13 de abr. de 2010

ATO PÚBLICO DO PCB NO RIO DE JANEIRO


No próximo dia 16 de abril de 2010 (sexta-feira), o Comitê Central e o Comitê Regional do PCB no Rio de Janeiro promoverão um Ato Público, com palestras de dirigentes do Partido e de seu Secretário Geral, em torno do lançamento de duas importantes iniciativas:

- LIVRO COM AS RESOLUÇÕES DO XIV CONGRESSO NACIONAL DO PCB, REALIZADO EM OUTUBRO DE 2009;

- APRESENTAÇÃO DA PRÉ-CANDIDATURA DE IVAN PINHEIRO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA.

Convidamos a militância, os amigos e simpatizantes do PCB a prestigiarem com suas presenças este Ato Público.

DIA 16 DE ABRIL DE 2010 (sexta-feira), às 19 horas

ABI (Associação Brasileira de Imprensa)

Rua Araujo Porto Alegre, 71 – 7o andar – Rio de Janeiro

10 de abr. de 2010

Acusam-nos de terrorismo:


Acusam-nos de terrorismo:
se defendemos a mulher e a rosa o poderoso verso…
e céu de anil…
Mas… aqui tudo se foi
Não resta água, nem ar… Nem tenda, nem camelo
e nem o escuro café árabe!!

Acusam-nos de terrorismo:
se escrevemos a ruína de uma terra arruinada dilacerada, fraca…
um lar sem endereço
uma nação sem nome

Um lar que nos proíbe de ler jornais e de ouvir as notícias.
Um lar onde os pássaros são proibidos de cantar.
Um lar onde, pelo terror [ru'b], acostumamo-nos a escrever
sobre nada.

Um lar à imagem da poesia de nossas terras: Conversa fiada,
nenhum ritmo,
coisa importada,
congestionada, rosto e língua tratantes: Nenhum começo
Nem fim
Nenhum interesse pelo povo
nem pela mãe terra
ou pelas crises da humanidade…

Um domínio…
que chega aos diálogos de paz sem honra
e de pés descalços.

Um lar
onde homens mijam nas calças…
e é deixada às mulheres a defesa da honra.

Sal em nossos olhos
Sal em nossos lábios
Em nossas palavras… sal
Poderá alguém suportar tanta aridez?
Será esta a herança do estúpido Qahtan?
Nessa nação, nem Muawia nem Abu Sufian
Ninguém, ninguém para dar um basta
ninguém para peitar a escória
Entregaram nosso pão, nossos cavalos, nosso azeite.
Reduziram a quinquilharia nossa história.

Não resta poesia em nossa vida,
desde que nos desvirginamos na cama do Sultão.

Acostumaram-nos à humilhação
que é só o que resta ao homem quando o que sobra
é desgraça.

Procuro em livros de história
Ussamá ibn al-Munqith
Uqba ibn Nafi
Ornar e Hamzá
e Kalid, arrebanhando os seus à conquista do Shem.
Procuro um Mutassim Bilá
que salve as mulheres da selvageria da curra
e do fogo.

Procuro pelo homem de hoje
E tudo o que vejo são gatinhos com medo
Cujas próprias almas se apavoram
com um sultanato de ratos.

Será tudo uma esmagadora cegueira nacional?
Somos incapazes de enxergar as cores?
Acusam-nos de terrorismo
se recusamo-nos a morrer
com os tanques de Israel
rasgando nossa terra
rasgando nossa história
rasgando nosso Evangelho
rasgando nosso Alcorão
e o túmulo de nossos profetas
E se este foi nosso pecado,
Pasmem: não é belo o terrorismo?

Acusam-nos de terrorismo:
se recusamo-nos a ser apagados
por mãos de mongois, judeus e bárbaros
se jogamos uma pedra
na vidraça do Conselho de Segurança
depois que o César dos Césares o tomou para si.
Acusam-nos de terrorismo
Se recusamo-nos a negociar com o lobo
e a cumprimentar prostitutas.

Estados Unidos da América
Contra as culturas dos povos
porém sem cultura
Contra as civilizações civilizadas
Mas sem civilidade
Estados Unidos da América
Um poderoso edifício
sem paredes!

Acusam-nos de terrorismo
se defendemos nossa terra
e a honra do chão…
e revoltamo-nos por sua honra
quando abusam de n6s e de nosso povo
e acusam-nos
se protegemos as últimas palmeiras do nosso deserto
as últimas estrelas do nosso céu
a última sílaba de nossos nomes
e o último leite do seio materno
e se este foi nosso pecado
como é belo o terrorismo.

Apoio o terrorismo
se ele pode salvar-me
dos imigrantes da Rússia e da Romênia
da Hungria e tia Polônia

Ocuparam a Palestina
cravando os pés em nossos ombros
para saquear os minaretes de al-Quds e a porta de Aqsa
para roubar as cúpulas
e os arabescos.

Antigamente
Ardia a rua nacionalista
como um cavalo selvagem.
E os rios transbordavam juventude.

Mas após Oslo
ficamos banguelas:
e agora, perdidos e cegos.

