19 de jan. de 2012

Televisão: fábrica de mais-valia ideológica

Palavras Insurgentes - [Elaine Tavares] A televisão é uma usina ideológica. Gera milhares de megawatts de ideologia a cada programa, por mais inocente que pareça ser.

E ideologia como definiu Marx: encobrimento da realidade, engano, ilusão, falsa consciência. Então, se considerarmos que a maioria da população latino-americana, aí incluída a brasileira, se informa e se forma através desse veículo, pensá-la e analisá-la deveria ser tarefa intelectual de todo aquele que pensa o mundo. Afinal, como bem afirma Chomsky, no seu clássico "Os Guardiões da Liberdade", os meios atuam como sistema de transmissão de mensagens e símbolos para o cidadão médio. "Sua função é de divertir, entreter e informar, assim como inculcar nos indivíduos os valores, crenças e códigos de comportamento que lhes farão integrar-se nas estruturas institucionais da sociedade". Não é sem razão que bordões, modas e gírias penetram nas gentes de tal forma que a reprodução é imediata e sistemática.

Um termômetro dessa usina é a famosa "novela das oito", que consolidou um lugar no imaginário popular desde os anos 60, com a extinta Tupi, foi recuperado com maestria pela Globo e vem se repetindo nos demais canais. O horário nobre é usado pela teledramaturgia para repassar os valores que interessam à classe dominante, funcionando como uma sistemática propaganda que visa a manutenção do estado de coisas. É clássica, nos folhetins, a eterna disputa entre o bem e o mal, o pobre e o rico, com clara vinculação entre o bem e o rico. Sempre há um empresário bondoso, uma empresária generosa, um fazendeiro de grande coração, que são os protagonistas. E, se a figura principal começa a novela como pobre é certo que, por sua natural bondade, chegará ao final como uma pessoa rica e bem sucedida, porque o que fica implícito que o bem está colado à riqueza, vide a Griselda de Fina Estampa, a novela da vez.

Outro elemento bastante comum nas novelas é o da beleza da submissão. Como os protagonistas são sempre pessoas ricas, eles estão obviamente cercados dos serviçais, que, no mais das vezes os amam e são muito "bem-tratados" pelos patrões. Logo, por conta disso, agem como fiéis cães de guarda. Um desses exemplos pode ser visto atualmente na novela global. É o empregado-amigo (?) da vilã Tereza Cristina. Ele atua na casa da milionária como um mordomo, cúmplice, saco de pancadas, dependendo do humor da mulher. Ora ela lhe conta os dramas, ora lhe bate na cara, ora lhe ameaça tirar tudo o que já lhe deu. E ele, premido pela necessidade, suporta tudo, lambendo-lhe as mãos como um cachorrinho amestrado. Tudo é tão sutil que não há quem não se sinta encantado pelo personagem. Ele provoca o riso e a condescendência, até porque ainda é retratado de forma caricata como um homossexual cheio de maneios, trejeitos e extremamente servil.

Mas, se o servilismo de Crô pode ser questionado pela profunda afetação, outros há que aparecem ainda mais sutis. É o caso da turma da praia que, na pobreza, hostilizava Griselda e, agora, depois que ela ficou rica, passou para o seu lado, vindo inclusive trabalhar com a faz-tudo, assumindo de imediato a postura de defensores e amigos fiéis. Ou ainda a relação dos demais trabalhadores com os patrões "bonzinhos", como é o caso do Paulo, o Juan, o homem da barraquinha de sucos, e o Renê. Todos são "amigos" e fazem os maiores sacrifícios pelos patrões, reforçando a ideia de que é possível existir essa linda conciliação de classe na vida real. O grupo que atua com o cozinheiro Renê, por exemplo, foi demitido pela vilã, não recebeu os salários, viveu de brisa por um tempo e retomou o trabalho com o antigo chefe por pura bem-querença. Coisa de chorar.

Nesses folhetins também os preconceitos que interessam aos dominantes acabam reforçados sob a faceta de "promoção da democracia". O negro já não aparece apenas como bandido, mas segue sendo subalterno. No geral faz parte do núcleo pobre, mas é generoso e sabe qual é o "seu lugar". É o caso do ético funcionário da loja de motos. Um bom rapaz, que, no máximo, pode chegar a gerente da loja. As pessoas que discutem uma forma alternativa de viver aparecem como gente "sem-noção", no mais das vezes caricaturada, como é o caso da garota que prevê o futuro, a mulher negra que era bruxa, o rapaz que brinca com fogo ou os donos da pousada que em nada se diferem de empresários comuns, a não ser nas roupas exotéricas. Ou o personagem do Zé Mayer, numa antiga novela, que via discos voadores, não aceitava vender suas terras e, no final, "fica bom", entregando sua propriedade para a empresária boazinha que era dona de uma papeleira. Os homossexuais também encontram espaço nas novelas, dentro da lógica da "democratização", mas continuam sendo retratados de forma folclórica, como é o caso do Crô, na novela das oito, ou do transexual da novela das sete. Já o índio, como é invisível na vida real, tampouco tem vez nas tramas novelistas e quando tem, como a novela protagonizada por Cléo Pires, vem de forma folclórica e desconectada da vida real. E assim vai...

Gente há que fica indignada com os modelos que as telenovelas reproduzem ano após ano, mas essa é realidade real. Os folhetins nada mais fazem do que reforçar as relações de produção consolidadas pelo sistema capitalista. Até porque são financiados pelo capital, fazendo acontecer aquilo que Ludovico Silva chama de "mais-valia ideológica". Ou seja, a pessoa que está em casa a desfrutar de uma novela, na verdade segue muito bem atada ao sistema de produção dessa sociedade, consumindo não só os produtos que desfilam sob seu olhar atento, enquanto aguardam o programa favorito, mas também os valores que confirmam e afirmam a sociedade atual. Prisioneira, a pessoa permanece em estado de "produção", sempre a serviço da classe dominante. Assim, diante da TV – e sem um olhar crítico - as pessoas não descansam, nem desfrutam.

É certo que a televisão e os grandes meios não definem as coisas de forma automática. Como bem já explicou Adelmo Genro, na sua teoria marxista do jornalismo, os meios de comunicação também carregam dentro deles a contradição e vez ou outra isso se explicita, abrindo chance para a visão crítica. Momentos há em que os estereótipos aparecem de maneira tão ridícula que provocam o contrário do que se pretendia ou personagens adquirem tanta força que provocam um explodir da consciência. E, nesses lampejos, as pessoas vão fazendo as análises e podem refletir criticamente. Mas, de qualquer forma, esses momentos não são frequentes nem sistemáticos, o que só confirma a função de fabricação de consenso que é reservada aos meios. Um caso interessante é o do transexual que está sendo retratado na novela da Record, que passa às dez horas. "Dona Augusta" é nascida homem e se faz mulher, sem a folclorização do que é retratado na Globo. É "descoberta" pelo filho que a interna como louca. Toda a discussão do tema é muito bem feita pelos autores, sem estereótipos, sem falsa moral. Mas, é a TV dos bispos evangélicos, que, por sua vez, na vida real pregam a homossexualidade como "doença". São as contradições.

De qualquer sorte, a teledramaturgia brasileira deveria ser bem melhor acompanhada pelos sindicatos e movimentos sociais. E cada um dos personagens deveria ser analisado naquilo que carrega de ideologia. Não para ensinar aos que "não sabem", mas para dialogar com aqueles que acabam capturados pelo véu do engano. Assim como se deve falar do que silencia nos meios, o que não aparece, o que não se explicita, também é necessário discutir sobre o que é inculcado, dia após dia, como a melhor maneira de se viver. Pois é nesse entremeio de coisas ditas, malditas e não ditas, que o sistema segue fabricando o consenso, sempre a favor da classe dominante.

Elaine Tavares é jornalista.

Fonte: Diário Liberdade

18 de jan. de 2012

Copa do Mundo 2014: ''O Estado paga a conta e a iniciativa privada fica com o lucro''

IHU - Entrevista especial com Marcos Alvito, presidente da Associação Nacional dos Torcedores e Torcedoras.
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Com o objetivo principal de barrar o processo de eletização que está em curso no futebol brasileiro, a Associação Nacional dos Torcedores e Torcedoras – ANT critica a construção de novos estádios para sediar a Copa do Mundo em 2014 e os acordos estabelecidos entre o governo brasileiro e a FIFA. Para o presidente da ANT, Marcos Alvito, a construção de novos estádios de futebol tem como finalidade "receber um consumidor passivo, que vai ao estádio apenas para assistir". Em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone, Alvito esclarece que "o marco deste processo aconteceu há seis anos, com a reforma do Maracanã, quando o clube terminou com a torcida da geral. Ao terminar com a geral, deixaram de lado uma cultura carnavalesca, lúdica e de expressão no futebol".

Em sua avaliação, a Copa do Mundo não trará benefícios para o país, pois novos estádios serão construídos em estados em que não há tradição futebolística regional, como Brasília, Cuiabá e Manaus, e posteriormente serão vendidos para a iniciativa privada. Além disso, ressalta, comunidades que vivem há mais de 30 anos em um mesmo local serão removidas "por causa da especulação imobiliária". "O governo brasileiro irá arcar com todos os gastos para a realização da Copa do Mundo, enquanto a FIFA irá vender os ingressos, os patrocínios para a televisão. Nem a FIFA nem a iniciativa privada estão contribuindo financeiramente para a realização das obras de infraestrutura. Esses estádios não irão se pagar", destaca.

