8 de jun. de 2010

Ativista da frota de Gaza é presa pela segunda vez em protesto na Cisjordânia

Na última sexta-feira (4/6), Huwaida Arraf era o centro das atenções. Sob o sol escaldante do meio-dia, filas de repórteres de TV queriam uma imagem, uma declaração. Era a primeira aparição pública da ativista árabe-israelense, palestina, em solo da Cisjordânia desde que havia sido liberada da prisão após desembarcar no porto de Ashdod, após o ataque de Israel à Flotilha da Liberdade, que levava ajuda humanitária para a Faixa de Gaza. 
E não poderia ter escolhido cenário melhor, a vila rural de Bil'in, conhecida há cinco anos por realizar toda sexta-feira protestos contra o traçado de uma cerca que os impede o acesso a terras de agricultura que agora dão espaço a uma zona de segurança militar ao redor do assentamento de Modi'in Illit, um passo israelense além da linha verde, uma ocupação urbana dentro dos territórios que os defensores da solução de dois Estados chamam de 67.

Arraf também não poderia ter escolhido melhor companhia. A criatividade dos moradores da vila de cerca de 1.500 habitantes também fez a fama de seus protestos. O mais conhecido deles foi o que “reencenava” o filme Avatar, de James Cameron. Hoje eles “reencenariam” o ataque das forças armadas de Israel à frota de Gaza. O protesto teria como parte de sua verossimilhança um teatro da tomada israelense do barco e a participação da ativista do movimento Free Gaza. 
José Telles de Menezes/Opera Mundi
 Huwaida Arraf em sua primeira aparição após ser libertada Huwaida Arraf em sua primeira aparição após ser libertada

Um dos moradores da vila ainda brincou: “Ela foi presa duas vezes em uma semana, em dois barcos diferentes”. Em entrevista ao Opera Mundi, ela contou a experiência de ter feito parte da frota de Gaza, a Flotilha da Liberdade, e fala sobre as muitas versões que ela ganha dependendo de quem a defende ou a ataca.

Em qual barco estava?

Eu estava no barco chamado Challenger  1, era a unidade menor de todas e era o barco que estava sob a bandeira americana dentro da Frota (Arraf é palestina, cidadã israelense, também com passaporte dos Estados Unidos).

De seu barco, você viu o ataque ao Mavi Marmara?

Sim, a maior parte do tempo da viagem nós viajamos lado a lado do Marmara. Veja, todos os barcos da frota foram atacados, mas de formas diferentes. Vi o início do ataque israelense ao Marmara, os Zodiacs que se postaram ao lado dele, e então comecei a ouvir o início da artilharia, primeiro com as bombas de percussão (emitem um forte barulho) e depois com tiros.

Eu sabia que os barcos não tinham qualquer arma, por isso posso dizer que o uso de armas de fogo partiu do lado israelense. Isso foi o que vi do Marmara. O que aconteceu então é que nosso barco decidiu acelerar o trajeto para atrasar o que seria sua tomada pela marinha israelense, ao menos até um ponto onde pudéssemos nos comunicar por rádio e pedir ajuda ou dizer à comunidade internacional o que estava acontecendo. Isso não foi possível, pois nossos sistemas naquele ponto estava sem funcionar .


Depois de 10, 15 minutos eles interceptaram nosso barco. Tentamos usar nossos corpos para impedir que subissem, mas usaram bombas de percussão e armas de eletro-choque. Tentamos usar de meios pacíficos para que não entrassem, mas posso dizer...  eles dizem que não usaram de violência, que foram gentis, mas posso dizer que pegaram minha cabeça e a bateram contra o deck do barco.



Depois colocaram um saco na minha cabeça, amarraram minhas mãos nas costas e me levaram para uma outra parte do barco. Fizeram coisas diferentes a diferente pessoas , uma conhecida belga tinha sangue no rosto.  Quando eles tomaram o nosso barco, a primeira coisa que fizeram foi recolher os celulares e as máquinas fotografias, qualquer coisa com a qual pudéssemos documentar o que fizeram. Então eles começaram a filmar o que queriam filmar, eles nos dando água, sendo legais e gentis. Não foi isso que tivemos como experiência.

E no porto de Ashdod?

Ali alguns soldados nos trataram de uma forma razoável, mas outros nos trataram com violência. Um deles me puxou pelo cabelo, e me deu uma cotovelada na mandíbula e bateu no meu olho.