Acusam-nos de terrorismo:
se defendemos com todas as forças
nossa herança poética
nosso muro nacional
nossa rósea civilização
a cultura flautística em nossas montanhas
e os espelhos que refletem olhos de ébano.

Apóio o terrorismo
se ele pode libertar um povo
da tirania e dos tiranos
e salvar o homem da crueldade humana
se ele pode trazer de volta o limão e a oliveira
o pássaro ao sul do Líbano
e o sorriso da Golã

Apóio o terrorismo se ele me salvar
do César de Yehuda
e do César de Roma
Apoio o terrorismo enquanto esta nova ordem
for partilhada meio a meio entre Israel
e Estados Unidos.

Apoio o terrorismo
com toda a minha poesia
com todas as minhas palavras
e todos os meus dentes
enquanto este novo mundo
estiver em mãos de açougueiro.

Apoio o terrorismo
se o Senado americano
encena julgamentos
decreta prêmio e punição.

Apoio o Irhab [terrorismo]
enquanto esta nova ordem mundial
odiar o cheiro do árabe.

Apoio o terrorismo
enquanto a nova ordem mundial
quiser massacrar nossos descendentes
e atirá-los aos cães.
E é por tudo isso
que elevo minha voz às alturas:
defendo o terrorismo
estou com o terrorismo
apoio o terrorismo …

Nizar Qabbani
[Londres, 15 de abril de 1997]

5 de abr. de 2010

Comunidade árabe e brasileiros se unem em ato do Dia da Terra na Palestina em Foz do Iguaçu

Autoridades iguaçuenses, estudantes e membros de movimentos sociais se uniram aos árabes para protestar contra a ocupação israelense

Em ato público na Praça das Nações (Mitre), membros da comunidade árabe de Foz e região celebraram ontem o Dia da Terra na Palestina (Yawm Al-Ard), que recorda os 34 anos de resistência a invasão de terras palestinas pelo Estado de Israel. A mobilização, realizada de forma semelhante em várias partes do mundo, teve a participação de membros de movimentos sociais, políticos, sindicalistas e autoridades iguaçuenses, entre elas o vice-prefeito, Chico Brasileiro. Em comum, todos protestaram contra a ocupação de Israel, que segue até os dias de hoje.

No Dia da Terra na Palestina, palestinos que ainda vivem nos territórios ocupados por Israel ou no exílio prestam solidariedade às vítimas de uma mobilização ocorrida em 30 de março de 1976. Na época, vários palestinos da Galileia — território ocupado pelo Estado de Israel, em 1948 — que se manifestavam contra a invasão foram reprimidos pelo Exército israelense com violência. Nos confrontos, mais de 90 pessoas foram mortas e 300 acabaram presas.

Causa

"Nesse dia, os colonialistas sionistas atacaram o povoado da Galileia e mataram muitos inocentes que defendiam suas terras e sua liberdade. Por isso desde aquele ano foi lançada esta data como Dia da Terra da Palestina. Hoje, como ato simbólico, as pessoas se unem seja aqui ou em qualquer outro lugar do mundo, palestinos ou não palestinos, como os brasileiros, para defender esta causa nobre", resumiu o xeque Mohsin Alhassani.

A causa à qual se refere é justamente a união do povo palestino, a volta dos refugiados para as suas terras, liberada pelo opressor e o fim do que considera genocídio. "E é neste aspecto que estamos aqui, para lembrar e elevar a voz dos palestinos para que se juntem a nós nesta marcha e nesta luta", disse o líder religioso.

Com os territórios ocupados, milhares de palestinos são mantidos com cerceamento dos direitos na Cisjordânia colonizada. Outros tiveram que se exilar na Jordânia, Líbano, Síria e países vizinhos. "Todos estão dispersados e não têm nem mesmo acesso a familiares e parentes para poder voltar às suas terras, o que lamentamos de coração. Por isso, defendemos que eles tenham esta volta"..

Iniciada em 1948, a ocupação israelense continua em andamento, a exemplo do recente anúncio de construção de assentamentos em Jerusalém Oriental. Este território, parte de uma área ocupada pelo Estado de Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, é tida como fundamental para o Estado Palestino, no futuro. Mesmo assim, as invasões seguem.

Como analisou Mohsin Alhassani, é visto por todo o mundo que "Israel tem atacado muçulmanos, árabes e palestinos. Tem matado, causado prejuízos e expulsado as pessoas de suas terras". No entanto, "infelizmente o mundo inteiro não está fazendo nada. Seja ocidental ou oriental. No mais é apenas repúdio, e no final não acontece nada", criticou.

Lembrando de outros conflitos onde há a pronta intervenção da ONU e das grandes potências da Europa, além dos EUA, "na Palestina ninguém mexe". "É como se os sionistas e israelenses não tivessem alguém para derrubá-los. Isso é o que lamentamos. Na verdade, chamamos os brasileiros e os demais povos que se interessam pela liberdade, igualdade, solidariedade e fraternidade, que se manifestem", conclamou o religioso.