Marcos Alvito é graduado em História pela Universidade Federal Fluminense – UFF e doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor do Departamento de História da UFF e coordenador da revista digital Esporte e Sociedade, fundada em novembro de 2005.

IHU On-Line – O que é a Associação Nacional dos Torcedores e Torcedoras – ANT e como ela se posiciona diante da Copa do Mundo?

Marcos Alvito – A ANT foi criada em 10-10-2010. Fundamos a Associação em frente ao Maracanã fechado para as obras da Copa e temos sete objetivos. Entre eles está homenagear o Garrincha. Também propomos transformar as escolinhas de futebol dos grandes clubes em escolas profissionalizantes, a fim de que suas crianças sejam preparadas para algo mais do que jogar futebol, já que 80% deles não serão jogadores deste esporte.

O objetivo principal da ANT é barrar o processo de eletização que está em curso no futebol brasileiro. Calculei que, para uma família de quatro pessoas ir ao Engenhão uma vez por mês, pagar as passagens de ônibus e comprar uma água e um pastel para cada um, gastaria em torno de 143 reais.

Além do alto valor dos ingressos, as áreas populares dos estádios estão sendo sistematicamente destruídas. O torcedor gosta de ter espaço para torcer, ele não gosta de ficar preso a uma cadeira. O conceito de estádio não é o mesmo de um teatro: torcer não é assistir. O torcedor precisa se emocionar, ficar em pé, vibrar, se movimentar, cantar, xingar e ter uma liberdade que efetivamente está sendo polida. Estão tentando transformar o futebol em um teatro para os ricos. Nesse sentido, a ANT visa defender o direito do torcedor na manutenção da cultura do futebol. O torcedor não se importa com o conforto, com cadeiras. Ele quer segurança, um tratamento descente, transporte público adequado.

Quando acontece um show musical, por exemplo, disponibiliza-se um sistema de transporte especial; mas não é disponibilizado transporte para 30, 40 mil pessoas irem ao estádio. Pelo contrário, algumas empresas até diminuem os horários dos ônibus. O torcedor não é tratado dignamente e depois ainda temos de ouvir essa conversa de que o torcedor quer conforto, poltronas, camarote, quando na verdade ele quer apenas acesso ao estádio, direito de torcer, de levar bandeiras. Em estádios como o do Atlético Paranaense, o torcedor não pode mais levar a faixa e se manifestar.

Já que os estádios da Copa estão sendo construídos com dinheiro público, sugerimos que 30% dos ingressos sejam reservados para ingressos populares. É preciso definir quem terá acesso a isso. Aquelas pessoas que recebem Bolsa Família, por exemplo, poderiam ter direito a esses ingressos. Hoje, o futebol, que foi feito pelo povo brasileiro, está restrito à classe média, que tem condições de pagar de 30 a 40 reais para ir ao estádio.

IHU On-Line – A que atribui essa eletização do futebol? Desde quando esse processo está em curso no país?

Marcos Alvito – Esse processo começou na Inglaterra, quando aconteceu um acidente em um estádio por causa da concentração de torcedores em frente a uma grade muito forte, que não cedeu, e vários torcedores morreram esmagados.

Depois desse ocorrido, a pessoa encarregada de fazer a investigação do caso sugeriu que não houvesse grades nos estádios, que tivesse espaço para as pessoas sentarem e que fossem adotadas medidas para não haver superlotação. Os clubes pegaram dinheiro com o governo inglês, modificaram os estádios, colocaram cadeiras, mas aproveitaram para aumentar o preço dos ingressos. Os ingleses, portanto, resolveram mudar de clientela.

No Brasil, há muito tempo o maior recurso dos clubes não é proveniente da venda de ingressos, quer dizer, os ingressos não chegam a 20% dos recursos dos clubes. Esses recursos são provenientes dos patrocínios, da televisão, da venda de jogadores. Então, já que o ingresso não pesa tanto no orçamento, os clubes preferem mudar a clientela. Em vez de terem um torcedor, preferem ter um consumidor. O marco desse processo aconteceu há seis anos com a reforma do Maracanã, quando o clube terminou com a torcida da geral. Ao terminar com a geral, deixaram de lado uma cultura carnavalesca, lúdica e de expressão no futebol.

Os estádios estão se transformando em um estúdio de televisão, a exemplo do Engenhão, que é bonito, mas tem um campo com dimensões reduzidas, uma pista de atletismo, o que torna o estádio frio e é todo vazado. Então, as torcidas gritam e não reverberam o grito; não se cria um ambiente de estádio de futebol. Os torcedores que ficam atrás do gol, na área mais popular e emocionante, não conseguem ver a linha do gol e tampouco a bola entrar na goleira. Quem fica na lateral do estádio tem a visão prejudicada por causa das placas publicitárias.

IHU On-Line – Quais são os principais equívocos e acertos em torno das obras da copa?

Marcos Alvito – O primeiro equívoco foi o acordo político feito à época do governo Lula no que se refere ao aumento de sedes, de 8 para 12 estádios. O Brasil não tem 12 grandes centros futebolísticos. Sabemos que Cuiabá, Manaus e Brasília, por exemplo, não são centros esportivos para futebol. Serão construídos estádios em lugares onde os campeonatos regionais praticamente inexistem. Então, construir arenas nessas regiões é como jogar dinheiro fora. Esse acordo foi feito, obviamente, para atender a acordos políticos do governo no sentido de costurar alianças políticas. A negociação política foi tão forte, que a seleção brasileira provavelmente não irá jogar no Maracanã, a menos que ela chegue à final. Mas, pelo jeito, a final da Copa vai ser disputada entre Espanha e outro time.

Além do mais, a construção de estádios nessas regiões não irá transformar a realidade local. A manutenção desses estádios é grande, de praticamente 10% do valor do estádio ao ano. Não acredito que esse dinheiro esteja sendo utilizado de forma correta. As obras em torno do Maracanã, por exemplo, já foram suspensas porque havia um superfaturamento de 90 bilhões de reais. Obviamente, se considerarmos o fato divulgado pelo jornal Folha de S.Paulo, de que 54% dos parlamentares brasileiros foram financiados por empreiteiras, basta juntar 2+2 para entender o que está acontecendo: somente a Odebrecht tem obras no valor de 2,5 bilhões de reais ligados a obras da Copa do Mundo. O BNDES, por exemplo, vai gastar sete bilhões com a construção de novos estádios.

Recentemente, dois jornalistas marxistas, que trabalham no Financial Times, disseram que não vale a pena um país como o Brasil sediar grandes eventos porque eles não são suficientes para pagar as contas geradas. Esses estádios que estão sendo construídos não têm alma. Eles são estúdios e são construídos dentro desta perspectiva de receber um consumidor passivo, que vai ao estádio apenas para assistir. São estádios eletizados, com muitas áreas vips, quando, na verdade, vip, no futebol, deveria ser o povo, que criou esse esporte.

IHU On-Line – Os defensores da Copa do Mundo dizem que os gastos serão elevados, mas que o retorno será positivo. Como é feita essa conta para saber se vale a pena sediar uma Copa do Mundo?

Marcos Alvito – A conta é simples: o governo brasileiro irá arcar com todos os gastos para a realização da Copa do Mundo, enquanto a FIFA irá vender os ingressos, os patrocínios para a televisão. Nem a FIFA nem a iniciativa privada estão contribuindo financeiramente para a realização das obras de infraestrutura. Esses estádios não irão se pagar. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, já anunciou que irá privatizar o Maracanã antes da Copa das Confederações, ou seja, o Estado vai gastar um bilhão na reforma do Maracanã e depois vai entregá-lo para a iniciativa privada, e diz que o modelo vai ser o do Engenhão.

Só para você ter uma ideia, o Engenhão custou 400 milhões de reais, e o Botafogo paga 33 mil reais por mês de aluguel pelo estádio. Pagando essa quantia de aluguel por mês, demoraria 88 anos para esse clube pagar o Engenhão. É isso que vai acontecer com o Maracanã e com os outros. O Estado entra com o prejuízo. Esse é o modelo brasileiro de desenvolvimento: o Estado paga a conta e a iniciativa privada fica com o lucro.

Em nome da Copa, 123 comunidades estão sendo removidas por causa da especulação imobiliária. O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, vai construir todos os equipamentos olímpicos na Barra da Tijuca, uma região "carente" de infraestrutura. Ele já foi subprefeito da Barra, e os dez maiores financiadores de campanha dele, segundo o jornal O Globo, são empresas ligadas à construção imobiliária. Esses megaeventos alavancam grandes negócios para a iniciativa privada em detrimento de quem?

IHU On-Line – Seria possível realizar a Copa no país sem construir novos estádios?

Marcos Alvito – Se o Brasil optasse por ter oito sedes, em vez de doze, seria possível reduzir a despesa. Não entendo como o Engenhão, por exemplo, foi construído e não está em condições de abrir um jogo de Copa do Mundo.

