O Manifesto Comunista, em 1848, isto é, 47 anos antes da morte de Martí, e Charles Darwin publicara A origem das espécies, em 1859, para citar só duas obras que, na minha opinião, mais influenciaram na história da humanidade.

Marx era um homem tão extraordinariamente desinteresseiro, que seu trabalho científico mais importante, O Capital, talvez jamais se teria publicado se Friedrich Engels não tivesse reunido e organizado os materiais aos quais o autor dedicou sua vida toda. Engels não só se encarregou desta tarefa, mas também foi autor de uma obra intitulada Introdução à dialética da natureza, onde falou do momento em que a energia do nosso sol se esgotaria.

O homem ainda não conhecia como libertar a energia existente na matéria, descrita por Albert Einstein em sua famosa fórmula, nem dispunha de computadores que fazem bilhões de operações por segundo, capazes de reconhecerem e transmitirem, ao mesmo tempo, os bilhões de reações por segundo que têm lugar nas células das dezenas de pares de cromossomos que a mãe e o pai entregam em partes iguais, um fenômeno genético e reprodutivo que conheci depois do triunfo da Revolução, buscando as melhores características para a produção de alimentos de origem animal nas condições do nosso clima, que se estende às plantas, através de suas próprias leis hereditárias.

Com a educação incompleta que os cidadãos de mais recursos recebíamos nas escolas, a maioria privadas, considerados os melhores centros de ensino, tornávamo-nos analfabetos, com um pouco de mais nível que aqueles que não sabiam ler nem escrever ou que frequentavam as escolas públicas.

Por outro lado, o primeiro país do mundo que tentou aplicar as idéias de Marx foi a Rússia, o menos industrializado dos países da Europa.

Lênin, criador da Terceira Internacional, considerava que não havia no mundo organização mais leal às idéias de Marx que a fração bolchevique do Partido Operário Social-Democrata Russo. Embora boa parte daquele imenso país vivesse em condições semifeudais, a classe operária era muito ativa e combativa.

Nos livros que Lênin escreveu depois de 1915 foi crítico incansável do chauvinismo. Em sua obra O imperialismo, fase superior do capitalismo, escrita em abril de 1917, meses antes da tomada do poder como líder da fração bolchevique daquele partido frente a fração menchevique, demonstrou que foi o primeiro em compreender o papel que estavam chamados a desempenhar os países sujeitos ao colonialismo, como a China e outros de grande peso em diversas regiões do mundo.

Por sua vez, a valentia e audácia de que Lênin era capaz foi demonstrada pelo fato de ter aceitado o trem blindado que o exército alemão, por conveniência táctica, lhe proporcionou para transladar-se da Suíça às proximidades de Petrogrado, pelo que os inimigos dentro e fora da fração menchevique do Partido Operário Social-Democrata Russo não tardaram em acusá-lo de espião alemão. De não ter utilizado o famoso trem, o fim da guerra teria surpreendido ele na distante e neutral Suíça, com o qual o minuto ótimo e adequado se teria perdido.

De alguma forma, por puro azar, dois filhos da Espanha, graças a suas qualidades pessoais, passaram a ter um papel relevante na Guerra Hispano-Norte-Americana: o chefe das tropas espanholas na fortificação de El Viso, que defendia o acesso a Santiago da altura de El Caney, um oficial que combateu até ser mortalmente ferido, causando aos famosos Rough Riders — ginetes duros, norte-americanos organizados pelo então tenente-coronel Theodore Roosevelt, que por causa do precipitado desembarque desceram sem seus fogosos cavalos — mais de trezentas baixas, e o almirante que, cumprindo a estúpida ordem do governo espanhol, partiu da baía de Santiago de Cuba com os fuzileiros navais a bordo, uma força seleta, da única maneira possível, que foi desfilar com cada navio, um a um, saindo pelo estreito canal de acesso, tendo em frente à poderosa frota ianque, que com seus encouraçados em linha disparavam com os potentes canhões contra os navios espanhóis, de muito menor velocidade e blindagem. Lógicamente, os navios espanhóis, suas dotações de combate e os fuzileiros navais foram afundados nas profundas águas da fossa de Bartlett. Apenas um desses navioschegou a poucos metros da beira do abismo. Os sobreviventes daquela força foram presos pela esquadra dos Estados Unidos.

A conduta de Martínez Campos foi arrogante e vingativa. Cheio de rancor por seu fracasso na tentativa de pacificar a Ilha, como tinha feito em 1871, apoiou a política ruim e rancorosa do governo espanhol. Valeriano Weyler o substituiu no comando de Cuba; este, com a cooperação dos que enviaram o encouraçado Maine a buscar justificativas para a intervenção em Cuba, decretou a reconcentração da população, que causou enormes sofrimentos ao povo de Cuba e serviu de pretexto aos Estados Unidos para estabelecerem seu primeiro bloqueio econômico, o qual deu lugar a uma enorme escassez de alimentos e provocou a morte de incontáveis pessoas.

Assim se viabilizaram as negociações de Paris, nas que a Espanha abriu mão de todo direito de soberania e propriedade sobre Cuba, depois de mais de 400 anos de ocupação em nome do Rei da Espanha, em meados de outubro de 1492, após afirmar Cristóvão Colombo: "esta é a terra mais formosa que olhos humanos viram".

A versão espanhola da batalha que decidiu a sorte de Santiago de Cuba é a mais conhecida, e sem dúvida houve heroísmo se é analisado o número e a patente dos oficiais e soldados que, numa situação muito desvantajosa, defenderam a cidade, honrando a tradição de luta dos espanhóis, que defenderam seu país dos aguerridos soldados de Napoleão Bonaparte, em 1808, ou a República Espanhola contra a investida nazi-fascista, em 1936.

No ano de 1906, uma ignomínia adicional caiu sobre o comitê norueguês que outorga os prêmios Nobel, ao buscar ridículos pretextos para conceder essa honra a Theodore Roosevelt, eleito duas vezes presidente dos Estados Unidos, em 1901 e 1905. Nem sequer era clara sua verdadeira participação nos combates de Santiago de Cuba à frente dos Rough Riders, e pôde ter muito de lenda a publicidade que recebeu posteriormente.

Eu apenas posso testemunhar a forma em que essa heróica cidade caiu nas mãos das forças do Exército Rebelde, em 1º janeiro de 1959.

Então, as ideias de Martí triunfaram em nossa Pátria!
Fidel Castro Ruz
18 de maio de 2010
18h12. 

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