União

A união, convocada por Mohsin Alhassani, pode ser notada durante o ato de ontem, quando dezenas de brasileiros estiveram lado a lado de membros da comunidade. Para Amer Mahmud, "é uma forma de resistência e de mostrar ao povo brasileiro o que se passa na Palestina". "As pessoas em sua própria terra não têm liberdade. Há bloqueios em cada cem, 200 metros. Queremos que sejam livres e tenham direito de ir e vir. Agora mesmo, Israel constrói assentamentos em Jerusalém Oriental. Ou seja, eles querem de uma vez tirar os palestinos da cidade"..

Para o jovem, os brasileiros estão na mesma causa: "Eles nos ajudam e ficamos gratos por isso".

Apoio

O vice-prefeito, Chico Brasileiro, disse que Foz do Iguaçu é um exemplo para o mundo sobre como se vive em paz e harmonia reunindo mais de 70 etnias. "Estamos aqui para expressar a nossa solidariedade à causa palestina", afirmou.



Para o organizador do evento, Jihad Abuali, a memória da data é hoje um retrato fiel da realidade vivida na Palestina. "O que aconteceu há anos é o que acontece ainda hoje. O que vemos não é lembrança, é o cotidiano da luta, da resistência pelo território", comentou. A principal referência atual está na determinação recente do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netaniarro, que estabeleceu a construção de 1.600 casas na Jerusalém Oriental.

Com o ato público que ocorre em várias partes do mundo, os palestinos desejam chamar atenção para a ocupação de seu território e pedir justiça. "Todos os anos fazemos esse chamamento para que o mundo saiba o quanto os palestinos têm sofrido com essa ação, com a invasão. O que queremos é liberdade e justiça para o povo da Palestina."

Para Abuali, hoje a principal indignação está relacionada ao posicionamento da Organização das Nações Unidas. "Israel nunca respeitou as resoluções da ONU, há décadas nunca respeita os limites."

Em Foz, a promoção do evento é assinada pela Sociedade Árabe-Palestina-Brasileira e deve reunir cerca de 400 pessoas. "Aguardamos palestinos, pessoas que não integram a comunidade árabe também estão convidadas, esse ato não tem nada a ver com religião."

Presidente

De acordo com Abuali, as declarações de apoio ao povo palestino, feitas pelo presidente Luiz Inácio lula da Silva, foram fundamentais. "Ele disse que os palestinos sofrem com o bloqueio, que classificou de cruel, feito por Israel."

No movimento em Foz, botons com a inscrição Palestina Livre serão distribuídos, e os lenços palestinos (hata) também serão utilizados. O lenço é conhecido como símbolo da resistência palestina.

1 de abr. de 2010


Diante do congresso convocado para junho deste ano, com o objetivo de criar uma nova central sindical, o PCB esclarece:

1 – Em abril de 2008, em seu II Encontro Nacional, houve uma divisão na Intersindical (Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora), da qual até hoje participamos através de nossa corrente sindical UNIDADE CLASSISTA (UC). A divisão se deu em torno da criação ou não de uma nova central, juntamente com a Conlutas, entidade criada e hegemonizada pelo PSTU.

2 – Nesta divisão, a UC, no entendimento da direção do PCB, optou corretamente por prosseguir, com outras correntes classistas, os esforços para o fortalecimento da Intersindical, sem se deixar levar pelo imediatismo e pelo cupulismo da criação, a qualquer custo, de uma nova central sindical.

3 – Do outro lado, ficaram as tendências internas do PSOL que se encontravam na Intersindical. Como são a favor da criação da nova central, articularam-se entre si para se somarem ao PSTU na fusão com a Conlutas. Mesmo tendo desistido do projeto de fortalecimento da Intersindical, este setores do PSOL continuaram usando o nome dela, o que acabou confundindo grande parte do ambiente sindical.

4 – Para ficar claro, esclarecemos que a Intersindical (que continuamos a construir) não participará do congresso sindical marcado para junho deste ano, com o objetivo de criar uma nova central. A “Intersindical” que assina a convocatória do referido congresso restringe-se aos setores do PSOL que querem a fusão com a Conlutas.

5 – Pensamos que a criação de uma nova central deve ser produto de um processo de unidade de ação nas lutas cotidianas dos trabalhadores e de acordo com um calendário que não seja burocrático e muito menos se deixe confundir com a agenda eleitoral nacional.

6 – Por isso, não nos parece prudente marcar açodadamente um congresso para criar uma central, ainda mais sem que previamente se defina o seu caráter. Sendo a central uma união voluntária de forças políticas e sindicais, nenhuma delas pode impor a outras a sua concepção, sob pena de se tratar de uma falsa unidade.

7 – Por estas razões, o PCB informa aos companheiros que militam na Unidade Classista e a nossos aliados e amigos que não participaremos do congresso marcado para junho de 2010, com o objetivo precípuo de criar uma central, que não se sabe se será baseada na centralidade do trabalho, como defendemos, ou uma organização eclética, diluída e movimentista.

8 - A relação do movimento sindical com o movimento popular, estudantil e de luta contra as opressões específicas deve ser feita em um espaço maior que articule essas diferentes lutas.

9 – Além da falta de definição sobre o que se vai criar, o mês escolhido coincide com o início de eleições gerais no Brasil, o que pode se constituir em mais um complicador, seja pelos riscos de instrumentalização ou de divisão.