A França não construiu estádio nenhum, nem a Alemanha. Na Alemanha, os ingressos são relativamente baratos. Custam basicamente o mesmo valor que no Brasil, mas o poder aquisitivo alemão é muito maior. A segunda divisão da Alemanha tem uma média de público maior do que a do Campeonato Brasileiro. Os estádios têm áreas para as pessoas ficarem em pé, porque isso faz parte da tradição deles. Em 2006, quando a Copa do Mundo aconteceu na Alemanha, a FIFA disse que todas as pessoas precisavam ficar sentadas nos estádios. Você acha que eles demoliram o estádio ou reformaram? Colocaram cadeiras. Isso aconteceu na Alemanha, "um país pobre", "subdesenvolvido", "com dificuldades financeiras". Mas já um país "rico" como o Brasil, coloca o Maracanã abaixo e gasta um bilhão de reais. É óbvio que isso poderia ser feito de outra maneira; o governo poderia negociar com a FIFA. Mas o governo brasileiro não negociou porque queria a Copa, tanto que o Brasil não disputou a Copa do Mundo com ninguém. Mas por que não disputou? Nós não nos perguntamos, porque somos muito patriotas, principalmente quando se trata de futebol.

A FIFA queria fazer a Copa do Mundo na América do Sul, mas por que a Argentina, Uruguai e Chile não quiseram? Porque houve um acordo. Mas qual é o preço deste acordo para que não exista nenhuma contestação? O governo Lula queria garantir a Copa aqui, então, topou fazer uma "Copa de arrebentar". Mas agora, o governo Dilma está vendo que essa é uma conta alta. A negociação deveria ter sido feita antes.

IHU On-Line – Quantas comunidades, apenas no Rio de Janeiro, já foram e serão removidas de suas moradias para que estádios sejam construídos?

Marcos Alvito – A prefeitura do Rio de Janeiro está removendo comunidades de algumas regiões e as indenizando com um valor de oito mil reais, que é a metade do preço do metro quadrado no Leblon. Serão removidas 123 comunidades só no Rio de Janeiro. Algumas moram há 30, 40 anos no mesmo local e terão de sair para dar espaço aos novos estacionamentos do Maracanã.

IHU On-Line – As próximas copas serão no Brasil, na Rússia e no Catar. O que estes países têm em comum? A escolha desses países para sediar as próximas Copas foi proposital?

Marcos Alvito – Esses são países que topam tudo por uma Copa do Mundo no intuito de se firmar no cenário mundial. Eles farão tudo que a FIFA quiser. Não são países como a França e a Alemanha, que não aceitaram construir estádios novos. Os alemães aceitaram vender a cerveja que a FIFA escolheu, mas também venderam a cerveja deles. No Brasil isso não vai acontecer.

A Copa é um processo bastante autoritário para as camadas populares. Ela tem significado um Estado de exceção: o Estado passa por cima das próprias normas e leis em nome de uma situação especial, de um megaevento; ele cria uma situação para que todos concordem.

Brasil, Rússia e Catar são países que irão liberar os gastos, pois eles têm essa ideia de que é preciso se afirmar diante de um cenário mundial, precisam mostrar que são capazes de organizar um evento de tal magnitude. No Brasil, a oposição à Copa é tardia, e já é quase impossível barrar algumas decisões. Mas imagina se na Rússia tem oposição. Lá, se alguém manifestar posição contrária, toma tiro. No Catar, se tem oposição o sujeito guarda para si, porque não tem condição de se manifestar, mas somente fazendo uma revolta geral. Esses são países que vão engolir o pacote FIFA sem grandes problemas, sem grandes questionamentos. Está havendo um questionamento pequeno no Brasil, mas, no final das contas, os deputados estão aprovando o projeto da FIFA.

IHU On-Line – Como vê as manifestações dos torcedores em relação à Copa do Mundo? O fato de o futebol ser uma paixão nacional dificulta a divulgação das críticas e mesmo a participação popular nos protestos ou, pelo contrário, isso favorece oposições à forma como os processos estão sendo conduzidos?

Marcos Alvito – Não é que a paixão dificulte. Ela até ajuda na medida em que torna tudo que diz respeito ao futebol uma coisa importante. Entretanto, o futebol mobiliza as pessoas até um determinado ponto. Já fomos a estádios, distribuímos panfletos, fizemos um abaixo-assinado contra o Ricardo Teixeira, por exemplo, e coletamos mais de cinco mil assinaturas. Mas não existe milagre em uma sociedade civil fraca como a brasileira, com baixo nível de participação das camadas populares e médias. Costuma-se dizer que a participação é uma questão meramente de educação formal, mas não é. Costumamos dizer que o povo não participa, que o povo é ignorante, que não sabe dos seus direitos, mas a classe média também não participa e ela não pode alegar esta desculpa. Existe um baixo grau de mobilização, de engajamento. Hoje em dia existe um pseudoengajamento virtual: as pessoas curtem os comentários no Facebook, apoiam as lutas, votam virtualmente, mas não participam na prática. Mesmo havendo uma mobilização entorno do assunto, há uma baixa disposição para que as pessoas participem efetivamente das lutas. No máximo elas estão informadas acerca do assunto.

Sou antropólogo, historiador e percebo que se tem um Estado historicamente muito forte, que surge antes da nação. Quando a nação foi formada, o Estado já estava em cima dela, controlando-a ou querendo construir a nação segundo o seu interesse. Isso se reflete também nesta luta do futebol. Não se trata mais da importância da luta, não se trata mais de conhecimento ou desconhecimento. Trata-se de uma questão de disposição para lutar e para participar. A democracia contemporânea produz apatia, e as pessoas pensam que participam do processo político quando votam. Em termos de mobilização de massa existe uma apatia; o movimento estudantil não tomou isso para si, nem os sindicatos.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Marcos Alvito – A ANT está lutando e já estamos elaborando um abaixo-assinado pedindo para a Justiça apressar as investigações em torno de Ricardo Teixeira. O abaixo-assinado pode ser assinado na internet pelo site www.torcedores.org.

FONTE: Diário Liberdade


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15 de jan. de 2012

O NOME DA ROSA (VERMELHA)

A Comuna - Na noite de 15 de janeiro de 1919, em Berlim, foi detida Rosa Luxemburgo: uma mulher indefesa de cabelos grisalhos, enrugada e exausta. Uma mulher velha, que aparentava muito mais que os 48 anos que tinha.

Um dos soldados que a rodeavam, obrigou-a a seguir aos empurrões, e a multidão burlona e cheia de ódio que se amontoava no vestíbulo do Hotel Eden saudou-a com insultos. Ela ergueu sua face diante da multidão e olhou os soldados e os hóspedes do hotel que se mofavam dela com seus olhos negros e orgulhosos. E aqueles homens em seus uniformes desiguais, soldados da nova unidade das tropas de assalto, sentiram-se ofendidos pela olhada desdenhosa e quase compassiva de Rosa Luxemburgo, "a rosa vermelha", "a judia".

Insultaram-na: "Rosinha, aí vem a velha puta". Eles odiavam tudo o que esta mulher representou na Alemanha durante duas décadas: a firme crença na ideia do socialismo, o feminismo, o antimilitarismo e a oposição à guerra, que eles haviam perdido em novembro de 1918. Dias antes, os soldados haviam esmagado o levante dos trabalhadores em Berlim. Agora eles eram os amos. E Rosa os havia desafiado em seu último artigo:

«A ordem reina em Berlim! Ah! Estúpidos e insensatos verdugos! Não vos dais conta de que vossa ordem está levantada sobre a arena. A revolução se erguerá amanhã com sua vitória e o terror assomará nos vossos rostos ao ouvir anunciar com todas suas trompetas: Eu fui, eu sou, eu serei!».

Empurraram-na e golpearam. Rosa levantou-se. Nesse então, quase haviam alcançado a porta traseira do hotel. Fora, esperava um carro cheio de soldados, os quais, segundo haviam-lhe comunicado, conduziriam-na à prisão. Mas um dos soldados foi para cima dela levantando sua arma e golpeou-lhe a cabeça com a culatra. Ela caiu no chão. O soldado lhe desferiu um segundo golpe na têmpora.

O homem chamava-se Runge. O rosto de Rosa Luxemburgo jorrava sangue. Runge obedecia ordens quando golpeou Rosa Luxemburgo. Pouco antes ele havia derrubado Karl Liebknecht com a culatra do seu fuzil. Também a ele haviam-no arrastado pelo vestíbulo do Hotel Eden.

Os soldados levantaram o corpo de Rosa. O sangue brotava da sua boca e do seu nariz. Levaram-na ao veículo. Sentaram Rosa entre dois soldados no assento de trás. Fazia pouco que o carro havia arrancado quando lhe dispararam um tiro a queima roupa. Se pode escutar no hotel.

Na noite de 15 de janeiro de 1919 os homens do corpo de assalto assassinaram Rosa Luxemburgo. Lançaram seu cadáver de uma ponte para o canal. No dia seguinte toda Berlim sabia já que a mulher que nos últimos vinte anos desafiara todos os poderosos e que cativara os assistentes de inumeráveis assembleias, estava morta. Enquanto se buscava o seu cadáver, um Bertold Brecht de 21 anos escrevia:

A Rosa vermelha agora também desapareceu.
Onde se encontra é desconhecido.
Porque ela aos pobres a verdade há dito
Os ricos do mundo a extinguiram.