Então eles atacaram todos os barcos? A versão oficial de Israel diz que eles apenas usaram força contra o barco turco porque ele se recusou a passar pelo controle israelense no porto de Ahdod...

Isso não é verdade. Eles dizem que ofereceram que toda a carga seria retirada em Ashdod, checada e levada até Gaza. Isso é insincero por parte deles, pois eles sabiam que carregávamos dentro dos barcos bens que Israel não deixa entrar nos Territórios de Gaza nos últimos 3 anos, não por uma questão de segurança, mas porque eles têm uma política de deixar os palestinos sobrevivendo com o mínimo possível. Nós tínhamos materiais de construção, papel e livros e material de filtração de água, mas eles não deixam essas coisas entrar em Gaza. Então, dizer que deixariam é desonesto por parte de Israel. Nós passamos por todas as checagens de controle nos portos dos quais partimos e dissemos às autoridades israelenses que estaríamos dispostos a passar por controles na chegada feito por organizações neutras, como a ONU ou a Cruz Vermelha.

Nosso objetivo não era apenas entregar ajuda humanitária, mas acabar com essa política que faz com que os palestinos necessitem de ajuda humanitária. Então não basta entregar ajuda humanitária, mas os palestinos deveriam ter a possibilidade de viver em liberdade,  importar, exportar, produzir, construir uma economia para que possam viver em dignidade, e é exatamente isso que Israel continua a negar. Eles dizem que as pessoas no Marmara eram os violentos, mas eles atacaram primeiro com seus comandos fortemente armados.   
Opera Mundi


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7 de jun. de 2010

Israel, o terrorista impune

Na manhã de hoje, 5 de Junho, Israel completou a acção de pirataria contra a Flotilha da Liberdade abordando o navio «Rachel Corrie», que se tinha atrasado em relação aos restantes, brutalmente atacados em águas internacionais no passado dia 30 de Maio. 

Desta vez não houve mortos, mas esse facto não altera o carácter assassino de toda a acção criminosa e fascista conduzida pelo poder sionista. 

Indiferente ao clamor de condenação mundial que se levantou, incluindo em estados com os quais mantém relações próximas, Israel prossegue a linha de conduta de um estado terrorista. Sabe que, para além do seu enorme poder militar, continua a contar com o apoio do imperialismo, nomeadamente dos EUA e da UE, que lhe garantem - pese embora a hipocrisia de algumas palavras de «apreensão» - a impunidade. 

Os media do grande capital, cujo noticiário parece ser fornecido directamente pelos serviços secretos israelitas, tentaram novamente fazer de vítima o agressor e de agressores os militantes humanitários embarcados na flotilha. Os resultados das autópsias hoje divulgados constituem um violentíssimo libelo, não apenas contra um Estado assassino e os seus homens armados, mas contra meios de comunicação que procuraram encobrir e justificar esses crimes brutais cometidos a sangue frio. 

Todas as nove vítimas mortais foram atingidas por balas de 9 mm na parte superior do corpo. Várias foram atingidas com 4, 5 e até seis tiros. Algumas foram mortas com tiros na cabeça disparados à queima-roupa ou a curta distância. Tratou-se de um assassínio em massa, deliberado e executado com precisão profissional. 

Na linha do assassínio colectivo - este com dimensão genocida - que Israel há décadas tem em marcha contra o povo palestiniano. 

O Estado de Israel é hoje um estado terrorista, e o seu governo uma associação de criminosos. 

É necessário que o actual movimento de condenação por parte dos povos de todo o mundo conduza ao isolamento e à derrota do sionismo fascista.
Pelos direitos do povo palestiniano, pela causa da humanidade e da paz.
Lisboa, 5 de Junho de 2010.

Os Editores de odiário.info
 
 
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6 de jun. de 2010

A arte negra da "administração de notícias"

"Os mestres do ilusionismo, que concebem a propaganda negra e arranjam falsos pretextos para a chicana política e para guerras e atrocidades, tais como o Iraque e o assalto israelense à flotilha da paz de Gaza"

  por John Pilger
. Como começam as guerras? Com um "ilusionista mestre", segundo Ralph McGehee, um dos pioneiros da CIA em "propaganda negra", hoje conhecida como "administração de notícias". Em 1983, ele descreveu-me como a CIA havia forjado um "incidente" que se tornou a "prova conclusiva da agressão do Vietname do Norte". Isto seguia-se a uma afirmação, também forjada, de que navios com torpedos haviam atacado um vaso de guerra americano no Golfo de Tonquim em Agosto de 1964.