10 – Apesar de não participarmos desse congresso, pelas razões expostas, respeitamos todas as forças que o comporão, porque têm, como nós, a vontade política de criar uma necessária central sindical classista. Nossas divergências têm a ver com a concepção de central a ser criada e com a metodologia que orienta a convocação deste congresso, que julgamos equivocada e inoportuna.

11 – Mas é fundamental que a Intersindical mantenha permanente e franco diálogo com estas forças, nossos principais aliados na luta contra o capital, com vistas a iniciativas e ações unitárias de luta, através da refundação de um espaço comum de ação, nos moldes do Fórum Nacional de Mobilização.

12 - Na questão da futura central sindical classista unitária de trabalhadores, este diálogo deve privilegiar os setores que, apesar de hoje não comporem a Intersindical que estamos ajudando a construir, têm a mesma perspectiva da centralidade do trabalho.

13 – Defendemos que a função principal da Intersindical é a de ser, a partir da organização e das lutas contra o capital, um espaço de articulação e unidade de ação do sindicalismo classista, visando à construção, sem açodamento nem acordos de cúpula, de uma ampla e poderosa organização intersindical unitária, que esteja à altura das necessidades da luta de classes.

PCB – Partido Comunista Brasileiro

Comissão Política Nacional



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31 de mar. de 2010

Uma infausta data: 46 ANOS DEPOIS

À todos/as que partiram sem poder dizer adeus.

Caio N. de Toledo*

Há 46 anos – na data em que o imaginário popular consagra como o “dia da mentira” – era rompida a legalidade democrática implantada no Brasil com o fim da ditadura do Estado Novo (1937-1945). Nestes dias, apenas os falcões da ultradireita brasileira talvez se atreverão a lembrar ou comemorar publicamente o 1º. de abril de 1964; civis e militares que o fizerem, em bizarros cenários, serão uma inexpressiva minoria. Hoje, a quase totalidade das entidades que conspirou, apoiou e promoveu a derrubada do governo democrático de João Goulart (1961-1964), não festejará o golpe civil-militar de 1964. A este respeito, tome-se o exemplo dos grandes meios de comunicação; nestes dias, ao contrário do que fizeram durante quase duas décadas, deixarão eles de divulgar editoriais e artigos que exaltem os “feitos” do regime militar.* A explicação é uma só: no Brasil contemporâneo, todos se afirmam “amigos” ou amantes da democracia...

Diante da recorrente questão “Golpe” ou “Revolução”, deveríamos lembrar as palavras de um ativo protagonista do movimento de abril. Em celebrado depoimento (1981), , Ernesto Geisel declarou: “o que houve em 1964 não foi uma revolução. As revoluções se fazem por uma idéia, em favor de uma doutrina”. Para o vitorioso de 1964, o movimento se fez “contra Goulart”, “contra a corrupção”, “contra a baderna e a anarquia que destruíam o país”.

As palavras do militar golpista – pertinentes, pois rejeitam a noção de “Revolução” para caracterizar o 1º. de abril de 1964 –, no entanto, podem ser objeto de uma outra leitura. Neste sentido, é possível – a partir de uma outra perspectiva teórica – ressignificar todos os “contras” presentes no depoimento do ex-ditador. Mais correto é então afirmar que 1964 representou: (a) um golpe contra a incipiente democracia política brasileira; (b) um movimento contra as reformas sociais e políticas e (c) uma ação repressiva contra a politização dos trabalhadores e o promissor debate de idéias que, de norte a sul, ocorria do país.

Em síntese, no pré-1964, as classes dominantes e seus aparelhos ideológicos e repressivos – diante das iniciativas e reivindicações dos trabalhadores no campo e na cidade e de setores das camadas médias – apenas enxergavam “crise de autoridade”, “subversão da lei e da ordem”, “quebra da disciplina e hierarquia” dentro das Forças Armadas e a “comunização do país que, no limite, implicariam a “dissolução da família” e o “fim propriedade privada”. Embora, por vezes, expressas numa retórica “radical” – reformas na “lei ou na marra”, “forca aos gorilas” etc. –, as demandas por reformas sociais e as consignas políticas visavam, fundamentalmente, o alargamento da democracia política e a realização de mudanças no capitalismo brasileiro.

Contra algumas formulações “revisionistas” – presentes no atual debate político e ideológico (inclusive nos campos da literatura política e historiografia progressistas) – que insinuam “tendências golpistas” por parte do governo Goulart, deve-se enfatizar que quem planejou, articulou e desencadeou o golpe contra a democracia política foi a alta hierarquia das Forças Armadas, incentivada e respaldada pelo empresariado (industrial, rural, financeiro e investidores estrangeiros) bem como por setores das classe médias brasileiras (as chamadas “vivandeiras de quartel”). Bem antes da chamada “agitação das esquerdas”, alguns desses setores começaram a se organizar para inviabilizar o governo Goulart; a mobilização pelas reformas sociais e políticas – apoiada pelo executivo – ampliou a conspiração e amadureceu a decisão dos golpistas de decretar o fim do regime democrático de 1946.