Poucos meses depois, em 31 de maio de 1919, encontrou-se o corpo de uma mulher junto a uma eclusa do canal. Podia-se reconhecer as luvas de Rosa Luxemburgo, parte de seu vestuário, um brinco de ouro. Mas a cara era irreconhecível, já que o corpo fazia tempo que estava podre. Foi identificada e se a enterrou em 13 de junho.

No ano de 1962, 43 anos depois de sua morte, o Governo Federal alemão declarou que seu assassinato fora uma "execução de acordo com a lei marcial". Faz doze anos que uma investigação oficial concluiu que as tropas de assalto, que haviam recebido ordens e dinheiro dos governantes social-democratas, foram os autores materiais de sua morte e da de Karl Liebknecht.

Rosa Luxemburgo foi assassinada pelas tropas de assalto a serviço da socialdemocracia. Junto com ela morreu seu camarada Karl Liebknecht. Nasceu em 5 de marzo de 1871. Muita gente segue a tradição da Alemanha oriental de assistir à manifestação para recordá-la, seu respeito demonstram-no depositando cravos vermelhos no monumento dedicado a «Rosa Vermelha» e aos socialistas e comunistas que trabalharam por un mundo melhor.

A atualidade do pensamento de Rosa Luxemburgo

"Que extraordinário é o tempo que vivemos", escrevia Rosa Luxemburgo em 1906. "Extraordinário tempo que propõe problemas enormes e espolia o pensamento, que suscita a crítica, a ironia e a profundidade, que estimula as paixões e, antes de tudo, um tempo frutífero, prenhado".

Rosa Luxemburgo viveu e morreu num tempo de transição, como o nosso, no qual um mundo velho se afundava e outro surgia dos escombros da guerra. Seus companheiro tentaram construir o socialismo, seus assassinos e inimigos ajudaram Adolf Hitler a subir ao poder.

Hoje, quando o capitalismo demonstra uma vez mais que a guerra não é um acidente, senão que uma parte irrenunciável de sua estratégia. Quando os partidos e organizações "tradicionais" se vêem na obrigação de questionar suas formas de atuar ante o abandono das massas. Quando a esquerda transformadora advoga exclusivamente pelo parlamentarismo como via para a mudança social. Quando nos encontramos ante una enorme crise do modelo de democracia representativa e os argumentos políticos se reduzem ao "voto útil".
Hoje, dizemos, Rosa Luxemburgo se converte em referência indispensável nos grandes debates da esquerda. Não é senão sua voz a que se escuta sob o lema, aparentemente novedoso: "Outro mundo é possível". Ela o formulou com um pouco mais de urgência: "Socialismo ou barbárie".

Seu pensamento, seu compromisso e sua desbordante humanidade nos servem de referência em nosso luta para que este novo século não seja também o da barbárie.

Com informações da Fundação Lauro Campos e do Mundo Obrero.



14 de jan. de 2012

O imperialismo e o "anti-imperialismo" dos tolos

por James Petras 

Um dos grandes paradoxos da história são os políticos imperialistas que apregoam estarem empenhados numa grande cruzada humanitária, um "missão civilizadora" histórica destinada a libertar nações e povos, enquanto praticam as mais bárbaras conquistas, guerras destrutivas e banhos de sangue em grande escala de povos conquistados de que há memória histórica. 





Os EUA apoiaram "bases" de jihadistas armados para libertar a "Bósnia" e armaram as "bases" terroristas do Exército de Libertação do Kosovo para despedaçar a Jugoslávia. Quase toda a esquerda ocidental alegrou-se quando os EUA bombardearam Belgrado, degradaram a economia e afirmaram estarem a "responder a um genocídio". O "livre e independente" Kosovo tornou-se um enorme mercado de escravas brancas, passou a abrigar a maior base militar dos Estados Unidos na Europa, com a mais elevada migração per capita de qualquer país da Europa.

Na moderna era capitalista, as ideologias dos dominadores imperiais variaram ao longo do tempo, desde os primitivos apelos ao "direito" à riqueza, poder, colónias e grandeza até as afirmações posteriores de uma "missão civilizadora". Mais recentemente os dominadores imperiais têm propalado justificações muito diversas, adaptadas a contextos, adversários, circunstâncias e públicos específicos.

Este ensaio estará concentrado na análise dos argumentos ideológicos contemporâneos do império estado-unidense para legitimar guerras e sanções a fim de manter a dominação.

Contextualizando a ideologia imperial

A propaganda imperialista varia consoante seja dirigida contra um competidor pelo poder global, ou como uma justificação para a aplicação de sanções ou ainda a entrada em guerra aberta contra um adversário sócio-político local ou regional.

Em relação a competidores imperiais estabelecidos (Europa) ou em ascensão na economia mundial (China), a propaganda imperial dos EUA variou ao longo do tempo. Antigamente, no século XIX, Washington proclamou a "Doutrina Monroe", denunciando esforços europeus para colonizar a América Latina, privilegiando os seus próprios desígnios imperiais naquela região. No século XX, quando os decisores imperiais dos EUA estavam a deslocar a Europa dos recursos primários baseados nas colónias no Médio Oriente e África, aproveitou-se de vários temas. Condenou "formas de dominação colonial" e promoveu transições "neo-coloniais" que acabaram com monopólios europeus e facilitaram a penetração corporativa de multinacionais estado-unidenses. Isto ficou claramente evidente durante e após a II Guerra Mundial, nos países petrolíferos do Médio Oriente.

Durante a década de 1950, quando os EUA assumiram o primado imperial e surgiu o nacionalismo anti-colonial, Washington forjou alianças com potências coloniais em declínio para combater um inimigo comum e incentivar poderes pós coloniais a combatê-lo. Mesmo com a recuperação económica pós II Guerra Mundial, com o crescimento e unificação da Europa, ela ainda actuou em tandem e sob a liderança dos EUA na repressão militar de insurgências e regimes nacionalistas. Quando se verificavam conflitos e competição entre os EUA e regimes, bancos e empresas europeias, os mass media de cada região publicavam "descobertas de investigação" revelando as fraudes e malfeitorias dos seus competidores – e as agências reguladoras dos EUA impunham multas pesadas sobre os seus colegas europeus, passando por alto práticas semelhantes das firmas financeiras da Wall Street.

Em tempos recentes a maré ascendente do imperialismo militarista e das guerras coloniais alimentadas por procuradores israelenses no estado dos EUA levaram a algumas sérias divergências entre o imperialismo estado-unidense e o europeu. Com a excepção da Inglaterra, a Europa assumiu um mínimo compromisso simbólico com as guerras dos EUA e a ocupação do Iraque e Afeganistão. A Alemanha e a França concentraram-se em expandir seus mercados de exportação e suas capacidades económicas, deslocando os EUA em grandes mercados e locais com recursos. A convergência dos EUA e de impérios europeus levou à integração de instituições financeiras e às subsequentes crises e colapso comuns mas sem qualquer política coordenada de recuperação. Ideólogos dos EUA propagaram a ideia de uma "União Europeia em declínio e decadência", ao passo que ideólogos europeus enfatizaram os fracassos dos "mercados livres" anglo-americanos e as fraudes da Wall Street.

Ideologia imperial, potências económicas em ascensão e desafios nacionalistas

Há uma longa história de "anti-imperialismo" imperialista, condenações, revelações e indignações morais patrocinadas oficialmente dirigidas exclusivamente contra rivais imperialistas, potências emergentes ou simplesmente competidoras, as quais em alguns casos estão simplesmente a seguir as pegadas das potências imperiais estabelecidas.

No seu auge, os imperialistas ingleses justificavam sua pilhagem à escala mundial de três continentes perpetuando a "Lenda negra" da "crueldade excepcional" do império espanhol para com povos indígenas da América Latina, enquanto empenhava-se no maior e mais lucrativo tráfico africano de escravos. Enquanto os colonialistas espanhóis escravizavam os povos indígenas, os colonizadores anglo-americanos exterminavam-nos...

Na preparação para a II Guerra Mundial, as potências imperiais europeias e dos EUA, enquanto exploravam colónias asiáticas condenavam a invasão e colonização da China pela potência imperial japonesa. O Japão, por sua vez, afirmava estar a liderar forças da Ásia no combate contra o imperialismo ocidental e projectava uma esfera de "co-prosperidade" pós colonial de parceiros asiáticos em pé de igualdade.

A utilização imperialista da retórica moral "anti-imperialista" foi concebida para enfraquecer rivais e era destinada a diversos públicos. De facto, em momento algum a retórica anti-imperialista serviu para "libertar" qualquer dos povos colonizados. Em quase todos os casos a potência imperial vitoriosa apenas substituía uma forma de domínio colonial ou neo-colonial por outra.