"A CIA", disse ele, "carregou um junco, um junco norte-vietnamita, com armas comunistas – a Agência mantém arsenais comunistas nos Estados Unidos e por todo o mundo. Eles rebocaram este junco ao longo da costa do Vietname central. Então dispararam sobre ele e fizeram aparentar que tinha havido um incêndio, e levaram isto à imprensa americana. Com base nesta evidência, duas equipes de Marines aterraram em Danang e uma semana depois disso a força aérea americana começou o bombardeio regular do Vietname do Norte". Uma invasão que ia custar três milhões de vida estava a iniciar.

Os israelenses têm jogado este jogo assassino desde 1948. O massacre de activistas da paz em águas internacionais a 31 de Maio foi uma "pirueta" para o público israelense durante a semana passada, preparando-o para ainda mais assassínios por parte do seu governo, com a flotilha desarmada de trabalhadores humanitários a serem descritos como terroristas ou enganados por terroristas. A BBC ficou tão intimidada que relatou a atrocidade basicamente como um "potencial desastre de relações públicas para Israel", a perspectiva dos assassinos, e uma desgraça para o jornalismo.

Um ilusionismo semelhante preocupa actualmente os governos asiáticos. Em 20 de Maio a Coreia do Sul anunciou que tinha "prova esmagadora" de que um dos seus navios de guerra, o Cheonan, fora afundado em Março por um torpedo disparado por um submarino norte-coreano com a perda de 46 marinheiros. Os Estados Unidos mantêm 28 mil soldados na Coreia do Sul, onde o sentimento popular há muito apoia uma distensão com Pyongyang.

A 26 de Maio, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, foi a Seul e afirmou que a "comunidade internacional deve responder" ao "ultraje da Coreia do Norte". Ela viajou a seguir ao Japão, onde a nova "ameaça" da Coreia Norte convenientemente eclipsou a breve política externa independente do primeiro-ministro japonês Yukio Hatoyama, eleito no ano passado com a popular oposição à ocupação militar permanente do Japão pelos Estados Unidos. A "prova esmagadora" é uma hélice de torpedo que "tem estado a corroer-se durante pelo menos vários meses", informou o Korea Times. Em Abril, o director da inteligência nacional da Coreia do Sul, Won See-hoon, disse a um comité parlamentar que não havia prova ligando o afundamento do Cheonan à Coreia do Norte. O ministro da Defesa concordou. O chefe de operações militares da marinha da Coreia do Sul disse: "Nenhum vaso de guerra norte coreano foi detectado nas águas em que o acidente se verificou". A referência a "acidente" sugere que o navio abalroou um recife e partiu-se em dois.

Para os media americanos, a culpa da Coreia da Norte é indubitável, assim como não havia dúvida da culpa do Vietname do Norte, nem de que Saddam Hussein dispunha de armas de destruição em massa, nem de que Israel pode aterrorizar com impunidade. Contudo, ao contrário do Vietname e do Iraque, a Coreia do Norte tem armas nucleares, as quais ajudam a explicar porque não foi atacada, ainda não: uma lição saudável para outros países, tais como o Irão, actualmente no centro das atenções.

Na Grã-Bretanha, temos os nossos próprios ilusionistas mestres. Imagine alguém no estado apanhado a beneficiar-se de £40 mil [€45,4 mil] de dinheiro dos contribuintes numa fraude com uma segunda casa. Seguir-se-ia quase certamente uma sentença de prisão. David Laws, secretário chefe do Tesouro, fez o mesmo e é assim descrito:

"Sempre admirei a sua inteligência, seu sentido do dever público e sua integridade pessoal" (Nick Clegg, vice-primeiro-ministro). "O sr. é um homem bom e honrado. Estou certo de que foi sempre motivado pelo desejo de proteger a sua privacidade ao invés de qualquer outra coisa". (David Cameron, primeiro-ministro). Laws é "um homem de nobreza bastante excepcional" (Julian Grover, Guardian ). Uma "mente brilhante" (BBC).

O Clube Oxbridge e seus membros associados à política e aos media tentaram ligar o "erro de julgamento" e a "ingenuidade" de Laws ao seu "direito à privacidade" como gay, uma irrelevância. A "mente brilhante" é um rico banqueiro de investimento cultivado em Cambridge e corrector de ouro dedicdo à nobre tarefa de cortar os serviços públicos da maior parte das pessoas pobres e honestas.