Destruindo as organizações políticas e reprimindo os movimentos sociais de esquerda e progressistas, a ação dos golpistas foi saudada pelas associações representativas do conjunto das classes dominantes, pela alta cúpula da Igreja católica, pelos grandes meios de comunicação etc. como uma autêntica “Revolução”. Por sua vez, a administração norte-americana de Lyndon Johnson (1963-1969) – que foi poupada de dar apoio material aos golpistas, como está comprovado documentalmente –, congratulou-se com os militares e civis brasileiros pela rapidez e eficácia da “ação revolucionária”. Para alívio do Pentágono, CIA, Embaixada norte-americana etc uma “nova Cuba” ao sul do Equador tinha sido impedida!

Embora tivesse uma simpática acolhida junto aos trabalhadores, às classes médias baixas e aos meios sindicais, o governo João Goulart ruiu como um castelo de areia. Dois de seus principais pilares de apoio – como apregoavam os setores nacionalistas – mostraram ser autênticas peças de ficção. De um lado, o propalado “dispositivo militar” que seria comandado pelos chamados “generais do povo”; de outro, o chamado “quarto poder” que estaria representado pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). A rigor, ambos assistiram – sem qualquer reação significativa ou eficaz – a queda inglória de um governo a quem juravam fidelidade; inclusive, diziam os mais “radicais”, com o preço da própria vida.

Desorganizadas e fragmentadas, as entidades progressistas e de esquerda – muitas delas subordinadas ou tuteladas pelo governo Goulart – não ofereceram qualquer resistência à ação dos militares. Sabe-se que, às vésperas de abril, algumas lideranças de esquerda afirmavam que os golpistas – caso atrevessem quebrar a ordem constitucional – teriam as “cabeças cortadas”. Mostraram os duros fatos que se tratava de uma cortante metáfora. Com a ação dos “vitoriosos de abril”, esta expressão, no entanto, tornou-se uma aguda e cruel realidade para muitos homens e mulheres durante os longos e sombrios 20 anos da ditadura militar.


46 anos depois, nada há, pois, a comemorar. O golpe de 1964 foi um infausto acontecimento pois teve conseqüências perversas e nefastas no processo de desenvolvimento econômico, político e cultural do Brasil – que ainda se refletem nos tempos presentes. Decorridos 46 anos do golpe, o conjunto da sociedade brasileira repudia a data, mas os progressistas e socialistas não podem se satisfazer com a derrota sofrida pelos golpistas no plano ideológico. Se os valores da democracia atualmente são diuturnamente exaltados no debate político e cultural, os progressistas e os socialistas não podem se calar diante do fato de que o regime democrático vigente nos pós-1985 ainda não fez plena justiça às vítimas da ditadura militar e ainda todos aguardamos que a verdade sobre os fatos ocorridos entre 1964 e 1985 seja plenamente conhecida. Sendo o “direito à justiça” e o “direito à verdade” condições e dimensões relevantes de um regime democrático, não se pode senão concluir que a democracia política no Brasil contemporâneo não é ainda uma realidade sólida e consistente.

C. de Toledo

Tenham uma linda guerra, rapazes

por John Pilger
Aqui vão notícias da Terceira Guerra Mundial. Os Estados Unidos invadiram a África. Tropas estado-unidenses entraram na Somália, estendendo a sua frente de guerra desde o Afeganistão e o Paquistão até o Iémen e agora o Corno da África. Como preparativo para um ataque ao Irão, foram colocados mísseis americanos em quatro estados do Golfo Pérsico e dizem que estão a chegar bombas destruidoras de "bunkers" à base dos EUA na ilha britânica de Diego Garcia, no Oceano Índico.

Em Gaza, a população abandonada e doente, principalmente crianças, está a ser sepultada atrás de muralhas subterrâneas fornecida pela América a fim de reforçar um cerco criminoso. Na América Latina, a administração Obama assegurou sete bases na Colômbia, para travar uma guerra de atrito contra as democracias populares na Venezuela, Bolívia, Equador e Paraguai. Enquanto isso, o secretário da "defesa" Robert Gates queixa-se de que "o público [europeu] em geral e a classe política" são tão opositores à guerra que eles constituem um "obstáculo" à paz. Lembre-se de que este é o mês do Coelho Louco [1] .

Segundo um general americano, a invasão e ocupação do Afeganistão não é tanto uma guerra real e sim uma "guerra de percepção". Portanto, a recente "libertação da cidade de Marja" da "estrutura de comando e controle" do Talbian foi pura Hollywood. Marja não é uma cidade, não havia comando e controle Taliban. Os libertadores heróicos mataram os civis do costume, os mais pobres dos pobres. De qualquer forma, foi fraude. Uma guerra de percepção é feita para proporcionar notícias falsas para a gente lá de casa, para fazer uma aventura colonial fracassada parecer valiosa e patriótica, como se o filme Estado de Guerra [2] fosse real e cortejos de caixões envoltos em bandeiras através da cidade de Wiltshire, vindos de Wooten Basset [3] não fossem um exercício de propaganda cínico.