O "anti-imperialismo" dos imperialistas é destinado aos movimentos nacionalistas dos países colonizados e ao seu público interno. Imperialistas britânicos fomentaram levantamentos entre as elites agro-mineiras na América Latina prometendo "comércio livre" contra o domínio mercantilista espanhol; eles apoiaram a "auto-determinação" dos proprietários escravocratas de plantações de algodão nos Sul dos EUA contra a União; eles apoiaram as reivindicações territoriais dos líderes tribais iroqueses contra os revolucionários anti-coloniais estado-unidenses ... explorando agravos legítimos para fins imperiais. Durante a II Guerra Mundial, os imperialistas japoneses apoiaram um sector movimento nacionalista anti-colonial na Índia contra o Império britâncio. Os EUA condenaram o domínio colonial espanhol em Cuba e nas Filipinas e foram à guerra para "libertar" os povos oprimidos da tirania ... e ali permaneceram para impor um reino de terror, exploração e domínio colonial...

As potências coloniais procuram dividir os movimentos anti-coloniais e criar futuros "dominadores clientes" quando e se tiverem êxito. A utilização da retórica anti-imperialista foi concebida para atrair dois conjuntos de grupos. Um grupo conservador com interesses políticos e económicos comuns com a potência imperial, os quais partilhavam a sua hostilidade para com nacionalistas revolucionários e que procuram acumular maior vantagem ligando as suas fortunas a uma potência imperial e ascensão. Um sector radical do movimento aliava-se tacticamente com a potência imperial e ascensão, com a ideia de utilizá-la para assegurar recursos (armas, propaganda, veículos e ajuda financeira) e, uma vez assegurado o poder, descartá-lo. Na maioria dos casos, neste jogo de manipulação mútua entre império e nacionalistas, os primeiros venceram ... tanto antes como hoje.

A retórica imperialista "anti-imperialista" era igualmente destinada ao público interno, especialmente em países como os EUA que valorizavam sua herança anti-colonial do século XVIII. O objectivo era ampliar a base da construção do império para além dos empedernidos lealistas, militaristas e beneficiários corporativos do império. O seu apelo procura incluir liberais, pessoas humanitárias, intelectuais progressistas, moralistas religiosos e laicos e outros "formadores de opinião" que tivessem uma certa influência entre o público mais amplo, as pessoas que teriam de pagar com as suas vidas e dinheiro para impostos pelas guerras inter-imperialistas e coloniais.

Os porta-vozes oficiais do império publicitam atrocidades reais e falsificadas dos seus rivais imperiais e destacam os infortúnios das vítimas colonizadas. A elite corporativa e os militaristas empedernidos pedem acção militar para proteger a propriedade, ou tomar recursos estratégicos; as pessoas com sentimentos humanitários e progressistas denunciam os "crimes contra a humanidade" e reflectem os apelos "a fazer algo concreto" para salvar as vítimas do genocídio. Sectores da esquerda juntam-se ao coro, descobrindo um sector de vítimas que se ajusta à sua ideologia abstracta e pedem às potências imperiais para "armarem o povo para que se liberte" (sic). Ao conceder apoio moral e um verniz de respeitabilidade à guerra imperial, com a deglutição da "guerra para salvar vítimas" os progressistas tornam-se o protótipo do "anti-imperialismo dos tolos". Tendo assegurado vasto apoio público na base do "anti-imperialismo", as potências imperialistas sentem-se livres para sacrificar vidas de cidadãos e o tesouro público, para prosseguir a guerra, alimentada pelo fervor moral de uma causa justiceira. Quando a carnificina se arrasta e as baixas crescem, e o público aborrece-se com a guerra e o seu custo, o entusiasmo de progressistas e esquerdistas transforma-se em silêncio ou pior, hipocrisia moral com afirmações de que "a natureza da guerra mudou" ou "que isto não é a espécie de guerra que tínhamos em mente...". Como se os feitores da guerra alguma vez pretendessem consultar os progressistas e a esquerda sobre como e porque deveriam empenhar-se em guerras imperiais!

No período contemporâneo as guerras imperiais "anti-imperialistas" e a agressão foram grandemente ajudadas pela cumplicidade de "bases" bem financiadas chamadas "organizações não governamentais" as quais actuam na mobilização de movimentos populares que podem "convidar" à agressão imperial.

Ao longo das últimas quatro década o imperialismo estado-unidense fomentou pelo menos duas dúzias de movimentos "de base" que destruíram governos democráticos ou dizimaram estados previdência colectivistas ou provocaram grandes danos às economias de países alvos.

No Chile, durante os anos 1972-73 sob o governo eleito democraticamente de Salvador Allende, a CIA financiou a proporcionou apoio importante – via AFL-CIO – a proprietários privados de camiões para paralisar o fluxo de bens e serviços. Também financiaram uma greve de um sector do sindicato de trabalhadores do cobre (na mina El Teniente) a fim de reduzir a produção de cobre e as exportações, na preparação para o golpe. Depois de os militares tomarem o poder vários responsáveis do sindicato democrata-cristão "da base" participaram no expurgo de activistas de esquerda eleitos do sindicato. Não é preciso dizer que imediatamente os proprietários de camiões e trabalhadores do cobre acabaram a greve, abandonaram suas exigências e a seguir perderam todos os direitos de negociação!

Na década de 1980 a CIA, através de canais do Vaticano, transferiu milhões de dólares para apoiar o "Sindicato Solidariedade" na Polónia, transformando num herói o líder dos trabalhadores dos estaleiros de Gdansk, Lech Walesa, o qual actuou como ponta de lança na greve geral para deitar abaixo o regime. Com o seu derrube também foram derrubadas a garantia de emprego, a segurança social e a militância sindical: os regimes neoliberais reduziram a força de trabalho em Gdansk em cinquenta por cento e finalmente encerraram o estaleiro, dando um pontapé em toda a força de trabalho... Walesa aposentou-se com uma magnífica pensão presidencial, enquanto os seus antigos colegas de trabalho vagueavam nas ruas e os novos dominadores "independentes" da Polónia proporcionavam bases militares para a NATO e mercenários para guerras imperiais no Afeganistão e no Iraque.

Em 2002 a Casa Branca, a CIA, a AFL-CIO e ONGs, apoiadas por militares, homens de negócios e burocratas sindicais venezuelanos dirigiram um golpe "das bases" que derrubou o presidente Chavez democraticamente eleito. Em 48 horas uma mobilização autêntica com um milhão de pessoas dos pobres urbanos apoiados por foram militares constitucionalistas derrotou os ditadores apoiados pelos EUA e repôs Chavez no poder. Subsequentemente, executivos do petróleo dirigiram um lockout apoiado por várias ONGs financiadas pelos EUA. Eles foram derrotados pela tomada da indústria do petróleo pelos trabalhadores. O golpe fracassado e o lockout custaram à economia venezuelana milhares de milhões de dólares em rendimento perdido e provocaram um declínio de dois algarismos no PNB.



A estratégia imperial das "bases" combina retórica humanitária, democrática e anti-imperialista com ONGs pagas e treinadas, com blitzes de mass media para mobilizar a opinião pública ocidental e especialmente "prestigiosos críticos morais de esquerda" por trás das suas tomadas de poder.

A consequência de movimentos imperiais promovidos a "anti-imperialistas": Quem ganha e quem perde?

O registo histórico dos movimentos "de base" imperialistas promovidos a "anti-imperialistas" e "pró democracia" é constantemente negativo. Vamos resumir brevemente os resultados. No Chile a greve "de base" dos proprietários de camiões levou à brutal ditadura militar de Augusto Pinochet e a cerca de duas décadas de tortura, assassínio, prisão e exílio forçados de centenas de milhares, à imposição de brutais "políticas de mercado livre" e à subordinação às políticas imperiais dos EUA. Em resumo, as corporações multinacionais do cobre estado-unidenses e a oligarquia chilena foram os grandes vencedores e a massa da classe trabalhadora e os pobres urbanos e rurais os grandes perdedores. Os EUA apoiaram "levantamentos da base" na Europa Oriental contra a dominação soviética levou à dominação estado-unidense; à subordinação à NATO ao invés do Pacto de Varsóvia; à transferência maciça de empresas públicas nacionais, bancos e media para multinacionais ocidentais. A privatização de empresas nacionais levou a níveis sem precedentes de desemprego com dois algarismos, disparo de rendas e o crescimento da pobreza entre pensionistas. As crises induziram a fuga de milhões dos trabalhadores mais educados e qualificados e à eliminação da saúde pública gratuita, da educação superior e estabelecimentos de férias para trabalhadores.

Nos estados hoje capitalistas da Europa Oriental e da URSS gangs criminosas altamente organizadas desenvolveram prostituição em grande escala e redes de droga; "empresários" gangster estrangeiros e locais apresaram empresas públicas lucrativas e formaram uma nova classe de super oligarcas. Políticos de partidos eleitorais, pessoas de negócios locais e profissionais ligadas a "parceiros" ocidentais foram os vencedores sócio-económicos. Pensionistas, trabalhadores, agricultores colectivos, juventude desempregada foram os grandes perdedores juntamente com os anteriormente subsidiados artistas culturais. Bases militares na Europa Oriental tornaram-se a primeira linha do império para ataque militar à Rússia e o alvo de qualquer contra-ataque.

Se medirmos as consequências da mudança no poder imperial, é claro que os países da Europa Oriental tornaram-se ainda mais subservientes sob os EUA e a UE do que sob a Rússia. Crises financeiras induzidas pelo ocidente devastaram suas economias. Tropas da Europa Oriental serviram em mais guerras imperiais sob a NATO do que sob a influência soviética; os media culturais estão sob o controle comercial do ocidente. Acima de tudo, o grau de controle imperial sobre todos os sectores económicos excedeu de longe qualquer coisa que tenha existido sob os soviéticos. O movimento "de bases" na Europa Oriental têve êxito em aprofundar e estender o Império dos EUA; os advogados da paz, justiça social, independência nacional, de um renascimento cultural e bem-estar social com democracia foram os grandes perdedores.