Agora imagine outro responsável público, um dos grandes criminosos e mentirosos de guerra. Este responsável "articulou" a invasão ilegal de um país indefeso que resultou na morte de pelo menos um milhão de pessoas e o despojamento de muitos mais: com efeito, o esmagamento de uma sociedade humana. Se isto fosse nos Balcãs na África, ele muito provavelmente teria sido processado pelo Tribunal Penal Internacional.

Mas o crime compensa para os membros do clube. Em sintonia com o caso Laws, esta verdade foi demonstrada pela contínua celebração de Alastair Campbell, cujas frequentes aparições nos media proporcionam uma emoção indirecta para a intelligensia liberal. Para o Guardian, Campbell é "obstinado, por vezes mal direccionado, mas sem medo de pressionar onde outros podiam ter hesitado". O interesse imediato do Guardian é a publicação "exclusiva" dos diários "politicamente explosivos" e "não censurados" de Campbell. Aqui está uma amostra: "Sábado 14 de Maio. Telefonei a Peter [Mandelson] e perguntei porque ele não respondeu aos meus telefonemas de ontem. 'Você sabe porque'. "Não, não sei'. Ele disse que estava em brasa com a minha entrevista ao Newsnight".

Numa entrevista promocional ao Guardian, Campbell dispensou deste incesto datado, referindo-se assim ao banho de sangue de que foi o principal apologista: "Fez-nos o Iraque perder apoio em 2005?", perguntou retoricamente. "Sem dúvida..." Portanto, uma tragédia criminosa de escala igual à do genocídio de Rwanda foi minimizada como uma "perda" para o New Labour: um ilusionista mestre de notável brutalidade. 
 
O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=578

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .





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3 de jun. de 2010

O Crime “Excessivo” (Editorial de L´Humanité)

Patrick Le Hyaric*

A partir de agora não há mais desculpas nem tergiversações. Os dirigentes políticos de Washington, da União Europeia e de cada um dos seus governos se não sancionarem agora o Estado de Israel ficarão também com as mãos tintas de sangue, pela sua cumplicidade nos crimes do terrorismo sionista.

Em Gaza já se tinha visto a desumanidade de que era capaz o governo israelense. Sabia-se o seu desprezo total pelos princípios do direito internacional. Pressentia-se a sua vontade de esmagar pela fome e pela sede o povo de Gaza mantendo à sua volta um bloqueio escandaloso. Apesar disso não se podia imaginar que os dirigentes deste Estado fossem capazes da atacar com comandos, de madrugada, uma flotilha de seis barcos fretada por organizações não governamentais com fins humanitários, de matar pessoas a sangue-frio e ferir outras pessoas que iam a bordo.

Esta «coligação da flotilha da liberdade» composta por pessoas oriundas de uma quinzena de países, de opiniões e credos diversos, tinha apenas um objectivo: levar comida, água, medicamentos e materiais de construção à população de Gaza.

Com este bárbaro e sangrento acto, os dirigentes israelenses mostram claramente que querem que o bloqueio a Gaza seja total. Dito de outro modo, querem exterminar este povo sem nada nas mãos. As palavras não são demasiado fortes. Todas as chancelarias do Mundo, a ONU, a União Europeia, a quase totalidade das instituições se dizem chocadas, indignadas com estes novos crimes do exército israelense, com estas manifestas violações do direito internacional. Não bastam palavras! São precisos actos. Até agora o vai-vem dos dirigentes do mundo entre Bruxelas, Washington e Telavive não serviu de grande coisa senão para estender um véu de ilusões sobre as pretensas iniciativas de paz enquanto escondem a impunidade total dos dirigentes israelenses, que continuam a colonizar, a ocupar, a privar da liberdade o povo palestino e a sujeitá-lo a um regime de apartheid. Há alguns dias, Israel foi admitido na OCDE como se nada se passasse. É por os dirigentes israelenses se sentirem protegidos que eles se podem permitir tais atrocidades.