"Guerra é diversão", costumavam dizer com ironia negra os soldados no Vietname, o que significava que se a guerra fosse desvendada como não tendo qualquer finalidade senão justificar o poder voraz fanaticamente à procura de lucros, como o da indústria de armamento, havia o perigo de a verdade ser revelada. Este perigo pode ser ilustrado pela percepção liberal de Tony Blair em 1997 como alguém "que quer criar um mundo [onde] a ideologia se tenha rendido inteiramente aos valores" (Hugo Young, The Guardian ) comparada com a avaliação pública de hoje como um mentiroso e uma guerra criminosa.

Os estados guerreiros ocidentais, tais como os EUA e a Grã-Bretanha, não estão ameaçados pelos Taliban ou quaisquer outros membros de tribos introvertidos em lugares remotos, mas pelos instintos anti-guerra dos seus próprios cidadãos. Considerem-se as sentenças draconianas legadas a multidões de jovens que em Janeiro últimos protestavam contra o assalto de Israel a Gaza. A seguir a manifestações nas quais a polícia paramilitar encurralou milhares, réus primários receberam dois anos e meio de prisão por delitos menores que normalmente implicariam sentenças leves. Em ambos os lados do Atlântico, discordância séria a revelar guerra ilegal tornou-se um crime sério.

O silêncio em outros altos lugares permite esta moral travestida. Através das artes, literatura, jornalismo e do direito, as elites liberais, tendo corrido para longe dos resíduos de Blair e agora de Obama, continua a exibir a sua indiferença para com a barbárie e os objectivos dos crimes dos estados ocidentais ao promoverem retrospectivamente as maldades dos seus demónios de conveniência, como Saddam Hussein. Com Harold Pinter já falecido, tente compilar uma lista de escritores, artistas e advogados famosos cujos princípios não sejam consumidos pelo "mercado" ou neutralizados pela sua celebridade. Quem entre eles falou acerca do holocausto no Iraque durante quase 20 anos de bloqueio e assalto letais? E tudo isto foi deliberado. Em 22 de Janeiro de 1991, a US Defence Intelligence Agency previu com pormenor impressionante como um bloqueio destruiria sistematicamente o sistema de água potável do Iraque e conduziria a "incidências acrescidas, se não a epidemias de doença". De modo que os EUA começaram por eliminar a água potável para a população iraquiana: uma das causas, como observou a Unicef, das mortes de meio milhão de crianças iraquianas com menos de cinco anos. Mas este extremismo aparentemente não tem nome.

Norman Mailer certa vez disse acreditar que os Estados Unidos, na sua busca incessante de guerra e dominação, entrou numa "era pré-fascista". Mailer parecia hesitante, como se tentasse advertir acerca de alguma coisa que ele mesmo não podia definir bem. "Fascismo" não está correcto, pois invoca precedentes históricos inadequados, recorrendo mais uma vez à iconografia da repressão alemã e italiana. Por outro lado, o autoritarismo americanos, como apontou recentemente o crítico cultural Henry Giroux, é "mais matizado, menos teatral, mais astucioso, menos preocupado com modos repressivos de controle do que com modos manipulativos de consentimento".

Isto é o americanismo, a única ideologia predatória que nega ser uma ideologia. A ascensão de corporações tentaculares que são ditaduras em si próprias e de uma instituição militar que é agora um estado com o estado, ajusta-se por trás da fachada da melhor democracia que os 35 mil lobbystas de Washington pode comprar e uma cultura popular programada para divertir e imbecilizar, é sem precedentes. Mais matizado talvez, mas os resultados são tanto não ambíguos como familiares. Denis Halliday e Hans von Sponeck, responsáveis superiores das Nações Unidas no Iraque durante o bloqueio conduzido pelos americanos e britânicos, não têm dúvida de que testemunharam genocídio. Eles não viram câmaras de gás. Insidiosa, não declarada, apresentada mesmo de forma astuciosa como avanço do iluminismo, prossegue a Guerra do Terceiro Mundo e o seu genocídio, ser humano por ser humano.

Na próxima campanha eleitoral na Grã-Bretanha, os candidatos referir-se-ão a esta guerra só para louvar os "nossos rapazes". Os candidatos são múmias políticas quase idênticas amortalhadas na Union Jack e na Stars and Stripes. Como demonstrou Blair um tanto demasiado entusiasticamente, as elites britânicas amam a América porque a América permite-lhes insultar e bombardear os nativos e considerar-se um "parceiro". Deveríamos interromper a sua diversão.


NT

[1] March Hare: Referência a personagem de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll.
[2] The Hurt Locker . O título do filme no Brasil é Guerra ao Terror.
[3] Wooten Basset: Pequena aldeia, próxima a uma base da RAF, que se tornou sinonimo dos voos de retorno com cadáveres de soldados britânicos.

O original encontra-se em RESISTIR.INFO



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30 de mar. de 2010

Kátia Abreu recebe 25 vezes mais dinheiro do Governo do que o MST

Carter: Kátia Abreu recebe 25 vezes mais dinheiro do Governo do que o MST



Em dezembro de 2009, Miguel Carter concluiu o trabalho de organizar o livro ‘Combatendo a Desigualdade Social – O MST e a Reforma Agrária no Brasil.’. É um lançamento da Editora UNESP, que reúne colaborações de especialistas sobre a questão agrária e o papel do MST pela luta pela Reforma Agrária no Brasil.