Liberais ocidentais, progressistas e gente de esquerda que se apaixonou pelo "anti-imperialismo" promovido pelos imperialistas são também grandes perdedores. Seu apoio ao ataque da NATO à Jugoslávia levou ao despedaçar de um estado multinacional e à criação de enormes bases militares da NATO e a um paraíso para traficantes de escravas no Kosovo. Seu apoio cego à promovida "libertação" imperial da Europa Oriental devastou o estado previdência, eliminando a pressão sobre os regimes ocidentais da necessidade de competir em disposições de bem-estar. Os principais beneficiários dos avanços imperiais do ocidente via levantamentos "de base" foram as corporações multinacionais, Pentágono e os neoliberais do livre mercado de extrema direita. Quando todo o espectro político se move para a direita um sector da esquerda e progressistas finalmente salta para o comboio. Os moralistas de esquerda perderam credibilidade e apoio, seus movimentos de paz minguaram, suas "críticas morais" perderam ressonância. A esquerda e progressistas que foram a reboque dos "movimentos de base" apoiados pelo império, quer em nome do "anti-stalinismo", "pró democracia" ou "anti-imperialismo" nunca se empenharam em qualquer reflexão crítica; nenhum esforço para analisar as consequências negativas a longo prazo das suas posições em termos de perdas de bem-estar social, independência nacional ou dignidade pessoal.

A longa história da manipulação imperialista de narrativas "anti-imperialistas" encontrou expressão virulenta nos dias de hoje. A Nova Guerra Fria lançada por Obama contra a China e a Rússia, a guerra quente que fermenta no Golfo sobre a alegada ameaça militar do Irão, a ameaça intervencionista contra "redes de droga" da Venezuela e o "banho de sangue" da Síria são parte integral da utilização e abuso do "anti-imperialismo" para promover um império em declínio. Esperançosamente, os escritores de esquerda aprenderão com as ciladas ideológicas do passado e resistirão à tentação de terem acesso aos mass media proporcionando uma "cobertura progressista" a dúbios "rebeldes" imperiais. Já é tempo de distinguir entre movimentos anti-imperialistas e pró democracia genuínos e aqueles promovidos por Washington, NATO e os mass media.
O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/?p=1886

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

13 de jan. de 2012

Provação, luta e mudança*



O capitalismo desencadeou uma ofensiva frontal contra o mundo do trabalho que atinge níveis inauditos, abocanhando conquistas históricas. Enquanto os EUA – principal fautor dos desequilíbrios económicos que repercutem no mundo – perseguem a obsessão de escapar entre os pingos da chuva e, sobretudo, reverter o declínio hegemónico pela via da corrida armamentista e ameaça militar global.




Já corre 2012, desafortunadamente prometido como o ano de todas as provações. Não se pense porém que a ameaça de tempestade perfeita que assoma no horizonte devenha da desfavorável metafísica dos astros, ostente o halo providencial da infalibilidade do destino, nem mesmo se deva ao insano exercício conjugado das vontades humanas. Não, as origens do contexto agravadamente adverso que sobre nós pesa, sendo bem terrenas, inscrevem-se na materialidade do ser social. Remetendo para a dinâmica e o momento da crise geral do modo dominante de (re)produção capitalista e colocando a necessidade de prosseguir a identificação das suas coordenadas concretas e a configuração das contradições prementes; de estabelecer o rumo do seu movimento e analisar a graduação e sentido dos processos distintos e diferenciados que labutam desde o seu interior. Necessidade que, tanto mais, se apresenta como exigência fundamental da própria acção revolucionária de resistência, acumulação de forças e mudança. Da luta organizada a partir de circunstâncias dadas, visando alterar a correlação de forças e assegurar o avanço transformador.

Desde as alturas a pino da finança mundial, a angustiosa constatação dos perigos que envolvem a «economia mundial» tornou-se acto corriqueiro (veja-se recentes declarações da directora do FMI). Se há um ano a trupe encartada de ideólogos e moduladores do sistema alinhava o compasso, trombeteando aos quatro ventos os sinais inglórios de pretensa recuperação, agora é afinal reconhecida a iminência de uma queda mais cavada do que em 2008. Nos últimos meses esboroou-se o manto sagrado envolvendo a chamada «construção europeia» da UE e dentro desta o processo da moeda única, o euro, que passou a ser visto como malfadado e até ferido de pecado original. Com a zona euro convertida no foco infeccioso que ameaça os vértices da Tríade e o tecido económico mundial, a dramatização teatral da crise pelos seus principais actores surge como água benta borrifada sobre os sucessivos e mais cruéis pacotes anti-sociais. No mesmo passo que a ofensiva frontal contra o mundo do trabalho atinge níveis inauditos, abocanhando conquistas históricas

No jogo do empurra e da vilanagem de Estado do capitalismo mundial, os EUA – principal fautor dos desequilíbrios económicos que repercutem no mundo – perseguem a obsessão de escapar entre os pingos da chuva e, sobretudo, reverter o declínio hegemónico pela via da corrida armamentista e ameaça militar global.
 
Não se pode esquecer, contudo, que a crise capitalista não afecta o mundo de modo uniforme. Cresce a evidência do aumento do peso dos BRICS e do conjunto das potências emergentes na economia global. A trajectória de rearrumação de forças em curso no plano internacional em que desponta o papel da China representa, sem desdenhar da sua dialéctica e contradições, um elemento histórico de fundo no âmbito do desenvolvimento da crise no centro da arquitectura capitalista mundial. Apesar da escalada e sofisticação da ofensiva imperialista, os contornos de um mundo em transição que desafia a ordem dominante não deixaram de perpassar 2011. Bastará olhar para o outro lado do Atlântico e fixar o acontecimento maior que constituiu a cimeira fundadora da Comunidade de Estados Latino-Americanos e das Caraíbas, realizada há um mês em Caracas. Corolário de décadas de resistência revolucionária, plasmadas no exemplo de Cuba, e dos mais de 10 anos da vaga de mudança progressista que, em contraciclo, atravessa a América Latina, o seu exemplo ilumina os desafios e o carácter contraditório da época. Através dos quais a imperativa justeza da luta continuará a trilhar o seu caminho libertador.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 1988, 5.01.2012

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8 de jan. de 2012

12 mitos do capitalismo

Guilherme Alves Coelho 


São muitos e variados os tipos e meios de manipulação em que a ideologia burguesa se foi alicerçando ao longo do tempo. Um dos tipos mais importantes são os mitos. Trata-se de um conjunto de falsas verdades, mera propaganda que, repetidas à exaustão, acriticamente, ao longo de gerações, se tornam verdades insofismáveis aos olhos de muitos.
Um comentário amargo, e frequente após os períodos eleitorais, é o de que “cada povo tem o governo que merece”. Trata-se de uma crítica errónea, que pode levar ao conformismo e à inércia e castiga os menos culpados. Não existem maus povos. Existem povos iletrados, mal informados, enganados, manipulados, iludidos por máquinas de propaganda que os atemorizam e lhes condicionam o pensamento. Todos os povos merecem sempre governos melhores.
A mentira e a manipulação são hoje armas de opressão e destruição maciça, tão eficazes e importantes como as armas de guerra tradicionais. Em muitas ocasiões são complementares destas. Tanto servem para ganhar eleições como para invadir e destruir países insubmissos.
São muitos e variados os tipos e meios de manipulação em que a ideologia capitalista se foi alicerçando ao longo do tempo. Um dos tipos mais importantes são os mitos. Trata-se de um conjunto de falsas verdades, mera propaganda que, repetidas à exaustão, acriticamente, ao longo de gerações, se tornam verdades insofismáveis aos olhos de muitos. Foram criadas para apresentar o capitalismo de forma credível perante as massas e obter o seu apoio ou passividade. Os seus veículos mais importantes são a informação mediática, a educação escolar, as tradições familiares, a doutrina das igrejas, etc. (*)
Apresentam-se neste texto, sucintamente, alguns dos mitos mais comuns da mitologia capitalista.

• No capitalismo qualquer pessoa pode enriquecer à custa do seu trabalho.


Pretende-se fazer crer que o regime capitalista conduz automaticamente qualquer pessoa a ser rica desde que se esforce muito.
O objectivo oculto é obter o apoio acrítico dos trabalhadores no sistema e a sua submissão, na esperança ilusória e culpabilizante em caso de fracasso, de um dia virem a ser também, patrões de sucesso.
Na verdade, a probabilidade de sucesso no sistema capitalista para o cidadão comum é igual à de lhe sair a lotaria. O “sucesso capitalista” é, com raras excepções, fruto da manipulação e falta de escrúpulos dos que dispõem de mais poder e influência. As fortunas em geral derivam directamente de formas fraudulentas de actuação.
Este mito de que o sucesso é fruto de uma mistura de trabalho afincado, alguma sorte, uma boa dose de fé e depende apenas da capacidade empreendedora e competitiva de cada um, é um dos mitos que tem levado mais gente a acreditar no sistema e a apoiá-lo. Mas também, após as tentativas falhadas, a resignarem-se pelo aparente falhanço pessoal e a esconderem a sua credulidade na indiferença. Trata-se dos tão apregoados empreendedorismo e competitividade.