O momento não é mais o do palavreado que aventa permanentemente esta impunidade. Os governos, a ONU e a União Europeia devem reagir firmemente. Impõe-se um inquérito internacional sob a égide da ONU e uma reunião do Conselho de Segurança que deve condenar, claramente e sem meias tintas, estes actos de barbárie e tirar daí todas as consequências. Que, finalmente, os Estados e a ONU executem as recomendações do relatório Goldstone, que a União Europeia suspenda imediatamente o acordo de associação Israel-União Europeia, que cessem as vendas de armas dos Estados Unidos e da União Europeia e os investimentos em Israel enquanto não for levantado o bloqueio contra Gaza, enquanto prosseguir a colonização-ocupação, enquanto não forem libertados os prisioneiros políticos palestinos.

Decididamente, excessivo, é excessivo! Depois do que acaba de suceder, as instituições e os governos que se contentarem com palavras de admoestação sem continuidade tornar-se-ão cúmplices destes crimes abomináveis. Os Estados Unidos e a União Europeia, como outros grandes países, tem os meios para fazerem cessar uma situação que já durou demasiado tempo. A mobilização pela justiça, pela democracia, pela segurança, pela paz e para que povo palestino tenha finalmente acesso aos seus direitos devem ser ainda mais amplificada. 

* Director do L´Humanité

Este Editorial foi publicado no jornal francês L’Humanité de dia 1 de Junho de 2010.

Tradução de José Paulo Gascão



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2 de jun. de 2010

O império e a guerra

HÁ dois dias, em breves palavras, expressei que o imperialismo não podia resolver o problema gravíssimo do consumo de entorpecentes que afeta a população mundial. Hoje, desejo referir-me a outro tema que em minha opinião é de grande importância.

O perigo atual de que a Coréia do Norte seja atacada pelos Estados Unidos da América, depois do recente incidente acontecido nas águas desse país, talvez possa ser evitado se o presidente da República Popular da China decide usar o direito de veto, prerrogativa da qual esse país não gosta de pôr em prática nos acordos discutidos no seio do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Existe um segundo e mais grave problema para o qual os Estados Unidos da América não têm possível resposta: o conflito criado a respeito do Irã. Algo evidente depois do discurso proferido pelo presidente Barack Obama, no dia 4 de junho de 2009, na universidade islâmica de Al-Azhar, no Cairo.
Em uma Reflexão que escrevi nessa altura, quatro dias depois, quando tive acesso a uma cópia oficial do discurso, usei numerosas citas para fazer a análise da importância do mesmo. Seleciono um número delas.

"Reunimo-nos num momento de tensão entre os Estados Unidos da América e os muçulmanos ao redor do mundo"

"... o colonialismo negou direitos e oportunidades a muitos muçulmanos,... a Guerra Fria utilizava freqüentemente os países de maioria muçulmana como agentes, sem levar em conta suas próprias aspirações". Impressionavam realmente esse e outros raciocínios expressos por um presidente afro-norte-americano, que pareciam verdades evidentes como as que aparecem na Declaração da Filadelfia, no dia 4 de julho de 1776.

"Vim aqui na procura de um novo começo para os Estados Unidos da América e para os muçulmanos que se encontram por todo o mundo, que tenha como base os interesses e o respeito mútuos..."

"Como nos diz o sagrado Alcorão, ‘sejam conscientes de Deus e falem sempre a verdade’."

".. é parte de minha responsabilidade como presidente dos Estados Unidos da América combater os estereótipos negativos do Islã onde quer que apareçam."

Continuou dessa maneira desfiando temas escabrosos do universo de contradições insolúveis que envolvem a política dos Estados Unidos da América.

"No meio da Guerra Fria, os Estados Unidos da América desempenharam um papel na derrubada de um governo iraniano eleito democraticamente."

"Desde a Revolução Islâmica, o Irã desempenhou um papel em seqüestros e atos de violência contra militares e civis estadunidenses."

"Os estreitos vínculos dos Estados Unidos da América com Israel são muito conhecidos. Este vínculo é inquebrantável."

"Muitos aguardam em acampamentos para refugiados na ribeira ocidental, Gaza e em terras vizinhas, por uma vida de paz e segurança que nunca puderam viver."

Hoje sabemos que sobre a população de Gaza cai freqüentemente uma chuva de fósforo vivo e outros componentes desumanos e cruéis, jogados sobre a Faixa, com fúria verdadeiramente nazi-fascista. Contudo, as asseverações de Obama pareciam vibrantes e por vezes sinceras, ao tempo que as repetia uma e outra vez, andando às pressas pelo mundo, onde quer que na hora prevista chegasse o Air Force One da força aérea dos Estados Unidos da América.