Esta semana, ele conversou com Paulo Henrique Amorim, por telefone.

PHA – Professor Miguel, o senhor é professor de onde?
MC – Eu sou professor da American University, em Washington D.C.

PHA – Há quanto tempo o senhor estuda o problema agrário no Brasil e o MST?
MC- Quase duas décadas já. Comecei com as primeiras pesquisas no ano de 91.

PHA – Eu gostaria de tocar agora em alguns pontos específicos da sua introdução “Desigualdade Social Democracia no Brasil”. O senhor descreve, por exemplo, a manifestação de 2 de maio de 2005, em que, por 16 dias, 12 mil membros do MST cruzaram o serrado para chegar a Brasília. O senhor diz que, provavelmente, esse é um dos maiores eventos de larga escala do tipo marcha na história contemporânea. Que comparações o senhor faria ?
MC – Não achei outra marcha na história contemporânea mundial que fosse desse tamanho. A gente tem exemplo de outras mobilizações importantes, em outros momentos, mas não se comparam na duração e no numero de pessoas a essa marcha de 12 mil pessoas. Houve depois, como eu relatei no rodapé, uma mobilização ainda maior na Índia, também de camponeses sem terra. Mas a de 2005 era a maior marcha.

PHA – O senhor compara esse evento, que foi no dia 2 de maio de 2005, com outro do dia 4 de junho de 2005 – apenas 18 dias após a marcha do MST – com uma solenidade extremamente importante aqui em São Paulo que contou com Governador Geraldo Alckmin, sua esposa, Dona Lu Alckmin, e nada mais nada menos do que um possível candidato do PSDB a Presidência da República, José Serra, que naquela altura era prefeito de São Paulo. Também esteve presente Antônio Carlos Magalhães, então influente senador da Bahia. Trata-se da inauguração da Daslu. Por que o senhor resolver confrontar um assunto com o outro ?

MC – Porque eu achei que começar o livro com simples estatísticas de desigualdades sociais seria um começo muito frio. Eu acho que um assunto como esse precisa de uma introdução que também suscite emoções de fato e (chame a atenção para) a complexidade do fenômeno da desigualdade no Brasil. A coincidência de essa marcha ter acontecido quase ao mesmo tempo em que se inaugurava a maior loja de artigos de luxo do planeta refletia uma imagem, um contraste muito forte dessa realidade gravíssima da desigualdade social no Brasil. E mostra nos detalhes como as coisas aconteciam, como os políticos se posicionavam de um lado e de outro, como é que a grande imprensa retratava os fenômenos de um lado e de outro.

PHA – O senhor sabe muito bem que a grande imprensa brasileira – que no nosso site nós chamamos esse pessoal de PiG (Partido da Imprensa Golpista) - a propósito da grande marcha do MST, a imprensa ficou muito preocupada como foi financiada a marcha. O senhor sabe que agora está em curso uma Comissão Parlamentar de Inquérito Mista, que reúne o Senado e a Câmara, para discutir, entre outras coisas, a fonte de financiamento do MST. Como o senhor trata essa questão ? De onde vem o dinheiro do MST ?
MC _ Tem um capítulo 9 de minha autoria feito em conjunto com o Horácio Marques de Carvalho que tem um segmento que trata de mostrar o amplo leque de apoio que o MST tem, inclusive e apoio financeiro.

PHA – O capítulo se chama “Luta na terra, o MST e os assentamentos” - é esse ?
MC – Exatamente. Há uma parte onde eu considero sete recursos internos que o MST desenvolveu para fortalecer sua atuação, nesse processo de fazer a luta na terra, de fortalecer as suas comunidades, seus assentamentos. E aí tem alguns detalhes, alguns números interessantes. Porque eu apresento dados do volume de recursos que são repassados para entidades parceiras por parte do Governo Federal. Eu sublinho no rodapé dessa mesma página o fato de que as principais entidades ruralistas do Brasil têm recebido 25 vezes mais subsídios do Governo Federal (do que o MST). E o curioso de tudo isso é que só fiscalizado como pobre recebe recurso público. Mas, sobre os ricos, que recebem um volume de recursos 25 vezes maior que o dos pobres, (sobre isso) ninguém faz nenhuma pergunta, ninguém fiscaliza nada. Parece que ninguém tem interesse nisso. E aí o Governo Federal subsidia advogados, secretárias, férias, todo tipo de atividade dos ruralistas. Então chama a atenção que propriedade agrária no Brasil, ainda que modernizada e renovada, continua ter laços fortes com o poder e recebe grande fatia de recursos públicos. Isso são dados do próprio Ministério da Agricultura, mencionados também nesse capítulo. Ainda no Governo Lula, a agricultura empresarial recebeu sete vezes mais recursos públicos do que a agricultura familiar. Sendo que a agricultura familiar emprega 80% ou mais dos trabalhadores rurais.

PHA – Qual é a responsabilidade da agricultura familiar na produção de alimentos na economia brasileira ?
MC – Na página 69 há muitos dados a esse respeito.