• O capitalismo gera riqueza e bem-estar para todos

Pretende-se fazer crer que a fórmula capitalista de acumulação de riqueza por uma minoria dará lugar, mais tarde ou mais cedo, à redistribuição da mesma.
O objectivo é permitir que os patrões acumulem indefinidamente sem serem questionados sobre a forma como o fizeram, nomeadamente sobre a exploração dos trabalhadores. Ao mesmo tempo mantêm nestes a esperança de mais tarde serem recompensados pelo seu esforço e dedicação.
Na verdade, já Marx tinha concluído nos seus estudos que o objectivo final do capitalismo não é a distribuição da riqueza mas a sua acumulação e concentração. O agravamento das diferenças entre ricos e pobres nas últimas décadas, nomeadamente após o neo-liberalismo, provou isso claramente.
Este mito foi um dos mais difundidos durante a fase de “bem-estar social” pós guerra, para superar os estados socialistas. Com a queda do émulo soviético, o capitalismo deixou também cair a máscara e perdeu credibilidade.

• Estamos todos no mesmo barco.

Pretende-se fazer crer que não há classes na sociedade, pelo que as responsabilidades pelos fracassos e crises são igualmente atribuídas a todos e portanto pagas por todos.
O objectivo é criar um complexo de culpa junto dos trabalhadores que permita aos capitalistas arrecadar os lucros enquanto distribui as despesas por todo o povo.
Na verdade, o pequeno numero de multimilionários, porque detém o poder, é sempre auto-beneficiado em relação à imensa maioria do povo, quer em impostos, quer em tráfico de influências, quer na especulação financeira, quer em off-shores, quer na corrupção e nepotismo, etc. Esse núcleo, que constitui a classe dominante, pretende assim escamotear que é o único e exclusivo responsável para situação de penúria dos povos e que deve pagar por isso.
Este é um dos mitos mais ideológicos do capitalismo ao negar a existência de classes.

• Liberdade é igual a capitalismo.

Pretende-se fazer crer que a verdadeira liberdade só se atinge com o capitalismo, através da chamada auto-regulação proporcionada pelo mercado.
O objectivo é tornar o capitalismo uma espécie de religião em que tudo se organiza em seu redor e assim afastar os povos das grandes decisões macro-económicas, indiscutíveis. A liberdade de negociar sem peias seria o máximo da liberdade.
Na verdade, sabe-se que as estratégias político económicas, muitas delas planeadas com grande antecipação, são quase sempre tomadas por um pequeno número de pessoas poderosas, à revelia dos povos e dos poderes instituídos, a quem ditam as suas orientações. Nessas reuniões, em cimeiras restritas e mesmo secretas, são definidas as grandes decisões financeiras e económicas conjunturais ou estratégicas de longo prazo. Todas, ou quase todas essas resoluções, são fruto de negociações e acordos mais ou menos secretos entre os maiores empresas e multinacionais mundiais. O mercado é pois manipulado e não auto-regulado. A liberdade plena no capitalismo existe de facto, mas apenas para os ricos e poderosos.
Este mito tem sido utilizado pelos dirigentes capitalistas para justificar, por exemplo, intervenções em outros países não submissos ao capitalismo, argumentando não haver neles liberdade, porque há regras.

• Capitalismo igual a democracia.

Pretende-se fazer crer que apenas no capitalismo há democracia.
O objectivo deste mito, que é complementar do anterior, é impedir a discussão de outros modelos de sociedade, afirmando não haver alternativas a esse modelo e todos os outros serem ditaduras. Trata-se mais uma vez da apropriação pelo capitalismo, falseando-lhes o sentido, de conceitos caros aos povos, tais como liberdade e democracia.
Na realidade, estando a sociedade dividida em classes, a classe mais rica, embora seja ultra minoritária, domina sobre todas as outras. Trata-se da negação da democracia que, por definição, é o governo do povo, logo da maioria. Esta “democracia” não passa pois de uma ditadura disfarçada. As “reformas democráticas” não são mais que retrocessos, reacções ao progresso. Daí deriva o termo reaccionário, o que anda para trás.
Tal como o anterior este mito também serve de pretexto para criticar e atacar os regimes de países não capitalistas.

• Eleições igual a Democracia.

Pretende-se fazer crer que o acto eleitoral é o sinonimo da democracia e esta se esgota nele.
O objectivo é denegrir ou diabolizar e impedir a discussão de outros sistemas politico-eleitorais em que os dirigentes são estabelecidos por formas diversas das eleições burguesas, como por exemplo pela idade, experiencia, aceitação popular, etc.
Na verdade é no sistema capitalista, que tudo manipula e corrompe, que o voto é condicionado e as eleições são actos meramente formais. O simples facto da classe burguesa minoritária vencer sempre as eleições demonstra o seu carácter não representativo.
O mito de que, onde há eleições há democracia, é um dos mais enraizados, mesmo em algumas forças de esquerda.

• Partidos alternantes igual a alternativos.

Pretende-se fazer crer que os partidos burgueses que se alternam periodicamente no poder têm políticas alternativas.
O objectivo deste mito é perpetuar o sistema dentro dos limites da classe dominante, alimentando o mito de que a democracia está reduzida ao acto eleitoral.
Na verdade este aparente sistema pluri ou bi-partidário é um sistema mono-partidário. Duas ou mais facções da mesma organização política, partilhando políticas capitalistas idênticas e complementares, alternam-se no poder, simulando partidos independentes, com políticas alternativas. O que é dado escolher aos povos não é o sistema que é sempre o capitalismo, mas apenas os agentes partidários que estão de turno como seus guardiões e continuadores.
O mito de que os partidos burgueses têm politicas independentes da classe dominante, chegando até a ser opostas, é um dos mais propagandeados e importantes para manter o sistema a funcionar.

• O eleito representa o povo e por isso pode decidir tudo por ele.

Pretende-se fazer crer que o político, uma vez eleito, adquire plenos poderes e pode governar como quiser.
O objectivo deste mito é iludir o povo com promessas vãs e escamotear as verdadeiras medidas que serão levadas à prática.
Na verdade, uma vez no poder, o eleito auto-assume novos poderes. Não cumpre o que prometeu e, o que é ainda mais grave, põe em prática medidas não enunciadas antes, muitas vezes em sentido oposto e até inconstitucionais. Frequentemente são eleitos por minorias de votantes. A meio dos mandatos já atingiram índices de popularidade mínimos. Nestes casos de ausência ou perda progressiva de representatividade, o sistema não contempla quaisquer formas constitucionais de destituição. Esta perda de representatividade é uma das razões que impede as “democracias” capitalistas de serem verdadeiras democracias, tornando-se ditaduras disfarçadas.
A prática sistemática deste processo de falsificação da democracia tornou este mito um dos mais desacreditados, sendo uma das causas principais da crescente abstenção eleitoral.

• Não há alternativas à política capitalista.

Pretende-se fazer crer que o capitalismo, embora não sendo perfeito, é o único regime politico/económico possível e portanto o mais adequado.
O objectivo é impedir que outros sistemas sejam conhecidos e comparados, usando todos os meios, incluindo a força, para afastar a competição.
Na realidade existem outros sistemas politico económicos, sendo o mais conhecido o socialismo cientifico. Mesmo dentro do capitalismo há modalidades que vão desde o actual neo-liberalismo aos reformistas do “socialismo democrático” ou social-democrata.
Este mito faz parte da tentativa de intimidação dos povos de impedir a discussão de alternativas ao capitalismo, a que se convencionou chamar o pensamento único.

• A austeridade gera riqueza

Pretende-se fazer crer que a culpa das crises económicas é originada pelo excesso de regalias dos trabalhadores. Se estas forem retiradas, o Estado poupa e o país enriquece.
O objectivo é fundamentalmente transferir para o sector publico, para o povo em geral e para os trabalhadores a responsabilidade do pagamento das dividas dos capitalistas. Fazer o povo aceitar a pilhagem dos seus bens na crença de que dias melhores virão mais tarde. Destina-se também a facilitar a privatização dos bens públicos, “emagrecendo” o Estado, logo “poupando”, sem referir que esses sectores eram os mais rentáveis do Estado, cujos lucros futuros se perdem desta forma.
Na verdade, constata-se que estas politicas conduzem, ano após ano, a uma empobrecimento das receitas do Estado e a uma diminuição das regalias, direitos e do nível de vida dos povos, que antes estavam assegurados por elas.

• Menos Estado, melhor Estado.

Pretende-se fazer crer que o sector privado administra melhor o Estado que o sector público.
O objectivo dos capitalistas é, “dourar a pílula” para facilitar a apropriação do património, das funções e dos bens rentáveis dos estados. É complementar do anterior.
Na verdade o que acontece em geral é o contrário: os serviços públicos privatizados não só se tornam piores, como as tributações e as prestações são agravadas. O balanço dos resultados dos serviços prestados após passarem a privados é quase sempre pior que o anterior. Na óptica capitalista a prestação de serviços públicos não passa de mera oportunidade de negócio. Neste mito é um dos mais “ideológicos” do capitalismo neoliberal. Nele está subjacente a filosofia de que quem deve governar são os privados e o Estado apenas dá apoio.