Ontem, 31 de maio, a comunidade internacional ficou comovida com o assalto, em águas internacionais, a dezenas de milhas da costa de Gaza, de quase uma centena de soldados das forças especiais de Israel, que desceram de helicópteros em horas da madrugada, disparando freneticamente contra centenas de pessoas pacíficas de diversas nacionalidades, causando — segundo informações de imprensa — não menos de 20 mortos e dezenas de feridos. Entre as pessoas atacadas, que transportavam mercadorias para os palestinos sitiados em sua própria Pátria, havia cidadãos norte-americanos.

Quando Obama falou na universidade islâmica de Al-Azhar da "derrubada de um governo iraniano eleito democraticamente" e imediatamente acrescentou que "Desde a Revolução Islâmica, o Irã tem desempenhado um papel em seqüestros e atos de violência contra militares e civis...", referia-se ao movimento revolucionário promovido pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, que de Paris, sem armas, venceu as forças armadas do mais poderoso soldado com que os Estados Unidos da América contavam no sul da Ásia. Era muito difícil que a potência mais poderosa do mundo resistisse à tentação de instalar ali uma de suas bases militares, no sul da URSS.

Há mais de cinco décadas, os Estados Unidos da América, tinham esmagado outra Revolução absolutamente democrática, quando derrocaram o governo iraniano de Mohammad Mossadegh. Ele tinha sido eleito primeiro-ministro do Irã, em 24 de abril de 1951. O Senado aprovou a nacionalização do petróleo, que tinha sido sua bandeira de luta, no dia 1 de maio desse mesmo ano. "Nossos longos anos de negociações com países estrangeiros — declarou — nesta altura ainda não tinham dado resultado".

É óbvio que se referia às grandes potências capitalistas, que controlam a economia mundial. O Irã tomou posse das instalações perante a intransigência da British Petroleum, que nessa altura chamava-se Anglo-Iranian Oil Company.

O país não tinha possibilidades de formar técnicos. A Grã-Bretanha tinha retirado seu pessoal qualificado, e respondeu com bloqueio de peças e mercados. Enviou ao país sua frota de guerra em disposição de combate. Como resultado, a produção petroleira do Irã diminuiu de 241,4 milhões de barris em 1952, para 10,6 em 1953. Nessas favoráveis condições, a CIA organizou o golpe de Estado que derrocou Mossadegh, até sua morte acontecida três anos depois. A monarquia foi restabelecida e um poderoso aliado dos Estados Unidos da América ocupou o poder no Irã.

Os Estados Unidos da América não têm feito nenhuma outra coisa com os outros países que não seja isso; desde que foi criada essa nação nos solos mais ricos do planeta, nunca respeitou os direitos dos povoadores indígenas que ali viveram durante milênios e dos negros que foram importados como escravos pelos colonizadores ingleses.

Contudo, estou certo de que milhões de norte-americanos inteligentes e honestos compreendem estas verdades.

O presidente Obama pode proferir centenas de discursos, tentando conciliar contradições que são inconciliáveis em detrimento da verdade, sonhar com a magia de suas frases bem articuladas, enquanto faz concessões a personalidades e grupos carentes totalmente de ética, e desenha mundos de fantasias que só têm cabimento em sua cabeça e que assessores sem escrúpulo, conhecendo suas tendências, introduzem em sua mente.

Duas perguntas obrigadas. Poderia Obama desfrutar das emoções de uma segunda eleição presidencial sem que o Pentágono ou o Estado de Israel, que em seu comportamento não acata de maneira nenhuma as decisões dos Estados Unidos da América, usem suas armas nucleares no Irã? Como será a vida em nosso planeta depois disso?



Fidel Castro Ruz
1 de junho de 2010
11h35 

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A NOVA INFÃMIA DO ESTADO NAZI-SIONISTA

O assassinato de 19 inocentes que iam levar socorro à população sitiada de Gaza é mais um crime do estado nazi-sionista.

O regime do apartheid imposto pelo estado judeu ao martirizado povo palestino é um crime continuado no tempo.

A impunidade com que o estado judeu comete as suas infâmias só acontece devido ao beneplácito dos governos ocidentais.

Os crimes destes judeus hitlerianos verificam-se porque contam com o apoio do imperialismo americano e do sub-imperialismo europeu.

É um dever dos cidadãos dignos do mundo todo levantar um brado de protesto contra tais atentados de lesa humanidade.


Assine a petição do Tribunal BRussells 



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