PHA- Aqui: a mandioca, 92% saem da agricultura familiar. Carne de frango e ovos, 88%. Banana, 85%.. Feijão, 78%. Batata, 77%. Leite, 71%. E café, 70%. É o que diz o senhor na página 69 sobre o papel da agricultura familiar. Agora, o senhor falava de financiamentos públicos. Confederação Nacional da Agricultura, presidida pela senadora Kátia Abreu, que talvez seja candidata a vice-presidente de José Serra, a Confederação Nacional da Agricultura recebe do Governo Federal mais dinheiro do que o MST ?
MC – Muito mais. Essas entidades ruralistas em conjunto, a CNA, a SRB, aquela entidade das grandes cooperativas, em conjunto elas recebem 25 vezes do valor que recebem as entidades parceiras do MST. Esses dados, pelo menos no período 1995 e 2005, fizeram parte do relatório da primeira CPI do MST. O relatório foi preparado pelo deputado João Alfredo, do Ceará.

PHA – O senhor acredita que o MST conseguirá realizar uma reforma agrária efetiva ? A sua introdução mostra que a reforma agrária no Brasil é a mais atrasada de todos os países que fazem ou fizeram reforma agrária. Que o Brasil é o lanterninha da reforma agrária. Eu pergunto: por que o MST não consegue empreender um ritmo mais eficaz ?
MC – Em primeiro lugar, a reforma agrária é feita pelo Estado. O que os movimentos sociais como o MST e os setenta e tantos outros que existem em todo o Brasil fazem é pressionar o Estado para que o Estado cumpra o determinado na Constituição. É a cláusula que favorece a reforma agrária. O MST não é responsável por fazer. É responsável por pressionar o Governo. Acontece que nesse país de tamanha desigualdade, a história da desigualdade está fundamentalmente ligada à questão agrária. Claro que, no século 20, o Brasil, se modernizou, virou muito mais complexo, surgiu todo um setor industrial, um setor financeiro, um comercial. E a (economia) agrária já não é mais aquela, com tanta presença no Brasil. Mas, ainda sim, ficou muito forte pelo fato de o desenvolvimento capitalista moderno no campo, nas últimas décadas, ligar a propriedade agrária ao setor financeiro do país. É o que prova, por exemplo, de um banqueiro (condenado há dez anos por subornar um agente federal – PHA) como o Dantas acabar tendo enormes fazendas no estado do Pará e em outras regiões do Brasil. Houve então uma imbricação muito forte entre a elite agrária e a elite financeira. E agora nessa última década ela se acentuou num terceiro ponto em termos de poder econômico que são os transacionais, o agronegócio. Cargill, a Syngenta… Antes, o que sustentava a elite agrária era uma forte aliança patrimonialista com o Estado. Agora, essa aliança se sustenta em com setor transacional e o setor financeiro.

PHA – Um dos sustos que o MST provoca na sociedade brasileira, sobretudo a partir da imprensa, que eu chamo de PiG, é que o MST pode ser uma organização revolucionária – revolucionária no sentido da Revolução Russa de 1917 ou da Revolução Cubana de 1959. Até empregam aqui no Brasil, como economista Xico Graziano, que hoje é secretário de José Serra, que num artigo que o senhor fala em “terrorismo agrário”. E ali Graziano compara o MST ao Primeiro Comando da Capital. O Primeiro Comando da Capital, o PCC, que, como se sabe ocupou por dois dias a cidade de São Paulo, numa rebelião histórica. Eu pergunto: o MST é uma instituição revolucionária ?
MC – No sentido de fazer uma revolução russa, cubana, isso uma grande fantasia. E uma fantasia às vezes alardeada com maldade, porque eu duvido que uma pessoa como o Xico Graziano, que já andou bastante pelo campo no Brasil, não saiba melhor. Ele sabe melhor. Mas eu acho que (o papel do) MST é (promover) uma redistribuição da propriedade. E não só isso, (distribuição) de recursos públicos, que sempre privilegiou os setores mais ricos e poderosos do país. Há, às vezes, malícia mesmo de certos jornalistas, do Xico Graziano, Zander Navarro, dizendo que o MST está fazendo uma tomada do Palácio da Alvorada. Eles nunca pisaram em um acampamento antes. Então, tem muito intelectual que critica sem saber nada. O importante desse (“Combatendo a desigualdade social”) é que todos os autores têm longos anos de experiência (na questão agrária). A grande maioria tem 20, 30 anos de experiência e todos eles têm vivência em acampamento e assentamentos. Então conhecem a realidade por perto e na pele. O Zander Navarro, por exemplo, se alguma vez acompanhou de perto o MST, foi há mais de 15 anos. Tem que ter acompanhamento porque o MST é de fato um movimento.

PHA – Ou seja, na sua opinião há uma hipertrofia do que seja o MST ? Há um exagero exatamente para criar uma situação política ?
MC – Exatamente. Eu acho que há interesse por detrás desse exagero. O exagero às vezes é inocente por gente que não sabe do assunto. Mas às vezes é malicioso e procura com isso criar um clima de opinião para reprimir, criminalizar o MST ou cortar qualquer verba que possa ir para o setor mais pobre da sociedade brasileira. Há muito preconceito de classe por trás (desse exagero).

FONTE: AQUI



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