• A actual crise é passageira e será resolvida para o bem dos povos.

Pretende-se fazer crer que a actual crise económico-financeira é mais uma crise cíclica habitual do capitalismo e não uma crise sistémica ou final.
O objectivo dos capitalistas, com destaque para os financeiros, é continuarem a pilhagem dos Estados e a exploração dos povos enquanto puderem. Tem servido ainda para alguns políticos se manterem no poder, alimentando a esperança junto dos povos de que melhores dias virão se continuarem a votar neles.
Na verdade, tal como previu Marx, do que se trata é da crise final do sistema capitalista, com o crescente aumento da contradição entre o carácter social da produção e o lucro privado até se tornar insolúvel.
Alguns, entre os quais os “socialistas” e sociais-democratas, que afirmam poder manter o capitalismo, embora de forma mitigada, afirmam que a crise deriva apenas de erros dos políticos, da ganância dos banqueiros e especuladores ou da falta de ideias dos dirigentes ou mecanismos que ainda falta resolver. No entanto, aquilo a que assistimos é ao agravamento permanente do nível de vida dos povos sem que esteja à vista qualquer esperança de melhoria. Dentro do sistema capitalista já nada mais há a esperar de bom.

Nota final: 

O capitalismo há-de acabar, mas só por si tal decorrerá muito lentamente e com imensos sacrifícios dos povos. Terá que ser empurrado. Devem ser combatidas as ilusões, quer daqueles que julgam o capitalismo reformável, quer daqueles que acham que quanto pior melhor, para o capitalismo cairá de podre, O capitalismo tudo fará para vender cara a derrota. Por isso quanto mais rápido os povos se libertarem desse sistema injusto e cruel mais sacrifícios inúteis se poderão evitar.
Hoje, mais do que nunca, é necessário criar barreiras ao assalto final da barbárie capitalista, e inverter a situação, quer apresentando claramente outras soluções politicas, quer combatendo o obscurantismo pelo esclarecimento, quer mobilizando e organizando os povos.
(*) Os mitos criados pelas religiões cristãs têm muito peso no pensamento único capitalista e são avidamente apropriados por ele para facilitar a aceitação do sistema pelos mais crédulos. Exemplos: “A pobreza é uma situação passageira da vida terrena”. “Sempre houve ricos e pobres”. “O rico será castigado no juízo final”. “Deve-se aguentar o sofrimento sem revolta para mais tarde ser recompensado.”

Fonte:http://www.odiario.info/?p=2334

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Dentro do sistema capitalista não há saídas da crise favoráveis ao povo

por Aleka Papariga 
 
Extractos da entrevista da secretária-geral do CC do KKE no programa matinal da estação de televisão ANT1, em 05/Janeiro/2012. 
 
- O que propõe o KKE? É um partido que não procura o poder burguês. Ele não diz: votem por mim para formar um governo e as coisas serão diferentes. O que é que está a propor a fim de sairmos do impasse?

Quando dizemos ao povo que o sistema capitalista – e dizemos isso em relação ao sistema capitalista da Europa, que completou todo o ciclo – hoje já não pode proporcionar soluções, que já deu tudo o que tinha a dar, isto significa que eles não esperam que o KKE participe no sistema político burguês, num governo para gerir um sistema que nada pode proporcionar.

- Está a falar acerca do derrube do sistema?

Naturalmente.

- Não está interessada em participar numa formação governamental?

A questão não é se nos interessa. Isso será danoso para o povo. E nos depararemos a enfrentar uma grande contradição que é por um lado dizermos palavras-de-ordem em favor do povo e invocarmos nossos mais de 90 anos de história e por outro lado sentarmo-nos e discutirmos acerca da abolição dos bónus de Natal e de Páscoa. Não é isto que queremos.

- Se o povo votar a favor e vos proporcionar um resultado importante, digo como hipótese, o que vocês lhe dirão? Que não governam porque o prejudicará, por que não podem governar dentro da estrutura do sistema dos capitalistas?

O povo grego, quando der uma tal maioria ao KKE, estará então determinado a lançar-se na batalha. Nós explicamos a nossa linha política plenamente. Não saímos a dizer que pode haver um governo que impusesse duas ou três boas soluções. Isso é o que dizem outros partidos, os quais contam mentiras. E na minha opinião ou deveríamos dizer que os seus políticos e quadros são incompetentes, algo em que não acredito, ou estão conscientemente a dizer mentiras.

Se pudéssemos impedir as consequências da crise e resolver os problemas do povo através da participação num governo, nós o faríamos. Somos ousados e assumimos riscos. Mas isto é impossível. Deixe aqueles partidos que conversam acerca de governos progressistas de esquerda ou de centro-direita ou de centro-esquerda nos explicarem: formam um governo. Mas no dia seguinte teriam de tratar de ainda mais memorandos, empréstimos, da Federação Helénica de Empresas, as federações patronais. Sabe o que está a acontecer agora? Mesmo quando num sector ou fábrica a luta faz pressão sobre o patrão e ele quer fazer um pequeno recuo, a federação dos industriais salta sobre ele e diz-lhe para não o fazer porque isto criará uma abertura em outras fábricas. Assim o trabalho não só enfrenta o seu próprio patrão como também os donos do capital e dos meios de produção como um todo.

- Eleições. Se olharmos para os inquéritos de opinião não teremos governos de um só partido. O que farão neste processo? Será mais uma vez o KKE a gritar e dizer que são os únicos que exprimem a esquerda?

Não dizemos isso desse modo. Procuramos exprimir objectivamente, através das nossas posições, os interesses da classe trabalhadora contemporânea e de uma ampla secção, não toda, dos auto-empregados e um grande secção dos agricultores, não todos os agricultores. Nós definimos forças sociais. Apelamos ao trabalhador, tanto àqueles que votam na Nova Democracia como no PASOK. Nós vemos as forças sociais, porque quando você fala em termos de esquerda, direita, centro, hoje não está a dizer nada.

O povo não tem nada a perder; pode ao contrário ganhar alguma coisa se um governo fraco surgir das eleições. Quanto mais forte for o governo, mais duro e mais determinado será contra o povo.

Sejamos realistas acerca das próximas eleições. É possível que o povo saia mais forte e seja capaz de erguer obstáculos contra o trabalho do próximo governo. O povo não deveria ter medo. Se não for possível formar um governo de um partido eles chegarão a acordo uns com os outros. Eles já se prepararam para isso. Não ouçam o sr. Samaras, não ouçam o que o sr. Papandreu ou próximo líder do PASOK estão a dizer. Já há alguns que estão ansiosos por contribuir. Esperamos que haverá um momento em que a formação do governo será impossível e o povo intervirá. O que é importante é que não tenhamos um governo forte. Não podemos ter um governo a favor do povo.

- Isto é um pouco astucioso num sentido político. Diz que não pode haver qualquer governo progressista, excluindo a possibilidade de um governo não só do seu partido como também o do sr. Tsipras (Syriza) e do sr. Kouvelis (Esquerda Democrática).

Dizemos isso claramente. Não, não vamos por aí.

- Então diz isso claramente.

Não pode haver qualquer governo progressista que coexista com os monopólios, não só na economia mas por toda a parte, que efectue negociações dentro da UE – porque é isso que todos eles estão a dizer; que alegadamente efectuarão uma negociação militante, tal coisa não pode vir a acontecer. Estas duas coisas são incompatíveis. Mas podemos ter um movimento forte após, no dia seguinte às eleições.

- As pessoas têm expectativas quanto a vocês. Elas dizem que o KKE pode ter uma das poucas oportunidades que alguma vez já teve no período pós ditadura de fazer sentir a sua presença com os votos do povo e querem ouvir algumas propostas do KKE para uma saída. Isto é o que as pessoas que não tem um relacionamento ideológico com o KKE estão a pedir.

Temos uma proposta de saída. Não lhe direi o que já divulgamos numa versão impressa. Organizamos comícios, manifestações por toda a Grécia. Na verdade, isso não pode ser apresentado em um minuto. Se a pergunta é uma saída agora em que tudo permanece o mesmo e em que emergirá um governo que mudará tudo com decisões do parlamento, bem tal coisa não é possível. Isso quer dizer que não pode haver qualquer saída na estrutura do sistema actual.

- Está a falar acerca do derrube do sistema?

Sim, mas isso não pode acontecer numa noite e com um único assalto. Dizemos o seguinte: em cada batalha o povo deve fazer progressos como um militante, mesmo através de ganhos parciais. Não podemos descartar a possibilidade de um derrube radical nos próximos anos. O próprio povo decidirá sobre isto e ao mesmo tempo ele deve preparar-se e exercer pressão decisiva, impedindo o pior a alcançando ganhos. Não podemos fixar uma data para a mudança do sistema político, não podemos estabelecer um período de um, dois, três anos porque isto depende da maioria do povo, não será um assunto só do KKE. Se o povo não tomar a decisão, isto não se verificará.
05/Janeiro/2012
A versão em inglês encontra-se em http://inter.kke.gr/News/news2012/2012-01-06-syn-gs

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/


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